10/10/2007

Nota de Falecimento

Hoje sou essa mulher que chora.Chora.Mulher que despe em água água água todas as coisas. O tremor de todas as coisas. A sua luz que não dormiu acesa no meu colo. Eu esperava que você pudesse me tirar daqui.Minha crosta está aumentando. São planos que deram errado. Quantos você sonhos fracassados você tem colecionado na cama?E no penhasco?
A sua morte repentina. Quem é você que se atirou do 12º andar?Quem te ensinou a não rir das coisas que são longes e pequenas. Quem é você que morreu com um fuzil de dor?Qual das que foram você decidiram tentar voar?
Seu pés percorreram o alambrado. Sua boca correu pontes e atravessou a história de todas as palavras. Seus olhos enxergaram tanto, tanto, que se assustaram. Quem é você que não pode me dar a mão?Muitos pediram para você não tentar. E seus braços que abraçaram galhos, subidas ao cume do deserto abafado em que o todo se alastra. Olhe para mim. Eu preciso dizer que sua risada ausente, muitas vezes me preencheu. Que embora longe, o que é desconhecido também fascina, também carinha, também deseja bem. Seu sorriso me sorria sem saber que eu gostava.E não pude dizer.Você podia voltar para um abraço? Eu ainda choro sua ida.Você começou a brotar asas, antes mesmo que eu dissesse que era um anjo bêbado. Anjos bêbados não tem medos de escadas, de linhas, de cordas bambas. Anjos bêbados procuram o sorriso que o palhaço assustou. Anjos bêbados não tem vergonha de rir, anjos bêbados não tem vergonha de não saber, de estar fora. Anjos bêbados nos encontram pelo corrredor e nos convidam a sonhar na esquina, anjos bêbados nos acompanham em nossos anoiteceres sem luz de fim de túnel. Anjos bêbados nos procuram por detrás da cortina, nos oferecem um copo, nos fortalecem e depois escondem as asas. E quando você foi tentar voar. A sombra dos eu corpo que me apavorou, a sua imagem fica pulsando todo o tempo. Ninguém pode tocar a sua camada mais densa, e você quis pular aquele enorme buraco. E você só queria chegar a ver melhor, e você só queria sentir o vento da lei da gravidade. E você queria se equilibrar na corda, no alambrado, na alma . E você só queria tentar usar as asas que estavam brotando, e de repente você poderia me dar a mão. Os seres pela metade nos acariciam. Eu esprava qu você pudesse me tirar daqui

mas antes de pular esse abismo

deixa eu dizer que estou vendo a sua auréola

cintilar entre os olhos e o óculos

e você só quer mesmo

tentar voar

voar

voar

vo




a

r

para o céu lugar.

Um comentário:

Enzo Potel disse...

que final maravilhoso... as frases de despetalando do texto... genial!

te amo
(sabe que to pensando em ir aí semana que vem antes de ir pra sampa?!- mas só se fosse com carona na estrada, por desconhecidos, hehehehe)