6/06/2007

Nos corredores do CEART, Canabarro me contou....




"A arte é uma puta velha

ela te explora

até o máximo

até seu último centavo


mas o prazer que ela

te traz

é tão intenso e tão bom


que você fica viciado nela


o resto da vida"


Afonso Benetti


Ps-Tive que parar e anotar até o nome da figura....rs..rs..Porque nem só de dores-palavras se faz um blog...Com riso, alegria e café.Finalmente alguém me respondeu o que eu mais queria saber sobre arte (no momento).


foto Marina Abramovic
em Balkan Erotic Epic

Muro- de Enzo Potel


Parede de pedra, alvenaria, adobe, taipa ou tijolos que serve para vedar ou proteger qualquer recinto, grande ou pequeno, povoado ou não povoado, a fim de não ser assaltado

ou devastado.

O muro de Luccano, Itália, foi construído para proteger vila de mesmo nome, situada no alto de uma colina íngreme. Ambos, vila e muro, foram destruídos por tremores de terra em 1694.
O muro do Diabo, paliçada construída na Alemanha pelos romanos, foi elevado e guarnecido de torres pelo imperador Probo. Alguns restos ainda subsistem para a alegria das crianças na região da Baviera.
O muro feitiço de Rothbar não impediu que o príncipe o pulasse e conhecesse sua amada em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A muralha de Sesóstris, no Egito Antigo, era frequentemente visitada por tempestades de areia, o que exigia manutenção especial. Em seus duzentos anos de vida foi mais atacada por vassouras do que por espadas inimigas.

Todo muro é uma mentira.
Todo muro é uma coleção de pedras no caminho, para propagar que houve aprendizado.
E teu olhar também era de muro. E quando abria a porta e me via, estava lá escrito:

“eu não preciso mais de você”.

E este muro frieza expelia ar glacial de palavras rasas, e sobrancelhas cobriam arrogância e rictus de escárnio. E eu parado, contemplando a inexata e última construção da paixão: esse estado de perda travestido de bom senso, em que um vingador de si mesmo tenta esconder com pedras

um jasmim.
foto:
Isadora Duncan e Pina Bausch

Se deixar tocar-Um texto sobre um sentido muito íntimo

Quando nasci Deus pegou uma linha e fez um laço, no meio do meu peito. Às vezes Ele aperta o nó.Às vezes Ele afrouxa minhas costas, enche o meu balão.Eu flutuo. Às vezes, e quase sempre, quando alguém puxa a linha, eu evaporo. Eu gosto do que eu sinto. Se eu te sinto bem, vou ser bem.Se eu te mal, meu espírito te expurga. Às vezes eu não gosto de ser assim, às vezes eu não tenho escolha. Por que isso, quem tem que responder é o criador e a criatura juntos, e não só um, ou só outro. É pela linha, pelo fio que já foi dito "nem um fio de cabelo cairá da tua cabeça, sem que Ele permita", então, ele tem um olhar sobre mim, e pode me ver no íntimo.Ele com visão integral, pode me afirmar. Os outros, podem só dizer. Então eu vou deixar Ele me mostrar. Se a minha linha arrebenta bem na sua vez, lá no meio de mim, algo reage.E eu não quero comprimir. Posso amenizar, mas não comrpimir. O que eu aprendi é ser. E conseguir isso é o cume da montanha.Eu já escolhi ser.Olhar o lodo, o denso e acariciar aquela parte. Aqui, diante desta terra eu posso sentir em meu coração alinhavado: apenas seja.Seja este fio que te amarra, que às vezes solta a ponta na escrita, solta a costura entre as tintas e as duas mãos.Quase sempre, venho pedindo à Ele que tire a linha. Por que as vezes a linha tem um peso, o peso de uma Cruz. Ora, eu não posso não sentir?Não posso desligar o sentido?Por que sentir dói?Às vezes, quando vem alguém com uma agulha e quer atar a linha, costurar, eu recuo. E ataco! Porque a agulha não foi feita para espetar, nem pra mexer na ferida. Quando ela vem, ela destina-se a costurar. Ou será que eu aprendi errado?Eu não espeto ninguém, se espeto, eu penso,"que Ele sempre esteja ao meu lado, para eu ser compreendida exatamente como sinto".Muitas vezes eu espeto, mas se eu sei o que houve, meu coração aperta, e eu tenho que ceder a linha.Se eu não sei, foi porque não consegui adivinhar, nem ler os sinais.Mas apenas "dos que sabem, o que sabem, vos será cobrado" Quase todo o meu sentido é " em nome Dê". Porque já disse das flores a mais bela: "fé, é fazer em nome Dê"Às vezes, Ele me dá o mérito de um sorriso avulso, pois eu peço muitos sorrisos.Eu peço também muita compreensão, porque com uma linha tão fina e estreita no meio do meu centro, não posso arriscar puxar o fio muito bruscamente, é delicado demais ter um coração alinhavado. E é preciso não alimentar redes.Quando tá muito apertado o sentido, a linha arranha, e eu peço muita força, porque as vezes parece que essa linha tão fina e estreita pode cortar a pele, aprofundar o corte. Daí eu suspiro, e ajoelho.Assim o nó dói menos.A linha que linha meu centro, é fragmento, é ruptura. A linha é bem fina e o meu centro às vezes não se deixa tocar.

5/17/2007


Confissão

Estou trancada. Não force a porta.Estou desfocada em um só foco. Eu só vejo um sorriso, mas não é o seu. Eu queria te gostar.O seu sorriso é lindo. Você fala bem, você encanta, mas eu estou trancada ainda.Você pode entender? Eu queria amar você, eu juro que eu queria.Você parece me amar tanto.Mas meu peito arrebenta em outra voz, outro rosto, outro hálito. Você seria capaz de entender que eu não posso escolher?Eu gosto ainda de um gosto passado.Um gosto gélido e parado atrás de uma camada de cera dura. Vê, meus cabelos ao vento a dança de tantas partes do meu corpo, escondem o meu cárcere por um sentido ainda. Fico sentindo, torcendo, orando justamente por um membro que me joga no chão, me faz asfalto, me corre uma rua, me arremessa brita, pedra, cimento, e me deixa à deriva sem resposta. É vergonhoso. Eu sei. Estou trancada, mas a festa é sua. É seu aniversário? Ou é bodas da sua mãe?Eu não sei. Há cálices de prata nas mesas, e muitas pessoas rindo. A toalha é de rendas.Há mulheres envoltas de pluma e em cima de agulhas. Há portas de vidro e gravatas.Ar condicionado. Jardim. Arbustos. Há fartura sobre as bocas e muita bebida em álcool. Desculpe, é sua festa mas antes entrar tive um lapso de memória que me arruinou. Antes de atravessar o salão e te dar “parabéns”, eu fiquei tonta por descobrir mais uma queda dos meus padrões. Mais um fracasso.Você me perdoaria se eu chorasse aqui mesmo? Você se importaria se eu fugisse sem querer voltar? Desculpe, hoje eu não consegui fazer você feliz.Eu vou ter que caçar o dono da minha dor.Minha dor. Quem é o culpado?Tenho que achar agora. Eu vou atrás, eu vou me render..Não! Eu vou!Eu vou...Eu vou. Eu vou..Eu vou!!!Eu...Eu...Vou pular a janela do banheiro, pode? Vou atrás de quem me trancou.Onde deixei a minha chave?Por quem me deixei trancar?Por que eu deixei a chave entrar? Por que ainda estou em um foco desfocado, indeciso e sem compasso?Por que estacionei meu sentido de querer maior aqui?Se já andei quilômetros, já visitei parentes, já percorri algumas ondas do mar, passei horas sem nada o que fazer, li auto-ajuda, plantei uma árvore e publiquei um livro.Falaram que ia passar. Disseram. Eu juro. “Isto não é nada, não significou nada, é nada.”Sim, o nada tomou uma forma cheia de si.Um nada cheio de muito. E isto latente e me trancando no mesmo lugar.Passe dor. Passe pela ainda sobreviva fresta da janela, apague-se.Onde foi parar a luz?Me Parecem quatro paredes. Um quadrado.Um muro alto ao meu redor. Quatro paredes pixadas com todos o seus detalhes de pele, seu acordar sonâmbulo. Com toda a lembrança viva dos seus olhos em riso. Com todo o roteiro da sua vida de cor, com todas as notas dos seus movimentos, com todo calor entre seus braços.Já faz tanto tempo. Mas em mim não faz. Por que?Eu ainda revivo em você?Por que o meu tempo interno e o tempo da lembrança não se alinha ao calendário?Eu. E esta entoação do seu nome.Eu. E você um mantra aqui. Eu. E essa imensa distância da incerteza do seu sentido. Eu.E esta dúvida corrente de ar que passa, e não me volta o ruído do seu respirar.Eu gosto dele.Do ruído seu. Eu e o martelo das cordas em ressonância da sua garganta. Eu. E o seu prazer em mim. Eu, entre luxuosas damas e medidas com uma saudade arranhada de você. Eu e estas pessoas falando e a vontade de saber você.Eu e esta festa que se abriu como uma fresta de luz, enquanto estava trancada no escuro. Eu e esta certeza de que você não é o dono da festa, nem convidado.Eu. e essa certeza.De que você não pode chegar. De que você não vai chegar. Eu e certeza de que você não vai trazer as chaves.

Homenagem à palavra e os palavreiros especiais-Tatiana Cobbett


Palavreados
Palavrados
Em palavreados...

Palavreira como só, Tatá ou Tatiana Cobbett* para os desconhecidos ainda, é uma brincalhona brilhante da palavra. Faz e refaz, intriga, reserva, deixa uma dúvida, provoca. Para todos que abrem os olhos para este blog, prestigiem, dancem e cantem à leveza das contruções desta bailarina com asas no corpo e nas palavras...Salve salve sol Tatá!



Linha que eu Passe


Olha meu amor


Quero cantar para você


esta canção que aprendi


faz poucos dias





Olha meu amor


empresta atenção


fala de nós


nosso senão


vem


retratado na harmonia





Longe de você


não dá, meu bem


posso esquecer


o seu olhar me iluminando


por inteiro





Perto


não convém


olha meu bem


ora paixão


ora desdém





Impasse


é fogo cruzado



___________________________





Altercação



Como assim?


Meu olhar enfrenta o seu


Você nega


sai de mim buscando outro


Chama


isso sim


de novo





Me esnoba


sobe


desce


minha escada corredor


Encurralados





Sei


redimindo seus anseios


fico eu


sempre a culpada



Um tudo e nada


Que quando


efetivamente


perdermos


é que


resolveremos


tal parada


____________________________________



Vicinal



Se soma


Par(e)ser


Diminui



Ah!

As diferenças



Com a poda


Já crescida


Raiz


Aguerrida


Suga as avessas


Seiva


Que é própria da vida





Poria fim


Nossa angústia


Fosse possível


Negar


Como se o antes não tivesse


Como se o agora se repete


Como se o nunca


Não houvesse





Poria sim


Nas alturas





E tudo


virá pelos veios





Veias vicinais



___________________________

*Bailarina, compositora e cantora. Formada pela Escola de Danças Classicas do Teatro Municipal do RJ, trabalhou 12 anos no Balé Stagium, cia paulista, percorrendo o Brasil, América Central e América Latina. Autora/Inteprete do Musical "Mulheres de Hollanda" com Direção de Naum Alves de Sousa. Direção e Concepção dos Espetáculos Alma Flamenca, Grito das Flores, Esta Terra Portugal, Festival Três Bandeiras, Partituras da Itália nas Vozes do Rio e dos Shows de Badi Assad, Carlinhos Antunes, Tutti Baê, Janet Machnaz, Joel Brito e Nara Lisboa, entre outros.Hoje desenvolve em parceria com o músico/cantor/compositor gaúcho - Marcoliva - um trabalho de composições próprias com o Cd Parceiros como primeiro testemunho desta jornada - e mais o livro Básica Composições - ambos podem ser encontrado na www2.livrariacuritiba.com.br - visitem nossa página - www.sonoraparceria.com.br

5/09/2007

Para um bebê chorão.Daqueles que ficam tocando a mesma nota infinitamente.

Você tiraria os dois tufinhos de algodão das orelhas, e me ouviria mais uma vez?Bebê, até os defeitos são cor-de-rosa. Os meus e os seus, não se engane.Você não pode ser tão diferente quanto se compara.Você sentaria num banco à deriva ao meu lado?Você seria capaz de ver meu algodão sujo, mesmo que eu me fingisse de borboleta?Ou você prefiriria a ilusão? Ninguém é de pedra bem, e também ninguém é feito só de nuvem branca. Nem você, viu?Você poderia se calar?Você poderia calar até seus pensamentos de cobra coral e se colocar ao meu lado para respirar o sentido? Minha dor são esses gravetos que você fica escolhendo para pisar. Eu também quebro, ou pensa que só porque você finge, eu também seria capaz?Aqui está o meus quebrados. Me dá um tempo de eu colar os cacos?A minha dor silenciada é a mais viva em mim. Embora você não queira ver. Embora eu arranque a venda, e você fica perscrutando os óculos pelos cantos. Você vê o que quer ver.Do que eu falo só bem entregue, sem essas analogias e filosofias, sem as algemas do medo e sem os cadeados ocultos ao homem racional, você pode saber. Eu quero ver você.Não suas linhas, nem sua forma bonita. Também não é porque eu gosto dos seus olhos, que eu não posso ver sua negritude. Mesmo em meio ao mormaço rubro, eu vou perder a chance de sorrir para o que de belo ainda tem em você?Me poupe.Faço isso o tempo todo com a vida, desde que eu conheci um pouco da essência das coisas.Me dá licença de eu escolher? Nada é tão mal. Até os dentes de uma onça, sem morder, apesar de terem mordido e até levado à morte, são belas presas.Bebê, você precisa viver comigo sem a bigorna. Eu dôo às vezes. Às vezes eu dou um tapa. Você está disposto a me ver?Eu tenho nódulos, furúnculos, perdas insuperáveis, lutos de todas as cores e crateras na pele. Você está disposto a pôr a mão?Não fique falando daí o que você não viveu por inteiro.Não tire conclusões. Por maior a sabedoria, sem a vivência, sem a entrega não vale de nada, nada. Do que adianta a mais aberta ferida escancarada aos seus olhos se você não pode ter compaixão?Se você não está disposto a se render?Que adiantaria essas palavras destravadas do mais lixo de mim, se você não pode apenas chorar comigo? Bebê, até a mesma palavra vivida e gozada, pode ser uma dor minha. Rir também é uma superação sabia?Um esforço de contra. No maior barulho também está impregnado o silêncio que quer plainar. Eu também busco um pouco do que não é meu, a diferença está que eu não luto contra, quase todas as coisas que são minhas, se não são, eu quero ser um pouco.Eu dou espaço. É bom ceder, bebê.Ser como um vento ou uma água que se molda ao recipiente atual.Eu queria muito o que você quis para mim. Mas eu não consegui.Dá licença de eu ser defeituosa por opção? Dá licença para eu ser suja como a graxa quando eu quiser?Eu nunca comprometi ninguém na minha lama, você só pisou o pé porque quis.Me dá licença de o meu amor ser bruto, cru e denso? Se eu não aprendi a voar, de onde é que você vem com essa de me colocar asas?Dá licença de eu ser um germe perto de você que é tão capitão?Dá licença de eu entrar sem limpar os pés?Bebê, eu não sei te fazer melhor, porque eu não sei nem me fazer melhor. Você pode me pedir algo que eu possua verdadeiramente?Você pode largar a idéia de querer ser sempre um modelo pra mim? Bebê, me desculpa se eu não sei. Se eu não consigo. Se parece que eu faço pra implicar. Me dá licença de passar sem ter que encarar as suas flechas? Bebê, eu não estou pra guerra. Estou pra ser. Me deixa ser? Pode ser em outro lugar?Me dá licença de uma vez?Felicidades, pra você, nhe nhe nhê.

5/07/2007

Carta de despedida para um casal

É sol. E no meu rosto é uma tempestade.Vai com ela. Vai com ela. Aqui em mim, será o mesmo tempo sempre. Acaso um dia ela pode ter o meu cheiro ou o meu cabelo que se emaranha nos nossos corpos?Acaso será ela, dividirá a mesma dívida, a mesma dor?Ela acordaria para passar a mão no seu rosto quando você chora? Acaso agora ela poderia lutar pelo seu sonho, como um dia seu sonho era o meu sonho?
Vai com ela. Em mim há muitos nós, muitas tranças.Se um dia você ficasse saberia as alegrias e as tristezas, porque eu te dei um cristal, mas quebrei peças, rasguei concertos, sussurrei errado muitas notas da sua ópera.
Eu desviei seu caminho, te dei algumas rasteiras. Mas eu juro que tudo foram chagas plantadas na minha fala, na minha respiração. Enquanto você ia, eu te puxava. Enquanto você ficava, eu te amarrava. Parece que eu sou você. Parece que entre o meu querer e o meu querer te ter, o te ter me parecia mais seguro. Mas eu não te tenho mais.Você rasgou minha calcinha também. Mas eu te perdoei a ausência, perdoei tanto que queria voltar. Mas no seu olhar está a ida, com ela.Talvez pela sombra, ou pelo rouge, ela pareça mais qualquer coisa. E eu, depois do tempo gasto no calendário abatido, do tempo gasto cotidiano e tão mesmo em sentidos, ainda sou a mesma. Até porque foi eu quem mandou você ir. E quando se vai, a ida tem uma coisa com o vento. O vento nos sopra quando estamos indo sem a certeza de chegar a algum lugar. Porque a certeza é o destino que o medo tenta resgatar. Sem a certeza o medo se aflora e a dúvida que no início é aterrorizante vira um estado permanente do ser. E na dúvida, qualquer chão qualquer lugar, é um lugar com uma liberdade de descoberta que só a dúvida pode aventurar.
Agora depois de um tempo eu achei que você pudesse ficar. Porque ter você também é bom.
Mas no seu olhar, no seu olhar está a ida, com ela. E eu só posso dizer: " Boa viagem".

4/25/2007

Prefácio para Trêmulo de Enzo Potel- Com o meu sorriso de um sim que permite...

Beleza não é algo relativo. Quem ama o feio, interessante lhe parece. Bonito, não. As rédeas da mente podem levar as raízes do gosto para lugares excêntricos, mas jamais alguém negará o espanto e encantamento de uma estrela-cadente fugindo no céu da madrugada, porque a substância básica da beleza é a raridade.
Portanto não me contenho em dizer que a poesia de Ryana é a beleza espelhada e cria em si o vôo dos pavões. Ryana é raridade abarcando grandezas delicadas, iras benevolentes em suas estrofes. Nem que um poema seu seja lido numa remota casa de pano da Mongólia, qualquer pessoa que abra mais do que os olhos pela manhã, entenderá o que sinto.
Portanto “Joio”, meu mais amado poema em “Trêmulo”, é a tradução do que é belo. Nunca alguém falou com tanta perfeição sobre o arrependimento, este cisne que já nasce em cativeiro: no seu deslizar sereno sob as águas, não se observa a convulsão desesperada das patas submersas.
Quando Ryana diz que está na “epístola dos nomes negros” por tantos trocadilhos, mostra os trapos do que outrora foi uma vestimenta, o tecido religioso daqueles que confundem humildade com masoquismo. Está agora com as pernas à mostra, mas não quer ser vitrine. E “Aviso” martela com genialidade todo esse estado de maturidade, em toda a sua extensão.
Aliás, os poemas de Ryana não têm medo de se prolongar. As árias de Mozart também eram longas, mas brilhantes. Ele sabia que cada clave tinha o seu Sol.
Ryana aceita o Sol mas também colhe com a geada, pois a idéia de uma safra maravilhosa nos faz tremer tanto quanto uma má. Nós trememos com a implosão de um prédio e no despertar de um suspiro na medula. Trememos de frio e trememos no gozo. Este livro abre-se justamente no momento do choque, para doar órgãos a sentimentos na sala de espera da comodidade. Sentimentos que preferem muitas vezes não ganhar palavras. Mas Ryana já cansou de aguardar alvoradas mais justas. Se é pra doer, que doe em nós dois, ao mesmo tempo.

Enzo Potel

4/03/2007

Do amor sempre fica um muito -para Drummond



De tudo
tudo mesmo
o que ficou foi o amor

das mandíbulas mordidas
dos sonhos cortados
da sonolência da razão

disso tudo
o que ficou ainda
foi o amor

da perda do tempo
de partir

do latejar incessante
da lembrança riso
das facas quebras
das promessas fracassos
dos sonhos redemoinhos
das tentativas vãs

disso tudo

o que ficou

foi amor


Da aliança trancada
do feitiço sem feiticeiro
do ganho perdido em querer
do banho só
da repetição dos dias

do humor engavetado
no mau humor do café
em xícara de dois
solidão

da perda de tempo
em partir
da parte que se parte
do todo que que se resumiu
em

par te

ida

sem volta


do realinhamento
dos botões

das almofadas
com começos de nome
do casal
impregnadas no encontro
dos gostos
que vem do cheiro


da última lâmpada acesa
do fio da faca
da gana de querer
amarrar
o santo

da cama vazia
divida ao meio

do grito contido
no travesseiro testemunho
da desilusão

da branca espera dos atrasos
dos sapos digeridos
dos sapatos perdidos
e achados
em quatro pés

da respiração ofegante

do rulminar
em fúria
de querer segurar

dos dois olhos
que esperavam
a volta na janela

do sol que se abriu

da nuvem que se apagou

da saia amassada
na rede em rendas
de balanço
paradas no gancho

de toda a certeza vivida
na varanda do verão

de todos os desenhos
rabiscados

todos os calos
todas as vistas
na torre
sólida
de dois íntimos grudados
paralelamente
em direção
além


ainda assim insoluvelmente
insalubremente

triste e parado

ficou

de janelas embaçadas
cacos colados
e uma trégua

só ficou
se revirando na cova

o amor

Orgulho*


Não há troca.

É uma exposição mútua

de tendas túmulos

presas

sal pérolas

sonhos secos

princípios.



Pronto.

Eu não te mudei.

Você não me mudou.

Negócio fechado.


*Enzo Potel do livro " Cura"

*Imagem Philip Taaffe

4/02/2007

Indiara Nicoletti Ramos- Assombrear


Assombrear

Ao caminhar na rua assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia meu pescoço e me protege do vento.
O cachecol aquece o coração assombreado pela hipótese do fruto do choque de temperaturas.Meu corpo quente, o vento gelado.
A lã que derrete a friagem e protege a carne do vento, impedindo que a testa se assombreie de muco e eu me tente a ficar na cama de manhã.
A coberta assombreia o corpo na cama e de sua sombra não quero me libertar.Assim como pássaro no ninho.
O batom sombreia de vermelho a fronha branca.Estava muito cansada para lavar o rosto.E afoita para saciar o desejo dos corpos que se assombreiam na noite. Iluminados pela luz das estrelas.
O brilho vem de dentro, pois se a estrela me ilumina eu assombreio teu caminho.
Assombreio teu rosto que me ilumina com o brilho das estrelas nos olhos.Seus olhos brilhantes feito duas estrelas penetram meu coração já apaziguado e me assombreio de desejos.
Olhos sombreados, pelo ato de assombrear a pálpebra bem de leve com dedos lânguidos mergulhados ao vinho.
Olhos que se sombrearam pelo instante de consciência, de lembrança dos corações que pulsam juntos e se despedem.
Olhos que sombreiam o caminho das estrelas...




É manhã, Os pássaros cantam, desperto antes do despertador.Me coloco diante da pia e assombreio o espelho com um sorriso irônico e debochado após enxugar o rosto com a toalha.
Rio de mim mesma, assombreada com o sonho de despertar com o canto dos pássaros que anunciam o nascer do dia.
Sendo que rotineiramente esses cantos assombreiam a hora em que me deito, exaurida e assombreada pela lua que é o sol de toda escrita.
Assombreio o desenho da boca com batom vermelho, os olhos assombreio com a luz do despertar que se reflete no espelho.
Sigo assombreando a nuca com o dedo embebido de perfume, hoje é almíscar.
Almíscar que assombreia o caminho da abelha e da borboleta, almíscar assombreada pelo vento que leva o evaporamento da essência assombreada pelos raios de sol.
O dia passa, dia cheio de luz e sol.Mas quantos sois são necessários para derreter o assombreamento que plantaste em meu ser?
Pergunto a mim mesma quando os olhos florescem no espelho, de novo o espelho.Aproveito para assombrear a boca, retoco os lábios vermelhos assombreados pela lembrança dos teus beijos.
Caminho de volta para casa, o sol já se despediu há horas e meus pensamentos assombreados de emoções navegam em direção à Lua.Assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.
Assombreada pela lembrança da luz dos teus olhos para diante a cantina.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia o pescoço e me protege do vento.
Meu coração assombreado pela hipótese do muco assombrear a testa se aconchega e estabiliza.
Mas nem toda lã é suficiente para derreter o assombreamento de uma paixão.Te vejo,você me olha assombreado por tua namorada.
O brilho de estrelas dos olhos se encontram, assombreados pelo instante de consciência do que é. A consciência assombreada repentinamente pela lembrança do que foi.
Meu coração se assombreia mais ainda, me levando ao impulso natural de subir as escadas da cantina em direção ao seu encontro.
Vejo as estrelas dos seus olhos se dilatarem feito cratera no espaço.Sua mão assombreia a pele da namorada que me abre um luminoso sorriso.
O assombreamento do espaço de corrente de luz que habita o distanciamento dos nossos corpos me envolve de calor latente.
Escuto teu coração no meu pulso.Me aproximo e deliciosamente assombreio tua pele do rosto com meus lábios assombreados de vermelho.
Me deleito com a visão de boca vermelha que assombreia tua carne ao lado da namorada.Teus olhos de estrelas me olham e mergulham dentro de todas as paredes do meu ser.
Iluminando todos os assombros empoeirados que habitam meu ser nas últimas tardes.
Continuo te olhando, amor...Enquanto converso docemente para que não notem minhas assombrosas bochechas vermelhas.
Assombrosamente você puxa uma cadeira para que eu me sente ao teu lado.Eu êxito um pouco, mas acabo te cedendo mais alguns minutos de minha presença assombreada pela viva lembrança da união dos corpos.
Converso e assombreio a boca e o sangue com vinho cada vez que a sombra das luzes dos nossos olhos se amam no espaço.
Já não sei mais o que penso, já não sei mais o que sinto.Escrevo a sombra do pensamento, do teu pensamento que me assombreia enquanto me escuta neste momento.

3/28/2007

Loura madrugada - Luciana Chaves

Na loura madrugada
o prazer impregnado
no batuque

cachoeira sobre o corpo

Na madrugada sonhada
tudo se refaz
medo se desfaz
e permanece

Tua presença é luz
cintilando em minha pele flor

saltitando o meu pulsar
recriando meu tesão

Tua voz
harmonia perfeita
puxando meu samba
carnavaleando
meu prazer

Na loura madrugada
tua presença é luz
cintilando minha pele flor

Prazer impregnado
no batuque
saltitando o pulsar
recriando meu tesão

Na madrugada sonhada
cachoeira sobre o corpo
banha alma
o medo me desfaz
e o desejo me lateja

onde é que festeja
sem latejar
tua presença?

Na doce madrugada pagã
tua voz é perfeita harmonia
em excitante cadência
repuxando o samba em mim
em mim

carnavaleando o prazer

Revoa




Pra tudo
tem uma segunda chance

você me bateu
eu te arranhei

você rasgou
minha coleção
de folhas secas

você arrancou o único botão
da minha blusa

você me jogou no chão
e eu te bati

você puxou meu tapete
e eu puxei sei cabelo

você gritou comigo
e eu murmurei
com raiva

você me assustou
eu te denegri

você bebeu o meu veneno
e eu escondi o antídodo



Mas se
nos esbarramos
intimamente
no silêncio
de nossos sonhos

estivemos perto demais

se dói em mim
dói em você

porque pisamos
na alcova
um do outro

porque dividimos
a mesma asa da borboleta

porque fomos
juntos e unos
muito convictos
do não

porque apontamos
para o mesmo caminho

porque dividimos
o mesmo reflexo
no rosto parado das águas

porque de áspera e ânsia

a vida revoa

até uma folha

e foi tudo muito sentido

para não ser real
a vontade de voltar


vol
ta

nem que para uma segunda
vez

da primeira
*Lygia Pape

3/27/2007

*Ana Mendieta


Você pediu, com muita doçura que eu observasse o céu e olhasse o prazer das gaivotas sentindo o vento. Com seu sorriso você me pedia muita esperança. Mas ontem quase não levantei da cama, mas ontem eu quase fiquei no escuro sem acender a luz. Mas ontem, ontem me tirou o sol de hoje.Foi isso. E enquanto você pede e tem certeza da luz que entra pelas janelas, eu fecho a coritna e choro com medo de mais nuvens.

Dos olhos

Seus dois olhos diante de meus dois dor-olhos. No seu, havia duas lanternas verdes. No meu, dois últimos túmulos, duas margaridas murchas e uma nesga de fé. Que de encontro ao teu mar-olho ficou com vergonha e chorou.

O brilho da verdade*


Cura. Em alguns tons, ela se dissolve em leveza e asasde borboleta; em outros, vem da cachoeira daslágrimas, separações de corpos, sonetos rasgados,contratos assinados. Ela é a altura da queda. Esclarecida por serinteiramente, a cura é a verdade que brilha. Mesmo que ela traga em seu histórico confissões, dores,palavras-buraco, ausências e a foice. A cura é o corte. São aqueles dois braços olhados, percebidos de veia, força e verdade.Toda coisa verdadeira traz consigo um pouco de húmus,restos, sementes, túmulos, tempestades, alvoradas. A alvorada é como uma cura, um suspiro depois do cansaço.

A poesia de Enzo não finge um sorriso, não acena uma ida. Ela atravessa o interior da fruta e cospe ocaroço. Não é uma estrela brilhante por natureza, é uma estrela que percorreu todo o redemoinho da dor para chegar à luz.Quem nunca mostrou o corte da ferida, não pode descobrir o remédio. Quem não se rendeu à poesia de um velho pneu furado, não pode contemplar a via Láctea. Não pode porque a beleza é o que cintila e colore dentro da verdade. A poesia de Enzo é uma das mais belas reuniões de verdades. Não veste máscaras. Devolve ao cruel apontar de dedo social, o âmago da realidade que vivemos. E por que afinal estamos em meio a resíduos de nós, ao invés de todos estarmos embrenhados nas florestas da Cura?A verdade está na bolsa dos escafandristas; a verdadenão tem medo de cortar porque ela sabe que a faca apesar de cortar, pode acariciar a forma e desenhar embalos de mães.A verdade é tão dolorida que purifica, é cavada comtanta intimidade que purifica. Mesmo suja e cinza como o céu de Afeganistão, a verdade voa. Mesmo incrustada de sentimentos e vazios, mesmo oculta de medos e rasgos, a verdade voa. “Pois até os urubus são belos nos largos círculos dos dias sossegados”-CecíliaMeireles.

A poesia de Enzo remove a camada dos remotos adereçoshumanos. Revela, fere, aponta, mas também beija,acalma, entristece e dorme. É a vida do caos. Não entra de mansinho. Invade o quarto, afinca a terra,estia a bandeira, arranca a costura e deixa o trapo.Deixa a tempestade sem passar, deixa a tempestade e o barco dançarem.Como na obra de Turner, toda a sua aflição, todo o seu testemunho sobre fantasma, sobre nosso lado mais penugento. As palavras vivas de “Cura” não mimam, não cuidam, não adocicam. Apenas removem as amarras e couraças do mundo e revelam. Revelam aquilo que todos nós precisamos ao menos perceber, chegar perto e sentir. Mas isso não significa sentir prazer. A revelação de algo em nós é tão surpresa, que nos treme inteiros.


-Texto para o Prefácio do novo livro de Enzo Potel intitulado de "Cura"

3/07/2007

Rio do Choro


Chorei um choro leve

de quem carrega a vida

sem pressa


algo como um sonho

bobo de você


sonhei um choro

exausto

que sumia ao largo

da estrada


chorei teu choro ofegante

um tango


chorei um choro por ti

pra te matar no escasso

de um amor virado


Ao pé do redentor

minhas lágrimas

em véu


Chorei a pronúncia

de uma

grande lácrima

que muito arriada


vira um rio

sem foz

Imorais



O bicho do lobo homem

suicidou


No buraco que caíste

puxaste meu amigo


esse que pára

no ar


pára-paira


O doce do musgo carvalho

meu amigo é um beija-flor

existe pela própria

primitiva existência

cria


bate asas vezlozmente

mais que você

mulher-buraco


Ele

que enquanto o mundo grita

e a morte emudece

despe-se da rispidez


Ele

que com a bravura

da leveza

arranca a roupa

do luxo-consumo

e remove

a camisa do medo


Ela

que mostra

o cárcere

a fim de dar a flor do ânus

para o mundo


Ela

que

sorri

no seu

ânus

ônus


flor


Ela

que livre da morte

é somada a tentativa

de golpe

pela imoralidade

de outrém


(para o ele que é ela e vice versa)

Hilda Hilst



" A solidão tem cor, é roxo escuro e negro..é como se você fosse andando...uma vasta planície, vai andando vai andando, é tardezinha há até uma certa euforia, um vínculo entre você e aquela extensão...De início parece areira, brilha um pouco, vai anoitecendo..."
Imagem sobre o trabalho de Saveria Vicarini