5/09/2007

Para um bebê chorão.Daqueles que ficam tocando a mesma nota infinitamente.

Você tiraria os dois tufinhos de algodão das orelhas, e me ouviria mais uma vez?Bebê, até os defeitos são cor-de-rosa. Os meus e os seus, não se engane.Você não pode ser tão diferente quanto se compara.Você sentaria num banco à deriva ao meu lado?Você seria capaz de ver meu algodão sujo, mesmo que eu me fingisse de borboleta?Ou você prefiriria a ilusão? Ninguém é de pedra bem, e também ninguém é feito só de nuvem branca. Nem você, viu?Você poderia se calar?Você poderia calar até seus pensamentos de cobra coral e se colocar ao meu lado para respirar o sentido? Minha dor são esses gravetos que você fica escolhendo para pisar. Eu também quebro, ou pensa que só porque você finge, eu também seria capaz?Aqui está o meus quebrados. Me dá um tempo de eu colar os cacos?A minha dor silenciada é a mais viva em mim. Embora você não queira ver. Embora eu arranque a venda, e você fica perscrutando os óculos pelos cantos. Você vê o que quer ver.Do que eu falo só bem entregue, sem essas analogias e filosofias, sem as algemas do medo e sem os cadeados ocultos ao homem racional, você pode saber. Eu quero ver você.Não suas linhas, nem sua forma bonita. Também não é porque eu gosto dos seus olhos, que eu não posso ver sua negritude. Mesmo em meio ao mormaço rubro, eu vou perder a chance de sorrir para o que de belo ainda tem em você?Me poupe.Faço isso o tempo todo com a vida, desde que eu conheci um pouco da essência das coisas.Me dá licença de eu escolher? Nada é tão mal. Até os dentes de uma onça, sem morder, apesar de terem mordido e até levado à morte, são belas presas.Bebê, você precisa viver comigo sem a bigorna. Eu dôo às vezes. Às vezes eu dou um tapa. Você está disposto a me ver?Eu tenho nódulos, furúnculos, perdas insuperáveis, lutos de todas as cores e crateras na pele. Você está disposto a pôr a mão?Não fique falando daí o que você não viveu por inteiro.Não tire conclusões. Por maior a sabedoria, sem a vivência, sem a entrega não vale de nada, nada. Do que adianta a mais aberta ferida escancarada aos seus olhos se você não pode ter compaixão?Se você não está disposto a se render?Que adiantaria essas palavras destravadas do mais lixo de mim, se você não pode apenas chorar comigo? Bebê, até a mesma palavra vivida e gozada, pode ser uma dor minha. Rir também é uma superação sabia?Um esforço de contra. No maior barulho também está impregnado o silêncio que quer plainar. Eu também busco um pouco do que não é meu, a diferença está que eu não luto contra, quase todas as coisas que são minhas, se não são, eu quero ser um pouco.Eu dou espaço. É bom ceder, bebê.Ser como um vento ou uma água que se molda ao recipiente atual.Eu queria muito o que você quis para mim. Mas eu não consegui.Dá licença de eu ser defeituosa por opção? Dá licença para eu ser suja como a graxa quando eu quiser?Eu nunca comprometi ninguém na minha lama, você só pisou o pé porque quis.Me dá licença de o meu amor ser bruto, cru e denso? Se eu não aprendi a voar, de onde é que você vem com essa de me colocar asas?Dá licença de eu ser um germe perto de você que é tão capitão?Dá licença de eu entrar sem limpar os pés?Bebê, eu não sei te fazer melhor, porque eu não sei nem me fazer melhor. Você pode me pedir algo que eu possua verdadeiramente?Você pode largar a idéia de querer ser sempre um modelo pra mim? Bebê, me desculpa se eu não sei. Se eu não consigo. Se parece que eu faço pra implicar. Me dá licença de passar sem ter que encarar as suas flechas? Bebê, eu não estou pra guerra. Estou pra ser. Me deixa ser? Pode ser em outro lugar?Me dá licença de uma vez?Felicidades, pra você, nhe nhe nhê.

Um comentário:

tatiana cobbett disse...

nhênhênhê...é ótimo...
este seu bêbe....hehehe
beijares de cá