1/16/2007

Foice- por causa dos direitos de cada um

Por cima das nossas cabeças
Nuvens

A embreagem trancou

Tenho uma certeza
De fome
Menosprezada
Pelo serviço

Ceifam o trigo
E a nossa foice
Somos nós

No mesmo chão
Na mesma esquina
E você vem me apontar
A arma da discórdia

Vivemos no mesmo clarão
Sob o mesmo e inesperado
Sistema
Que nos ativa a briga

Balas de cego
Balas da sua boca
Balas para escurecer
E encobrir a visão

Estamos sob a mesma
Chapa quente
Dividindo
A mesma fome
e você ceifando
Minha única visão
De vento para o chumbo
E você ceifando

A minha única certeza
De me alimentar

Estamos sob o mesmo
Chão
Na mesma esquina da miséria
E você sempre julgando
A sua dor
Maior que a de todos

Você atira na polícia
E arregaça
Seu limite

Você entra na cadeia
De pulseira e correntes
De Paris

Você veste amostra grátis

Você tem uma casa
E eu não
Você pode comer
E eu não

Mas nós estamos sob
A mesma certeza
De que vamos morrer

Mas não agora

Nós estamos
Sob a mesma pele

Nós estamos com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora

Então não ceife
A minha última chance
De eu me alimentar

Nós estamos sob o mesmo céu
Com a mesma dúvida
Sobre a tempestade

Então não mate esta última chance
De eu me alimentar

Nós estamos sob o mesmo céu

Você tem tudo (dor)
E eu nada

Você tem uma casa
E eu não,
Você pode comer
E eu não

Mas nós estamos
Sob a mesma pele
Com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora

Todos nós estamos ceifando
Não seja você a foice
Não faça da sua
Uma tragédia
Não force ninguém
Não seja você a foice

Porque nós estamos
Sob o mesmo clarão
Com a mesma vontade
De ver o sol

Não ceife a minha certeza
De ter fome
E poder me alimentar

11/08/2006

Cort e

O pedaço de pano amarrado na perna. Ela queria se livrar, abrir a tampa do vidro.Era preciso arrancar a raiz.Doía muito arrancar de uma vez, e doía muito arrancar aos poucos.O pedaço de pano.Cheio de cera de abelha.O pedaço esmagado pelo movimento.Queria arrebentar o laço. Queria adoecer a doença, matar aquela parte.Queria uma sombra ou uma arma. Um encosto ou uma solução aquosa.Queria molhar o pedaço de pano.Queria vedar a boca.Não responderia mais nada.Que observassem. Que observassem ela, seus gestos, sua língua, sua vesícula, seu estômago, sua febre. E que silenciassem apenas. Que silenciassem diante da sua gosma viva, da sua fraqueza, da sua desistência. Que perna amarrada perante todosfosse um testemunho. Que o decepar do membro fosse explícito. Era preciso soltar a fera que ardia o pano encerado.Que não perguntassem mais nada nada.Que a deixassem ser a lamúria, ser o breu do fim da noite, ser o bueiro, ser a lama.Que absolvessem, cruscificassem, aplaudissem ou a deixassem de vez. Que vissem nela aquele pedaço arrematado. O pedaço marcado por seus próprios dentes. Que pudessem enxergar, que ela não conseguia tirar aquela parte, que ela tentava enterrar o membro mas que ele lhe rogava a pele, puxava-lhe os cabelos, e se deitara com ela antes de se enozar em seu corpo.Que o pedaço de pano encerado amarrado na perna era uma crosta, um germe, uma fecundação, que ela não conseguia se livrar .Que o pedaço de pano na perna dolorida se alimentava de sua morte, de sua lágrima, de sua ritmia cardíaca. O pedaço de pano de aço havitava dentro dela, mais que a perna.O pedaço dela.A perna inteira ficou perna trapo.E era ela quem tinha amarrado e era ela quem ia ter que corta r.

10/31/2006

Para os orangotangos lés

Poste

Foi adiando que eu já
Pesquei
Que era sempre adiante
Que os seus olhos iam

Você sempre pareceu buscar
A pedra do fim do túnuel


Quando você passou
preso na correnteza
Eu tava grudada nos canos

e

há muitos
meus encanamentos
se esgotaram

Você sempre quis
bus car


parecia querer sempre
estar lá
bem alto
bem longe
bem
fo
ra

eu não passei
nem diante
das torneiras do teu castelo

Você se es qui vou
de mim

pulou todas as cercas
afoitou meu desconhecido

onde é que nós estávamos
com as nossas coisas
quando tudo isso
se armou
contra nós?


Na baixa de uma couraça
de palavras dirigida
à platéia

você que me esqueceu no palco
você nem abriu os braços

você me implantou a vontade
de ser um poste
antes mesmo de me chamar
de flor


eu queria era experimentar

ser o bruto, o altivo, o injusto, o delito

um

pos
t
e


pos
t
e

pos
t
e

na tentativa de dar a luz

sem me espalhar.

Ganhando dentes

A vida não é uma competição
Ninguém aqui é trave
Goleiro nem perna de artilheiro

A vida é uma fissura
É uma inovação
Não é tão pouco guerra
Porque quase ninguém toca fogo
De verdade
Por muito tempo
Muito tempo
Mas a vida é quente
fremita

É uma resistência
De variadas
É uma resistência

-Era preciso desistir
Haviam dito.

Mostrar os dentes
Dobrar as canelas
A vida é um empurrão

Pasmem

Não há de que se abrir a porta
A muralha é grande demais para nós
Adentro
À fora
Há avalanches desejo
E calmaria por de cima
Da angústia arrematada
Todo mundo se amarra

Por dentre millhares
De dedos
Buscando o enlace
a vida é uma dobra

que advém da esquina,
ao rosto quando toca
a brisa já
inesperada
da curva?

Corram

Há de se correr de nada
E de além de si
Correr é a bravura
Para quem precisa rasgar
Cair
Descer
Vomitar

Correr é o remédio
Porém não há do que se fugir
Além das próprias pernas

A memória
A causa
E a insistência
Não são motivos para correr

Correr é pulso
A cadencia do caminho
Herda o amarrado redemoinho da ronda
Rondar é a vitória
Mas não há de se competir

Há abismos na procura
Há desencadeadas forças para a curva

Não há coronel na escrita
Nem há de se conseguir medalhas, premios

Ao poeta cabe olhar o muro alto
Cabe olhar a paisagem entre os musgos dos tijolos

Cavalo dado se mostra o dente
Porém,
Rir é o melhor

Há de se mostrar os dentes,
No riso e na febre
Os dentes falam
Mais que a boca

10/11/2006

Pérolas

Nada está claro.
Ou estamos jogando pérolas ao porco
ou nós é quem
estamos no estrume
chiqueiro

ou no apoiamos
no papo do café
pontuando a política
e reverenciando
o caos

Ou nós é quem estamos bagunçados
ou o mundo é muito organizado

ou nós é quem relinchamos
ou os códigos e as armadilhas
nos escolheram

quem está clareando o que?
quem é o sujo?
quem é o limpo?


estamos atrás das
palavras cheias do mundo.

10/08/2006

Feliz Cidade

Por causa da dor, cortou o cabelo. Cavou o buraco, jogou as sementes. Não plantou. Caminhou serenamente por entre os mormaços do fim da noite.Disse " oi". Não disse obrigada. Esqueceu o riso. Gritou dentro de casa. Pediu mais uma chance. Implorou. Queria entender o limite. Onde acabava e começava tudo aquilo. Onde ia parar o latejar. Poderiam ver. Poderiam machucar mais a carne travada. Precisava de um motivo para encher o balão. Precisava de uma colher de prazer. Queria uma injeção contra o sentido. Podia ver viver e apropriar o jarro para o suco. Mas se inquietava com a incerteza sobre o certo e o errado. Serviria sonhar?Imaginar folhas, trens, passagens, encontros?Adiantaria sentir tudo aquilo só?Precisava respirar sem sentir, precisava ficar sistemática. Precisava de um cabresto para emoção. Sabia certamente que era impossível continuar sem limite. Sabia que se explodisse talvez ninguém entendesse porque tremia. Por que gritava. Queria ouvir os canarinhos para aliviar. Mas era quase impossível parar a sua busca. Essa sem limite de passagem e saída. Queria só ser feliz. Mas talvez, se não controlasse a amargura, seria difícil explicar seu ato. Mas era seu limite. Era limitada. Precisava se habitar para desbravar, será que seria mesmo aquela parada?Deveria mesmo fazer força para chegar àquele vagão?Estava deparada com a fronteira. Precisava chegar à Feliz Cidade.

10/04/2006

Rúbia

Ela carrega uma incerteza no olhar. Uma vontade insistida de não se sentir indignada, febril, prestes a...Como aquilo poderia lhe acontecer?Ela estava arrependida de se ser.Como ela poderia ter errado o comando? Qual controle tinha lhe fugido a autonomia?Ela preferia não ter que vê-lo. Ela preferia não ter precisar fingir. Ela precisava se esconder daquilo?Mas como?Se a vontade forte era de acabar com a existência d‘ele e daquela mísera dor que arranhava como um garfo em louça o seu meio do peito. Ela jurava nunca mais ter de passar por aquilo, nunca mais iria se permitir sorrir, beijar, e falar docemente. Se pudesse, ela arrebentava as flores e os motéis, as praças e os sorvetes de creme, e as maçãs do amor. Ela poderia fazer aquilo, mas não bastaria.Ainda precisava de um motivo para continuar. Não se permitia nem sequer uma segunda chance. Seria uma pedra, daqui por diante. Talvez respirar fundo e mudar o cabelo. Ela estava no fim do fim do fim do travesseiro. Não podia se absolver. Como poderia cair em tão fina e cautelosa armadilha? Foi o ponto fraco que a engasgou.Antes de sair, conheceu fielmente as penas amassadas na explosão batida do fofo e do soco. Ela nunca havia tomado um murro, em seu belo salto, não conhecera de perto a violência física. Mas conheceu a surra moral. Ela precisava, naquele momento não doer. Mesmo que tivesse se perdido, ela ainda era parte daquilo.E essa a pior parte.Como poderia não ser mais o lixo, se outrora cativou o bueiro e acariciou o esgoto? Como não seria mais a metade-suja se outrora era e sentia-se metade-mor, metade-privilégio?Mesmo a sujeira estando debaixo do tapete.Ela precisava ir. Ao encontro do muro do estouro e do furo.

Des percebida

Se a ausência alivia, será que posso utilizá-la de mim?Tentarei escrever sobre esse sentimento de querer passar pelo mundo sem ser percebida.Era preciso estar transparente. Não como a clara e tênue camada de transpiração, nem tão pouco como clarividência das águas. Os copos suam com o seu respiro. Era preciso me fazer fora de mim, para melhor ver. Era preciso me desamarrar do corpo, anular-se. As máscaras me substituíram, eu posso ser. Qualquer ser eu pretendo. Porém nada me aniquila a vontade de não me perceber, de me esbarrar sem me ver, de sumir-me sem me achar mal faltante. Era necessáro para aquele momento de suor, não pensar. Era necessário trans perceber, desapropriar a segurança. Desvendar o mistério da não existência viva.Era preciso, sim, era preciso, passar ausentemente, gargalhar ausentemente, era prefirível, era preciso.

9/26/2006

A sombra em ação

Desapercebida
se deparou
não era
não podia se espantar
com a própria imagem

é amarrada a vida
impossível descansar
há o que se fazer
o pó a se atirar
o buraco da parede
limpa
arruma
ajeita

quebra no espelho
assombrada
ela se derruba
seria ela o vulto?

confundiu a sombra
desamarcouo suicídio
era impossível
desistir

9/19/2006

Dúvida

Ela queria apenas colocar um pouco de felicidade espontânea no pote. Ela queria poder guardar um gozo, uma válvula de escape para o tédio. Ela queria apertar um botão melhor, mudar a cena, a toalha da mesa, o garfo mais curvo de força. Ela queria dar para alugém um pouco daquilo. Pensava em ir até o fim do arco-íris, mas ele se demorava a chegar. Um dia chegou a pensar que o pote era fictício. Mas antes teve a plena certeza de que a fórmula a esperava em algum plano. Resolveu gritar, para ouvir o eco da resposta. Caiu no buraco. Perdeu o pulso da procura. Sentou no chão.A vida só podia ser a dúvida.Como um lapso corroído ao ato de sentar-se, desistiu.Perguntou mais uma vez para o além, onde estava o achado.Voltou ao estado colapso. O peito doeu, correu para passar a fuga. Como ela sentia aquilo? Como ele poderia vir à sua imagem, como poderia sentir tocá-la se ele não materializava?Como ela podia sentir seu hálito, se ele estava por debaixo da aparência?Como assim?Como ela poderia desistir de alguma coisa que precisava saber?

8/29/2006

Imóvel -Para Clarice


Ficarei até distinguir-me. Ficarei no chão de riscos paralelos amadeirados. Ficarei até esmiuçar-me, até nodoa-me, clarear-me, dolorir-me. FIcarei, ficarei, ficarei. Aqui, plantada e pasmada a espera do que não pode acontecer. Ficarei invólucra, cáspita, atordoada, corroída. Ficarei aqui. Esperarei. O homem imóvel se removeu.Vou ficar até me esgotar. Vou ficar até me exaurir. Há três pétalas no chão, não posso consumi-las. Não posso invalidar o sentido de consumir. Não posso consumir o homem imóvel. Posso ver suas mãos, posso tê-las na impossibilidade de o vento as trazer só pra mim. Posso ver os anéis do homem, posso comer o ar, e imaginar os dentes de quem poderia me desejar. Não posso me mover, o homem imóvel pode me deixar sem palavras. Como sairei daqui?Para onde olharei após levantar,?Que posturas devem tingir ao homem pedra esfera, tão certo da minha incerteza?A incerteza é dura como a certeza?A incerteza pode ser de ferro e aço?Ou a certeza é o inexorável cheiro da esfinge?A certeza me assalta de não-certezas.O que eles querem me dizer?Não vou me deixar.Se não, como irei?Estou anônima. Manuscrita. Não me conformo. Parece que não me sou. Estou espalhada.Fora de mim.Ou sou eu?Ou estão em mim todos?Tantos?Ou me desapareço comigo?Tenho que ir agora. Mas não quero.Espalho-me.Estou anônima.O que há?Que se desfolha e clareia. Eu me desapareço.Me perco o controle.Estou sem termômetro. Não posso medir a incerteza, não posso medir a decisão. Ou deveria não ser mais?E o que vou ser se não querer?Finjo.Não posso deixar que identifiquem a minha dúvida.Não quero assumir uma resposta.Não vêem que acabo de me perder?E pareço ter encontrado. Mas estou imóvel, fora de mim. Como pegarei o achado?Como embalarei para dormir o novo?Como darei nascimento a isso se ainda não posso ver o filho?Como posso dar uma vida?Como posso estar certa de que vivo?Estou imóvel e incerta.E ficarei aqui.

8/16/2006

Ralo- das influências do RAP

É o ralo.

Quase ninguém se atreve
a pisar
mas se olhar bem no fundo
todo mundo é de lá

é o ralo

escondido subdouro absurdo
sujo submundo
mas é parte de você
e a maior de todos nós

se quiser dar uma olhada
abra a tampa do bueiro ou
espie a tv
ou se já é alienado
olhe dentro de você

é o ralo

6 milhões de bocas
sem comer
e eles querem reformar
o que?

São partes do mercado
e eles querem me comprar
são tiros
gritos pelo morro
eles pedem pra eu ficar

mas pergunta à assistente
se ela pode vir morar

não vai pagar
não vai pagar

o sorriso que eu plantei
a idéia que eu pensei

quer comprar?

mas não vai pagar.


aqui no ralo
não tem como esperar
o que é sólido
eles ainda dizem
desmachar no ar

Freud não me explica
e o que eu sei
é
do ralo
eu ralo
pra ter
e ainda tenho que comer
se ainda fosse só um produto
que eu precisasse pra viver

eles dão uma olhada
e já querem asfaltar
mas aqui no ralo
a gente quer a beira-mar


bonequinha salto agulha
desculpe eu te espantar
mas enquanto tu passeias
eu me vendo pra pagar

pagar e comprar
pagar e comprar


meu futuro iluminado
só pode ser

ralar pra ter
ter ter ter
ter o que?
se no ralo eu ainda pago pra viver?

8/11/2006

Exata

É uma certeza exata.

Nada pode acontecer hoje

mesmo que pareça


Mesmo que pintes o teu olho

da cor que pretendes ficar


Que te deixem as escolhas
escolher o que?

O caminho é natural.

na sobra desse dia
nada de novo pode acontecer

eu vejo!

Aguardo friamente
no banco gelado da praça

essa incerteza exata
de que o nada aconteceu.

Neblina

Sob mim o silêncio
o mudo caminho
de ir-se.

Me vou
arrancaram-me os motivos
para não ir
a partida é necessária.

Te deixo as bagagens
meu peito não suportaria
o peso de tantas malas.

Sob nós cobrirão os rostos
os nomes
seremos sempre estes,
estes que se amedrontam
ao dar o primeiro passo.

8/02/2006

Anti-Anêmonas

Inevitavelmente eu pergunto quem eles são. São proprietários de um corpo “tanque”, e talvez seja esse mesmo o seu principal objetivo. Não sabem perguntar. Aliás, perguntar o que?Se está tudo tão esteticamente pronto e entregue?
Talvez nunca tenham pensado em envelhecer, e que na velhice a manga fica murcha não dentro da gaveta, mas diante do reflexo. Eu me pergunto quem eles são por detrás das luzes e dragões que consomem pela pele e pela língua. Talvez eles, esnobes e covardes não experimentaram o vento, e também não viram que o ar pode dissipar as folhas de uma revoada de sentidos. O espaço, onde sentam e o que falam não importa.Só pode não importar! Porque em vez de transpirarem álcool dinheiro foto e marca, nitidamente não viram que o espaço é grande e que nós todos somos pequenos demais. Não, eu não comprei nenhum deles, eles se compram, se valorizam, apesar de não saberem responder onde fica o fígado e o que é a bílis. Do que eles gostam? É tão efêmero seu gosto e sua preferência que para saber, só ligando pelo menos vinte minutos o aparelho falante e iluminado com botões acionados de R$.
Eu me pergunto quem eles são. Homens de aparência merecida pela natureza. Eles puderam conhecer o mundo, traçar territórios, crescer e serem mais. E ficaram mais podres, mais arrogantes, mais sem caráter mais ascos mais sem cultura.Talvez nem saibam o que é cultura, mas estão criando a nossa. Nós pobres seres de letras e imagens que observam a vida e sua estranheza, a sociedade e sua complexidade.
Nunca pegaram na pá do lixo, nem para saber o seu peso. Talvez nunca tenham olhado de perto, sequer notaram que alguém a segurava como último consolo. Ou que sob o pó de suas istantes, talvez a empregada doméstica tivesse chorado a dificuldade de um dia sob a cômoda de algum de seus quartos.
Nunca contam vida. Mas somam rodas, latarias, piercings, bonés, e tribais e lisos cabelos de meninas-barbies .
Querem, querem, querem. Foram educados para nem pensarem se sim. Compram, e acham que tudo está a venda, até o sorriso e o grito. Eu me pergunto se um dia eles vão desejar o que não tenham visto. Se vão deixar de se apoiar em happy –hours músicas sem processo e futebol.Se vão ser mais que uma anêmona.
Eu me pergunto se eles são. Ofereço minhas letras e minha retina aglutinada de olhares de todos os lados captados. Espero qualquer manifestação: discutir brigar apaixonar. Eu espero uma reação qualquer, um movimento. Mas eles não são capazes.Talvez se eu estivesse com alguma parte da pele-proibida è deriva, eles me falariam.Mas até a anêmona me cederia o olhar, sem que eu precisasse mostrar a cor da minha erótica. E eu me pergunto até quando vou ter de vê-los e respira-los. Antes fossem mesmo apenas anêmonas.

7/17/2006

Trans um

Há na transparência
o refugo de um respiro agoniado
o vidro não podia me mostrar
eles não entenderiam
Que a vida só podia existir
Por detrás da mancha de gordura.

Da transparência

Há um caule morto
por detrás do vidro
a transparência da forma
me ramificou a melodia dos anos
as linhas entre os azuleijos do chão
me abraçam
meus olhos direcionam ao nau descanso
dissolve todos os cacos
cerra minha fronte
detrás do vidro
eu preferia não me adormecer
por detrás da transparência
eu preferia me mostrar
já ser morte.

7/11/2006

Meio alheio

Eu,
não tenho controle
do submeio
são coisas simples
uma janela quebrda
um botão de roupa
uma costura esfarelada
pelo ranço da minha pele
cansada de suar.

O tempo não me deixou
movo a força
movo a tensão
mas a força não me move
não me resplandece
não me sorri
a luz final do túnel

e vejo a força
taciturna do tempo
me perdendo
a morada do corpo
entre pilares cinzas
as ruas longas
da capital arredia
alheia ao silêncio
da minha muda camada
de paz