6/20/2008

Fogo

Eu vim correndo
com o rosto
todo borrado
de nao

mas vim trazendo
uma sacola
com uma constelacao de
mascaras
pressupostos

mentiras contadas ao pe do ouvido

tudo para rir
com voce


ontem eu pisei em dezessete
pocas de lama

desarmei as roupas
brancas
e as brandas tambem

vestido vermelho
de demais amor

muito amor

nasceram crisantemos
negros
nesta minha carta

perdao as palavras

o escorregador
de lagrimas
esta embutido

prateleiras
e prateleiras

colecao de lixo
embaixo da cama


E voce vem com um fosforo

no meu peito
que era

cinza de ontem
e brasa
de hoje


queimo
queimo

queimo

6/03/2008

Desmanche


Rosto de madeira
quem está atás de ti?

uma caixa dourada
se abre

sapato de mel
pedrificado
grande perfume do passado

um passo antes
pequenas mãos
de criança
faziam um castelo
na areia

submersas
marinhas
um livro chamado
passado


as folhas chacoalham
chacoalham

rosto de madeira
e feltro

do passado

um desmanche
dentro de mim

rosto de madeira e couro
um dia
me vestiu inteira
de camurça e sêda
hoje
um frio
rosto de madeira e gás
agonia explosiva
conforta esta parede
de vidro
labareda de palavras
e cinzas
rosto de madeira e algodão
você no meu passado

tão berço

tão raio calor
tão meu

"Onde andará Fernando Karl?" texto de 2002-quando o poeta-nuvem evaporou-se.Mas dizem que...



" O pêssego é tão belo de se ver cheirar tocar e ler. Está tão cheio de sílabas afrodisíacas, mas seu caroço é tão apressado que cria raízes na própria fruta, de tanto desejo pela terra" Enzo Potel

Fernando Karl anda ausente como uma andorinha em tempos de frio. Noutrora esteve entre os pilares da Dide Brandão, e em sua imaginação instável como em dia de chuva, segurava um dos pilares com uma das mãos, e na outra, uma sombrinha fechada. Dançava e saltitava no ar. E cantarolava em preto, em branco. E como em dia de trovoada segurava os raios doidivanos, soltos e inconsistentes escritos como o raio: em susto, surto.

Talvez esteja resgatando o vão do " algo" que em candura (belo que deve ser) se dissolve na estrutura eufórica, melódica e lírica das palavras. Ou ainda atirando outras borrachas, mandando embora toda e qualquer correção para o embelezamento sem conexão entre os versos. Onde se busca a essência que, em maior número perde para o universo único de cada palavra. Na Galáxia de Karl cada palavra tem uma função de planeta, cometa, ou estrela. O poeta deve usar de preferência as palavras estrelas que como no céu, parecem cintilar paradas e desorganizadas. Elas como no poema, "são". Elas não querem dizer, não se bastam, não se conjugam, não se exprimem nem condensam e às vezes, nem se tocam.Talvez uma estrela nem conheça a outra.

Seja lá em que constelação Karl vive, ele traz a liberdade ao poeta, a valiosidade de suas letras, a dedicação total a uma casa que muitas vezes ele brilhantemente vive, talvez não no rabo do foguete, mas no comando de tal. A experiência que ele leva nessa jornada galaxial transmite o vento que balbucia o primeiro contato, o primeiro " ver" diferente.

Onde andará Fernando Karl? Em novos mares, num barco em que a poesia começa, se inicia, mas não pedrifica? O sopro Fernando Karl também deve estar com ele. No silvo libertino e gracioso da pequena praia de São Francisco do Sul ou melhor, na procura incessante dos belos nomes dados aos seres do mar, às conchas que cantam ao pé do ouvido. Sem qualquer ordem ou significado, em breve tudo virará poesia, para ele, que como o pêssego (palavra estrela), cria raízes dentro de si.
*Imagem de Joseph Beuys

5/08/2008

Ícaro e seus balões de cera


Só sou livre quando escrevo. É por não possuir aquilo que mais quero que o quero mais. Eu escrevo como quem chora uma canção entre voz e lágrima. E não gosto de explicar. Eu só deixo o acontecimento e as palavras me assaltarem, ou me confortarem. Defendo a água corrente de meus dedos porque nada pode me fazer parar de escrever. Eu escrevo enquanto inspiro. E quando expiro, as palavras já estão prontas pra germinar. Eu sou uma semente ambulante, procuro um pedaço de texto- terra, porque quero brotar logo e mais e mais.Eu gosto do caminho cheio de ruelas que o pensamento faz entre as palavras, permeando abismos e florestas de bromélias. Gosto de como a palavra vêm, muito mais do que como ela se encaixa no texto. Gosto da água que corre por todos os lados, muito mais do que a certeza de uma lagoa que nunca transborda. Eu gosto do natural.Escrevo com os sentidos mais efêmeros e imediatos, com a sensação, com o "estar". Quando vem o cheiro de noz da sua comida eu canto versos em silêncio. Sorrio por dentro e as palavras me alcançam. Eu coloco primeiro a pergunta no ar: "qual seria a palavra?" qual seria o som que traduz esse momento único na história"? Então, eu gosto de escorregar na certeza.Eu já sei o que quero dizer, mas quero me perder no que escrevo, para nunca perder a vontade de descobrir a essência de um poema. Porque é o mistério das palavras, e a dúvida de um desencaixe, de um "erro"da fórmula, que me seduz.O que é perferfeito e conciso não me faz pensar. Então eu vivo a realidade em busca de pão e café, para saber a resposta. Eu escrevo por que não sei, e quero entrar dentro do que não sei, e continuar errando a resposta, para saber o caminho que me fez chegar, e principalmente: "para não perder o prazer da busca". Dentro do que não sei, aparecem muitas imagens. Eu fecho os olhos e a paisagem vem. Eu escrevo porque gostaria de lembrar sempre a imagem que me habita quando fecho os olhos. Eu vejo muitas coisas, e queria ficar mais tempo olhando, olhando, olhando, respirando a paisagem. Então eu escrevo como quem guarda uma paisagem em uma caixinha de algodão.Então eu abro as palavras e me lembro do momento exato em que ela apareceu pra mim.Eu queria ficar mais tempo contemplando tudo o que crio. É como se o lugar da escrita estivesse coberto de sonhos e verdades que eu gostaria de vivenciar. Então dentro do poema, eu posso sentir tudo aquilo que quero e criei. Então posso ficar próxima ou distante de mim, através do poema. Enquanto ando em direçã ao ponto gostaria de estar catando conchas, descendo serras neblinadas, ou no alto de uma montanha dentro de um chalé de madeira e silêncio, rindo com alguém. Rindo de uma nuvem boba que faz gracinhas ao léu. Então a poesia me adorna, e eu posso estar e ser lá: a nuvem mais boba ém céu aberto. Posso passear entre o azul rarefeito. Se toda minha verdade sobra e se definha entre as ruelas obscuras do cotidiano, quero persegui-la, não a quero deixar morrer. E como estou presa a padrões e prejuízos, e como estou em uma fôrma de bolo, molde a todo tempo, respondendo a perguntas racionalmente, seguindo um futuro traçado pelo suor, sal e colheita tão densa e dura, persigo o que me podaram. E a mim podaram o natural, o erro. O que nasce a todo tempo e podo , podo, antes de vestir o terno.Quando escrevo grito!Quero gritar mais, quero me encontrar aonde não me deixaram abrir a porta. Quero exaurir a liberdade da minha essência.Gosto do fluxo, porque o que é natural não está pronto, e não tem medo de mostrar isso. No fluxo posso ver a verdade que oscila, vascila, devaneia, e tem medo da dúvida, como eu. Gosto da escrita que está perto de mim, e de mim não está perto a certeza, a razão e o "correto", o "ideal". Tenho na minha escrita um companheiro frágil ou forte, oscilante bicho homem. Mostra a ferida, o querer não aceito, o drama, o cruel. Não quero o ditado na escrita,nem um mestre, quero um companheiro que me convide a entrar e dividir tal quel ele é. Quero um espaço pra me encontrar dentro da escrita, sem ter vergonha, sem maiores redutos e clareiras da razão.Eu escrevo como quem enche quatro mil balões coloridos e voa seguro de que sairá ileso. Só pelo prazer de nunca ter feito, pelo prazer de ver a cidade por cima das águas.Preso pelo próprio ar. Escrevendo me liberto. Eu escrevo como ícaro com a liberdade sem medo de mostrar a faca.Mas não aponto. Eu escrevo como as asas e balões de ícaro, que derretem seduzidas pelo sol.

4/11/2008

Perseu e o senhor que unge


cama de nuvens.o gato perseu entra na igreja. gato com coração dilacerado é uma lebre.velhinho dá um abraço em Nssa Senhora Aparecida. perseu, o gato cinza, queria ter mais tempo para ficar contemplando a imagem. embora dentro do seu silêncio, perseu prefere o silêncio dolorido de uma igreja. ele gosta de ouvir, entre respiros, algumas gotas salgadas formarem poças de alívios.alívios.o leve de um alívio. perseu sofre, mesmo com seus olhos de tigre-dente-de-sabre. mesmo com suas lâminas bucais. perseu gosta de dormir nos bancos das igrejas.perseu gostaria de ter mais janelas onde observar o mundo. perseu ama os companheiros, mas gosta muito mais de dias de chuva dentro da casa de madeira ,vapor no ar, e estar só, por detrás da solidão. perseu adora fumaça e sossego.adora a tranquilidade de uma oração. perseu gosta do coração de jesus. Aquela bola entre os espinhos não precisa expirar água, não precisa gritar. perseu gosta de ficar no canto e deitar-se à sombra do velhinho e suas mudas de lírios de plástico. perseu gosta de ver o barulho bem de longe. gosta de andar e ver, andar e não ser visto.gosta do cinza para poder se proteger dos raios.gosta de chorar sem ser percebido.é que perseu chora pra dentro.perseu queria, para sempre, ficar dentro da igreja, perto daquele coração que derrama perdão, amor e vermelho.perseu gosta de andar enão ser visto. perseu gosta do coração que sai de dentro da roupa. perseu gosta de ver as pessoas se ajoelharem e de repente caminharem nas nuvens com o senhor que unge. o senhor dá as mãos a todos. acena sempre um panfleto de milheiro, com esperança entre os dedos.o senhor acaricia o rosto de perseu. o senhor não sabe seu nome. mas sabe o que perseu precisa.o banco. o branco do recomeçar.as nuvens com pêlos macios e claros.e a paz para chorar e para rir, quando quiser.perseu queria ter mais tempo para escrever histórias e mostrar ao senhor que unge. perseu gosta de dormir sabendo que o mundo não vai cair nas suas costas. perseu fica brincando com as joaninhas sem matá-las.perseu só quer o movimento de dentro. perseu quer ficar ali, sendo ungido pelos lírios, pela serenindade do senhor que abraça uma unção sem saber o seu nome. com aquelas mãos ungidas. que por causa do tempo, não tem mais medo de tocar, tudo o que existe.
*foto: Eduardo Green

4/04/2008

Caixa de abelha para Leandro Fortes e Romy Martinez


Caixa de abelha
dentro do guarda roupa

porta de vidro
e notas traçam
o caminho
entre dois
grudo as mãos
esperando você

o seu sorriso
pode abrir
e aparecer
na janela

caixa branca
e amarelada

fotos dos nossos
dias
balões
estourando
de alegria e cor

as abelhas sobrevoam
o quarto
procuram pousar
entre nós
querem nos unir

ao mel


eu vi duas rainhas
andarem no teu corpo
contaram meu segredo

cantaram a orquestra
alinharam as abelhas

a caixa se abriu

e eu não sei se essa música
que toma o quarto
é um enxame

ou a sua voz

saindo da tampa

pairando

suspiros

3/27/2008

joaninhas em silêncio


Eu podia só ficar
guardando os seus olhos
no entanto venho colecionando
faíscas da sua fala
e ainda guardo
sua roupa
com esperança
no porão
e tudo começou
em uma conversa
oferendas
e girassol
hoje você
me bate
e arranha meu rosto
você fica se batendo
por mim
nossos restos
em um carrinho
de construção

nossas cinzas
nossos cimentos
de distância
agora
são arremessos
e facas
voando entre nós
estranho
quando outrora
catando joaninhas
em silêncio
no vôo de nós
um sorria
dentro
do outro



3/17/2008

Carta dos pingos.



Sobraram muitas boas lembranças dentro do pote na estante do porão. As vezes eu olho o vidro de perfume que acabou. tenho vontade de discar os números e ficar invisível falando com você através dos sinais. quando chove, pode olhar a janela e ter certeza de que eu estou escorrendo em algum lugar. muitas partes de mim estao sem vontade de continuar. as palavras ficam diluindo enquanto durmo, depois elas viram uma poça. quase sempre eu acerto a lama.ando com um medo do mundo que..mesmo se você me desse a mão eu pensaria que é tarde demais. os olhares me medem por todos os lados.as pessoas choram porque não são a poesia que eu escolhi. mas não sou eu quem escolho o poema.ele é quem vem me caçando entre tábuas e sopros de dor.eu só escrevo sobre a dor. a dor que as vezes fica cintilante de tão carregada.ás vezes eu preferiria ir embora. pra sempre.porque parece que a minha voz sai entre o mundo, e o mundo tem um tampão grande no ouvido. sou lesma.uma lesma frágil e feia que fica esperando enquanto anda devagar.as vezes o mundo me pede água. e nem de gelo nem de água minhas retinas se enchem. eu nao tenho mais nada para dar.quem vai ficar comigo?por que essa lâmpada da madrugada se quebrou.e parece que a luz é frágil. parece que uns gaviões estao com facas querendo me pegar.eu tenho muito medo de mim. do que não posso fazer.do que pareço para o outro, mas não sou. de verdade. não sou.tenho medo do que ainda nao consigo.ás vezes quando tudo voa espaço a fora eu lembro de nós em cima daquele telhado. o telhado tinha um monstro feio. e nós ríamos do feio. hoje temos medo dos monstros, de sermos nós o monstro mais feio. nós ríamos entre os corredores de um sonho que até então era nitidamente possível. só a neblina e os chocolates nos inspiravam.era tão bom inventar de chorar sem motivo.embora você sempre tivesse no escuro, sempre foi você a minha luz maior.não importa agora se você me vê como uma nódoa.eu sou um resto de pó. que sobrou em cima do seu lençol.eu quis ficar ali, para ningém me ver. se soprar, deixe que eu tome a dimensão do seu quarto e do seu pesar.eu não tenho mais nada o que prender.pesar.perder.


3/10/2008

Em mim *foto: Raquel Stolf




o fantasma de você

assombrando todos os cantos


a fumaça sem você


meus olhos vermelhos no espelho


meses, folhetins

calçada sem branco


calçada sem suas pegadas


onde você anda?


crateras abrem na minha pele


e a sua escama

abre mais feridas


com o tempo

a cicatriz aumenta


com o seu sumiço


o meio de mim fica gritando


mas respiro e suplico


costuro a sangue frio




meus olhos amarelados no espelho


a torneira espalha água


barulho de ninguém em casa



a mesma água que sai de você


o silêncio de você


onde você me guarda em você?




seus copos de sonho



embebedam para infinito escuro


da madrugada



onde pousam suas chaves

mais secretas


eu quero quebrar



onde soa


a miragem de nós dois?








em mim.

2/18/2008

Pandora e a caixa de cordas


Que tudo se aquiete

que se abra o violão
e saia a bailarina
e seus pés de asas

que ruflem na caixa
de música

que a madeira do violão
se abra
e vire um barco
no meio do mar

que a dança das luzes
na água

que a dança das folhas
que as formigas carregam

que a dança da sua voz

tornem taciturno todo o caos
por um instante

que a bailarina Pandora
tire da caixa
de cordas

os desatares
a última
réstia de estrela

que a madeira bailarina
do violão

dance no mar

2/11/2008

A Imperatriz das trevas


Até as palavras desaparecerem. E se não existissem palavras? A sua carapuça ia derreter. E se dependesse do seu corpo, como suporte do que você é , o mundo estaria perdido. Além das palavras existe um sentido, o sentido do resto de pó, que você deixa para alguém limpar. Rainha da sujeira, rainha da roupa suja. Venha lavar a marca de sangue das suas palavras. Suas palavras atiram, cospem. Mas na sua carapuça deslavada, você ainda acha que atrás das palavras, pode ficar parecendo a flor mais graciosa e silenciosa do jardim. Até a Imperatriz, sabe varrer onde sujou. Sabe dizer e agir, falar e dar a mão. Para ser rainha, antes é preciso ser escrava, sim. Você seria capaz de dar um beijo em uma criança com lepra?É claro que não. Você é limpa demais. E quando encontra a verdade de palavras lapidadas, um pensamento que cabe ferir alguém com classe, você não hesita em jogar feijão em quem está muito alegre. A alegria que você se frustra em não conseguir ter. Depois você olha o céu, onde de repente você gostaria de plantar sol. Há quem acredite na sua falsa tentativa de ser feliz. É fácil ser leve como a pluma, quando se coloca um caminhão de lama na frente da porta do vizinho. Quem é mais infeliz que eu? Todos devem ser. A terra não pode obedecer só as palavras, dona rainha da colméia. A terra quer ver seu caminhar, a terra quer ver a sua dor e a sua ira, a sua sombra e o seu cais. Não se pode evitar o ruído para se conseguir o silêncio. Só tem mel, quem faz mel, quem dá a mão, quem age. Por trás da suas palavras eu só vejo terra. E por trás da sua cara, eu vejo fel, fel, fel. O fel que liga sua estranha mania de culpar os outros pela sua desgraça. Até as palavras desaparecem. De que valeriam teclas na sua mão, se você não reverencia seu dom, se você reclama , reclama, reclama de terem levado seus anéis. Enquanto de outros, levaram até os dedos. Eu quero ver a Imperatriz das trevas, chorando e pedindo perdão.

2/07/2008

carrosel de milton


Meu coração descansa milton. um coração respira milton.travesseiro com agruras de milton.arranco minha útlima camada de casco rejeitado. milton suspira na canção, me cheira inteira.milton.toca os pés, dança o corpo que estremesse no sofá. o sono dos insetos que moram na cozinha.milton, um rio silencioso que desenha as matas com uma delicadeza de falta.de folha nova em galhos verdes. milton descansa os passarinhos das gaiolas.abre os postais de paisagens que desenham as janelas de um trem mais manso.milton se deita nu, no sol entre as geleiras.desce da mais alta torre de corais que envolvem música e mar, cadência de água chegando na encosta de areia. carrosséis para o infinito.milton dá a certeza entre os vales que há. milton vem dos vales. vale dos sonhos entre nuvens.carrossel de vozes celestes. milton e a trombeta que escorre o soltar de um espírito, que desemboca no mar,mar. mar que milton não nasceu. mar que milton descobriu entre ar e onda, entre as mais doloridas


montanhas da voz.

1/31/2008

Alas de Giovana



Para Giovana Venturini


O mar e o mel
no meu sorriso
giovana

que dedos você
escolhe para cavar
da terra a esmeralda
em mandala
que povoa o rio
da imaginação?

invisível

onde dormem
as opalas, estrelas
e consteações
da sua voz?

borboletas
portas
alas de feixes
multicoloridos
fractais de luz


a mandala viva
dentro dos olhos
de um menino
com fome

dentro da gota
que beija o rio

a mandala respira
ao lado

a l a

a forma se aproxima
cintila e desenha
firme
o lugar da cor

terra se curva
a quinta
dimensão

sopros entre
turmalinas,
cristais em pó
rondam
entrelaçam

geometricamente

o mundo dança
por dentro
giovana

o mago de suas visões
seus sentidos
entre seus dedos
frágeis e tênues
pincel e cerdas
de cura

cor
cura
cor

a cura do mundo

o mundo dá as mãos

e suspira


giovana

1/29/2008

Ciúme






Talvez eu quisesse
que de repente
entre a rosa
que você carrega
na mão
e o céu
a solto
por todo
lugar

todo lugar

é aqui que você deseja
realmente
ficar?

Não seria necessário
que você jamais
tivesse sorrido

mas que
eu
na imensa noturna
lagoa do medo

tivesse certeza
de que seu maior
riso

veio do meu abaço
com saudade e sol

Eu queria apagar
todas as fotos

mas não posso apagar
seus prazeres

embora entre nossos
dedos escorra
gozo e água

fogo,

meu íntimo grita
a mesma incerteza:

será da minha boca
ou da boca dela?


será do meu sonho
e do meu falar

que o caminho se abriu

em girassóis e orquídeas?

Ou seria qualquer pele
com cheiro de hortência

olhos de lilás-hortência

que não revestem

apenas
e somente

o meu corpo?

Onde você esconde
sua maor certeza?

é onde eu quero estar

Onde é sua terra?

É nesta que passeamos
em círculos?

é nela?

Noutra
jussara, amarílis,
avenca
menina?

e se eu não puder
dar

aquilo que você mais precisa?

e se aguém o possuir?

Minha placa é de declive
ruína e montanha

embora entre
os nossos suspiros

eu veja a fumaça verde
que costura
nossa minha
esperança em nós

tenho um medo
de não possuir

a vista da colina
que você mais
rememora


o cheiro que mais
marque suas narinas

a pele que você
mais pulsa
suar

meu maior calafrio
é não estar
entre seus eucaliptos
de respiro

embora eu traga
amoras silvestres
que exalam
entre os cabelos

meus pés
são de roda
e buraco

um buraco
de pedra frio,

fundo

e eu tenho um medo imenso
que você queira

mas não consiga

me dar a mão.

1/07/2008

Dente-de-leão






Vou soprar

do alto da torre
um dente-de-leão

que ele voe até você

com todas as risadas
que colecionamos
entre a foz
do rio


e o cais


você
dente-de-leão

sempre depois
ruptuosas tempestades
era o único
que se abaixava até o abismo

e me oferecia a mão

joguei as pedras fora
leão

joguei os dentes fora
fera
sossega-leão

estou esperando o seu abraço

eu sei que estourei o nosso balão
é que foram se amontoando
escárnios e carnes pútridas
que foram aumentando
crescento

na minha alma

até que explodiram

eu juro que tentei não acertar

mas a bala do meu mundo
culminou você

mas estou só
na torre
onde o leão ainda não se prosta
ficou só a lenda
do leão que tentou
não morrer de dor
dor
aquilo que fez
eu brigar você
minha dor
e
mesmo indo embora

você deixou uma folha
de alcachofra
e uns lápis

gris

como a cor

de nossas capas

e todas as coicidencias

que voam em dentes

para sempre

12/31/2007

Revés

Se uma estrela
se surpreende inteira

e é a própria constelação


sua voz vem
de duas rochas
que desenham
o redor
de um olho-planície
amedrontado

minhas costas doem
suas dores

as estantes pesam
nossos retratos

o seu medo
do meu dentro
se torna vermelho
sangue

conto as vezes
que estive entre
o seu maior pesadelo

me sopra o vento
torço
para parar
longe da sua faca

não quero ver a dor
e o ódio que você
germina entre as mãos

e o pior,

esse escaravelho
que habita
o meio do seu peito

eu não quis provocar isso



eu que te consertei
os arranhões

que não olhava o presente

mas protegia
em sonho
e suspiro
de gostar
absolutamente
acima de qualquer
agulha


de ter algo para passar
as palmas
e abraçar
em sono

Não preciso mostrar
o corpo para dizer
que doeu

Não preciso ir até
o cume do abismo
e gritar a invasão
e a brutalidade
que se mostrou
entre suas palavras
negras

não preciso chorar
e fingir vidro fino
para mostrar
que cortou

onde você anda escondendo
sua verdade-arma?

estava tudo bem

estava tudo colorido

dentro do meu travesseiro
só esperando
o seu sorriso

12/09/2007

Areia




Minha avó dizia

que quando ficou

mais velha


ela viu a vida

escorrendo entre

os dedos


feito areia



eu tenho um medo

de deixar ir

parecido com

o dela


não posso segurar

a areia


não posso

deixar de segurar

de tentar segurar


e se há uma

voz no céu

uma voz



que encha d´água

todas as bacias


quero ser a areia

não a mão


quem vai é sempre mais feliz

do que quem

fica


se há uma voz

no céu


que ela segure

um cálice


de vontade


de con ti nu ar



ar




a

a

a

a



r

11/27/2007

nanquim


E se aquele adeus fosse sem dor derramada. Um lágrima que está presa nas minhas retinas. E se você pudesse ter certeza do fim antes mesmo que o presente criasse pernas e começasse a andar. Está tudo retalhado no íntimo, como uma aranha armadeira que tece sua morada como o balanço de um colo de mãe. Parece que a geometria, o calor da terra, e os prismas de cristal, guardam um segredo de nós, parece que está perto demais, e por demais perto sua imagem me satura em grãos. A nossa casa em decomposição. Algum sonho apodreceu em baixo do travesseiro. Seus cheiros absorvem o mesmo momento do atraso, do corte, da finança em escorregador, o caos no jardim, e os lixos espalhados pelo porão de nossas faltas.Eu conto seus suspiros, talvez algum seja o último. A chegada e a partida. Seria esta saída, o último adeus?Eu conto seu último afagar também. Por que você diz adeus, se preencho seu armário de saudade, se pouco do meu perfume ainda envolve seus lençóis, se no teto, ainda há algumas sombras do nosso movimento em meia luz? Por que você diz adeus, se os laços nos puxam pelo pescoço e a nódoa de algumas fissuras ainda preenche o maior lugar do caminho? É um resto que permanece no chão. Uma macha de cor forte vai tornando a aparecer. Primeiro você chega com chagas, e sigo arrancando as vendas da ferida,curo. Depois te peço uma desculpa para desaparecer. E quando o tropeço está escrito tão forte quanto duas mãos em devoção. E se eu vejo a tempestade que se arma no seu olhar. E se eu avanço com medo das suas flechas. Como você pode garantir proeza que é ainda me possuir? Meus pés estão fincados aqui. Você vai correr com as minhas opiniões? Vai pôr pedras na minha esperança que lateja no cinza mórbido que preenche as ruas? E se eu não pudesse dizer nada mesmo vendo todo o precipício. E seu eu quebrasse o espelho do passado e pudesse não olhar para trás. E se u derramasse em nanquim as passagens que levaram meus pés ao sol. E se entre as manchas da minha pegada você ainda pudesse encontrar a chave dessa algema.E se as marcas dos meus pés que saem, borradas em nanquim pudessem voltar a trilha entre nós dois.E se você ainda pudesse me impedir.E se eu pudesse apagar o espaço cada vez maior entre as pegadas do adeus.

11/22/2007

Solução loção- Para Maria Simonetti

Quem me dera
um litro de poção


loção para matar
um sentido
de gozo
fogo
e tortura

um litro
mililitros

e suas migalhas

e seus couros

as últimas peças
que sobraram de você

um caminhão
para o nunca

é o que se resume
o silêncio distanciado
de sorrisos

corpos efêmeros
e voluptuosos

o sopro

o sopro de suas narinas
que percorrem
as costas do nosso
sarcasmo


você ri longe?

você flutua sem mim?

Esta página
solta no espaço
da nossa ousadia
em não aliar


meus dentes pedem você

e eu me emaranho
no pântano

no pântano
a últma solução aquosa

química para desesperados
esquecerem

álcool etílico
que transborda

tesão
tesão que nostalgia
os pés roçando
no cobertor


saudade
saudade

a solução

10/26/2007

*Olhou-me em cheiro: pelo talo,

tomo o jasmim, arranco-lhe a

-pétala


De branco e pele,

lembro de minha você.


Aperto os dedos: aromas e

hematomas.


Décio Pignatari 2005