7/19/2007

Para a parede do seu quarto

E de repente
tudo a sua frente
vai sedimentando
em um enorme espaço negro

e o que se vê
são suas duas mãos
cheias de marcas

marcas de corpos
entre suor e sal
sementes que desejam brotar

duas lembranças
de suspiro e água
o círculo que movimenta
suas falanges e suas vitórias

o círculo que roda
o tempo
a água que invade
a lavagem dos seus sonhos

a paisagem que habita
entre os seus dedos
quando tocam no chão

perante o cais
perante o abismo
perante a camada de ozônio

o desejo de paz

entre suas duas mãos
o buraco negro

o reluzir
o reluzir

de uma estrela
que escolheu o seu íntimo
e as suas mãos
para habitar o mundo

Paraty


Paraty


Um homem imita um gato
uma lesma piedosa
desenha o chão
fica presa nas pedras

janelas com horizontes
de mais janelas

canoas
igrejas e doces
esquinas
grandes aberturas para o ver
azul e amarelo
branco cinza
raspagens
buracos embelezados
e paredes mais firmes que o pilar

portas abertas
palavras manuscritas
que passeiam
silenciosas
entre os objetos

nomes já sabidos
registrados na primeira
e última passagem

balões multicoloridos
crianças
cachorros
trogloditas
umidade

risos soltura
leveza e tropeços

caminhos

uma poça deixada pela
maré
que subiu

duas poças
um espaço
e um banquinho
para sentar
e se deliciar
*foto eu entre as flores que encontrei em Paraty:Lays, Aninha, e a Deise Pacheco que fotografou!Bjos

Já passou

Já passou


e o hálito do seu arrependimento
atordoa
como um sangue de menstruação
velho e fétido
impregnado na calcinha sem troca
Ele parece
um cão
todo sem rumo


e você agonizando
exige
e chuta
o cão
o cão

o cão

Rói o rato

E os ratos da sua casa eram tão gordos que andavam rebolando devagar e sem pressa. Entre já os chumaços de pêlo branco, os vizinhos se perguntavam se era uma rata prenha, um rato velho ou uma raposa bem vivida.

7/07/2007

Seu nome escrito
na porta do quarto

pedras
pedras pedras
até chegar a sua casa
seu quarto
sua cama

sua marca
sem sua presença

barcos presos no cais
a sua alianca brilhante
presa ao dedo

com vontade de romper
na minha direção

seu afago
e o furor do seu corpo
que difuso
ao meu
após
me impediu
de sorrir

você está atadado
o quarto está vazio
mas está cheio de você
pelas paredes

e o seu ar vem assombrando
entre os estrados da cama


me atormentando
me atormentando

você está ancorado
mas não está seguro

você está aliado
mas não tem mais prazer

minha aliança é o barco
já pequeno na lonjura
desancorado

afundou

eu sou um barco
tufão

criei musgos de partidas
que nunca partiram em mim

criei uma crosta de proteção
que no iníco era uma segunda pele
fina e tênue
e levantei o rosto
fingindo ser de louça pálida


mas a a verdade é que seu barco no cais
arranhou as jangadas
e a paisagem livre

que eu dançava solta

você me puxou pro mar

e o verde se alastrou em vermelho
um vermelho que me cegou
me fez perder os passos
confundir os pés

não estou olhando para cima hoje
não, não vou ver lua

só vejo esta crosta
em brancos sujos
se derretendo

me deixando mais uma vez
nua e com frio


só vejo o cais
e o seu barco
preso na âncora

me corroendo de vontade

longe de mim

6/29/2007

Trêmulo

Vozes que ocupam
Todo encanto
Que quer pairar

Vozes que seguem
Falando em silêncio
Ruídos
Ranços
Pratos
Acordos de discórdia
Tratos
Em tentativa vã
De permanecer

O tremor que aflige
No querer segurar
E no precisar soltar

A planície que grita
Uma mensagem
Ao léu

Duas heranças de choros
Inconsolados
Risos que nunca terão
O mesmo som
E a mesma doçura
A bravura que atordoa
O mundo
a pena
A pena do ser sobrevivo

O ruflar de suspiros
As gotas prometidas
E borradas em uma assinatura

Os júbilos
E os fracassos
A auto-amarração
O breque da despedida
As peças sem concerto
A ofegante chegada

gavetas e a prateleiras
Escondidas na memória da estante

As imagens e os batuques
Lanças que atravessaram
Em mim

Quantas vezes o choro
Me apalpou
Quantas mãos que trouxeram
Enigmas
Bússolas
trilhos
e entradas

Tremo para o maior
Tremo para o menor
O que me causa
O que me oscila
O que me arranha
E me suspende

Tremor

O que há pode detrás do ver

O trinco do vidro
Que nunca quebrou

A peça faltante

Tremo em faíscas
Tremo em incertezas
E em certezas

As vozes as vozes ocultas
Que o mundo deserdou
Estão contidas
Nas palavras exprimidas
Da minha mão
Entre uma folha
uns dedos
E a tinta

A tinta que borra meus ideais

Na venda
No morro
Um olho que me mancha
Com amor
E as mãos do senhor
Que conta os pães

As mãos que cometeram uma infâmia

A pedra
A pedra
Que preenche o caminho
Com marcas de sombras
Deixadas pelo sol

O andar ao cume
O descer a lama
O mundo me treme


O menino assustado
Do tráfico

Trêmulo

As vozes das coisas
Que estão ocultas
Ao primeiro toque

E que confessam a fusão
Trêmulo

O medo de querer alcançar
E as pernas bambas
Da chegada

Armas que se fundem
Brilhos que encantam
Para a morte

Balas de luz
Êxtase no escuro
Línguas
Desafios
Canos e granadas

O que você esconde
E o que você mostra
O que você finge
E o que você é

Uma palavra que ama
Uma raiva que perscruta
E atinge com fuzil

Um afago e um corte

Um tapa e um arranhão
Um olho sem vida

Trêmulo

Suas armadilhas
Suas emborcações

Sua justiça e sua injustiça
A partir de si

Vendas que vedam a voz
E a voz treme

Como um bater de palmas
Um aplauso
E um gargalho

Espaço vazio

Uma coleção de borboletas
Mortas
E uma luz que arregaça a janela
Em vibração

A voz corroída e cansada

Que espera no canto de todo
Íntimo

Um canto
canto

Trêmulo

Açúcar e fel
Na mesma receita

6/27/2007

O vidro de choro verde





Essa chuva verde


teu travesseiro acaba de chorar


chora folhas


molha os tecidos

torce em pingos

verdes pingos


essa fragancia

que quebrou

junto à morte

de uma margarida

em vaso de plástico


uma margarida que

se dissipava no vento


e o frasco do seu choro

transbordou

dos olhos


todas as matas

que escorreram

o verde


que tomaram


a chuva


e alagaram


tingindo a mancha


de uma mata devastada


dentro de ti



foto: Fernando Angeoletto

6/19/2007

Travesseiro de estrela-*





calma estrela


que preenche o seu travesseiro




ao descansar você abandona


as manchas


da parede




procura buracos no teto


para conseguir




dizer


a


deus




nas suas manhãs


o alaranjado preenche


a varanda


e a lareira




o alaranjado iluminado e bruto


das manhãs




as madeiras cheirosas


que seguram a casa


me lembram


o abraço




o abraço entre seus pilares


suas intimidades


mais íngrimes




ficam fogem


das minhas mãos


e eu encosto entre o céu


e espero a estrela sair


do seu travesseiro




e estender no jardim


o sol


*Poema musicado por alegre corrêa


6/11/2007

Reconfissão






Posso ficar um pouco aqui para sempre?Aqui, grudada nesta cadeira com o estômago vazio?Você me perdoaria?Parece que estou presa na cadeira até terminar de pensar. Você me amaria mesmo eu sendo a ferida que mais te arde?Você me perdoaria se eu desse as costas enquanto você fala uma palavra em florescência?Você seria capaz de ver que apesar de te cortar, meu infinito por você é maior?Você aceitaria saber que o que tenho para você, é de rara beleza cristalina e que está atrás de colinas entre arbustos árvores e folhagens, e que eu me aventuro poucas vezes para não perder a essência do sagrado entre nós? Você deixaria eu ir embora sem sentir vontade de voltar?Você entenderia que vivo a transbordar pelos cantos e que explôdo inconsciente?Que não consigo segurar o murro, quando ele me brota?Você pode me aceitar em pedaços?Em sobras de mim?Em cascas de mim?Você me amaria mesmo assim?Você beijaria aquilo que mais renego me fazer parte?Você seguraria minhas duas mãos e tentaria achar e me salvar do precipício?Princípio. Você e seus dedos de faca.Você e essa nuvem regada de tempestade, o seu regador é contínuo, é forte, não cai. Você rega o ferrão. Você alvoroça a primeira carniça livre das amarras. Você prende os pássaros e ata com laços de fita de cetim lilás o bico do passarinho. Você fica olhando o sofrimento e se vangloriando de não ser você o recorte da morte. Você é cheio de escárnio no pensamento. Você brota mau cheiro e enterra a semente no barro seco de uma estrada sem passagem.Você trama, você grita, pede socorro, mas não consegue atender a mudança esmurrando incansavelmente sua porta de entrada. Você foge dos sorrisos mancos.Você não aceita meu sorriso escancarado porque ele é cariado e desinibido.Você quer ver onde estão minhas obturações?Você ainda consegue rir junto ao meu riso doente de expectativas? Eu queria ir sem a culpa de te despedaçar.
Posso também não ir embora. Vou voltar a te confessar isso. Você perdoaria meu silêncio?Você aceitaria minhas raivas espontâneas com o mundo, e minhas pequenas risadas sem limites de expressão?Você está vendo que no meu sorriso sobram cáries?Cáries de discórdia.Você afagaria meu rosto e me ofereceria o peito mesmo eu tendo quebrado seu plano mais promissor?Você me ofereceria um copo d'água e um abraço caloroso mesmo eu sendo condenado ä prisão perpétua?Por um crime hediondo?Eu queria ser clara e límpida como a água de um riacho que corre, corre, sem desespero ou revolta, sem alvoroço de chegada. Mas sou do lodo e do líquido, do delimite entre gasoso e líquido, sou porosa, penugenta e medrosa. Sou sem fim. Você aceitaria minha não certeza?Minha não absoluta certeza?Você aceitaria meu muro de areia movediça?Você ainda me amaria em sua cama, mesmo eu tendo explorado seu último e único centavo?Mesmo eu deixando as dívidas da minha família para você pagar?Você me amaria como no fim de nós dois?Você me perdoaria se eu revelasse que o meu desejo maior só se entrega a você quando estou com os braços presos e os olhos com dúvida?Você passaria os dedos entre minhas pernas mesmo que eu te desmoralizasse no seu bairro inteiro? E diante toda sua Cidade?Você possuiria ainda amor por mim?Você me desejaria se eu cuspisse em suas jóias, arrancasse suas vestimentas e fios de prata e despisse sua ironia a la uísque?Você aceitaria me penetrar olhando em meus olhos mesmo não me querendo para sempre?Você se despiria também de seus deveres e caçaria borboletas comigo, mesmo eu pondo o pé para você tropeçar?Eu matei uma esperança, você ainda me ama?

Você aceitaria que eu vim de um fracasso muito fundo?Daqueles em que se vive o brilho e a fenda.?Desses fracassos que ficam expostos a olho nu, sem remédio aparente. Desses fracassos que ficam esperando a cura. Eu ainda não sarei. Você amaria um enfermo de sentimento?Um enfermo de sentido? Você ainda tem raiva de um próprio passado?Alguém já te bateu em hematomas azulados por dentro? Alguém já te abalou e você ainda dança em cascas de banana o tempo todo? Você também tem um nó de lã gasta e fios embolados como eu? Você me perdoaria se soubesse que quando você me renegou eu te desejei a infelicidade suprema?Sim, eu desejei que você nunca mais fosse feliz. E que quando eu saí da sua vida tinha tanta certeza que não queria mais ver o seu olhar e nem a cor da sua pele, e que hoje eu daria o mundo para passar a mão no seu rosto, mesmo que você já estivesse com os olhos fechados. Eu ainda queria me ver marcada na suas costas. Você ainda me amaria? Você ainda sentiria o mesmo sentido de muitos anos atrás? Mesmo eu sendo este estorvo que ainda almeja o ontem?
Sabe, que muito tempo eu quis a frente, o depois, o futuro e daí eu não soube rir mais do que maldizer. Você me perdoa esse amor que roeu? Essa raiva em blocos que eu te jogava no ar, que eu te pesava as ventanias?Você também errou?Você ainda acha meu pior defeito apenas engraçado?Eu não encanto mais você?Você ainda encanta a mim.Você ainda quer me ver sorrir?Você deseja que eu seja realmente feliz?Você sorri como antes?Com a mesma doçura e pureza? Quem é você?





foto: mtfoliveira.blogspot.com

6/06/2007

Longa caminhada por um poema



quero um poema que junte
todos os meus caquinhos
que me desenhe
em pedaços

pedaços que se ausentaram
lascas irregulares
lascas arrancadas
de uma parede
abandonada

quero um poema
que arranhe o sentido

que permaneça
verde em dois
como os olhos mata
amanhecendo em sol

quero um poema que
tenha dentes para sorrir
e caninos para defender
sua esteira de palavras

quero um poema que escorra
nos cabelos
como um banho de lama
açaí e ardor

quero um poema
que fique entre dois corpos
uma só passagem

quero um poema que costure
uma ferida

um poema
que carregue todas as linhas
bordadas em roupas de passagem
roupas que abrigaram o íntimo
e o desconhecido

quero um poema que amacie
o sono
mas que
lembre em penas
a leveza de ainda
dedilhar versos

quero um poema que cante
uma chegada
que assombre a cama do quarto
com tremores vivos
de quem geme o prazer

quero um poema
que piche o horizonte
interno

um poema que grite
no outdoor da avenida principal

eu desejo um poema
que fale o poeta
falando o mundo
pela televisão
em vinhetas coloridas
e banais

quero um poema
em goles bebida barata

e quero um poema com
instruções de uso
para aqueles
que não tem dedos
sutis
para acolher
a poesia


quero um poema
sem dores nos braços

quero um poema com fartura

um poema que não fale
um problema,
mas que descanse os olhos
e a alma
de quem lê

um poema
que fale ao bueiro
e à Imperatriz

que diga a qualquer um
que exista e esteja vivo
vibrando

que fale como um ser vivo
que mostre o sapo morto
e que cheire o chorume das ruas

um poema que traga um suor
e um gozo
um transpiro
e um respiro
e um vôo livre


brinde


em um momento


de prisão

que não hesite em virar
em todas as esquinas

que sobreviva a calçada
e a dor do amor
um poema que ocupe
um lugar concreto

que ocupe uma cadeira
em algum lugar
do mundo

um poema com a certeza
de uma descoberta
e a leveza e liberdade
de um vapor cheiroso

um poema que descasque uma fruta

um poema que amarre as mãos
de quem não é feliz

um poema que faça ver um cego

um poema oração permanente


sussurada


a cada momento do dia


sem precisar


ajoelhar


um poema sem janelas
e com toda a paisagem

sem maneiras de dizer


sem pudor
ou baton

um poema que corra ao meu
lado
que acompanhe a travessia
em silêncio

um poema sem vergonha
de vestir
e despir

um poema sem afirmação
um poema que conviva
no barulho da chaleira

que converse as águas que
escorrem da louça

um poema borrão do chão

um poema que assente como a poeira
no porta-retrato

com uma pulsão
sacudida

um poema com uma dúvida
que pertuba e desperta
imediatamente

que faça andar a quem está imerso
no parado


que faça rir


a quem quase está

que faça chorar
quem a muito tem amarrado uma vontade
uma confissão oculta
de jorrar todas as pedras
reunidas no meio do corpo
em líquido salgado
torrente que liberta

quero um poema
com uma camada de vento
e brisa
para respirar as ventanas
de quem precisa de mar
nos ouvidos

para aqueles que desejam
se encher
e se esvaziar

quero um poema que aja
como um grão de areia
grudado entre os dedos do pé

permanentes até a terceira saculejada

que coce
afete
trema

um poema chocalho
em notas sujas
e cheias
juntas


um poema-marca
que faça sentido a quem
mexeu
mobilizou


ou cortou


algo em si



um poema que leia


o olhar vedado


de um sonho


que esperou muito


para acontecer




e ainda está

uma poesia que dissolva entre os membros
do corpo

uma poesia que tenha pernas
próprias




que ande sempre


que nasce


cresce


reproduz




e reproduz


sempre




que console um desespero

que molhe as retinas gastas

que refresque a pele

e acene com alegria

e asas

todas as
chagas


redemoinhos


e escancaros
presos na memória




um poema que cure


a falta




que aceite a morte




que ensine a vontade




que seduza o paladar


que acalme com duas mãos


quentes


uma grande dor




que traga um copo


de esperança


para quem precisa


permancer




que distribua senhas


infinitas




para os que pedem socorro


para viver






foto sobre o trabalho de Pina Bausch

Nos corredores do CEART, Canabarro me contou....




"A arte é uma puta velha

ela te explora

até o máximo

até seu último centavo


mas o prazer que ela

te traz

é tão intenso e tão bom


que você fica viciado nela


o resto da vida"


Afonso Benetti


Ps-Tive que parar e anotar até o nome da figura....rs..rs..Porque nem só de dores-palavras se faz um blog...Com riso, alegria e café.Finalmente alguém me respondeu o que eu mais queria saber sobre arte (no momento).


foto Marina Abramovic
em Balkan Erotic Epic

Muro- de Enzo Potel


Parede de pedra, alvenaria, adobe, taipa ou tijolos que serve para vedar ou proteger qualquer recinto, grande ou pequeno, povoado ou não povoado, a fim de não ser assaltado

ou devastado.

O muro de Luccano, Itália, foi construído para proteger vila de mesmo nome, situada no alto de uma colina íngreme. Ambos, vila e muro, foram destruídos por tremores de terra em 1694.
O muro do Diabo, paliçada construída na Alemanha pelos romanos, foi elevado e guarnecido de torres pelo imperador Probo. Alguns restos ainda subsistem para a alegria das crianças na região da Baviera.
O muro feitiço de Rothbar não impediu que o príncipe o pulasse e conhecesse sua amada em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A muralha de Sesóstris, no Egito Antigo, era frequentemente visitada por tempestades de areia, o que exigia manutenção especial. Em seus duzentos anos de vida foi mais atacada por vassouras do que por espadas inimigas.

Todo muro é uma mentira.
Todo muro é uma coleção de pedras no caminho, para propagar que houve aprendizado.
E teu olhar também era de muro. E quando abria a porta e me via, estava lá escrito:

“eu não preciso mais de você”.

E este muro frieza expelia ar glacial de palavras rasas, e sobrancelhas cobriam arrogância e rictus de escárnio. E eu parado, contemplando a inexata e última construção da paixão: esse estado de perda travestido de bom senso, em que um vingador de si mesmo tenta esconder com pedras

um jasmim.
foto:
Isadora Duncan e Pina Bausch

Se deixar tocar-Um texto sobre um sentido muito íntimo

Quando nasci Deus pegou uma linha e fez um laço, no meio do meu peito. Às vezes Ele aperta o nó.Às vezes Ele afrouxa minhas costas, enche o meu balão.Eu flutuo. Às vezes, e quase sempre, quando alguém puxa a linha, eu evaporo. Eu gosto do que eu sinto. Se eu te sinto bem, vou ser bem.Se eu te mal, meu espírito te expurga. Às vezes eu não gosto de ser assim, às vezes eu não tenho escolha. Por que isso, quem tem que responder é o criador e a criatura juntos, e não só um, ou só outro. É pela linha, pelo fio que já foi dito "nem um fio de cabelo cairá da tua cabeça, sem que Ele permita", então, ele tem um olhar sobre mim, e pode me ver no íntimo.Ele com visão integral, pode me afirmar. Os outros, podem só dizer. Então eu vou deixar Ele me mostrar. Se a minha linha arrebenta bem na sua vez, lá no meio de mim, algo reage.E eu não quero comprimir. Posso amenizar, mas não comrpimir. O que eu aprendi é ser. E conseguir isso é o cume da montanha.Eu já escolhi ser.Olhar o lodo, o denso e acariciar aquela parte. Aqui, diante desta terra eu posso sentir em meu coração alinhavado: apenas seja.Seja este fio que te amarra, que às vezes solta a ponta na escrita, solta a costura entre as tintas e as duas mãos.Quase sempre, venho pedindo à Ele que tire a linha. Por que as vezes a linha tem um peso, o peso de uma Cruz. Ora, eu não posso não sentir?Não posso desligar o sentido?Por que sentir dói?Às vezes, quando vem alguém com uma agulha e quer atar a linha, costurar, eu recuo. E ataco! Porque a agulha não foi feita para espetar, nem pra mexer na ferida. Quando ela vem, ela destina-se a costurar. Ou será que eu aprendi errado?Eu não espeto ninguém, se espeto, eu penso,"que Ele sempre esteja ao meu lado, para eu ser compreendida exatamente como sinto".Muitas vezes eu espeto, mas se eu sei o que houve, meu coração aperta, e eu tenho que ceder a linha.Se eu não sei, foi porque não consegui adivinhar, nem ler os sinais.Mas apenas "dos que sabem, o que sabem, vos será cobrado" Quase todo o meu sentido é " em nome Dê". Porque já disse das flores a mais bela: "fé, é fazer em nome Dê"Às vezes, Ele me dá o mérito de um sorriso avulso, pois eu peço muitos sorrisos.Eu peço também muita compreensão, porque com uma linha tão fina e estreita no meio do meu centro, não posso arriscar puxar o fio muito bruscamente, é delicado demais ter um coração alinhavado. E é preciso não alimentar redes.Quando tá muito apertado o sentido, a linha arranha, e eu peço muita força, porque as vezes parece que essa linha tão fina e estreita pode cortar a pele, aprofundar o corte. Daí eu suspiro, e ajoelho.Assim o nó dói menos.A linha que linha meu centro, é fragmento, é ruptura. A linha é bem fina e o meu centro às vezes não se deixa tocar.

5/17/2007


Confissão

Estou trancada. Não force a porta.Estou desfocada em um só foco. Eu só vejo um sorriso, mas não é o seu. Eu queria te gostar.O seu sorriso é lindo. Você fala bem, você encanta, mas eu estou trancada ainda.Você pode entender? Eu queria amar você, eu juro que eu queria.Você parece me amar tanto.Mas meu peito arrebenta em outra voz, outro rosto, outro hálito. Você seria capaz de entender que eu não posso escolher?Eu gosto ainda de um gosto passado.Um gosto gélido e parado atrás de uma camada de cera dura. Vê, meus cabelos ao vento a dança de tantas partes do meu corpo, escondem o meu cárcere por um sentido ainda. Fico sentindo, torcendo, orando justamente por um membro que me joga no chão, me faz asfalto, me corre uma rua, me arremessa brita, pedra, cimento, e me deixa à deriva sem resposta. É vergonhoso. Eu sei. Estou trancada, mas a festa é sua. É seu aniversário? Ou é bodas da sua mãe?Eu não sei. Há cálices de prata nas mesas, e muitas pessoas rindo. A toalha é de rendas.Há mulheres envoltas de pluma e em cima de agulhas. Há portas de vidro e gravatas.Ar condicionado. Jardim. Arbustos. Há fartura sobre as bocas e muita bebida em álcool. Desculpe, é sua festa mas antes entrar tive um lapso de memória que me arruinou. Antes de atravessar o salão e te dar “parabéns”, eu fiquei tonta por descobrir mais uma queda dos meus padrões. Mais um fracasso.Você me perdoaria se eu chorasse aqui mesmo? Você se importaria se eu fugisse sem querer voltar? Desculpe, hoje eu não consegui fazer você feliz.Eu vou ter que caçar o dono da minha dor.Minha dor. Quem é o culpado?Tenho que achar agora. Eu vou atrás, eu vou me render..Não! Eu vou!Eu vou...Eu vou. Eu vou..Eu vou!!!Eu...Eu...Vou pular a janela do banheiro, pode? Vou atrás de quem me trancou.Onde deixei a minha chave?Por quem me deixei trancar?Por que eu deixei a chave entrar? Por que ainda estou em um foco desfocado, indeciso e sem compasso?Por que estacionei meu sentido de querer maior aqui?Se já andei quilômetros, já visitei parentes, já percorri algumas ondas do mar, passei horas sem nada o que fazer, li auto-ajuda, plantei uma árvore e publiquei um livro.Falaram que ia passar. Disseram. Eu juro. “Isto não é nada, não significou nada, é nada.”Sim, o nada tomou uma forma cheia de si.Um nada cheio de muito. E isto latente e me trancando no mesmo lugar.Passe dor. Passe pela ainda sobreviva fresta da janela, apague-se.Onde foi parar a luz?Me Parecem quatro paredes. Um quadrado.Um muro alto ao meu redor. Quatro paredes pixadas com todos o seus detalhes de pele, seu acordar sonâmbulo. Com toda a lembrança viva dos seus olhos em riso. Com todo o roteiro da sua vida de cor, com todas as notas dos seus movimentos, com todo calor entre seus braços.Já faz tanto tempo. Mas em mim não faz. Por que?Eu ainda revivo em você?Por que o meu tempo interno e o tempo da lembrança não se alinha ao calendário?Eu. E esta entoação do seu nome.Eu. E você um mantra aqui. Eu. E essa imensa distância da incerteza do seu sentido. Eu.E esta dúvida corrente de ar que passa, e não me volta o ruído do seu respirar.Eu gosto dele.Do ruído seu. Eu e o martelo das cordas em ressonância da sua garganta. Eu. E o seu prazer em mim. Eu, entre luxuosas damas e medidas com uma saudade arranhada de você. Eu e estas pessoas falando e a vontade de saber você.Eu e esta festa que se abriu como uma fresta de luz, enquanto estava trancada no escuro. Eu e esta certeza de que você não é o dono da festa, nem convidado.Eu. e essa certeza.De que você não pode chegar. De que você não vai chegar. Eu e certeza de que você não vai trazer as chaves.

Homenagem à palavra e os palavreiros especiais-Tatiana Cobbett


Palavreados
Palavrados
Em palavreados...

Palavreira como só, Tatá ou Tatiana Cobbett* para os desconhecidos ainda, é uma brincalhona brilhante da palavra. Faz e refaz, intriga, reserva, deixa uma dúvida, provoca. Para todos que abrem os olhos para este blog, prestigiem, dancem e cantem à leveza das contruções desta bailarina com asas no corpo e nas palavras...Salve salve sol Tatá!



Linha que eu Passe


Olha meu amor


Quero cantar para você


esta canção que aprendi


faz poucos dias





Olha meu amor


empresta atenção


fala de nós


nosso senão


vem


retratado na harmonia





Longe de você


não dá, meu bem


posso esquecer


o seu olhar me iluminando


por inteiro





Perto


não convém


olha meu bem


ora paixão


ora desdém





Impasse


é fogo cruzado



___________________________





Altercação



Como assim?


Meu olhar enfrenta o seu


Você nega


sai de mim buscando outro


Chama


isso sim


de novo





Me esnoba


sobe


desce


minha escada corredor


Encurralados





Sei


redimindo seus anseios


fico eu


sempre a culpada



Um tudo e nada


Que quando


efetivamente


perdermos


é que


resolveremos


tal parada


____________________________________



Vicinal



Se soma


Par(e)ser


Diminui



Ah!

As diferenças



Com a poda


Já crescida


Raiz


Aguerrida


Suga as avessas


Seiva


Que é própria da vida





Poria fim


Nossa angústia


Fosse possível


Negar


Como se o antes não tivesse


Como se o agora se repete


Como se o nunca


Não houvesse





Poria sim


Nas alturas





E tudo


virá pelos veios





Veias vicinais



___________________________

*Bailarina, compositora e cantora. Formada pela Escola de Danças Classicas do Teatro Municipal do RJ, trabalhou 12 anos no Balé Stagium, cia paulista, percorrendo o Brasil, América Central e América Latina. Autora/Inteprete do Musical "Mulheres de Hollanda" com Direção de Naum Alves de Sousa. Direção e Concepção dos Espetáculos Alma Flamenca, Grito das Flores, Esta Terra Portugal, Festival Três Bandeiras, Partituras da Itália nas Vozes do Rio e dos Shows de Badi Assad, Carlinhos Antunes, Tutti Baê, Janet Machnaz, Joel Brito e Nara Lisboa, entre outros.Hoje desenvolve em parceria com o músico/cantor/compositor gaúcho - Marcoliva - um trabalho de composições próprias com o Cd Parceiros como primeiro testemunho desta jornada - e mais o livro Básica Composições - ambos podem ser encontrado na www2.livrariacuritiba.com.br - visitem nossa página - www.sonoraparceria.com.br

5/09/2007

Para um bebê chorão.Daqueles que ficam tocando a mesma nota infinitamente.

Você tiraria os dois tufinhos de algodão das orelhas, e me ouviria mais uma vez?Bebê, até os defeitos são cor-de-rosa. Os meus e os seus, não se engane.Você não pode ser tão diferente quanto se compara.Você sentaria num banco à deriva ao meu lado?Você seria capaz de ver meu algodão sujo, mesmo que eu me fingisse de borboleta?Ou você prefiriria a ilusão? Ninguém é de pedra bem, e também ninguém é feito só de nuvem branca. Nem você, viu?Você poderia se calar?Você poderia calar até seus pensamentos de cobra coral e se colocar ao meu lado para respirar o sentido? Minha dor são esses gravetos que você fica escolhendo para pisar. Eu também quebro, ou pensa que só porque você finge, eu também seria capaz?Aqui está o meus quebrados. Me dá um tempo de eu colar os cacos?A minha dor silenciada é a mais viva em mim. Embora você não queira ver. Embora eu arranque a venda, e você fica perscrutando os óculos pelos cantos. Você vê o que quer ver.Do que eu falo só bem entregue, sem essas analogias e filosofias, sem as algemas do medo e sem os cadeados ocultos ao homem racional, você pode saber. Eu quero ver você.Não suas linhas, nem sua forma bonita. Também não é porque eu gosto dos seus olhos, que eu não posso ver sua negritude. Mesmo em meio ao mormaço rubro, eu vou perder a chance de sorrir para o que de belo ainda tem em você?Me poupe.Faço isso o tempo todo com a vida, desde que eu conheci um pouco da essência das coisas.Me dá licença de eu escolher? Nada é tão mal. Até os dentes de uma onça, sem morder, apesar de terem mordido e até levado à morte, são belas presas.Bebê, você precisa viver comigo sem a bigorna. Eu dôo às vezes. Às vezes eu dou um tapa. Você está disposto a me ver?Eu tenho nódulos, furúnculos, perdas insuperáveis, lutos de todas as cores e crateras na pele. Você está disposto a pôr a mão?Não fique falando daí o que você não viveu por inteiro.Não tire conclusões. Por maior a sabedoria, sem a vivência, sem a entrega não vale de nada, nada. Do que adianta a mais aberta ferida escancarada aos seus olhos se você não pode ter compaixão?Se você não está disposto a se render?Que adiantaria essas palavras destravadas do mais lixo de mim, se você não pode apenas chorar comigo? Bebê, até a mesma palavra vivida e gozada, pode ser uma dor minha. Rir também é uma superação sabia?Um esforço de contra. No maior barulho também está impregnado o silêncio que quer plainar. Eu também busco um pouco do que não é meu, a diferença está que eu não luto contra, quase todas as coisas que são minhas, se não são, eu quero ser um pouco.Eu dou espaço. É bom ceder, bebê.Ser como um vento ou uma água que se molda ao recipiente atual.Eu queria muito o que você quis para mim. Mas eu não consegui.Dá licença de eu ser defeituosa por opção? Dá licença para eu ser suja como a graxa quando eu quiser?Eu nunca comprometi ninguém na minha lama, você só pisou o pé porque quis.Me dá licença de o meu amor ser bruto, cru e denso? Se eu não aprendi a voar, de onde é que você vem com essa de me colocar asas?Dá licença de eu ser um germe perto de você que é tão capitão?Dá licença de eu entrar sem limpar os pés?Bebê, eu não sei te fazer melhor, porque eu não sei nem me fazer melhor. Você pode me pedir algo que eu possua verdadeiramente?Você pode largar a idéia de querer ser sempre um modelo pra mim? Bebê, me desculpa se eu não sei. Se eu não consigo. Se parece que eu faço pra implicar. Me dá licença de passar sem ter que encarar as suas flechas? Bebê, eu não estou pra guerra. Estou pra ser. Me deixa ser? Pode ser em outro lugar?Me dá licença de uma vez?Felicidades, pra você, nhe nhe nhê.

5/07/2007

Carta de despedida para um casal

É sol. E no meu rosto é uma tempestade.Vai com ela. Vai com ela. Aqui em mim, será o mesmo tempo sempre. Acaso um dia ela pode ter o meu cheiro ou o meu cabelo que se emaranha nos nossos corpos?Acaso será ela, dividirá a mesma dívida, a mesma dor?Ela acordaria para passar a mão no seu rosto quando você chora? Acaso agora ela poderia lutar pelo seu sonho, como um dia seu sonho era o meu sonho?
Vai com ela. Em mim há muitos nós, muitas tranças.Se um dia você ficasse saberia as alegrias e as tristezas, porque eu te dei um cristal, mas quebrei peças, rasguei concertos, sussurrei errado muitas notas da sua ópera.
Eu desviei seu caminho, te dei algumas rasteiras. Mas eu juro que tudo foram chagas plantadas na minha fala, na minha respiração. Enquanto você ia, eu te puxava. Enquanto você ficava, eu te amarrava. Parece que eu sou você. Parece que entre o meu querer e o meu querer te ter, o te ter me parecia mais seguro. Mas eu não te tenho mais.Você rasgou minha calcinha também. Mas eu te perdoei a ausência, perdoei tanto que queria voltar. Mas no seu olhar está a ida, com ela.Talvez pela sombra, ou pelo rouge, ela pareça mais qualquer coisa. E eu, depois do tempo gasto no calendário abatido, do tempo gasto cotidiano e tão mesmo em sentidos, ainda sou a mesma. Até porque foi eu quem mandou você ir. E quando se vai, a ida tem uma coisa com o vento. O vento nos sopra quando estamos indo sem a certeza de chegar a algum lugar. Porque a certeza é o destino que o medo tenta resgatar. Sem a certeza o medo se aflora e a dúvida que no início é aterrorizante vira um estado permanente do ser. E na dúvida, qualquer chão qualquer lugar, é um lugar com uma liberdade de descoberta que só a dúvida pode aventurar.
Agora depois de um tempo eu achei que você pudesse ficar. Porque ter você também é bom.
Mas no seu olhar, no seu olhar está a ida, com ela. E eu só posso dizer: " Boa viagem".

4/25/2007

Prefácio para Trêmulo de Enzo Potel- Com o meu sorriso de um sim que permite...

Beleza não é algo relativo. Quem ama o feio, interessante lhe parece. Bonito, não. As rédeas da mente podem levar as raízes do gosto para lugares excêntricos, mas jamais alguém negará o espanto e encantamento de uma estrela-cadente fugindo no céu da madrugada, porque a substância básica da beleza é a raridade.
Portanto não me contenho em dizer que a poesia de Ryana é a beleza espelhada e cria em si o vôo dos pavões. Ryana é raridade abarcando grandezas delicadas, iras benevolentes em suas estrofes. Nem que um poema seu seja lido numa remota casa de pano da Mongólia, qualquer pessoa que abra mais do que os olhos pela manhã, entenderá o que sinto.
Portanto “Joio”, meu mais amado poema em “Trêmulo”, é a tradução do que é belo. Nunca alguém falou com tanta perfeição sobre o arrependimento, este cisne que já nasce em cativeiro: no seu deslizar sereno sob as águas, não se observa a convulsão desesperada das patas submersas.
Quando Ryana diz que está na “epístola dos nomes negros” por tantos trocadilhos, mostra os trapos do que outrora foi uma vestimenta, o tecido religioso daqueles que confundem humildade com masoquismo. Está agora com as pernas à mostra, mas não quer ser vitrine. E “Aviso” martela com genialidade todo esse estado de maturidade, em toda a sua extensão.
Aliás, os poemas de Ryana não têm medo de se prolongar. As árias de Mozart também eram longas, mas brilhantes. Ele sabia que cada clave tinha o seu Sol.
Ryana aceita o Sol mas também colhe com a geada, pois a idéia de uma safra maravilhosa nos faz tremer tanto quanto uma má. Nós trememos com a implosão de um prédio e no despertar de um suspiro na medula. Trememos de frio e trememos no gozo. Este livro abre-se justamente no momento do choque, para doar órgãos a sentimentos na sala de espera da comodidade. Sentimentos que preferem muitas vezes não ganhar palavras. Mas Ryana já cansou de aguardar alvoradas mais justas. Se é pra doer, que doe em nós dois, ao mesmo tempo.

Enzo Potel

4/03/2007

Do amor sempre fica um muito -para Drummond



De tudo
tudo mesmo
o que ficou foi o amor

das mandíbulas mordidas
dos sonhos cortados
da sonolência da razão

disso tudo
o que ficou ainda
foi o amor

da perda do tempo
de partir

do latejar incessante
da lembrança riso
das facas quebras
das promessas fracassos
dos sonhos redemoinhos
das tentativas vãs

disso tudo

o que ficou

foi amor


Da aliança trancada
do feitiço sem feiticeiro
do ganho perdido em querer
do banho só
da repetição dos dias

do humor engavetado
no mau humor do café
em xícara de dois
solidão

da perda de tempo
em partir
da parte que se parte
do todo que que se resumiu
em

par te

ida

sem volta


do realinhamento
dos botões

das almofadas
com começos de nome
do casal
impregnadas no encontro
dos gostos
que vem do cheiro


da última lâmpada acesa
do fio da faca
da gana de querer
amarrar
o santo

da cama vazia
divida ao meio

do grito contido
no travesseiro testemunho
da desilusão

da branca espera dos atrasos
dos sapos digeridos
dos sapatos perdidos
e achados
em quatro pés

da respiração ofegante

do rulminar
em fúria
de querer segurar

dos dois olhos
que esperavam
a volta na janela

do sol que se abriu

da nuvem que se apagou

da saia amassada
na rede em rendas
de balanço
paradas no gancho

de toda a certeza vivida
na varanda do verão

de todos os desenhos
rabiscados

todos os calos
todas as vistas
na torre
sólida
de dois íntimos grudados
paralelamente
em direção
além


ainda assim insoluvelmente
insalubremente

triste e parado

ficou

de janelas embaçadas
cacos colados
e uma trégua

só ficou
se revirando na cova

o amor

Orgulho*


Não há troca.

É uma exposição mútua

de tendas túmulos

presas

sal pérolas

sonhos secos

princípios.



Pronto.

Eu não te mudei.

Você não me mudou.

Negócio fechado.


*Enzo Potel do livro " Cura"

*Imagem Philip Taaffe

4/02/2007

Indiara Nicoletti Ramos- Assombrear


Assombrear

Ao caminhar na rua assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia meu pescoço e me protege do vento.
O cachecol aquece o coração assombreado pela hipótese do fruto do choque de temperaturas.Meu corpo quente, o vento gelado.
A lã que derrete a friagem e protege a carne do vento, impedindo que a testa se assombreie de muco e eu me tente a ficar na cama de manhã.
A coberta assombreia o corpo na cama e de sua sombra não quero me libertar.Assim como pássaro no ninho.
O batom sombreia de vermelho a fronha branca.Estava muito cansada para lavar o rosto.E afoita para saciar o desejo dos corpos que se assombreiam na noite. Iluminados pela luz das estrelas.
O brilho vem de dentro, pois se a estrela me ilumina eu assombreio teu caminho.
Assombreio teu rosto que me ilumina com o brilho das estrelas nos olhos.Seus olhos brilhantes feito duas estrelas penetram meu coração já apaziguado e me assombreio de desejos.
Olhos sombreados, pelo ato de assombrear a pálpebra bem de leve com dedos lânguidos mergulhados ao vinho.
Olhos que se sombrearam pelo instante de consciência, de lembrança dos corações que pulsam juntos e se despedem.
Olhos que sombreiam o caminho das estrelas...




É manhã, Os pássaros cantam, desperto antes do despertador.Me coloco diante da pia e assombreio o espelho com um sorriso irônico e debochado após enxugar o rosto com a toalha.
Rio de mim mesma, assombreada com o sonho de despertar com o canto dos pássaros que anunciam o nascer do dia.
Sendo que rotineiramente esses cantos assombreiam a hora em que me deito, exaurida e assombreada pela lua que é o sol de toda escrita.
Assombreio o desenho da boca com batom vermelho, os olhos assombreio com a luz do despertar que se reflete no espelho.
Sigo assombreando a nuca com o dedo embebido de perfume, hoje é almíscar.
Almíscar que assombreia o caminho da abelha e da borboleta, almíscar assombreada pelo vento que leva o evaporamento da essência assombreada pelos raios de sol.
O dia passa, dia cheio de luz e sol.Mas quantos sois são necessários para derreter o assombreamento que plantaste em meu ser?
Pergunto a mim mesma quando os olhos florescem no espelho, de novo o espelho.Aproveito para assombrear a boca, retoco os lábios vermelhos assombreados pela lembrança dos teus beijos.
Caminho de volta para casa, o sol já se despediu há horas e meus pensamentos assombreados de emoções navegam em direção à Lua.Assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.
Assombreada pela lembrança da luz dos teus olhos para diante a cantina.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia o pescoço e me protege do vento.
Meu coração assombreado pela hipótese do muco assombrear a testa se aconchega e estabiliza.
Mas nem toda lã é suficiente para derreter o assombreamento de uma paixão.Te vejo,você me olha assombreado por tua namorada.
O brilho de estrelas dos olhos se encontram, assombreados pelo instante de consciência do que é. A consciência assombreada repentinamente pela lembrança do que foi.
Meu coração se assombreia mais ainda, me levando ao impulso natural de subir as escadas da cantina em direção ao seu encontro.
Vejo as estrelas dos seus olhos se dilatarem feito cratera no espaço.Sua mão assombreia a pele da namorada que me abre um luminoso sorriso.
O assombreamento do espaço de corrente de luz que habita o distanciamento dos nossos corpos me envolve de calor latente.
Escuto teu coração no meu pulso.Me aproximo e deliciosamente assombreio tua pele do rosto com meus lábios assombreados de vermelho.
Me deleito com a visão de boca vermelha que assombreia tua carne ao lado da namorada.Teus olhos de estrelas me olham e mergulham dentro de todas as paredes do meu ser.
Iluminando todos os assombros empoeirados que habitam meu ser nas últimas tardes.
Continuo te olhando, amor...Enquanto converso docemente para que não notem minhas assombrosas bochechas vermelhas.
Assombrosamente você puxa uma cadeira para que eu me sente ao teu lado.Eu êxito um pouco, mas acabo te cedendo mais alguns minutos de minha presença assombreada pela viva lembrança da união dos corpos.
Converso e assombreio a boca e o sangue com vinho cada vez que a sombra das luzes dos nossos olhos se amam no espaço.
Já não sei mais o que penso, já não sei mais o que sinto.Escrevo a sombra do pensamento, do teu pensamento que me assombreia enquanto me escuta neste momento.

3/28/2007

Loura madrugada - Luciana Chaves

Na loura madrugada
o prazer impregnado
no batuque

cachoeira sobre o corpo

Na madrugada sonhada
tudo se refaz
medo se desfaz
e permanece

Tua presença é luz
cintilando em minha pele flor

saltitando o meu pulsar
recriando meu tesão

Tua voz
harmonia perfeita
puxando meu samba
carnavaleando
meu prazer

Na loura madrugada
tua presença é luz
cintilando minha pele flor

Prazer impregnado
no batuque
saltitando o pulsar
recriando meu tesão

Na madrugada sonhada
cachoeira sobre o corpo
banha alma
o medo me desfaz
e o desejo me lateja

onde é que festeja
sem latejar
tua presença?

Na doce madrugada pagã
tua voz é perfeita harmonia
em excitante cadência
repuxando o samba em mim
em mim

carnavaleando o prazer

Revoa




Pra tudo
tem uma segunda chance

você me bateu
eu te arranhei

você rasgou
minha coleção
de folhas secas

você arrancou o único botão
da minha blusa

você me jogou no chão
e eu te bati

você puxou meu tapete
e eu puxei sei cabelo

você gritou comigo
e eu murmurei
com raiva

você me assustou
eu te denegri

você bebeu o meu veneno
e eu escondi o antídodo



Mas se
nos esbarramos
intimamente
no silêncio
de nossos sonhos

estivemos perto demais

se dói em mim
dói em você

porque pisamos
na alcova
um do outro

porque dividimos
a mesma asa da borboleta

porque fomos
juntos e unos
muito convictos
do não

porque apontamos
para o mesmo caminho

porque dividimos
o mesmo reflexo
no rosto parado das águas

porque de áspera e ânsia

a vida revoa

até uma folha

e foi tudo muito sentido

para não ser real
a vontade de voltar


vol
ta

nem que para uma segunda
vez

da primeira
*Lygia Pape

3/27/2007

*Ana Mendieta


Você pediu, com muita doçura que eu observasse o céu e olhasse o prazer das gaivotas sentindo o vento. Com seu sorriso você me pedia muita esperança. Mas ontem quase não levantei da cama, mas ontem eu quase fiquei no escuro sem acender a luz. Mas ontem, ontem me tirou o sol de hoje.Foi isso. E enquanto você pede e tem certeza da luz que entra pelas janelas, eu fecho a coritna e choro com medo de mais nuvens.

Dos olhos

Seus dois olhos diante de meus dois dor-olhos. No seu, havia duas lanternas verdes. No meu, dois últimos túmulos, duas margaridas murchas e uma nesga de fé. Que de encontro ao teu mar-olho ficou com vergonha e chorou.

O brilho da verdade*


Cura. Em alguns tons, ela se dissolve em leveza e asasde borboleta; em outros, vem da cachoeira daslágrimas, separações de corpos, sonetos rasgados,contratos assinados. Ela é a altura da queda. Esclarecida por serinteiramente, a cura é a verdade que brilha. Mesmo que ela traga em seu histórico confissões, dores,palavras-buraco, ausências e a foice. A cura é o corte. São aqueles dois braços olhados, percebidos de veia, força e verdade.Toda coisa verdadeira traz consigo um pouco de húmus,restos, sementes, túmulos, tempestades, alvoradas. A alvorada é como uma cura, um suspiro depois do cansaço.

A poesia de Enzo não finge um sorriso, não acena uma ida. Ela atravessa o interior da fruta e cospe ocaroço. Não é uma estrela brilhante por natureza, é uma estrela que percorreu todo o redemoinho da dor para chegar à luz.Quem nunca mostrou o corte da ferida, não pode descobrir o remédio. Quem não se rendeu à poesia de um velho pneu furado, não pode contemplar a via Láctea. Não pode porque a beleza é o que cintila e colore dentro da verdade. A poesia de Enzo é uma das mais belas reuniões de verdades. Não veste máscaras. Devolve ao cruel apontar de dedo social, o âmago da realidade que vivemos. E por que afinal estamos em meio a resíduos de nós, ao invés de todos estarmos embrenhados nas florestas da Cura?A verdade está na bolsa dos escafandristas; a verdadenão tem medo de cortar porque ela sabe que a faca apesar de cortar, pode acariciar a forma e desenhar embalos de mães.A verdade é tão dolorida que purifica, é cavada comtanta intimidade que purifica. Mesmo suja e cinza como o céu de Afeganistão, a verdade voa. Mesmo incrustada de sentimentos e vazios, mesmo oculta de medos e rasgos, a verdade voa. “Pois até os urubus são belos nos largos círculos dos dias sossegados”-CecíliaMeireles.

A poesia de Enzo remove a camada dos remotos adereçoshumanos. Revela, fere, aponta, mas também beija,acalma, entristece e dorme. É a vida do caos. Não entra de mansinho. Invade o quarto, afinca a terra,estia a bandeira, arranca a costura e deixa o trapo.Deixa a tempestade sem passar, deixa a tempestade e o barco dançarem.Como na obra de Turner, toda a sua aflição, todo o seu testemunho sobre fantasma, sobre nosso lado mais penugento. As palavras vivas de “Cura” não mimam, não cuidam, não adocicam. Apenas removem as amarras e couraças do mundo e revelam. Revelam aquilo que todos nós precisamos ao menos perceber, chegar perto e sentir. Mas isso não significa sentir prazer. A revelação de algo em nós é tão surpresa, que nos treme inteiros.


-Texto para o Prefácio do novo livro de Enzo Potel intitulado de "Cura"

3/07/2007

Rio do Choro


Chorei um choro leve

de quem carrega a vida

sem pressa


algo como um sonho

bobo de você


sonhei um choro

exausto

que sumia ao largo

da estrada


chorei teu choro ofegante

um tango


chorei um choro por ti

pra te matar no escasso

de um amor virado


Ao pé do redentor

minhas lágrimas

em véu


Chorei a pronúncia

de uma

grande lácrima

que muito arriada


vira um rio

sem foz

Imorais



O bicho do lobo homem

suicidou


No buraco que caíste

puxaste meu amigo


esse que pára

no ar


pára-paira


O doce do musgo carvalho

meu amigo é um beija-flor

existe pela própria

primitiva existência

cria


bate asas vezlozmente

mais que você

mulher-buraco


Ele

que enquanto o mundo grita

e a morte emudece

despe-se da rispidez


Ele

que com a bravura

da leveza

arranca a roupa

do luxo-consumo

e remove

a camisa do medo


Ela

que mostra

o cárcere

a fim de dar a flor do ânus

para o mundo


Ela

que

sorri

no seu

ânus

ônus


flor


Ela

que livre da morte

é somada a tentativa

de golpe

pela imoralidade

de outrém


(para o ele que é ela e vice versa)

Hilda Hilst



" A solidão tem cor, é roxo escuro e negro..é como se você fosse andando...uma vasta planície, vai andando vai andando, é tardezinha há até uma certa euforia, um vínculo entre você e aquela extensão...De início parece areira, brilha um pouco, vai anoitecendo..."
Imagem sobre o trabalho de Saveria Vicarini


Mariana S. da Silva

relato de uma inspiração ofegante

Soprou o vento

guardanapos sobre a mesa

rezei pra poder
pegar a festa

a seresta desta noite
xadrez
não reisisti
peguei um e saí


deixei-te a olhar

os guardanapos
no chão
o olho irmão vago
te atraiçoou a minha saída


um poema vale uma fuga

César Félix


Gaste o amor a mãos cheias


O amor é o único tesouro

que se multiplica por divisão

é o único dom que flumenta


Quanto mais você tira

quanto mais você gasta

mais se ganha


Doe-o, difunda-o,

espalhe-o aos quatro ventos

esvazie seus bolsos

sacuda o cesto

embarque o copo e


desande a amar...

Resposta espelhada


Quem é você

que me olha

assim de

modo tão inquisitor?


Que me perscruta o íntimo

quando na verdade

quer conhecer a si próprio?



Não pergunte para mim

as respostas

que estão dentro

de você



eu sou apenas

uma pálida imagem

refletida

daquilo que você

gostaria de ver




Eduardo Bermoso Neto (em uma mesa de bar à beira-mar)


Acima imagem de Letícia Cardoso-"gotas"

" A beleza é o brilho do que é verdadeiro"

Joseph Beuys

3/06/2007


Joseph Beuys

Cadeados

Te trago na palma da mão
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida

Me sobraram
alguns restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores internas

Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso quebrado
as lagrimas secas
e as penas de mandar embora
o pó dessa última história

Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe

Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre
só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores

que a memória me cadeou

Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada

Há na garagem de mim
Caixas abertas
varais enozados
E perdas de tempo

Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto

Nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas

Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou

Cadeados

Te trago na palma da mão
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida

Me sobraram alguns
restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores
internas

Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso
quebrado
as lagrimas secas
e as penas
de mandar embora
o pó dessa última história

Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda

Na perna,
quase sempre só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou

Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada

Há na garagem de mim
Caixas abertas varais enozados
E perdas de tempo

Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços

Há a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto

Há nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas

Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou

2/27/2007

Galpão das Artes

É preciso que a noite esfrie
para que o sol chegue

É preciso que a idade chegue
para que a pressa acabe

É preciso que a pressa acabe
para que as rugas marquem

É preciso que as rugas marquem
para que a sabedoria permaneça

É preciso que a sabedoria permaneça

as rugas marquem
a pressa acabe
e o sol chegue

para a graça ficar de vez

Penúltima

Quando a forma
da sua presença
se fez suspiro
e ausência


Quando notei
que te pedia
mais um minuto


Quando anoiteci
ao te esperar
com uma travessa
de gestos e formas

-especiarias

Quando querias
e eu não queria
aceitar mais
o nosso não

quando te aboli
do sistema sem nervo
e me atraquei
no esfumaçado
e desesperador
ar
da tua falta

Quando pediste
um dedo e eu
por proósito
e sem rumo

te dei todo o resto
do importuno
ao taciturno
leve e densa
calda de açúcar
vincada em mim

quando me prometi
ser a última vez
que puxavas
o meu vestido

E me " reprometi"
sempre que você fosse
embora

a última vez

2/21/2007

Beira- Para Gaston

foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca

Estou
à beira da caverna

pedras pedras

repito seus nomes
entre chumaços
de musgos

quero gritar você

quero gritar

cuspir

a sua última gota

vou entrar na caverna

vou deixar um pouco de mim
aqui fora

e pegar o resto
dos restos meus

que sobraram guardados

lá dentro

Por linhas tortas


Foto sobre o trabalho de Fernando Baena



Daí,

quando terminou
a construção da casa

veio a enchente

Poema para um diploma inútil

Tua vida conquistada
na estante
corroída pelo cupim


Tua sauna
troféus títulos currículos
e diplomas
enquadrados
no esquadro solitário
da sala abandonada

Tudo está no chão
no sfá e no degrau

toda a vida gloriosa
e estagnada no teu desleixo


Tu terias te escolhido ouro

se de fato
teu olho consciente
tivesse recebido e percebido

o mérito

A voz da porta-Para Luciana Chaves

Foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca


Você deixou aquela voz
trancada na porta

Não posso mais abrir

não posso mais sair

a minha garganta fincada
na tua tranca

não posso abrir a porta

você trancou a nossa sala
nossos objetos
delitos
e perdas
marcadas no meu olhar

não posso abrir a tranca

a nossa voz
tantas vezes uma
tantas vezes mais de duas

a nossa voz ficou no vão
de uma passagem

passou pra você também?

a nossa voz
ficou presa na saída

Atado foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca


Se você abre
os braços

e não aproxima
seu corpo
do meu

não posso acolher sua história

se você pisa um dedo
e logo salta com medo

não posso afagar sua alma

se você estrela
entre minhas entranhas
de noite e prazer
e se salva sem adeus
dos meus
membros-mar


não posso te mostrar minha
constelação

se você caça
e come

se você corre
e arranha

se você se esconde
tão próximo de mim

é porque você quer
me embaralhar

mas você só pode querer
pegar
este mesmo vagão

Se de outro lado
eu troco os bilhetes
escondo as tranças
caibo no chapéu

e a vida nunca erra você de frente

é confronto
é linha
é nó

E você encontra a agulha
mas não costura
a ferida

você deixa o cheiro
mas não acende a vela

você zopila
a medula com beijos
e não abotoa a camisa

é confronto

é linha

é atado
Foto sobre o trabalho de Maria Ivone dos Santos


---------

As mãos duas

agarram o poste

é a sua imagem
parada sobre a montanha

é a sua
resistência
aflita
de um vento chegado

a seta aponta
e caneta estourada

janela aberta
uma a uma

duas mãos inconcisas
seguram
o inseguro
Era um bolinho de açúcar em cima da pia. Gritava um líquido sua doçura. O açúcar queimando a doçura. O açúcar passado do ponto. A mesa pedia uma bebida doce. O açúcar montinho se afastava da jarra cheia. O açúcar montinho brilhava a espera esperançosa do líquido ideal.

Aguarde


Perto da roupa
que mofou

uma ausência

pronta para vestir
a incerteza

da sua volta




Foto sobre o trabalho de Laura Miranda

Contra olhos

estes óculos
infelizmente
não podem
me vedar do mundo

você pode fingir que eu
não passei por aqui?


essa mulher que remexe o lixo
cheia de rugas
mesmo que eu tape os olhos
pode ver a dor

pesando na linha
torta
da minha coluna

não posso gritar
não devo fugir
não posso arrancar a página


está tudo aqui

mesmo que queime
mesmo que junte e tente
fazer destes restos
um adubo

mesmo as mãos
que já não podem segurar
os dedos


as roupas mofaram
o sapato furou
o tempo parece
ter acabado

já arranquei os fios
já tapei a peneira
sem sol

entreguei a carapuça

e estou remexendo
o lixo

O avesso da ágata


" A mentira é dita com os olhos brilhantes de uma criança"-Enzo Potel

Aviso

Não sou
esta perna manchada
de sensualidade

Não sou essa mulher
que quer pegar
você

Não sou a mulher que quer
ser consumida
por ninguém

Eu não disse
que um dia seria

Não sou a bandida
que quer roubar
aquilo que veio com você

justamente com você

de outrém

Não sou essa mulher
de batom vermelho
e seios e nádegas
à mostra

não quero nada
que eu não queria com o meu corpo

Não quero que ninguém me queira
por nada
por me comprar
por me pagar

não sou essa mulher
não sei se sou mulher

não sei se escolhi
estar na vitrine

não quero ser
à mostra

não sou esta que coloca
o zíper na garganta
para alguém vir abrir

se eu quero
eu abro

não sou essa mulher
que quer mais
do que quer

eu apenas ponho os pontos nos " is"
é você
quem não leu direito
o meu último contexto

é você quem não entendeu nada
porque não quis entender

é você quem não viu
porque eu estava presente


e eu lá posso ser julgada
se eu escolhi bem aquele
caminho
que você jamais traçaria
sem culpa?

Eu não sou isto

eu sou aquilo que você acha
que não pode acreditar
que sou

e eu falei muitas vezes
e eu assinei muitas vezes
o contrato da verdade

quando errei
eu também confessei


e eu lá tenho culpa
que você tem medo
de eu

ser eu?

1/16/2007

Foice- por causa dos direitos de cada um

Por cima das nossas cabeças
Nuvens

A embreagem trancou

Tenho uma certeza
De fome
Menosprezada
Pelo serviço

Ceifam o trigo
E a nossa foice
Somos nós

No mesmo chão
Na mesma esquina
E você vem me apontar
A arma da discórdia

Vivemos no mesmo clarão
Sob o mesmo e inesperado
Sistema
Que nos ativa a briga

Balas de cego
Balas da sua boca
Balas para escurecer
E encobrir a visão

Estamos sob a mesma
Chapa quente
Dividindo
A mesma fome
e você ceifando
Minha única visão
De vento para o chumbo
E você ceifando

A minha única certeza
De me alimentar

Estamos sob o mesmo
Chão
Na mesma esquina da miséria
E você sempre julgando
A sua dor
Maior que a de todos

Você atira na polícia
E arregaça
Seu limite

Você entra na cadeia
De pulseira e correntes
De Paris

Você veste amostra grátis

Você tem uma casa
E eu não
Você pode comer
E eu não

Mas nós estamos sob
A mesma certeza
De que vamos morrer

Mas não agora

Nós estamos
Sob a mesma pele

Nós estamos com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora

Então não ceife
A minha última chance
De eu me alimentar

Nós estamos sob o mesmo céu
Com a mesma dúvida
Sobre a tempestade

Então não mate esta última chance
De eu me alimentar

Nós estamos sob o mesmo céu

Você tem tudo (dor)
E eu nada

Você tem uma casa
E eu não,
Você pode comer
E eu não

Mas nós estamos
Sob a mesma pele
Com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora

Todos nós estamos ceifando
Não seja você a foice
Não faça da sua
Uma tragédia
Não force ninguém
Não seja você a foice

Porque nós estamos
Sob o mesmo clarão
Com a mesma vontade
De ver o sol

Não ceife a minha certeza
De ter fome
E poder me alimentar

11/08/2006

Cort e

O pedaço de pano amarrado na perna. Ela queria se livrar, abrir a tampa do vidro.Era preciso arrancar a raiz.Doía muito arrancar de uma vez, e doía muito arrancar aos poucos.O pedaço de pano.Cheio de cera de abelha.O pedaço esmagado pelo movimento.Queria arrebentar o laço. Queria adoecer a doença, matar aquela parte.Queria uma sombra ou uma arma. Um encosto ou uma solução aquosa.Queria molhar o pedaço de pano.Queria vedar a boca.Não responderia mais nada.Que observassem. Que observassem ela, seus gestos, sua língua, sua vesícula, seu estômago, sua febre. E que silenciassem apenas. Que silenciassem diante da sua gosma viva, da sua fraqueza, da sua desistência. Que perna amarrada perante todosfosse um testemunho. Que o decepar do membro fosse explícito. Era preciso soltar a fera que ardia o pano encerado.Que não perguntassem mais nada nada.Que a deixassem ser a lamúria, ser o breu do fim da noite, ser o bueiro, ser a lama.Que absolvessem, cruscificassem, aplaudissem ou a deixassem de vez. Que vissem nela aquele pedaço arrematado. O pedaço marcado por seus próprios dentes. Que pudessem enxergar, que ela não conseguia tirar aquela parte, que ela tentava enterrar o membro mas que ele lhe rogava a pele, puxava-lhe os cabelos, e se deitara com ela antes de se enozar em seu corpo.Que o pedaço de pano encerado amarrado na perna era uma crosta, um germe, uma fecundação, que ela não conseguia se livrar .Que o pedaço de pano na perna dolorida se alimentava de sua morte, de sua lágrima, de sua ritmia cardíaca. O pedaço de pano de aço havitava dentro dela, mais que a perna.O pedaço dela.A perna inteira ficou perna trapo.E era ela quem tinha amarrado e era ela quem ia ter que corta r.