5/08/2008

Ícaro e seus balões de cera


Só sou livre quando escrevo. É por não possuir aquilo que mais quero que o quero mais. Eu escrevo como quem chora uma canção entre voz e lágrima. E não gosto de explicar. Eu só deixo o acontecimento e as palavras me assaltarem, ou me confortarem. Defendo a água corrente de meus dedos porque nada pode me fazer parar de escrever. Eu escrevo enquanto inspiro. E quando expiro, as palavras já estão prontas pra germinar. Eu sou uma semente ambulante, procuro um pedaço de texto- terra, porque quero brotar logo e mais e mais.Eu gosto do caminho cheio de ruelas que o pensamento faz entre as palavras, permeando abismos e florestas de bromélias. Gosto de como a palavra vêm, muito mais do que como ela se encaixa no texto. Gosto da água que corre por todos os lados, muito mais do que a certeza de uma lagoa que nunca transborda. Eu gosto do natural.Escrevo com os sentidos mais efêmeros e imediatos, com a sensação, com o "estar". Quando vem o cheiro de noz da sua comida eu canto versos em silêncio. Sorrio por dentro e as palavras me alcançam. Eu coloco primeiro a pergunta no ar: "qual seria a palavra?" qual seria o som que traduz esse momento único na história"? Então, eu gosto de escorregar na certeza.Eu já sei o que quero dizer, mas quero me perder no que escrevo, para nunca perder a vontade de descobrir a essência de um poema. Porque é o mistério das palavras, e a dúvida de um desencaixe, de um "erro"da fórmula, que me seduz.O que é perferfeito e conciso não me faz pensar. Então eu vivo a realidade em busca de pão e café, para saber a resposta. Eu escrevo por que não sei, e quero entrar dentro do que não sei, e continuar errando a resposta, para saber o caminho que me fez chegar, e principalmente: "para não perder o prazer da busca". Dentro do que não sei, aparecem muitas imagens. Eu fecho os olhos e a paisagem vem. Eu escrevo porque gostaria de lembrar sempre a imagem que me habita quando fecho os olhos. Eu vejo muitas coisas, e queria ficar mais tempo olhando, olhando, olhando, respirando a paisagem. Então eu escrevo como quem guarda uma paisagem em uma caixinha de algodão.Então eu abro as palavras e me lembro do momento exato em que ela apareceu pra mim.Eu queria ficar mais tempo contemplando tudo o que crio. É como se o lugar da escrita estivesse coberto de sonhos e verdades que eu gostaria de vivenciar. Então dentro do poema, eu posso sentir tudo aquilo que quero e criei. Então posso ficar próxima ou distante de mim, através do poema. Enquanto ando em direçã ao ponto gostaria de estar catando conchas, descendo serras neblinadas, ou no alto de uma montanha dentro de um chalé de madeira e silêncio, rindo com alguém. Rindo de uma nuvem boba que faz gracinhas ao léu. Então a poesia me adorna, e eu posso estar e ser lá: a nuvem mais boba ém céu aberto. Posso passear entre o azul rarefeito. Se toda minha verdade sobra e se definha entre as ruelas obscuras do cotidiano, quero persegui-la, não a quero deixar morrer. E como estou presa a padrões e prejuízos, e como estou em uma fôrma de bolo, molde a todo tempo, respondendo a perguntas racionalmente, seguindo um futuro traçado pelo suor, sal e colheita tão densa e dura, persigo o que me podaram. E a mim podaram o natural, o erro. O que nasce a todo tempo e podo , podo, antes de vestir o terno.Quando escrevo grito!Quero gritar mais, quero me encontrar aonde não me deixaram abrir a porta. Quero exaurir a liberdade da minha essência.Gosto do fluxo, porque o que é natural não está pronto, e não tem medo de mostrar isso. No fluxo posso ver a verdade que oscila, vascila, devaneia, e tem medo da dúvida, como eu. Gosto da escrita que está perto de mim, e de mim não está perto a certeza, a razão e o "correto", o "ideal". Tenho na minha escrita um companheiro frágil ou forte, oscilante bicho homem. Mostra a ferida, o querer não aceito, o drama, o cruel. Não quero o ditado na escrita,nem um mestre, quero um companheiro que me convide a entrar e dividir tal quel ele é. Quero um espaço pra me encontrar dentro da escrita, sem ter vergonha, sem maiores redutos e clareiras da razão.Eu escrevo como quem enche quatro mil balões coloridos e voa seguro de que sairá ileso. Só pelo prazer de nunca ter feito, pelo prazer de ver a cidade por cima das águas.Preso pelo próprio ar. Escrevendo me liberto. Eu escrevo como ícaro com a liberdade sem medo de mostrar a faca.Mas não aponto. Eu escrevo como as asas e balões de ícaro, que derretem seduzidas pelo sol.

Um comentário:

Don Caco disse...

Mas afinal "O que é perferfeito"? hehe
Um tanto intensa a prosa poética moça. Soma-se o relato pessoal à infinidade de possibilidades que as palavras nos dão e nasce uma belezura com sotaque (e visão de mundo nobres) assim...
Bem, a saudade faz alarde no peito, mas sei que daqui a pouco o dia vai querer rair e trazer consigo os re-encontros cósmicos. Sente um abraço forte e bjo saudoso, querida!!!