7/31/2010

Vozes roucas- Para Amanda Gartner


Nossas vozes
roucas na madrugada

cordas e oboés desafinados
harmônicos
descompassados

vozes cansadas
de um peito ameaçado
fogo cruzado
que era um papo furado
apenas.

Uma risada mais extasiante
com o grupo:
forte como a terra
invencível como os ventos

entre os nós da garganta
cânions

cânions entre cordas
arranhando

um violão baixo
álcool inundando
o piano grave

uma marca sem máscara
acende entre todas as conversas
da sala

um farol fraco
sem linha final

sal e cercas
arame farpado

notas machucadas
manchadas

na passagem do som

7/26/2010

Lua azul (cobalto)



Era a lua mais brilhante

me fez muitas promessas
imensas, românticas
tentadoras

me colocou o brilho nos olhos

mas


a primeira nuvem
mais graciosa
passou

a lua
cobalto ficou
e...

me deixou

7/20/2010

Vermelho


Ficar nua por dentro
vestir vermelho

cuidadosamente amarrar os cabelos
com pedras
conchas e fitas

raspar-se

gueixa querendo pintura
corpo querendo curvas

eu nasci de uma mancha de sangue
púrpura derretida sobre barro

ferro derretido sobre terra

sobrevivo no fogo
latente
batendo

fervendo pelas crostas
passendo no redemoinho

caçando você

maçã do amor

do vulcão.

7/15/2010

Maravilhosa...

http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-que-pode-palavra-viviane-mose

7/14/2010

Profundeza

1.

Flores prontas para o funeral.Crinça assistindo tv. Mudas de limão, cravos da índia.Sorriso solto estampado no sorriso da porta. É uma imensidão de sol lhe rever.Carisma sobre o caminho, novas pedras preciosas para a sacola de talismãs.É a névoa que sopra como o caldeirão de neblina, no centro da terra. Um cânion de emoção. Uma neblina a mais. Tenho muito a dizer, mas esbranquiça a visão. Perco a memória. Assopro novas histórias da profundeza da terra.Quem ruge atrás desta colina de solidão: é uma rosa sonora.
E só.

6/20/2010

Poema de saudade

tenho uma certeza
que você volta

deixou
a sua melhor panela
os panos da cozinha
e o ventilador do ano

você volta,
sei que sim

para alimentar os gnomos da prateleira
experimentar as meias de inverno
e pular no meu pescoço
como uma criança

para consertar o que pifou
descolar direito
a camada do passado
o que ainda está plantado
inflamado
hoje

o que a maré já levou

para vestir uma mini-saia
e dançar até doer o pé
sem parar de cantar

você volta para encontrar
a paisagem do íntimo
compor notas
cascatas

desenhos de montanhas
sobre águas

você vem,
fotografar a luz
da mata atlântica

os barcos ancorando com peixes
e fitas

você dá a volta
ata a linha

e sorri,

um presente.

5/19/2010

Banho selvagem


Perdi minha alma na mata. Tomo banho com fantasmas na floresta branca. O musgo úmido desta banheira de lamentações.Esta aliança em chamas.Pouco néctar, muitas contas. Chove sobre minha face janela.Eu quero um lugar entre a neblina. Poder não conviver com gosma de barata morta.Uma lagoa de pétalas secas. A barraca nesta montanha de fé.Muitas palavras cortadas, cobradas, alavancadas simplesmente pela formalidade.Eu tenho um coração na mão cheio de feridas e traças.Um relva de prantos, decepções, sonhos que derretem ao primeiro muro.Estou com o escudo, mas a flecha se perdeu no meu olhar.Lavo todo o cupim do piso, encero a madeira com cravo.Estou na torre movediça.Ora no céu, ora atirada em alto mar.
Eu tenho medo sempre do último passo.
Nunca do primeiro.

*Foto sobre a performance de Janine Antoni

5/12/2010

Do túnel da poesia

Minha primeira entrevista na TVCOM.Em Florianópolis, direto do planeta poema:



Liana Keller

Como fazer poesia com humor?

Não conheço a Liana, mas sou apaixonada pela maneira que ela escreve sobre o cotidiano poético. É síntese, beleza e humor. Sem falar de como ela consegue nos colocar na situação, compartir junto o " it" do momento. Amo!

"brinde"

eu descia a consolação.
foi então que vi uma senhora que vendia cafézinhos e afins junto ao murão do cemitério.
parei,pedi um café puro.
logo,apareceu um morador de rua ao meu lado.
e disse:"-ó,se não quiser dar,não é obrigada...não precisa...maaaas...pode me pagar um cafézinho??"
eu:"-cafézinho?"
ele:"-sim."
eu:"-um café para ele,por favor."
ela serviu-o.
ele ficou contente.
sorriu.poucos dentes na boca.
sorriso sincero,aberto.
sorri em resposta.
foi aí que ele ofereceu um brinde:
"-ao dia do seu casamento!você será muito feliz!"
*

www.lianatrapo.blogspot.com

5/08/2010

Irôko*

IROKO Corri passo ar passo ar passo ar passo ar passo.Ofegantes braços grandes de Irôko. Uma ladeira: limo e chuva. Dois pés, 500 metros até Irôko: a casa da alma. Árvore que fala. Os braços da Figueira para o alto. Machucados. O interior do tronco: desenho sobre raízes que brotam. Ondas de madeira atlântica. Canto úmido dos pássaros desabrigados,esquilos com fome, formigas a enfeitar a entrada da seiva, selva interior.Sobre o rosto de Irôko a terra roxa, a lágrima e a sombra.Galhos altos, pesados. Fincados na ladeira da inclinação.Passeio as mãos nos pés do povo-em-pé.Acaricio a pele da árvore, transpiro.Deixo lá um pouco do meu suor. Choro sobre as raízes-feto de Irôko. O corrimão da escada para o céu é áspero.Lavo o corpo: minha pele é de crocodilo.Ouço o tintilar de um búzio.Desejo escalar Irôko. Morar na sua neblina,na sua passagem de anos, seus galhos calvos, suas rugas-mapas, sua firmeza branca. Que há além do caminho mais alto do último galho?

5/03/2010

Morro do Palácio - Rio de Janeiro







Pior é solidão invertida. Cheiro de barro e cerveja nas calçadas.Crianças acordadas no som da buzina e gargalhadas. Quatro horas da manhã. Não posso olhar a janela. A casa não pode ser rebocada. É necessário não desejar as mulheres.Sobre os homens ninguém falou. Perco a escrita porque é necessário limpar os restos da festa. Completar o mármore do banheiro, concertar a caixa d água. Tapá-la. Os canos escorrem furados e escassos, livremente a pouca água acaba no caminho dos 169 degraus contados até o descanso. Uma semana no morro do Palácio. Praticando a vida da comunidade, partilhando intimidades e desconhecidos.Famintos. De lá pude ver a ponte. De lá, tive vontade de jogar a caneta fora para abraçar o tambor. A negra cor tão necessitada de pérolas, prismas e diamantes.Mas aqui é só futebol e carnaval,
além da bala.
Eu tenho algum sorriso para dar?

Vejo o mundo como a minha casa.

E você?

Fotos: Giorgio Filomeno

4/18/2010

********

A chave está debaixo de uma pedra. Não abro o porão.A porta está emperrada a noite toda. As luzes não chegam na escada. Lavo o chão com o sal grosso refinado pelo suor. Esfrego todas as cracas, conchas, caramujos e coelhos pretos. Escondo os arranhões. Ouço uma bateria no corredor. As baquetas fazem o toque de Ossâin. Canjica para Oxalá. Paz para todos os espíritos.Baldes de sapólio, alvejante, desinfetante. Novamente os lençóis saem da caixa.Vivo os cantos decadentes desta casa. A torre está inflamada. Desço ao saguão.Ouço uma risada e uma voz rouca que sai do pátio:

-Nós vivemos o quadro, gosto das cores.Aqui é um bom lugar para música.

Música.

4/07/2010

Memória Revelada



Quanto tempo
essa foto guardada
na gaveta

primeiro dizimaram
o corpo
partículas da águia na noite
lodo e papael
sedimentando na terra

o tempo passa
e um anúncio sobre os desaparecidos
uma recompensa

querem os ossos perdidos
querem achar a carne já pútrida

ontem apagaram você

que falou demais
pensou demais
tirou a faca da bota
por uma nação

hoje querem uma homenagem
o pó político do seu nome
sua honra,
mas ontem
apagaram você

apagara
apag

a

ao som de Elis Regina.

3/29/2010



NOITE DE POESIA NO COISAS DE MARIA E JOÃO

Presença dos SINGULAR, Rodrigo de Haro e lançamento do novo número da revista Coyote

O que une OS SINGULAR (sic), diferentemente de outros grupos de artistas, é justamente o que o grupo tem de incomum. O que interessa é justamente aproveitar o que cada poeta tem de diferente na sua linguagem e na sua experimentação artística. O que une OS SINGULAR, também, é uma corrente afetiva que perpassa a arte e o estar no mundo. Essas diferenças e a suas riquezas poderão ser conferidas no recital que o grupo de poetas fará no dia 4 de abril, domingo, às 19h, no bar e espaço cultura Coisas de Maria e João. O grupo é composto por dez poetas (Ryana Gabech, Rubens da Cunha, Marco Vasques, Dennis Radünz, Valdemir Klamt, Marcelo Steil, Raquel Stolf, Antonio Carlos Floriano, Cristiano Moreira e Fernando Karl).

O coletivo mantém um blog (www.poetasnosingular.blogspot.com) e um site (www.poestasnosingular.com.br). No blog o leitor pode acompanhar a produção dos poetas, lançamentos de livros, encontros de poesia, crônicas, poemas, acesso a outras revistas e jornais especializados em literatura e arte e acesso a sites e blogs de outros poetas. Já no site há dez poemas de cada poeta, biografia e bibliografia. Na noite de domingo os poetas Ryana Gabech, Dennis Radünz, Cristiano Moreira falarão poemas seus e DOS SINGULAR.

Lançamento da Revista COYOTE com a presença de Rodrigo de Haro, que é o homenageado da edição

VINTE VEZES COYOTE
Dossiê com o poeta e artista plástico catarinense Rodrigo de Haro, poemas do dramaturgo Mário Bortolotto, conto do norte-americano Delmore Schwartz, traduções de Raymond Queneau e Bob Kaufmann, e relatos oníricos da portuguesa Anna Hatherly são alguns destaques do número 20 da revista COYOTE, lançada com duas capas diferentes com fotos de Egberto Nogueira
A noite contará com a intervenção poética do artista Rodrigo de Haro e com o lançamento da revista COYOTE. A revista COYOTE, que é edita pelos poetas paranaenses Rodrigo Garcia Lopes (que também estará no evento), Marcos Losnak e Ademir Assunção traz neste novo número um dossiê sobre Rodrigo de Haro. O dossiê traz fotos, entrevista, desenhos, poemas inéditos e um poema de cada livro já publicado por Rodrigo. Assinam o dossiê Marco Vasques e Rodrigo Garcia Lopes.

"A linguagem da poesia será fatalmente constituída por sucessivo espanto, ou não será nada". (...) "Cada vez mais atolados na “informação”, cada vez menos sabemos". (...) "A condição essencial do poeta é sua fidelidade, sua obediência a esta força superior que o impele, sozinho, a lutar com o Leviatã". Essas são afirmações do poeta e artista plástico catarinense Rodrigo de Haro, no dossiê dedicado à sua obra poética, na nova edição da revista de literatura e arte Coyote, editada em Londrina (PR). O número 20 traz também dois poemas inéditos do livro Um Bom Lugar Pra Morrer, de Mário Bortolotto e quatro fragmentos de "Exercícios de Estilo", obra do francês Raymond Queneau. Maurício Arruda Mendonça apresenta e traduz do japonês os haikais da nipo-londrinense Mityio Sugimoto. A revista apresenta ainda o conto "Nos Sonhos Começam as Responsabilidades", do poeta norte-americano Delmore Schwartz (1913-1966) e, pela primeira vez no Brasil, poemas do beat Bob Kauffman (1925-1986).

Seguindo com o compromisso de revelar novos talentos, a Coyote 20 mostra também uma safra de poemas de Samantha Abreu, Luiz Felipe Leprevost e Ponti Pontedura. Outra novidade da edição são as duas capas diferentes com fotos de Egberto Nogueira.
Em seus sete anos de atividade, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária. A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina, e não conta com nenhum programa de fomento federal, embora tenha participado de vários editais.

O QUÊ: Lançamento da revista COYOTE
QUANDO: 4/4 às 19h
ONDE: COISAS DE MARIA E JOÃO, geral do Sambaqui, 1192
QUANTO: R$ 10,00

Contatos: losnak@onda.com.b /rgarcialopes@gmail.com / zonabranca@uol.com.br

Fones: (43) 3334-3299 / (11) 3731-3281

O QUÊ: Noite de poesia com OS SINGULAR e Rodrigo de Haro.

QUANDO: 4 de abril às 19h.

ONDE: Coisas de João e Maria

Geral do Sambaqui, 1172

QUANTO: Gratuito

3/20/2010

Manifesto para ocupar com arte o que hoje é depósito!



Tudo começou com uma bateria muda.De sucata e ou lixo, ou ainda como diz um amigo* "matéria-prima de excelente qualidade" foi contruído o instrumento mais polêmico e desestabilizador de humor do CEART. A bateria de sucata foi produzida por um artista das Artes Plásticas: o "Chico". Ficava nos fundos do terreno da UDESC, próxima à sala de Escultura. Muitas vezes entre uma aula e outra nós sentávamos por ali para vê-lo e ouvi-lo tocar ou mesmo os próprios " artistas experimentais" tratavam de degustá-la para o nosso bel prazer marginal ali, próximo às aulas. Aquela "coisa engenhosa" muito bem criada, sonoramente rica e principalmente original e inovadora, dava lugar à imaginação e a curiosidade de todos os passantes até mesmo dos funcionários.

Um dia, a bateria foi presa em um espaço desativado. Não cabe aqui nenhuma discussão sobre este fato ocorrido. Apesar de absolutamente ninguém entender porque dentro de uma Faculdade de Artes um instrumento musical é banido e vetado e não somente " trocado de lugar". O que cabe discutir aqui é a " cela" onde a bateria e outros tantos materiais estão trancafiados. Nossas tardes muitas vezes são regadas de discussões sobre esse assunto: como poderíamos utilizar melhor esse espaço e todos os materiais ali "guardados" para criar : ferros, madeiras em degradação, tanque de roupa, papelão, pó, pó, pó. E mais bichos e bichos atraídos pela umidade e o acúmulo de sujeira. Em tempos remotos, este espaço era da Escultura quando ainda o próprio Krauz ministrava no lugar precário suas aulas.

Depois disso, aquele espacinho lá atrás (onde se encontra a bateria e afins) foi reformado de modo que a porta da salinha - foi fechada. Pronto: aquele lugar era do serviços gerais, ou melhor da Orcalli?Ou melhor...De quem?

O coletivo LAAVA tem como fundamento a Arte Colaborativa, nó trabalhamos efetivamente em projetos que envolvam grupos, plataformas de desejos,dispositivos artítisticos que envolvem pessoas e afetividades, parcerias. Todos os nossos trabalhos vinculam e reestruturam nossas relações pessoais e profissionais. Trabalhamos com base na troca e na aceitação do outro: nós mesmos. Cada dia mais o grupo tem agregado "amigos" para a nossa rede. Nossa história nasceu no CEART. Acontece que o envolvimentos das pessoas nas "causas" agregads tem sido cada vez maior.Sabemos que os alunos já possuem um espaço para o LAAVA, mas este mesmo tem de ser fechado às 20h15 (horário que acabam as aulas no bloco das Artes Plásticas). Os alunos e integrantes do LAAVA gostariam de poder continuar desenvolvendo as atividades além deste horário, pelo menos.

Por isso pensamos em quebrar o cadeado da cela. Ou melhor: sermos convidados a ocupar este espaço tão mal utilizado como depósito. Este manifesto é para que um lugar de arte seja ocupado com arte. Para arte. Por causa da arte.
Nós o queremos sim. E estamos reivindicando. De maneira que prometemos limpa-lo, cuida-lo, reforma-lo. SIM!


Página do Coletivo LAAVA:

http://sites.google.com/site/coletivolaava/home

http://sites.google.com/site/coletivolaava/membros/ryana

3/15/2010

É pela paz que eu não quero seguir



Aquela coletânia “Chiclete com Banana” estava ali na estante há alguns meses, eu havia comprado para poder respirar um pouco entre os textos que teria de ler para meu trabalho de conclusão de curso.
No fim, a imersão nas palavras acadêmicas, acabou me dando espaço somente respirar as visitas e os cafés da tarde que a própria Lagoa da Conceição trata de trazer ao meu recinto.
"Vou levar essa coleção para o Jonatha- pensei;
Tenho que pedir para ele tomar cuidado porque isso é raridade”.
Tenho essa vontade de distribuir tudo que eu acho interessante e torno a possuir: impresso, dvd, filmes em avi, fotos.
Pela manhã do dia 12 desço a escada com as revistas nas mãos:
-Vixe nega! Acho que você não trouxe isso numa hora boa. O Glauco morreu. Foi assassinado esta madrugada.

Hoje (dia 13),a Folha de São Paulo fez uma homenagem muito bonita,conseguiu um suspiro em mim aquela ilustração do Angeli e do Larte: a árvore sem cores, a ligação entre a Terra e algum lugar.
Acho que a tv é claro, como sempre, acaba deturpando tudo.
Estive na Cerimônia do Daime duas vezes. É uma planta de cura, sim. Mas o ritual, a cantoria dos hinos, não difere muito das outras religiões em que se aprende sobre a pacificação, a humildade absoluta, e a não violência. Inclusive, os hinários do fundador Mestre Irineu chegam a “educar” o religioso para que controle o tom da sua voz-“ falar sem me exaltar”- é o que diz o hino.
Falar com humildade. É claro que uma religião fundamentada na cura, vai atrair doentes de todos os tipos. Conheço muitas pessoas que verdadeiramente como o próprio Glauco deixaram a vida não só das drogas, mas da violência física e moral, da auto-piedade, do apego e da luta pela materialidade, na tentativa de um silêncio amoroso e pacificador dentro da doutrina. Essa mesma doutrina e esse mesmo chá curaram infinitamente mais do que prejudicaram alguém, com certeza.
É muito fácil colocar a culpa na religião quando no âmbito da maioria delas (olha que sou uma estudante assídua) o que se procura entre os homens para com uma doutrina é a paz, o apoio e a procura pela saúde física e emocional. No geral há busca tremenda pela fé: a única capaz de lavar toda aflição e dor. Então, não é difícil atrair adeptos em uma sociedade tão perplexa e cruelmente intraduzível.
Estamos falando de pessoas. E pessoas que procuram algo em comum, isso não descarta de maneira alguma, que essas envolvidas dentro de um ideal sólido- o cumpram.
Agora se a religião fala de humildade, simplicade e a tv, os filmes, e os impressos só falam de tragédia, avareza, das mortes brutas e gratuitas entre os humanos. O que predominará entre nós?
Essa morte foi uma explosão de que até um artista, simples, fundador deuma casa de cura, está a perigo deste turbilhão de cegos que querem resolver tudo na base da matança. E o que é pior- da maneira mais covarde e ignorante da qual o homem consegue se vingar: com uma arma de fogo.
Entre os indígenas, até mesmo os tupinambás, a morte de um índio de outra tribo era uma questão primeiramente de honra. Os guerreiros eram iniciados em muitos ritos antes de guerrilhar. Pois guerrilhar é uma condição indígena e humana, remota. Mas o passado sempre se inverte par ao futuro, de modo que continuamos guerrilhando entre nós, no meio dos desmoronamentos e terremotos entre as nações.
Morremos sem honra de nada.. Repetimos e repetimos, e para não mudar, há os estabilizadores de humor. E para não gritar temos a fluoxetina, e para não sentir dor temos os analgésicos. E para aceitar a morte colocamos a culpa em um chá.
Quando um guerreiro índio era morto por um inimigo ele era velado na aldeia do mesmo, com danças e rituais, consagrações. Nossa nação mata seres da própria aldeia, não há inimigo real,e também não há como se atirar no orgulho, não há como se atirar na crueldade, no ciúme, na inveja e na doeça mental. Então atiramos sem motivo conciso, mas arrumamos um: atiramos para nos defenderpara fazer justiça, atiramospara acabar com o crime, para acabar com a vilência.Contráditório não?
Há muitos criminosos evangélicos, budistas, católicos e bruxos. Mas há morte rápida, sem preparação ,e a arma é disparada de uma maneira tão simples, que uma até uma criança o pode fazer.
Se olharmos para a história antes da arma de fogo fica nítido que antes era preciso ser muito corajoso para matar e muito mais muito forte para mudar a situação sem precisar matar. A morte tinha uma relação muito mais filosófica e direta com a vida. Nem tudo era morrer e não era o outro quem dava essa sentença tão facilmente.
É muito mais fácil a tv esculhambar uma doutrina do que assumir o erro social de a arma simbolizar o poder absoluto. Buscar somente o poder pelo poder,ter uma arma. infelizmente o poder devíamos assasinar esse poder leviano com status de 38.
A aywasca é uma planta de poder.Do poder da paz. Isso eu quero admitir.
Mas não quero admitir e nem aceitar essa morte: Glauco VIllas Boas-cartunista, artista brasileiro e seu filho: mortos cruelmente por balas descompassadas, sem motivo aparente.
Eu não aceito essa morte. Se for pra gritar eu grito. Não quero seguir admitindo.

3/01/2010

Linguagem Toiciniana.


1-
Se acordeonou muito rápido. Viou inteira um acordeon. A pele dela, as dobras, bolas, tudo. "Nós somos aquilo que as pessoas fazem de nós"-Foi a minha tia, antiga, que já virou caveira que disse. Eu sou antigo também, uma peça de museu ambulante. Um boneco que fala, sou falante. Minha mãe me pedia o "parafélso" para pregar na parede. Ela dizia-"Filho onde tá o meu parafélso?".Ela não chamava a a conchinha de conchinha. A conchinha ela dizia que era...Ai! Tenho vergonha de falar, né filha?

-Conta, conta, agora conta! Como ela mãe chamava a conchinha?

-Tá...De periquita!


2-
Vou da vassoura ao piano. Sou membro fundador da ceita TUDO. É CeitaTudo. Do movimento GuGu Dadá. Isso de ser puro, voltar a ser criança: GuGu DaDa. Consta-me a lincença do movimento GuguDada. Vamos conseguir muitos financiamentos de empresas como: a "Pompom com Protex".Isso! Vamos desenterrar a "Pompom Protex". Mas não vamos deixar o presidente ver o dinheiro, se não ele foge! Dão um jeito de fugir com ele. Nós somos do Soleil da Lagoa da Conception. Fiz fortuna para uma mulher que me levou tudo. Sou da CeitaTudo. A CeitaTudo me ensinou: a vida do pobre é melhor que a do rico. Só o lazer do rico é mais esbanjador,mas o dia-dia do pobre é o mais legal. Quem lembra é sempre o criador. Quem cria, o lembrador.

2/28/2010

Alice fora da casca.



Alice encontra a Lagarta no terminal de ônibus de Florianópolis:

- Você nunca vai trabalhar, menina?Sempre neste mundo da fantasia, crescendo e encolhendo....Só falta a cestinha de maçãs da bruxa!Ara!

-Mas eu sou uma criança! Estou indo para o Alaska, encontrar o Alce Dourado!

-O que você vai ser quando crescer? A propósito que tecido péssimo para uma garota com a pele tão fina, Alice. Você não tira esse vestido azul ha séculos!

A Lagarta pela a mala antiga, a alça de metal emperra, ela abre a mala, tira o que tem dentro e coloca numa sacola plástica. Joga a mala na rua, caximba e diz:

-Adoro ver os carros desviarem seus cursos.
Caximba três vezes.

-Ás vezes eu queria ser aeromoça ou professora.
Alice fala insegura.

-Vocês jovens sempre com sonhos tão distantes.Porque não pensa em ser uma cabeleleira em Tagaçaba? Ou ainda, a cozinheira predileta de um posto de estrada em São Luís do Maranhão?

-Mas posto de estrada é sujo. E eu odeio cigarro.Eu prefiro trabalhar em...Alice começou a ficar nervosa, pois não conseguia pensar em algo diferente, já que estava condicionada a escolher entre ser professora ou aeromoça..Até que lembrou:

-Em um orfanato...Isso!Eu preferia trabalhar em um orfanato!

-Para quê? O destino é cheio de seres desovados e sem casco.

-Mas eu gosto de ajudar as pessoas. Eu adoraria contar histórias para as crianças abandonadas de...Israel!

-Você diz isso porque é jovem, mas o fogo sempre abranda.Essa mania de pensar tão longe me irrita!

-Como eu devo agir então? Dona Lagarta ofendida?

-A vida é cheia de magia Alice.E eu não estou ofendida, apenas tenho algo que você não têm- casca!

E a Lagarta foi entrando no ônibus lentamente, Todos os passageiros tinham entrado,
o cobrador já estava a bufando.
Alice queria ir embora mas esperou o último degrau, como se soubesse que a Lagarta ia falar mais alguma coisa:

-Não queira muito Alice.Lembre-se de doar alguns caramelos, mas não o último. Dar é feminino de dor, Alice!

-Mas...

-Não queira muito Alice!

E a lagarta foi-se embora deixando um rastro de fumaça.

2/23/2010

Do Túnel do Tempo

Descobri umas fotos de 2007, de uma performance que fiz experimental no evento "Básica 0". A amiga fotógrafa é a talentosa Sarah Ferreira: http://oficinavideodanca.blogspot.com
Viva o azul!