
7/23/2007
7/19/2007
Para a parede do seu quarto
E de repente
tudo a sua frente
vai sedimentando
em um enorme espaço negro
e o que se vê
são suas duas mãos
cheias de marcas
marcas de corpos
entre suor e sal
sementes que desejam brotar
duas lembranças
de suspiro e água
o círculo que movimenta
suas falanges e suas vitórias
o círculo que roda
o tempo
a água que invade
a lavagem dos seus sonhos
a paisagem que habita
entre os seus dedos
quando tocam no chão
perante o cais
perante o abismo
perante a camada de ozônio
o desejo de paz
entre suas duas mãos
o buraco negro
o reluzir
o reluzir
de uma estrela
que escolheu o seu íntimo
e as suas mãos
para habitar o mundo
tudo a sua frente
vai sedimentando
em um enorme espaço negro
e o que se vê
são suas duas mãos
cheias de marcas
marcas de corpos
entre suor e sal
sementes que desejam brotar
duas lembranças
de suspiro e água
o círculo que movimenta
suas falanges e suas vitórias
o círculo que roda
o tempo
a água que invade
a lavagem dos seus sonhos
a paisagem que habita
entre os seus dedos
quando tocam no chão
perante o cais
perante o abismo
perante a camada de ozônio
o desejo de paz
entre suas duas mãos
o buraco negro
o reluzir
o reluzir
de uma estrela
que escolheu o seu íntimo
e as suas mãos
para habitar o mundo
Paraty

Paraty
Um homem imita um gato
uma lesma piedosa
desenha o chão
fica presa nas pedras
janelas com horizontes
de mais janelas
canoas
igrejas e doces
esquinas
grandes aberturas para o ver
azul e amarelo
branco cinza
raspagens
buracos embelezados
e paredes mais firmes que o pilar
portas abertas
palavras manuscritas
que passeiam
silenciosas
entre os objetos
nomes já sabidos
registrados na primeira
e última passagem
balões multicoloridos
crianças
cachorros
trogloditas
umidade
risos soltura
leveza e tropeços
caminhos
uma poça deixada pela
maré
que subiu
duas poças
um espaço
e um banquinho
para sentar
e se deliciar
Um homem imita um gato
uma lesma piedosa
desenha o chão
fica presa nas pedras
janelas com horizontes
de mais janelas
canoas
igrejas e doces
esquinas
grandes aberturas para o ver
azul e amarelo
branco cinza
raspagens
buracos embelezados
e paredes mais firmes que o pilar
portas abertas
palavras manuscritas
que passeiam
silenciosas
entre os objetos
nomes já sabidos
registrados na primeira
e última passagem
balões multicoloridos
crianças
cachorros
trogloditas
umidade
risos soltura
leveza e tropeços
caminhos
uma poça deixada pela
maré
que subiu
duas poças
um espaço
e um banquinho
para sentar
e se deliciar
*foto eu entre as flores que encontrei em Paraty:Lays, Aninha, e a Deise Pacheco que fotografou!Bjos
Já passou
Já passou
e o hálito do seu arrependimento
atordoa
como um sangue de menstruação
velho e fétido
impregnado na calcinha sem troca
e o hálito do seu arrependimento
atordoa
como um sangue de menstruação
velho e fétido
impregnado na calcinha sem troca
Rói o rato
E os ratos da sua casa eram tão gordos que andavam rebolando devagar e sem pressa. Entre já os chumaços de pêlo branco, os vizinhos se perguntavam se era uma rata prenha, um rato velho ou uma raposa bem vivida.
7/07/2007
Seu nome escrito
na porta do quarto
pedras
pedras pedras
até chegar a sua casa
seu quarto
sua cama
sua marca
sem sua presença
barcos presos no cais
a sua alianca brilhante
presa ao dedo
com vontade de romper
na minha direção
seu afago
e o furor do seu corpo
que difuso
ao meu
após
me impediu
de sorrir
você está atadado
o quarto está vazio
mas está cheio de você
pelas paredes
e o seu ar vem assombrando
entre os estrados da cama
me atormentando
me atormentando
você está ancorado
mas não está seguro
você está aliado
mas não tem mais prazer
minha aliança é o barco
já pequeno na lonjura
desancorado
afundou
eu sou um barco
tufão
criei musgos de partidas
que nunca partiram em mim
criei uma crosta de proteção
que no iníco era uma segunda pele
fina e tênue
e levantei o rosto
fingindo ser de louça pálida
mas a a verdade é que seu barco no cais
arranhou as jangadas
e a paisagem livre
que eu dançava solta
você me puxou pro mar
e o verde se alastrou em vermelho
um vermelho que me cegou
me fez perder os passos
confundir os pés
não estou olhando para cima hoje
não, não vou ver lua
só vejo esta crosta
em brancos sujos
se derretendo
me deixando mais uma vez
nua e com frio
só vejo o cais
e o seu barco
preso na âncora
me corroendo de vontade
longe de mim
na porta do quarto
pedras
pedras pedras
até chegar a sua casa
seu quarto
sua cama
sua marca
sem sua presença
barcos presos no cais
a sua alianca brilhante
presa ao dedo
com vontade de romper
na minha direção
seu afago
e o furor do seu corpo
que difuso
ao meu
após
me impediu
de sorrir
você está atadado
o quarto está vazio
mas está cheio de você
pelas paredes
e o seu ar vem assombrando
entre os estrados da cama
me atormentando
me atormentando
você está ancorado
mas não está seguro
você está aliado
mas não tem mais prazer
minha aliança é o barco
já pequeno na lonjura
desancorado
afundou
eu sou um barco
tufão
criei musgos de partidas
que nunca partiram em mim
criei uma crosta de proteção
que no iníco era uma segunda pele
fina e tênue
e levantei o rosto
fingindo ser de louça pálida
mas a a verdade é que seu barco no cais
arranhou as jangadas
e a paisagem livre
que eu dançava solta
você me puxou pro mar
e o verde se alastrou em vermelho
um vermelho que me cegou
me fez perder os passos
confundir os pés
não estou olhando para cima hoje
não, não vou ver lua
só vejo esta crosta
em brancos sujos
se derretendo
me deixando mais uma vez
nua e com frio
só vejo o cais
e o seu barco
preso na âncora
me corroendo de vontade
longe de mim
6/29/2007
Trêmulo
Vozes que ocupam
Todo encanto
Que quer pairar
Vozes que seguem
Falando em silêncio
Ruídos
Ranços
Pratos
Acordos de discórdia
Tratos
Em tentativa vã
De permanecer
O tremor que aflige
No querer segurar
E no precisar soltar
A planície que grita
Uma mensagem
Ao léu
Duas heranças de choros
Inconsolados
Risos que nunca terão
O mesmo som
E a mesma doçura
A bravura que atordoa
O mundo
a pena
A pena do ser sobrevivo
O ruflar de suspiros
As gotas prometidas
E borradas em uma assinatura
Os júbilos
E os fracassos
A auto-amarração
O breque da despedida
As peças sem concerto
A ofegante chegada
gavetas e a prateleiras
Escondidas na memória da estante
As imagens e os batuques
Lanças que atravessaram
Em mim
Quantas vezes o choro
Me apalpou
Quantas mãos que trouxeram
Enigmas
Bússolas
trilhos
e entradas
Tremo para o maior
Tremo para o menor
O que me causa
O que me oscila
O que me arranha
E me suspende
Tremor
O que há pode detrás do ver
O trinco do vidro
Que nunca quebrou
A peça faltante
Tremo em faíscas
Tremo em incertezas
E em certezas
As vozes as vozes ocultas
Que o mundo deserdou
Estão contidas
Nas palavras exprimidas
Da minha mão
Entre uma folha
uns dedos
E a tinta
A tinta que borra meus ideais
Na venda
No morro
Um olho que me mancha
Com amor
E as mãos do senhor
Que conta os pães
As mãos que cometeram uma infâmia
A pedra
A pedra
Que preenche o caminho
Com marcas de sombras
Deixadas pelo sol
O andar ao cume
O descer a lama
O mundo me treme
O menino assustado
Do tráfico
Trêmulo
As vozes das coisas
Que estão ocultas
Ao primeiro toque
E que confessam a fusão
Trêmulo
O medo de querer alcançar
E as pernas bambas
Da chegada
Armas que se fundem
Brilhos que encantam
Para a morte
Balas de luz
Êxtase no escuro
Línguas
Desafios
Canos e granadas
O que você esconde
E o que você mostra
O que você finge
E o que você é
Uma palavra que ama
Uma raiva que perscruta
E atinge com fuzil
Um afago e um corte
Um tapa e um arranhão
Um olho sem vida
Trêmulo
Suas armadilhas
Suas emborcações
Sua justiça e sua injustiça
A partir de si
Vendas que vedam a voz
E a voz treme
Como um bater de palmas
Um aplauso
E um gargalho
Espaço vazio
Uma coleção de borboletas
Mortas
E uma luz que arregaça a janela
Em vibração
A voz corroída e cansada
Que espera no canto de todo
Íntimo
Um canto
canto
Trêmulo
Açúcar e fel
Na mesma receita
Todo encanto
Que quer pairar
Vozes que seguem
Falando em silêncio
Ruídos
Ranços
Pratos
Acordos de discórdia
Tratos
Em tentativa vã
De permanecer
O tremor que aflige
No querer segurar
E no precisar soltar
A planície que grita
Uma mensagem
Ao léu
Duas heranças de choros
Inconsolados
Risos que nunca terão
O mesmo som
E a mesma doçura
A bravura que atordoa
O mundo
a pena
A pena do ser sobrevivo
O ruflar de suspiros
As gotas prometidas
E borradas em uma assinatura
Os júbilos
E os fracassos
A auto-amarração
O breque da despedida
As peças sem concerto
A ofegante chegada
gavetas e a prateleiras
Escondidas na memória da estante
As imagens e os batuques
Lanças que atravessaram
Em mim
Quantas vezes o choro
Me apalpou
Quantas mãos que trouxeram
Enigmas
Bússolas
trilhos
e entradas
Tremo para o maior
Tremo para o menor
O que me causa
O que me oscila
O que me arranha
E me suspende
Tremor
O que há pode detrás do ver
O trinco do vidro
Que nunca quebrou
A peça faltante
Tremo em faíscas
Tremo em incertezas
E em certezas
As vozes as vozes ocultas
Que o mundo deserdou
Estão contidas
Nas palavras exprimidas
Da minha mão
Entre uma folha
uns dedos
E a tinta
A tinta que borra meus ideais
Na venda
No morro
Um olho que me mancha
Com amor
E as mãos do senhor
Que conta os pães
As mãos que cometeram uma infâmia
A pedra
A pedra
Que preenche o caminho
Com marcas de sombras
Deixadas pelo sol
O andar ao cume
O descer a lama
O mundo me treme
O menino assustado
Do tráfico
Trêmulo
As vozes das coisas
Que estão ocultas
Ao primeiro toque
E que confessam a fusão
Trêmulo
O medo de querer alcançar
E as pernas bambas
Da chegada
Armas que se fundem
Brilhos que encantam
Para a morte
Balas de luz
Êxtase no escuro
Línguas
Desafios
Canos e granadas
O que você esconde
E o que você mostra
O que você finge
E o que você é
Uma palavra que ama
Uma raiva que perscruta
E atinge com fuzil
Um afago e um corte
Um tapa e um arranhão
Um olho sem vida
Trêmulo
Suas armadilhas
Suas emborcações
Sua justiça e sua injustiça
A partir de si
Vendas que vedam a voz
E a voz treme
Como um bater de palmas
Um aplauso
E um gargalho
Espaço vazio
Uma coleção de borboletas
Mortas
E uma luz que arregaça a janela
Em vibração
A voz corroída e cansada
Que espera no canto de todo
Íntimo
Um canto
canto
Trêmulo
Açúcar e fel
Na mesma receita
6/27/2007
O vidro de choro verde
Essa chuva verde
teu travesseiro acaba de chorar
chora folhas
molha os tecidos
torce em pingos
verdes pingos
essa fragancia
que quebrou
junto à morte
de uma margarida
em vaso de plástico
uma margarida que
se dissipava no vento
e o frasco do seu choro
transbordou
dos olhos
todas as matas
que escorreram
o verde
que tomaram
a chuva
e alagaram
tingindo a mancha
de uma mata devastada
dentro de ti
foto: Fernando Angeoletto
6/19/2007
Travesseiro de estrela-*

calma estrela
que preenche o seu travesseiro
ao descansar você abandona
as manchas
da parede
procura buracos no teto
para conseguir
dizer
a
deus
nas suas manhãs
o alaranjado preenche
a varanda
e a lareira
o alaranjado iluminado e bruto
das manhãs
as madeiras cheirosas
que seguram a casa
me lembram
o abraço
o abraço entre seus pilares
suas intimidades
mais íngrimes
ficam fogem
das minhas mãos
e eu encosto entre o céu
e espero a estrela sair
do seu travesseiro
e estender no jardim
o sol
*Poema musicado por alegre corrêa
6/11/2007
Reconfissão

Posso ficar um pouco aqui para sempre?Aqui, grudada nesta cadeira com o estômago vazio?Você me perdoaria?Parece que estou presa na cadeira até terminar de pensar. Você me amaria mesmo eu sendo a ferida que mais te arde?Você me perdoaria se eu desse as costas enquanto você fala uma palavra em florescência?Você seria capaz de ver que apesar de te cortar, meu infinito por você é maior?Você aceitaria saber que o que tenho para você, é de rara beleza cristalina e que está atrás de colinas entre arbustos árvores e folhagens, e que eu me aventuro poucas vezes para não perder a essência do sagrado entre nós? Você deixaria eu ir embora sem sentir vontade de voltar?Você entenderia que vivo a transbordar pelos cantos e que explôdo inconsciente?Que não consigo segurar o murro, quando ele me brota?Você pode me aceitar em pedaços?Em sobras de mim?Em cascas de mim?Você me amaria mesmo assim?Você beijaria aquilo que mais renego me fazer parte?Você seguraria minhas duas mãos e tentaria achar e me salvar do precipício?Princípio. Você e seus dedos de faca.Você e essa nuvem regada de tempestade, o seu regador é contínuo, é forte, não cai. Você rega o ferrão. Você alvoroça a primeira carniça livre das amarras. Você prende os pássaros e ata com laços de fita de cetim lilás o bico do passarinho. Você fica olhando o sofrimento e se vangloriando de não ser você o recorte da morte. Você é cheio de escárnio no pensamento. Você brota mau cheiro e enterra a semente no barro seco de uma estrada sem passagem.Você trama, você grita, pede socorro, mas não consegue atender a mudança esmurrando incansavelmente sua porta de entrada. Você foge dos sorrisos mancos.Você não aceita meu sorriso escancarado porque ele é cariado e desinibido.Você quer ver onde estão minhas obturações?Você ainda consegue rir junto ao meu riso doente de expectativas? Eu queria ir sem a culpa de te despedaçar.
Posso também não ir embora. Vou voltar a te confessar isso. Você perdoaria meu silêncio?Você aceitaria minhas raivas espontâneas com o mundo, e minhas pequenas risadas sem limites de expressão?Você está vendo que no meu sorriso sobram cáries?Cáries de discórdia.Você afagaria meu rosto e me ofereceria o peito mesmo eu tendo quebrado seu plano mais promissor?Você me ofereceria um copo d'água e um abraço caloroso mesmo eu sendo condenado ä prisão perpétua?Por um crime hediondo?Eu queria ser clara e límpida como a água de um riacho que corre, corre, sem desespero ou revolta, sem alvoroço de chegada. Mas sou do lodo e do líquido, do delimite entre gasoso e líquido, sou porosa, penugenta e medrosa. Sou sem fim. Você aceitaria minha não certeza?Minha não absoluta certeza?Você aceitaria meu muro de areia movediça?Você ainda me amaria em sua cama, mesmo eu tendo explorado seu último e único centavo?Mesmo eu deixando as dívidas da minha família para você pagar?Você me amaria como no fim de nós dois?Você me perdoaria se eu revelasse que o meu desejo maior só se entrega a você quando estou com os braços presos e os olhos com dúvida?Você passaria os dedos entre minhas pernas mesmo que eu te desmoralizasse no seu bairro inteiro? E diante toda sua Cidade?Você possuiria ainda amor por mim?Você me desejaria se eu cuspisse em suas jóias, arrancasse suas vestimentas e fios de prata e despisse sua ironia a la uísque?Você aceitaria me penetrar olhando em meus olhos mesmo não me querendo para sempre?Você se despiria também de seus deveres e caçaria borboletas comigo, mesmo eu pondo o pé para você tropeçar?Eu matei uma esperança, você ainda me ama?
Você aceitaria que eu vim de um fracasso muito fundo?Daqueles em que se vive o brilho e a fenda.?Desses fracassos que ficam expostos a olho nu, sem remédio aparente. Desses fracassos que ficam esperando a cura. Eu ainda não sarei. Você amaria um enfermo de sentimento?Um enfermo de sentido? Você ainda tem raiva de um próprio passado?Alguém já te bateu em hematomas azulados por dentro? Alguém já te abalou e você ainda dança em cascas de banana o tempo todo? Você também tem um nó de lã gasta e fios embolados como eu? Você me perdoaria se soubesse que quando você me renegou eu te desejei a infelicidade suprema?Sim, eu desejei que você nunca mais fosse feliz. E que quando eu saí da sua vida tinha tanta certeza que não queria mais ver o seu olhar e nem a cor da sua pele, e que hoje eu daria o mundo para passar a mão no seu rosto, mesmo que você já estivesse com os olhos fechados. Eu ainda queria me ver marcada na suas costas. Você ainda me amaria? Você ainda sentiria o mesmo sentido de muitos anos atrás? Mesmo eu sendo este estorvo que ainda almeja o ontem?
Sabe, que muito tempo eu quis a frente, o depois, o futuro e daí eu não soube rir mais do que maldizer. Você me perdoa esse amor que roeu? Essa raiva em blocos que eu te jogava no ar, que eu te pesava as ventanias?Você também errou?Você ainda acha meu pior defeito apenas engraçado?Eu não encanto mais você?Você ainda encanta a mim.Você ainda quer me ver sorrir?Você deseja que eu seja realmente feliz?Você sorri como antes?Com a mesma doçura e pureza? Quem é você?
Posso também não ir embora. Vou voltar a te confessar isso. Você perdoaria meu silêncio?Você aceitaria minhas raivas espontâneas com o mundo, e minhas pequenas risadas sem limites de expressão?Você está vendo que no meu sorriso sobram cáries?Cáries de discórdia.Você afagaria meu rosto e me ofereceria o peito mesmo eu tendo quebrado seu plano mais promissor?Você me ofereceria um copo d'água e um abraço caloroso mesmo eu sendo condenado ä prisão perpétua?Por um crime hediondo?Eu queria ser clara e límpida como a água de um riacho que corre, corre, sem desespero ou revolta, sem alvoroço de chegada. Mas sou do lodo e do líquido, do delimite entre gasoso e líquido, sou porosa, penugenta e medrosa. Sou sem fim. Você aceitaria minha não certeza?Minha não absoluta certeza?Você aceitaria meu muro de areia movediça?Você ainda me amaria em sua cama, mesmo eu tendo explorado seu último e único centavo?Mesmo eu deixando as dívidas da minha família para você pagar?Você me amaria como no fim de nós dois?Você me perdoaria se eu revelasse que o meu desejo maior só se entrega a você quando estou com os braços presos e os olhos com dúvida?Você passaria os dedos entre minhas pernas mesmo que eu te desmoralizasse no seu bairro inteiro? E diante toda sua Cidade?Você possuiria ainda amor por mim?Você me desejaria se eu cuspisse em suas jóias, arrancasse suas vestimentas e fios de prata e despisse sua ironia a la uísque?Você aceitaria me penetrar olhando em meus olhos mesmo não me querendo para sempre?Você se despiria também de seus deveres e caçaria borboletas comigo, mesmo eu pondo o pé para você tropeçar?Eu matei uma esperança, você ainda me ama?
Você aceitaria que eu vim de um fracasso muito fundo?Daqueles em que se vive o brilho e a fenda.?Desses fracassos que ficam expostos a olho nu, sem remédio aparente. Desses fracassos que ficam esperando a cura. Eu ainda não sarei. Você amaria um enfermo de sentimento?Um enfermo de sentido? Você ainda tem raiva de um próprio passado?Alguém já te bateu em hematomas azulados por dentro? Alguém já te abalou e você ainda dança em cascas de banana o tempo todo? Você também tem um nó de lã gasta e fios embolados como eu? Você me perdoaria se soubesse que quando você me renegou eu te desejei a infelicidade suprema?Sim, eu desejei que você nunca mais fosse feliz. E que quando eu saí da sua vida tinha tanta certeza que não queria mais ver o seu olhar e nem a cor da sua pele, e que hoje eu daria o mundo para passar a mão no seu rosto, mesmo que você já estivesse com os olhos fechados. Eu ainda queria me ver marcada na suas costas. Você ainda me amaria? Você ainda sentiria o mesmo sentido de muitos anos atrás? Mesmo eu sendo este estorvo que ainda almeja o ontem?
Sabe, que muito tempo eu quis a frente, o depois, o futuro e daí eu não soube rir mais do que maldizer. Você me perdoa esse amor que roeu? Essa raiva em blocos que eu te jogava no ar, que eu te pesava as ventanias?Você também errou?Você ainda acha meu pior defeito apenas engraçado?Eu não encanto mais você?Você ainda encanta a mim.Você ainda quer me ver sorrir?Você deseja que eu seja realmente feliz?Você sorri como antes?Com a mesma doçura e pureza? Quem é você?
foto: mtfoliveira.blogspot.com
6/06/2007
Longa caminhada por um poema

quero um poema que junte
todos os meus caquinhos
que me desenhe
em pedaços
pedaços que se ausentaram
lascas irregulares
lascas arrancadas
de uma parede
abandonada
quero um poema
que arranhe o sentido
que permaneça
verde em dois
como os olhos mata
amanhecendo em sol
quero um poema que
tenha dentes para sorrir
e caninos para defender
sua esteira de palavras
quero um poema que escorra
nos cabelos
como um banho de lama
açaí e ardor
quero um poema
que fique entre dois corpos
uma só passagem
quero um poema que costure
uma ferida
um poema
que carregue todas as linhas
bordadas em roupas de passagem
roupas que abrigaram o íntimo
e o desconhecido
quero um poema que amacie
o sono
mas que
lembre em penas
a leveza de ainda
dedilhar versos
quero um poema que cante
uma chegada
que assombre a cama do quarto
com tremores vivos
de quem geme o prazer
quero um poema
que piche o horizonte
interno
um poema que grite
no outdoor da avenida principal
eu desejo um poema
que fale o poeta
falando o mundo
pela televisão
em vinhetas coloridas
e banais
quero um poema
em goles bebida barata
e quero um poema com
instruções de uso
para aqueles
que não tem dedos
sutis
para acolher
a poesia
quero um poema
sem dores nos braços
quero um poema com fartura
um poema que não fale
um problema,
mas que descanse os olhos
e a alma
de quem lê
um poema
que fale ao bueiro
e à Imperatriz
que diga a qualquer um
que exista e esteja vivo
vibrando
que fale como um ser vivo
que mostre o sapo morto
e que cheire o chorume das ruas
um poema que traga um suor
e um gozo
um transpiro
e um respiro
e um vôo livre
todos os meus caquinhos
que me desenhe
em pedaços
pedaços que se ausentaram
lascas irregulares
lascas arrancadas
de uma parede
abandonada
quero um poema
que arranhe o sentido
que permaneça
verde em dois
como os olhos mata
amanhecendo em sol
quero um poema que
tenha dentes para sorrir
e caninos para defender
sua esteira de palavras
quero um poema que escorra
nos cabelos
como um banho de lama
açaí e ardor
quero um poema
que fique entre dois corpos
uma só passagem
quero um poema que costure
uma ferida
um poema
que carregue todas as linhas
bordadas em roupas de passagem
roupas que abrigaram o íntimo
e o desconhecido
quero um poema que amacie
o sono
mas que
lembre em penas
a leveza de ainda
dedilhar versos
quero um poema que cante
uma chegada
que assombre a cama do quarto
com tremores vivos
de quem geme o prazer
quero um poema
que piche o horizonte
interno
um poema que grite
no outdoor da avenida principal
eu desejo um poema
que fale o poeta
falando o mundo
pela televisão
em vinhetas coloridas
e banais
quero um poema
em goles bebida barata
e quero um poema com
instruções de uso
para aqueles
que não tem dedos
sutis
para acolher
a poesia
quero um poema
sem dores nos braços
quero um poema com fartura
um poema que não fale
um problema,
mas que descanse os olhos
e a alma
de quem lê
um poema
que fale ao bueiro
e à Imperatriz
que diga a qualquer um
que exista e esteja vivo
vibrando
que fale como um ser vivo
que mostre o sapo morto
e que cheire o chorume das ruas
um poema que traga um suor
e um gozo
um transpiro
e um respiro
e um vôo livre
brinde
em um momento
de prisão
que não hesite em virar
em todas as esquinas
que sobreviva a calçada
e a dor do amor
um poema que ocupe
um lugar concreto
que ocupe uma cadeira
em algum lugar
do mundo
um poema com a certeza
de uma descoberta
e a leveza e liberdade
de um vapor cheiroso
um poema que descasque uma fruta
um poema que amarre as mãos
de quem não é feliz
um poema que faça ver um cego
um poema oração permanente
que não hesite em virar
em todas as esquinas
que sobreviva a calçada
e a dor do amor
um poema que ocupe
um lugar concreto
que ocupe uma cadeira
em algum lugar
do mundo
um poema com a certeza
de uma descoberta
e a leveza e liberdade
de um vapor cheiroso
um poema que descasque uma fruta
um poema que amarre as mãos
de quem não é feliz
um poema que faça ver um cego
um poema oração permanente
sussurada
a cada momento do dia
sem precisar
ajoelhar
um poema sem janelas
e com toda a paisagem
sem maneiras de dizer
e com toda a paisagem
sem maneiras de dizer
sem pudor
ou baton
um poema que corra ao meu
lado
que acompanhe a travessia
em silêncio
um poema sem vergonha
de vestir
e despir
um poema sem afirmação
um poema que conviva
no barulho da chaleira
que converse as águas que
escorrem da louça
um poema borrão do chão
um poema que assente como a poeira
no porta-retrato
com uma pulsão
sacudida
um poema com uma dúvida
que pertuba e desperta
imediatamente
que faça andar a quem está imerso
no parado
ou baton
um poema que corra ao meu
lado
que acompanhe a travessia
em silêncio
um poema sem vergonha
de vestir
e despir
um poema sem afirmação
um poema que conviva
no barulho da chaleira
que converse as águas que
escorrem da louça
um poema borrão do chão
um poema que assente como a poeira
no porta-retrato
com uma pulsão
sacudida
um poema com uma dúvida
que pertuba e desperta
imediatamente
que faça andar a quem está imerso
no parado
que faça rir
a quem quase está
que faça chorar
quem a muito tem amarrado uma vontade
uma confissão oculta
de jorrar todas as pedras
reunidas no meio do corpo
em líquido salgado
torrente que liberta
quero um poema
com uma camada de vento
e brisa
para respirar as ventanas
de quem precisa de mar
nos ouvidos
para aqueles que desejam
se encher
e se esvaziar
quero um poema que aja
como um grão de areia
grudado entre os dedos do pé
permanentes até a terceira saculejada
que coce
afete
trema
um poema chocalho
em notas sujas
e cheias
juntas
um poema-marca
que faça sentido a quem
mexeu
mobilizou
que faça chorar
quem a muito tem amarrado uma vontade
uma confissão oculta
de jorrar todas as pedras
reunidas no meio do corpo
em líquido salgado
torrente que liberta
quero um poema
com uma camada de vento
e brisa
para respirar as ventanas
de quem precisa de mar
nos ouvidos
para aqueles que desejam
se encher
e se esvaziar
quero um poema que aja
como um grão de areia
grudado entre os dedos do pé
permanentes até a terceira saculejada
que coce
afete
trema
um poema chocalho
em notas sujas
e cheias
juntas
um poema-marca
que faça sentido a quem
mexeu
mobilizou
ou cortou
algo em si
um poema que leia
o olhar vedado
de um sonho
que esperou muito
para acontecer
e ainda está
uma poesia que dissolva entre os membros
do corpo
uma poesia que tenha pernas
próprias
uma poesia que dissolva entre os membros
do corpo
uma poesia que tenha pernas
próprias
que ande sempre
que nasce
cresce
reproduz
e reproduz
sempre
que console um desespero
que molhe as retinas gastas
que refresque a pele
e acene com alegria
e asas
todas as
chagas
redemoinhos
e escancaros
presos na memória
presos na memória
um poema que cure
a falta
que aceite a morte
que ensine a vontade
que seduza o paladar
que acalme com duas mãos
quentes
uma grande dor
que traga um copo
de esperança
para quem precisa
permancer
que distribua senhas
infinitas
para os que pedem socorro
para viver
foto sobre o trabalho de Pina Bausch
Nos corredores do CEART, Canabarro me contou....

"A arte é uma puta velha
ela te explora
até o máximo
até seu último centavo
mas o prazer que ela
te traz
é tão intenso e tão bom
que você fica viciado nela
o resto da vida"
Afonso Benetti
Ps-Tive que parar e anotar até o nome da figura....rs..rs..Porque nem só de dores-palavras se faz um blog...Com riso, alegria e café.Finalmente alguém me respondeu o que eu mais queria saber sobre arte (no momento).
foto Marina Abramovic
em Balkan Erotic Epic
Muro- de Enzo Potel

Parede de pedra, alvenaria, adobe, taipa ou tijolos que serve para vedar ou proteger qualquer recinto, grande ou pequeno, povoado ou não povoado, a fim de não ser assaltado
ou devastado.
O muro de Luccano, Itália, foi construído para proteger vila de mesmo nome, situada no alto de uma colina íngreme. Ambos, vila e muro, foram destruídos por tremores de terra em 1694.
O muro do Diabo, paliçada construída na Alemanha pelos romanos, foi elevado e guarnecido de torres pelo imperador Probo. Alguns restos ainda subsistem para a alegria das crianças na região da Baviera.
O muro feitiço de Rothbar não impediu que o príncipe o pulasse e conhecesse sua amada em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A muralha de Sesóstris, no Egito Antigo, era frequentemente visitada por tempestades de areia, o que exigia manutenção especial. Em seus duzentos anos de vida foi mais atacada por vassouras do que por espadas inimigas.
Todo muro é uma mentira.
Todo muro é uma coleção de pedras no caminho, para propagar que houve aprendizado.
E teu olhar também era de muro. E quando abria a porta e me via, estava lá escrito:
“eu não preciso mais de você”.
E este muro frieza expelia ar glacial de palavras rasas, e sobrancelhas cobriam arrogância e rictus de escárnio. E eu parado, contemplando a inexata e última construção da paixão: esse estado de perda travestido de bom senso, em que um vingador de si mesmo tenta esconder com pedras
um jasmim.
ou devastado.
O muro de Luccano, Itália, foi construído para proteger vila de mesmo nome, situada no alto de uma colina íngreme. Ambos, vila e muro, foram destruídos por tremores de terra em 1694.
O muro do Diabo, paliçada construída na Alemanha pelos romanos, foi elevado e guarnecido de torres pelo imperador Probo. Alguns restos ainda subsistem para a alegria das crianças na região da Baviera.
O muro feitiço de Rothbar não impediu que o príncipe o pulasse e conhecesse sua amada em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A muralha de Sesóstris, no Egito Antigo, era frequentemente visitada por tempestades de areia, o que exigia manutenção especial. Em seus duzentos anos de vida foi mais atacada por vassouras do que por espadas inimigas.
Todo muro é uma mentira.
Todo muro é uma coleção de pedras no caminho, para propagar que houve aprendizado.
E teu olhar também era de muro. E quando abria a porta e me via, estava lá escrito:
“eu não preciso mais de você”.
E este muro frieza expelia ar glacial de palavras rasas, e sobrancelhas cobriam arrogância e rictus de escárnio. E eu parado, contemplando a inexata e última construção da paixão: esse estado de perda travestido de bom senso, em que um vingador de si mesmo tenta esconder com pedras
um jasmim.
foto:
Isadora Duncan e Pina Bausch
Se deixar tocar-Um texto sobre um sentido muito íntimo
Quando nasci Deus pegou uma linha e fez um laço, no meio do meu peito. Às vezes Ele aperta o nó.Às vezes Ele afrouxa minhas costas, enche o meu balão.Eu flutuo. Às vezes, e quase sempre, quando alguém puxa a linha, eu evaporo. Eu gosto do que eu sinto. Se eu te sinto bem, vou ser bem.Se eu te mal, meu espírito te expurga. Às vezes eu não gosto de ser assim, às vezes eu não tenho escolha. Por que isso, quem tem que responder é o criador e a criatura juntos, e não só um, ou só outro. É pela linha, pelo fio que já foi dito "nem um fio de cabelo cairá da tua cabeça, sem que Ele permita", então, ele tem um olhar sobre mim, e pode me ver no íntimo.Ele com visão integral, pode me afirmar. Os outros, podem só dizer. Então eu vou deixar Ele me mostrar. Se a minha linha arrebenta bem na sua vez, lá no meio de mim, algo reage.E eu não quero comprimir. Posso amenizar, mas não comrpimir. O que eu aprendi é ser. E conseguir isso é o cume da montanha.Eu já escolhi ser.Olhar o lodo, o denso e acariciar aquela parte. Aqui, diante desta terra eu posso sentir em meu coração alinhavado: apenas seja.Seja este fio que te amarra, que às vezes solta a ponta na escrita, solta a costura entre as tintas e as duas mãos.Quase sempre, venho pedindo à Ele que tire a linha. Por que as vezes a linha tem um peso, o peso de uma Cruz. Ora, eu não posso não sentir?Não posso desligar o sentido?Por que sentir dói?Às vezes, quando vem alguém com uma agulha e quer atar a linha, costurar, eu recuo. E ataco! Porque a agulha não foi feita para espetar, nem pra mexer na ferida. Quando ela vem, ela destina-se a costurar. Ou será que eu aprendi errado?Eu não espeto ninguém, se espeto, eu penso,"que Ele sempre esteja ao meu lado, para eu ser compreendida exatamente como sinto".Muitas vezes eu espeto, mas se eu sei o que houve, meu coração aperta, e eu tenho que ceder a linha.Se eu não sei, foi porque não consegui adivinhar, nem ler os sinais.Mas apenas "dos que sabem, o que sabem, vos será cobrado" Quase todo o meu sentido é " em nome Dê". Porque já disse das flores a mais bela: "fé, é fazer em nome Dê"Às vezes, Ele me dá o mérito de um sorriso avulso, pois eu peço muitos sorrisos.Eu peço também muita compreensão, porque com uma linha tão fina e estreita no meio do meu centro, não posso arriscar puxar o fio muito bruscamente, é delicado demais ter um coração alinhavado. E é preciso não alimentar redes.Quando tá muito apertado o sentido, a linha arranha, e eu peço muita força, porque as vezes parece que essa linha tão fina e estreita pode cortar a pele, aprofundar o corte. Daí eu suspiro, e ajoelho.Assim o nó dói menos.A linha que linha meu centro, é fragmento, é ruptura. A linha é bem fina e o meu centro às vezes não se deixa tocar.
5/17/2007

Confissão
Estou trancada. Não force a porta.Estou desfocada em um só foco. Eu só vejo um sorriso, mas não é o seu. Eu queria te gostar.O seu sorriso é lindo. Você fala bem, você encanta, mas eu estou trancada ainda.Você pode entender? Eu queria amar você, eu juro que eu queria.Você parece me amar tanto.Mas meu peito arrebenta em outra voz, outro rosto, outro hálito. Você seria capaz de entender que eu não posso escolher?Eu gosto ainda de um gosto passado.Um gosto gélido e parado atrás de uma camada de cera dura. Vê, meus cabelos ao vento a dança de tantas partes do meu corpo, escondem o meu cárcere por um sentido ainda. Fico sentindo, torcendo, orando justamente por um membro que me joga no chão, me faz asfalto, me corre uma rua, me arremessa brita, pedra, cimento, e me deixa à deriva sem resposta. É vergonhoso. Eu sei. Estou trancada, mas a festa é sua. É seu aniversário? Ou é bodas da sua mãe?Eu não sei. Há cálices de prata nas mesas, e muitas pessoas rindo. A toalha é de rendas.Há mulheres envoltas de pluma e em cima de agulhas. Há portas de vidro e gravatas.Ar condicionado. Jardim. Arbustos. Há fartura sobre as bocas e muita bebida em álcool. Desculpe, é sua festa mas antes entrar tive um lapso de memória que me arruinou. Antes de atravessar o salão e te dar “parabéns”, eu fiquei tonta por descobrir mais uma queda dos meus padrões. Mais um fracasso.Você me perdoaria se eu chorasse aqui mesmo? Você se importaria se eu fugisse sem querer voltar? Desculpe, hoje eu não consegui fazer você feliz.Eu vou ter que caçar o dono da minha dor.Minha dor. Quem é o culpado?Tenho que achar agora. Eu vou atrás, eu vou me render..Não! Eu vou!Eu vou...Eu vou. Eu vou..Eu vou!!!Eu...Eu...Vou pular a janela do banheiro, pode? Vou atrás de quem me trancou.Onde deixei a minha chave?Por quem me deixei trancar?Por que eu deixei a chave entrar? Por que ainda estou em um foco desfocado, indeciso e sem compasso?Por que estacionei meu sentido de querer maior aqui?Se já andei quilômetros, já visitei parentes, já percorri algumas ondas do mar, passei horas sem nada o que fazer, li auto-ajuda, plantei uma árvore e publiquei um livro.Falaram que ia passar. Disseram. Eu juro. “Isto não é nada, não significou nada, é nada.”Sim, o nada tomou uma forma cheia de si.Um nada cheio de muito. E isto latente e me trancando no mesmo lugar.Passe dor. Passe pela ainda sobreviva fresta da janela, apague-se.Onde foi parar a luz?Me Parecem quatro paredes. Um quadrado.Um muro alto ao meu redor. Quatro paredes pixadas com todos o seus detalhes de pele, seu acordar sonâmbulo. Com toda a lembrança viva dos seus olhos em riso. Com todo o roteiro da sua vida de cor, com todas as notas dos seus movimentos, com todo calor entre seus braços.Já faz tanto tempo. Mas em mim não faz. Por que?Eu ainda revivo em você?Por que o meu tempo interno e o tempo da lembrança não se alinha ao calendário?Eu. E esta entoação do seu nome.Eu. E você um mantra aqui. Eu. E essa imensa distância da incerteza do seu sentido. Eu.E esta dúvida corrente de ar que passa, e não me volta o ruído do seu respirar.Eu gosto dele.Do ruído seu. Eu e o martelo das cordas em ressonância da sua garganta. Eu. E o seu prazer em mim. Eu, entre luxuosas damas e medidas com uma saudade arranhada de você. Eu e estas pessoas falando e a vontade de saber você.Eu e esta festa que se abriu como uma fresta de luz, enquanto estava trancada no escuro. Eu e esta certeza de que você não é o dono da festa, nem convidado.Eu. e essa certeza.De que você não pode chegar. De que você não vai chegar. Eu e certeza de que você não vai trazer as chaves.
Estou trancada. Não force a porta.Estou desfocada em um só foco. Eu só vejo um sorriso, mas não é o seu. Eu queria te gostar.O seu sorriso é lindo. Você fala bem, você encanta, mas eu estou trancada ainda.Você pode entender? Eu queria amar você, eu juro que eu queria.Você parece me amar tanto.Mas meu peito arrebenta em outra voz, outro rosto, outro hálito. Você seria capaz de entender que eu não posso escolher?Eu gosto ainda de um gosto passado.Um gosto gélido e parado atrás de uma camada de cera dura. Vê, meus cabelos ao vento a dança de tantas partes do meu corpo, escondem o meu cárcere por um sentido ainda. Fico sentindo, torcendo, orando justamente por um membro que me joga no chão, me faz asfalto, me corre uma rua, me arremessa brita, pedra, cimento, e me deixa à deriva sem resposta. É vergonhoso. Eu sei. Estou trancada, mas a festa é sua. É seu aniversário? Ou é bodas da sua mãe?Eu não sei. Há cálices de prata nas mesas, e muitas pessoas rindo. A toalha é de rendas.Há mulheres envoltas de pluma e em cima de agulhas. Há portas de vidro e gravatas.Ar condicionado. Jardim. Arbustos. Há fartura sobre as bocas e muita bebida em álcool. Desculpe, é sua festa mas antes entrar tive um lapso de memória que me arruinou. Antes de atravessar o salão e te dar “parabéns”, eu fiquei tonta por descobrir mais uma queda dos meus padrões. Mais um fracasso.Você me perdoaria se eu chorasse aqui mesmo? Você se importaria se eu fugisse sem querer voltar? Desculpe, hoje eu não consegui fazer você feliz.Eu vou ter que caçar o dono da minha dor.Minha dor. Quem é o culpado?Tenho que achar agora. Eu vou atrás, eu vou me render..Não! Eu vou!Eu vou...Eu vou. Eu vou..Eu vou!!!Eu...Eu...Vou pular a janela do banheiro, pode? Vou atrás de quem me trancou.Onde deixei a minha chave?Por quem me deixei trancar?Por que eu deixei a chave entrar? Por que ainda estou em um foco desfocado, indeciso e sem compasso?Por que estacionei meu sentido de querer maior aqui?Se já andei quilômetros, já visitei parentes, já percorri algumas ondas do mar, passei horas sem nada o que fazer, li auto-ajuda, plantei uma árvore e publiquei um livro.Falaram que ia passar. Disseram. Eu juro. “Isto não é nada, não significou nada, é nada.”Sim, o nada tomou uma forma cheia de si.Um nada cheio de muito. E isto latente e me trancando no mesmo lugar.Passe dor. Passe pela ainda sobreviva fresta da janela, apague-se.Onde foi parar a luz?Me Parecem quatro paredes. Um quadrado.Um muro alto ao meu redor. Quatro paredes pixadas com todos o seus detalhes de pele, seu acordar sonâmbulo. Com toda a lembrança viva dos seus olhos em riso. Com todo o roteiro da sua vida de cor, com todas as notas dos seus movimentos, com todo calor entre seus braços.Já faz tanto tempo. Mas em mim não faz. Por que?Eu ainda revivo em você?Por que o meu tempo interno e o tempo da lembrança não se alinha ao calendário?Eu. E esta entoação do seu nome.Eu. E você um mantra aqui. Eu. E essa imensa distância da incerteza do seu sentido. Eu.E esta dúvida corrente de ar que passa, e não me volta o ruído do seu respirar.Eu gosto dele.Do ruído seu. Eu e o martelo das cordas em ressonância da sua garganta. Eu. E o seu prazer em mim. Eu, entre luxuosas damas e medidas com uma saudade arranhada de você. Eu e estas pessoas falando e a vontade de saber você.Eu e esta festa que se abriu como uma fresta de luz, enquanto estava trancada no escuro. Eu e esta certeza de que você não é o dono da festa, nem convidado.Eu. e essa certeza.De que você não pode chegar. De que você não vai chegar. Eu e certeza de que você não vai trazer as chaves.
Homenagem à palavra e os palavreiros especiais-Tatiana Cobbett
Palavreados
PalavradosEm palavreados...
Palavreira como só, Tatá ou Tatiana Cobbett* para os desconhecidos ainda, é uma brincalhona brilhante da palavra. Faz e refaz, intriga, reserva, deixa uma dúvida, provoca. Para todos que abrem os olhos para este blog, prestigiem, dancem e cantem à leveza das contruções desta bailarina com asas no corpo e nas palavras...Salve salve sol Tatá!
Linha que eu Passe
Olha meu amor
Quero cantar para você
esta canção que aprendi
faz poucos dias
Olha meu amor
empresta atenção
fala de nós
nosso senão
vem
retratado na harmonia
Longe de você
não dá, meu bem
posso esquecer
o seu olhar me iluminando
por inteiro
Perto
não convém
olha meu bem
ora paixão
ora desdém
Impasse
é fogo cruzado
___________________________
Altercação
Como assim?
Meu olhar enfrenta o seu
Você nega
sai de mim buscando outro
Chama
isso sim
de novo
Me esnoba
sobe
desce
minha escada corredor
Encurralados
Sei
redimindo seus anseios
fico eu
sempre a culpada
Um tudo e nada
Que quando
efetivamente
perdermos
é que
resolveremos
tal parada
____________________________________
Vicinal
Se soma
Par(e)ser
Diminui
Ah!
As diferenças
Com a poda
Já crescida
Raiz
Aguerrida
Suga as avessas
Seiva
Que é própria da vida
Poria fim
Nossa angústia
Fosse possível
Negar
Como se o antes não tivesse
Como se o agora se repete
Como se o nunca
Não houvesse
Poria sim
Nas alturas
E tudo
virá pelos veios
Veias vicinais
___________________________
*Bailarina, compositora e cantora. Formada pela Escola de Danças Classicas do Teatro Municipal do RJ, trabalhou 12 anos no Balé Stagium, cia paulista, percorrendo o Brasil, América Central e América Latina. Autora/Inteprete do Musical "Mulheres de Hollanda" com Direção de Naum Alves de Sousa. Direção e Concepção dos Espetáculos Alma Flamenca, Grito das Flores, Esta Terra Portugal, Festival Três Bandeiras, Partituras da Itália nas Vozes do Rio e dos Shows de Badi Assad, Carlinhos Antunes, Tutti Baê, Janet Machnaz, Joel Brito e Nara Lisboa, entre outros.Hoje desenvolve em parceria com o músico/cantor/compositor gaúcho - Marcoliva - um trabalho de composições próprias com o Cd Parceiros como primeiro testemunho desta jornada - e mais o livro Básica Composições - ambos podem ser encontrado na www2.livrariacuritiba.com.br - visitem nossa página - www.sonoraparceria.com.br
5/09/2007
Para um bebê chorão.Daqueles que ficam tocando a mesma nota infinitamente.
Você tiraria os dois tufinhos de algodão das orelhas, e me ouviria mais uma vez?Bebê, até os defeitos são cor-de-rosa. Os meus e os seus, não se engane.Você não pode ser tão diferente quanto se compara.Você sentaria num banco à deriva ao meu lado?Você seria capaz de ver meu algodão sujo, mesmo que eu me fingisse de borboleta?Ou você prefiriria a ilusão? Ninguém é de pedra bem, e também ninguém é feito só de nuvem branca. Nem você, viu?Você poderia se calar?Você poderia calar até seus pensamentos de cobra coral e se colocar ao meu lado para respirar o sentido? Minha dor são esses gravetos que você fica escolhendo para pisar. Eu também quebro, ou pensa que só porque você finge, eu também seria capaz?Aqui está o meus quebrados. Me dá um tempo de eu colar os cacos?A minha dor silenciada é a mais viva em mim. Embora você não queira ver. Embora eu arranque a venda, e você fica perscrutando os óculos pelos cantos. Você vê o que quer ver.Do que eu falo só bem entregue, sem essas analogias e filosofias, sem as algemas do medo e sem os cadeados ocultos ao homem racional, você pode saber. Eu quero ver você.Não suas linhas, nem sua forma bonita. Também não é porque eu gosto dos seus olhos, que eu não posso ver sua negritude. Mesmo em meio ao mormaço rubro, eu vou perder a chance de sorrir para o que de belo ainda tem em você?Me poupe.Faço isso o tempo todo com a vida, desde que eu conheci um pouco da essência das coisas.Me dá licença de eu escolher? Nada é tão mal. Até os dentes de uma onça, sem morder, apesar de terem mordido e até levado à morte, são belas presas.Bebê, você precisa viver comigo sem a bigorna. Eu dôo às vezes. Às vezes eu dou um tapa. Você está disposto a me ver?Eu tenho nódulos, furúnculos, perdas insuperáveis, lutos de todas as cores e crateras na pele. Você está disposto a pôr a mão?Não fique falando daí o que você não viveu por inteiro.Não tire conclusões. Por maior a sabedoria, sem a vivência, sem a entrega não vale de nada, nada. Do que adianta a mais aberta ferida escancarada aos seus olhos se você não pode ter compaixão?Se você não está disposto a se render?Que adiantaria essas palavras destravadas do mais lixo de mim, se você não pode apenas chorar comigo? Bebê, até a mesma palavra vivida e gozada, pode ser uma dor minha. Rir também é uma superação sabia?Um esforço de contra. No maior barulho também está impregnado o silêncio que quer plainar. Eu também busco um pouco do que não é meu, a diferença está que eu não luto contra, quase todas as coisas que são minhas, se não são, eu quero ser um pouco.Eu dou espaço. É bom ceder, bebê.Ser como um vento ou uma água que se molda ao recipiente atual.Eu queria muito o que você quis para mim. Mas eu não consegui.Dá licença de eu ser defeituosa por opção? Dá licença para eu ser suja como a graxa quando eu quiser?Eu nunca comprometi ninguém na minha lama, você só pisou o pé porque quis.Me dá licença de o meu amor ser bruto, cru e denso? Se eu não aprendi a voar, de onde é que você vem com essa de me colocar asas?Dá licença de eu ser um germe perto de você que é tão capitão?Dá licença de eu entrar sem limpar os pés?Bebê, eu não sei te fazer melhor, porque eu não sei nem me fazer melhor. Você pode me pedir algo que eu possua verdadeiramente?Você pode largar a idéia de querer ser sempre um modelo pra mim? Bebê, me desculpa se eu não sei. Se eu não consigo. Se parece que eu faço pra implicar. Me dá licença de passar sem ter que encarar as suas flechas? Bebê, eu não estou pra guerra. Estou pra ser. Me deixa ser? Pode ser em outro lugar?Me dá licença de uma vez?Felicidades, pra você, nhe nhe nhê.
5/08/2007
5/07/2007
Carta de despedida para um casal
É sol. E no meu rosto é uma tempestade.Vai com ela. Vai com ela. Aqui em mim, será o mesmo tempo sempre. Acaso um dia ela pode ter o meu cheiro ou o meu cabelo que se emaranha nos nossos corpos?Acaso será ela, dividirá a mesma dívida, a mesma dor?Ela acordaria para passar a mão no seu rosto quando você chora? Acaso agora ela poderia lutar pelo seu sonho, como um dia seu sonho era o meu sonho?
Vai com ela. Em mim há muitos nós, muitas tranças.Se um dia você ficasse saberia as alegrias e as tristezas, porque eu te dei um cristal, mas quebrei peças, rasguei concertos, sussurrei errado muitas notas da sua ópera.
Eu desviei seu caminho, te dei algumas rasteiras. Mas eu juro que tudo foram chagas plantadas na minha fala, na minha respiração. Enquanto você ia, eu te puxava. Enquanto você ficava, eu te amarrava. Parece que eu sou você. Parece que entre o meu querer e o meu querer te ter, o te ter me parecia mais seguro. Mas eu não te tenho mais.Você rasgou minha calcinha também. Mas eu te perdoei a ausência, perdoei tanto que queria voltar. Mas no seu olhar está a ida, com ela.Talvez pela sombra, ou pelo rouge, ela pareça mais qualquer coisa. E eu, depois do tempo gasto no calendário abatido, do tempo gasto cotidiano e tão mesmo em sentidos, ainda sou a mesma. Até porque foi eu quem mandou você ir. E quando se vai, a ida tem uma coisa com o vento. O vento nos sopra quando estamos indo sem a certeza de chegar a algum lugar. Porque a certeza é o destino que o medo tenta resgatar. Sem a certeza o medo se aflora e a dúvida que no início é aterrorizante vira um estado permanente do ser. E na dúvida, qualquer chão qualquer lugar, é um lugar com uma liberdade de descoberta que só a dúvida pode aventurar.
Agora depois de um tempo eu achei que você pudesse ficar. Porque ter você também é bom.
Mas no seu olhar, no seu olhar está a ida, com ela. E eu só posso dizer: " Boa viagem".
Vai com ela. Em mim há muitos nós, muitas tranças.Se um dia você ficasse saberia as alegrias e as tristezas, porque eu te dei um cristal, mas quebrei peças, rasguei concertos, sussurrei errado muitas notas da sua ópera.
Eu desviei seu caminho, te dei algumas rasteiras. Mas eu juro que tudo foram chagas plantadas na minha fala, na minha respiração. Enquanto você ia, eu te puxava. Enquanto você ficava, eu te amarrava. Parece que eu sou você. Parece que entre o meu querer e o meu querer te ter, o te ter me parecia mais seguro. Mas eu não te tenho mais.Você rasgou minha calcinha também. Mas eu te perdoei a ausência, perdoei tanto que queria voltar. Mas no seu olhar está a ida, com ela.Talvez pela sombra, ou pelo rouge, ela pareça mais qualquer coisa. E eu, depois do tempo gasto no calendário abatido, do tempo gasto cotidiano e tão mesmo em sentidos, ainda sou a mesma. Até porque foi eu quem mandou você ir. E quando se vai, a ida tem uma coisa com o vento. O vento nos sopra quando estamos indo sem a certeza de chegar a algum lugar. Porque a certeza é o destino que o medo tenta resgatar. Sem a certeza o medo se aflora e a dúvida que no início é aterrorizante vira um estado permanente do ser. E na dúvida, qualquer chão qualquer lugar, é um lugar com uma liberdade de descoberta que só a dúvida pode aventurar.
Agora depois de um tempo eu achei que você pudesse ficar. Porque ter você também é bom.
Mas no seu olhar, no seu olhar está a ida, com ela. E eu só posso dizer: " Boa viagem".
4/25/2007
Prefácio para Trêmulo de Enzo Potel- Com o meu sorriso de um sim que permite...
Beleza não é algo relativo. Quem ama o feio, interessante lhe parece. Bonito, não. As rédeas da mente podem levar as raízes do gosto para lugares excêntricos, mas jamais alguém negará o espanto e encantamento de uma estrela-cadente fugindo no céu da madrugada, porque a substância básica da beleza é a raridade.
Portanto não me contenho em dizer que a poesia de Ryana é a beleza espelhada e cria em si o vôo dos pavões. Ryana é raridade abarcando grandezas delicadas, iras benevolentes em suas estrofes. Nem que um poema seu seja lido numa remota casa de pano da Mongólia, qualquer pessoa que abra mais do que os olhos pela manhã, entenderá o que sinto.
Portanto “Joio”, meu mais amado poema em “Trêmulo”, é a tradução do que é belo. Nunca alguém falou com tanta perfeição sobre o arrependimento, este cisne que já nasce em cativeiro: no seu deslizar sereno sob as águas, não se observa a convulsão desesperada das patas submersas.
Quando Ryana diz que está na “epístola dos nomes negros” por tantos trocadilhos, mostra os trapos do que outrora foi uma vestimenta, o tecido religioso daqueles que confundem humildade com masoquismo. Está agora com as pernas à mostra, mas não quer ser vitrine. E “Aviso” martela com genialidade todo esse estado de maturidade, em toda a sua extensão.
Aliás, os poemas de Ryana não têm medo de se prolongar. As árias de Mozart também eram longas, mas brilhantes. Ele sabia que cada clave tinha o seu Sol.
Ryana aceita o Sol mas também colhe com a geada, pois a idéia de uma safra maravilhosa nos faz tremer tanto quanto uma má. Nós trememos com a implosão de um prédio e no despertar de um suspiro na medula. Trememos de frio e trememos no gozo. Este livro abre-se justamente no momento do choque, para doar órgãos a sentimentos na sala de espera da comodidade. Sentimentos que preferem muitas vezes não ganhar palavras. Mas Ryana já cansou de aguardar alvoradas mais justas. Se é pra doer, que doe em nós dois, ao mesmo tempo.
Enzo Potel
Portanto não me contenho em dizer que a poesia de Ryana é a beleza espelhada e cria em si o vôo dos pavões. Ryana é raridade abarcando grandezas delicadas, iras benevolentes em suas estrofes. Nem que um poema seu seja lido numa remota casa de pano da Mongólia, qualquer pessoa que abra mais do que os olhos pela manhã, entenderá o que sinto.
Portanto “Joio”, meu mais amado poema em “Trêmulo”, é a tradução do que é belo. Nunca alguém falou com tanta perfeição sobre o arrependimento, este cisne que já nasce em cativeiro: no seu deslizar sereno sob as águas, não se observa a convulsão desesperada das patas submersas.
Quando Ryana diz que está na “epístola dos nomes negros” por tantos trocadilhos, mostra os trapos do que outrora foi uma vestimenta, o tecido religioso daqueles que confundem humildade com masoquismo. Está agora com as pernas à mostra, mas não quer ser vitrine. E “Aviso” martela com genialidade todo esse estado de maturidade, em toda a sua extensão.
Aliás, os poemas de Ryana não têm medo de se prolongar. As árias de Mozart também eram longas, mas brilhantes. Ele sabia que cada clave tinha o seu Sol.
Ryana aceita o Sol mas também colhe com a geada, pois a idéia de uma safra maravilhosa nos faz tremer tanto quanto uma má. Nós trememos com a implosão de um prédio e no despertar de um suspiro na medula. Trememos de frio e trememos no gozo. Este livro abre-se justamente no momento do choque, para doar órgãos a sentimentos na sala de espera da comodidade. Sentimentos que preferem muitas vezes não ganhar palavras. Mas Ryana já cansou de aguardar alvoradas mais justas. Se é pra doer, que doe em nós dois, ao mesmo tempo.
Enzo Potel
4/03/2007
Do amor sempre fica um muito -para Drummond

De tudo
tudo mesmo
o que ficou foi o amor
das mandíbulas mordidas
dos sonhos cortados
da sonolência da razão
disso tudo
o que ficou ainda
foi o amor
da perda do tempo
de partir
do latejar incessante
da lembrança riso
das facas quebras
das promessas fracassos
dos sonhos redemoinhos
das tentativas vãs
disso tudo
o que ficou
foi amor
Da aliança trancada
do feitiço sem feiticeiro
do ganho perdido em querer
do banho só
da repetição dos dias
do humor engavetado
no mau humor do café
em xícara de dois
solidão
da perda de tempo
em partir
da parte que se parte
do todo que que se resumiu
em
par te
ida
sem volta
do realinhamento
dos botões
das almofadas
com começos de nome
do casal
impregnadas no encontro
dos gostos
que vem do cheiro
da última lâmpada acesa
do fio da faca
da gana de querer
amarrar
o santo
da cama vazia
divida ao meio
do grito contido
no travesseiro testemunho
da desilusão
da branca espera dos atrasos
dos sapos digeridos
dos sapatos perdidos
e achados
em quatro pés
da respiração ofegante
do rulminar
em fúria
de querer segurar
dos dois olhos
que esperavam
a volta na janela
do sol que se abriu
da nuvem que se apagou
da saia amassada
na rede em rendas
de balanço
paradas no gancho
de toda a certeza vivida
na varanda do verão
de todos os desenhos
rabiscados
todos os calos
todas as vistas
na torre
sólida
de dois íntimos grudados
paralelamente
em direção
além
ainda assim insoluvelmente
insalubremente
triste e parado
ficou
de janelas embaçadas
cacos colados
e uma trégua
só ficou
se revirando na cova
o amor
tudo mesmo
o que ficou foi o amor
das mandíbulas mordidas
dos sonhos cortados
da sonolência da razão
disso tudo
o que ficou ainda
foi o amor
da perda do tempo
de partir
do latejar incessante
da lembrança riso
das facas quebras
das promessas fracassos
dos sonhos redemoinhos
das tentativas vãs
disso tudo
o que ficou
foi amor
Da aliança trancada
do feitiço sem feiticeiro
do ganho perdido em querer
do banho só
da repetição dos dias
do humor engavetado
no mau humor do café
em xícara de dois
solidão
da perda de tempo
em partir
da parte que se parte
do todo que que se resumiu
em
par te
ida
sem volta
do realinhamento
dos botões
das almofadas
com começos de nome
do casal
impregnadas no encontro
dos gostos
que vem do cheiro
da última lâmpada acesa
do fio da faca
da gana de querer
amarrar
o santo
da cama vazia
divida ao meio
do grito contido
no travesseiro testemunho
da desilusão
da branca espera dos atrasos
dos sapos digeridos
dos sapatos perdidos
e achados
em quatro pés
da respiração ofegante
do rulminar
em fúria
de querer segurar
dos dois olhos
que esperavam
a volta na janela
do sol que se abriu
da nuvem que se apagou
da saia amassada
na rede em rendas
de balanço
paradas no gancho
de toda a certeza vivida
na varanda do verão
de todos os desenhos
rabiscados
todos os calos
todas as vistas
na torre
sólida
de dois íntimos grudados
paralelamente
em direção
além
ainda assim insoluvelmente
insalubremente
triste e parado
ficou
de janelas embaçadas
cacos colados
e uma trégua
só ficou
se revirando na cova
o amor
Orgulho*

Não há troca.
É uma exposição mútua
de tendas túmulos
presas
sal pérolas
sonhos secos
princípios.
Pronto.
Eu não te mudei.
Você não me mudou.
Negócio fechado.
*Enzo Potel do livro " Cura"
*Imagem Philip Taaffe
4/02/2007
Indiara Nicoletti Ramos- Assombrear

Assombrear
Ao caminhar na rua assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia meu pescoço e me protege do vento.
O cachecol aquece o coração assombreado pela hipótese do fruto do choque de temperaturas.Meu corpo quente, o vento gelado.
A lã que derrete a friagem e protege a carne do vento, impedindo que a testa se assombreie de muco e eu me tente a ficar na cama de manhã.
A coberta assombreia o corpo na cama e de sua sombra não quero me libertar.Assim como pássaro no ninho.
O batom sombreia de vermelho a fronha branca.Estava muito cansada para lavar o rosto.E afoita para saciar o desejo dos corpos que se assombreiam na noite. Iluminados pela luz das estrelas.
O brilho vem de dentro, pois se a estrela me ilumina eu assombreio teu caminho.
Assombreio teu rosto que me ilumina com o brilho das estrelas nos olhos.Seus olhos brilhantes feito duas estrelas penetram meu coração já apaziguado e me assombreio de desejos.
Olhos sombreados, pelo ato de assombrear a pálpebra bem de leve com dedos lânguidos mergulhados ao vinho.
Olhos que se sombrearam pelo instante de consciência, de lembrança dos corações que pulsam juntos e se despedem.
Olhos que sombreiam o caminho das estrelas...
Ao caminhar na rua assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia meu pescoço e me protege do vento.
O cachecol aquece o coração assombreado pela hipótese do fruto do choque de temperaturas.Meu corpo quente, o vento gelado.
A lã que derrete a friagem e protege a carne do vento, impedindo que a testa se assombreie de muco e eu me tente a ficar na cama de manhã.
A coberta assombreia o corpo na cama e de sua sombra não quero me libertar.Assim como pássaro no ninho.
O batom sombreia de vermelho a fronha branca.Estava muito cansada para lavar o rosto.E afoita para saciar o desejo dos corpos que se assombreiam na noite. Iluminados pela luz das estrelas.
O brilho vem de dentro, pois se a estrela me ilumina eu assombreio teu caminho.
Assombreio teu rosto que me ilumina com o brilho das estrelas nos olhos.Seus olhos brilhantes feito duas estrelas penetram meu coração já apaziguado e me assombreio de desejos.
Olhos sombreados, pelo ato de assombrear a pálpebra bem de leve com dedos lânguidos mergulhados ao vinho.
Olhos que se sombrearam pelo instante de consciência, de lembrança dos corações que pulsam juntos e se despedem.
Olhos que sombreiam o caminho das estrelas...

É manhã, Os pássaros cantam, desperto antes do despertador.Me coloco diante da pia e assombreio o espelho com um sorriso irônico e debochado após enxugar o rosto com a toalha.
Rio de mim mesma, assombreada com o sonho de despertar com o canto dos pássaros que anunciam o nascer do dia.
Sendo que rotineiramente esses cantos assombreiam a hora em que me deito, exaurida e assombreada pela lua que é o sol de toda escrita.
Assombreio o desenho da boca com batom vermelho, os olhos assombreio com a luz do despertar que se reflete no espelho.
Sigo assombreando a nuca com o dedo embebido de perfume, hoje é almíscar.
Almíscar que assombreia o caminho da abelha e da borboleta, almíscar assombreada pelo vento que leva o evaporamento da essência assombreada pelos raios de sol.
O dia passa, dia cheio de luz e sol.Mas quantos sois são necessários para derreter o assombreamento que plantaste em meu ser?
Pergunto a mim mesma quando os olhos florescem no espelho, de novo o espelho.Aproveito para assombrear a boca, retoco os lábios vermelhos assombreados pela lembrança dos teus beijos.
Caminho de volta para casa, o sol já se despediu há horas e meus pensamentos assombreados de emoções navegam em direção à Lua.Assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.
Assombreada pela lembrança da luz dos teus olhos para diante a cantina.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia o pescoço e me protege do vento.
Meu coração assombreado pela hipótese do muco assombrear a testa se aconchega e estabiliza.
Mas nem toda lã é suficiente para derreter o assombreamento de uma paixão.Te vejo,você me olha assombreado por tua namorada.
O brilho de estrelas dos olhos se encontram, assombreados pelo instante de consciência do que é. A consciência assombreada repentinamente pela lembrança do que foi.
Meu coração se assombreia mais ainda, me levando ao impulso natural de subir as escadas da cantina em direção ao seu encontro.
Vejo as estrelas dos seus olhos se dilatarem feito cratera no espaço.Sua mão assombreia a pele da namorada que me abre um luminoso sorriso.
O assombreamento do espaço de corrente de luz que habita o distanciamento dos nossos corpos me envolve de calor latente.
Escuto teu coração no meu pulso.Me aproximo e deliciosamente assombreio tua pele do rosto com meus lábios assombreados de vermelho.
Me deleito com a visão de boca vermelha que assombreia tua carne ao lado da namorada.Teus olhos de estrelas me olham e mergulham dentro de todas as paredes do meu ser.
Iluminando todos os assombros empoeirados que habitam meu ser nas últimas tardes.
Continuo te olhando, amor...Enquanto converso docemente para que não notem minhas assombrosas bochechas vermelhas.
Assombrosamente você puxa uma cadeira para que eu me sente ao teu lado.Eu êxito um pouco, mas acabo te cedendo mais alguns minutos de minha presença assombreada pela viva lembrança da união dos corpos.
Converso e assombreio a boca e o sangue com vinho cada vez que a sombra das luzes dos nossos olhos se amam no espaço.
Já não sei mais o que penso, já não sei mais o que sinto.Escrevo a sombra do pensamento, do teu pensamento que me assombreia enquanto me escuta neste momento.
3/28/2007
Loura madrugada - Luciana Chaves
Na loura madrugada
o prazer impregnado
no batuque
cachoeira sobre o corpo
Na madrugada sonhada
tudo se refaz
medo se desfaz
e permanece
Tua presença é luz
cintilando em minha pele flor
saltitando o meu pulsar
recriando meu tesão
Tua voz
harmonia perfeita
puxando meu samba
carnavaleando
meu prazer
Na loura madrugada
tua presença é luz
cintilando minha pele flor
Prazer impregnado
no batuque
saltitando o pulsar
recriando meu tesão
Na madrugada sonhada
cachoeira sobre o corpo
banha alma
o medo me desfaz
e o desejo me lateja
onde é que festeja
sem latejar
tua presença?
Na doce madrugada pagã
tua voz é perfeita harmonia
em excitante cadência
repuxando o samba em mim
em mim
carnavaleando o prazer
o prazer impregnado
no batuque
cachoeira sobre o corpo
Na madrugada sonhada
tudo se refaz
medo se desfaz
e permanece
Tua presença é luz
cintilando em minha pele flor
saltitando o meu pulsar
recriando meu tesão
Tua voz
harmonia perfeita
puxando meu samba
carnavaleando
meu prazer
Na loura madrugada
tua presença é luz
cintilando minha pele flor
Prazer impregnado
no batuque
saltitando o pulsar
recriando meu tesão
Na madrugada sonhada
cachoeira sobre o corpo
banha alma
o medo me desfaz
e o desejo me lateja
onde é que festeja
sem latejar
tua presença?
Na doce madrugada pagã
tua voz é perfeita harmonia
em excitante cadência
repuxando o samba em mim
em mim
carnavaleando o prazer
Revoa

Pra tudo
tem uma segunda chance
você me bateu
eu te arranhei
você rasgou
minha coleção
de folhas secas
você arrancou o único botão
da minha blusa
você me jogou no chão
e eu te bati
você puxou meu tapete
e eu puxei sei cabelo
você gritou comigo
e eu murmurei
com raiva
você me assustou
eu te denegri
você bebeu o meu veneno
e eu escondi o antídodo
Mas se
nos esbarramos
intimamente
no silêncio
de nossos sonhos
estivemos perto demais
se dói em mim
dói em você
porque pisamos
na alcova
um do outro
porque dividimos
a mesma asa da borboleta
porque fomos
juntos e unos
muito convictos
do não
porque apontamos
para o mesmo caminho
porque dividimos
o mesmo reflexo
no rosto parado das águas
porque de áspera e ânsia
tem uma segunda chance
você me bateu
eu te arranhei
você rasgou
minha coleção
de folhas secas
você arrancou o único botão
da minha blusa
você me jogou no chão
e eu te bati
você puxou meu tapete
e eu puxei sei cabelo
você gritou comigo
e eu murmurei
com raiva
você me assustou
eu te denegri
você bebeu o meu veneno
e eu escondi o antídodo
Mas se
nos esbarramos
intimamente
no silêncio
de nossos sonhos
estivemos perto demais
se dói em mim
dói em você
porque pisamos
na alcova
um do outro
porque dividimos
a mesma asa da borboleta
porque fomos
juntos e unos
muito convictos
do não
porque apontamos
para o mesmo caminho
porque dividimos
o mesmo reflexo
no rosto parado das águas
porque de áspera e ânsia
a vida revoa
até uma folha
e foi tudo muito sentido
para não ser real
a vontade de voltar
até uma folha
e foi tudo muito sentido
para não ser real
a vontade de voltar
vol
ta
nem que para uma segunda
vez
da primeira
*Lygia Pape
3/27/2007
*Ana Mendieta

Você pediu, com muita doçura que eu observasse o céu e olhasse o prazer das gaivotas sentindo o vento. Com seu sorriso você me pedia muita esperança. Mas ontem quase não levantei da cama, mas ontem eu quase fiquei no escuro sem acender a luz. Mas ontem, ontem me tirou o sol de hoje.Foi isso. E enquanto você pede e tem certeza da luz que entra pelas janelas, eu fecho a coritna e choro com medo de mais nuvens.
Dos olhos
Seus dois olhos diante de meus dois dor-olhos. No seu, havia duas lanternas verdes. No meu, dois últimos túmulos, duas margaridas murchas e uma nesga de fé. Que de encontro ao teu mar-olho ficou com vergonha e chorou.
O brilho da verdade*

Cura. Em alguns tons, ela se dissolve em leveza e asasde borboleta; em outros, vem da cachoeira daslágrimas, separações de corpos, sonetos rasgados,contratos assinados. Ela é a altura da queda. Esclarecida por serinteiramente, a cura é a verdade que brilha. Mesmo que ela traga em seu histórico confissões, dores,palavras-buraco, ausências e a foice. A cura é o corte. São aqueles dois braços olhados, percebidos de veia, força e verdade.Toda coisa verdadeira traz consigo um pouco de húmus,restos, sementes, túmulos, tempestades, alvoradas. A alvorada é como uma cura, um suspiro depois do cansaço.
A poesia de Enzo não finge um sorriso, não acena uma ida. Ela atravessa o interior da fruta e cospe ocaroço. Não é uma estrela brilhante por natureza, é uma estrela que percorreu todo o redemoinho da dor para chegar à luz.Quem nunca mostrou o corte da ferida, não pode descobrir o remédio. Quem não se rendeu à poesia de um velho pneu furado, não pode contemplar a via Láctea. Não pode porque a beleza é o que cintila e colore dentro da verdade. A poesia de Enzo é uma das mais belas reuniões de verdades. Não veste máscaras. Devolve ao cruel apontar de dedo social, o âmago da realidade que vivemos. E por que afinal estamos em meio a resíduos de nós, ao invés de todos estarmos embrenhados nas florestas da Cura?A verdade está na bolsa dos escafandristas; a verdadenão tem medo de cortar porque ela sabe que a faca apesar de cortar, pode acariciar a forma e desenhar embalos de mães.A verdade é tão dolorida que purifica, é cavada comtanta intimidade que purifica. Mesmo suja e cinza como o céu de Afeganistão, a verdade voa. Mesmo incrustada de sentimentos e vazios, mesmo oculta de medos e rasgos, a verdade voa. “Pois até os urubus são belos nos largos círculos dos dias sossegados”-CecíliaMeireles.
A poesia de Enzo remove a camada dos remotos adereçoshumanos. Revela, fere, aponta, mas também beija,acalma, entristece e dorme. É a vida do caos. Não entra de mansinho. Invade o quarto, afinca a terra,estia a bandeira, arranca a costura e deixa o trapo.Deixa a tempestade sem passar, deixa a tempestade e o barco dançarem.Como na obra de Turner, toda a sua aflição, todo o seu testemunho sobre fantasma, sobre nosso lado mais penugento. As palavras vivas de “Cura” não mimam, não cuidam, não adocicam. Apenas removem as amarras e couraças do mundo e revelam. Revelam aquilo que todos nós precisamos ao menos perceber, chegar perto e sentir. Mas isso não significa sentir prazer. A revelação de algo em nós é tão surpresa, que nos treme inteiros.
-Texto para o Prefácio do novo livro de Enzo Potel intitulado de "Cura"
3/07/2007
Rio do Choro

Chorei um choro leve
de quem carrega a vida
sem pressa
algo como um sonho
bobo de você
sonhei um choro
exausto
que sumia ao largo
da estrada
chorei teu choro ofegante
um tango
chorei um choro por ti
pra te matar no escasso
de um amor virado
Ao pé do redentor
minhas lágrimas
em véu
Chorei a pronúncia
de uma
grande lácrima
que muito arriada
vira um rio
sem foz
Imorais

O bicho do lobo homem
suicidou
No buraco que caíste
puxaste meu amigo
esse que pára
no ar
pára-paira
O doce do musgo carvalho
meu amigo é um beija-flor
existe pela própria
primitiva existência
cria
bate asas vezlozmente
mais que você
mulher-buraco
Ele
que enquanto o mundo grita
e a morte emudece
despe-se da rispidez
Ele
que com a bravura
da leveza
arranca a roupa
do luxo-consumo
e remove
a camisa do medo
Ela
que mostra
o cárcere
a fim de dar a flor do ânus
para o mundo
Ela
que
sorri
no seu
ânus
ônus
flor
Ela
que livre da morte
é somada a tentativa
de golpe
pela imoralidade
de outrém
(para o ele que é ela e vice versa)
Hilda Hilst
" A solidão tem cor, é roxo escuro e negro..é como se você fosse andando...uma vasta planície, vai andando vai andando, é tardezinha há até uma certa euforia, um vínculo entre você e aquela extensão...De início parece areira, brilha um pouco, vai anoitecendo..."
Imagem sobre o trabalho de Saveria Vicarini
relato de uma inspiração ofegante
Soprou o vento
guardanapos sobre a mesa
rezei pra poder
pegar a festa
a seresta desta noite
xadrez
não reisisti
peguei um e saí
deixei-te a olhar
os guardanapos
no chão
o olho irmão vago
te atraiçoou a minha saída
um poema vale uma fuga
guardanapos sobre a mesa
rezei pra poder
pegar a festa
a seresta desta noite
xadrez
não reisisti
peguei um e saí
deixei-te a olhar
os guardanapos
no chão
o olho irmão vago
te atraiçoou a minha saída
um poema vale uma fuga
César Félix
Resposta espelhada

Quem é você
que me olha
assim de
modo tão inquisitor?
Que me perscruta o íntimo
quando na verdade
quer conhecer a si próprio?
Não pergunte para mim
as respostas
que estão dentro
de você
eu sou apenas
uma pálida imagem
refletida
daquilo que você
gostaria de ver
Eduardo Bermoso Neto (em uma mesa de bar à beira-mar)
Acima imagem de Letícia Cardoso-"gotas"
3/06/2007
Cadeados
Te trago na palma da mão
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida
Me sobraram
alguns restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores internas
Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso quebrado
as lagrimas secas
e as penas de mandar embora
o pó dessa última história
Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre
só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou
Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada
Há na garagem de mim
Caixas abertas
varais enozados
E perdas de tempo
Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto
Nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas
Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida
Me sobraram
alguns restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores internas
Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso quebrado
as lagrimas secas
e as penas de mandar embora
o pó dessa última história
Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre
só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou
Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada
Há na garagem de mim
Caixas abertas
varais enozados
E perdas de tempo
Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto
Nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas
Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou
Cadeados
Te trago na palma da mão
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida
Me sobraram alguns
restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores
internas
Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso
quebrado
as lagrimas secas
e as penas
de mandar embora
o pó dessa última história
Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou
Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada
Há na garagem de mim
Caixas abertas varais enozados
E perdas de tempo
Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
Há a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto
Há nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas
Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida
Me sobraram alguns
restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores
internas
Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso
quebrado
as lagrimas secas
e as penas
de mandar embora
o pó dessa última história
Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou
Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada
Há na garagem de mim
Caixas abertas varais enozados
E perdas de tempo
Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
Há a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto
Há nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas
Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou
2/27/2007
Galpão das Artes
É preciso que a noite esfrie
para que o sol chegue
É preciso que a idade chegue
para que a pressa acabe
É preciso que a pressa acabe
para que as rugas marquem
É preciso que as rugas marquem
para que a sabedoria permaneça
É preciso que a sabedoria permaneça
as rugas marquem
a pressa acabe
e o sol chegue
para a graça ficar de vez
para que o sol chegue
É preciso que a idade chegue
para que a pressa acabe
É preciso que a pressa acabe
para que as rugas marquem
É preciso que as rugas marquem
para que a sabedoria permaneça
É preciso que a sabedoria permaneça
as rugas marquem
a pressa acabe
e o sol chegue
para a graça ficar de vez
Penúltima
Quando a forma
da sua presença
se fez suspiro
e ausência
Quando notei
que te pedia
mais um minuto
Quando anoiteci
ao te esperar
com uma travessa
de gestos e formas
-especiarias
Quando querias
e eu não queria
aceitar mais
o nosso não
quando te aboli
do sistema sem nervo
e me atraquei
no esfumaçado
e desesperador
ar
da tua falta
Quando pediste
um dedo e eu
por proósito
e sem rumo
te dei todo o resto
do importuno
ao taciturno
leve e densa
calda de açúcar
vincada em mim
quando me prometi
ser a última vez
que puxavas
o meu vestido
E me " reprometi"
sempre que você fosse
embora
a última vez
da sua presença
se fez suspiro
e ausência
Quando notei
que te pedia
mais um minuto
Quando anoiteci
ao te esperar
com uma travessa
de gestos e formas
-especiarias
Quando querias
e eu não queria
aceitar mais
o nosso não
quando te aboli
do sistema sem nervo
e me atraquei
no esfumaçado
e desesperador
ar
da tua falta
Quando pediste
um dedo e eu
por proósito
e sem rumo
te dei todo o resto
do importuno
ao taciturno
leve e densa
calda de açúcar
vincada em mim
quando me prometi
ser a última vez
que puxavas
o meu vestido
E me " reprometi"
sempre que você fosse
embora
a última vez
2/21/2007
Beira- Para Gaston
Poema para um diploma inútil
Tua vida conquistada
na estante
corroída pelo cupim
Tua sauna
troféus títulos currículos
e diplomas
enquadrados
no esquadro solitário
da sala abandonada
Tudo está no chão
no sfá e no degrau
toda a vida gloriosa
e estagnada no teu desleixo
Tu terias te escolhido ouro
se de fato
teu olho consciente
tivesse recebido e percebido
o mérito
na estante
corroída pelo cupim
Tua sauna
troféus títulos currículos
e diplomas
enquadrados
no esquadro solitário
da sala abandonada
Tudo está no chão
no sfá e no degrau
toda a vida gloriosa
e estagnada no teu desleixo
Tu terias te escolhido ouro
se de fato
teu olho consciente
tivesse recebido e percebido
o mérito
A voz da porta-Para Luciana Chaves
Foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca
Você deixou aquela voz
trancada na porta
Não posso mais abrir
não posso mais sair
a minha garganta fincada
na tua tranca
não posso abrir a porta
você trancou a nossa sala
nossos objetos
delitos
e perdas
marcadas no meu olhar
não posso abrir a tranca
a nossa voz
tantas vezes uma
tantas vezes mais de duas
a nossa voz ficou no vão
de uma passagem
passou pra você também?
a nossa voz
ficou presa na saída

Você deixou aquela voz
trancada na porta
Não posso mais abrir
não posso mais sair
a minha garganta fincada
na tua tranca
não posso abrir a porta
você trancou a nossa sala
nossos objetos
delitos
e perdas
marcadas no meu olhar
não posso abrir a tranca
a nossa voz
tantas vezes uma
tantas vezes mais de duas
a nossa voz ficou no vão
de uma passagem
passou pra você também?
a nossa voz
ficou presa na saída
Atado foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca

Se você abre
os braços
e não aproxima
seu corpo
do meu
não posso acolher sua história
se você pisa um dedo
e logo salta com medo
não posso afagar sua alma
se você estrela
entre minhas entranhas
de noite e prazer
e se salva sem adeus
dos meus
membros-mar
não posso te mostrar minha
constelação
se você caça
e come
se você corre
e arranha
se você se esconde
tão próximo de mim
é porque você quer
me embaralhar
mas você só pode querer
pegar
este mesmo vagão
Se de outro lado
eu troco os bilhetes
escondo as tranças
caibo no chapéu
e a vida nunca erra você de frente
é confronto
é linha
é nó
E você encontra a agulha
mas não costura
a ferida
você deixa o cheiro
mas não acende a vela
você zopila
a medula com beijos
e não abotoa a camisa
é confronto
é linha
é atado
Aguarde
Contra olhos
estes óculos
infelizmente
não podem
me vedar do mundo
você pode fingir que eu
não passei por aqui?
essa mulher que remexe o lixo
cheia de rugas
mesmo que eu tape os olhos
pode ver a dor
pesando na linha
torta
da minha coluna
não posso gritar
não devo fugir
não posso arrancar a página
está tudo aqui
mesmo que queime
mesmo que junte e tente
fazer destes restos
um adubo
mesmo as mãos
que já não podem segurar
os dedos
as roupas mofaram
o sapato furou
o tempo parece
ter acabado
já arranquei os fios
já tapei a peneira
sem sol
entreguei a carapuça
e estou remexendo
o lixo
infelizmente
não podem
me vedar do mundo
você pode fingir que eu
não passei por aqui?
essa mulher que remexe o lixo
cheia de rugas
mesmo que eu tape os olhos
pode ver a dor
pesando na linha
torta
da minha coluna
não posso gritar
não devo fugir
não posso arrancar a página
está tudo aqui
mesmo que queime
mesmo que junte e tente
fazer destes restos
um adubo
mesmo as mãos
que já não podem segurar
os dedos
as roupas mofaram
o sapato furou
o tempo parece
ter acabado
já arranquei os fios
já tapei a peneira
sem sol
entreguei a carapuça
e estou remexendo
o lixo
Aviso
Não sou
esta perna manchada
de sensualidade
Não sou essa mulher
que quer pegar
você
Não sou a mulher que quer
ser consumida
por ninguém
Eu não disse
que um dia seria
Não sou a bandida
que quer roubar
aquilo que veio com você
justamente com você
de outrém
Não sou essa mulher
de batom vermelho
e seios e nádegas
à mostra
não quero nada
que eu não queria com o meu corpo
Não quero que ninguém me queira
por nada
por me comprar
por me pagar
não sou essa mulher
não sei se sou mulher
não sei se escolhi
estar na vitrine
não quero ser
à mostra
não sou esta que coloca
o zíper na garganta
para alguém vir abrir
se eu quero
eu abro
não sou essa mulher
que quer mais
do que quer
eu apenas ponho os pontos nos " is"
é você
quem não leu direito
o meu último contexto
é você quem não entendeu nada
porque não quis entender
é você quem não viu
porque eu estava presente
e eu lá posso ser julgada
se eu escolhi bem aquele
caminho
que você jamais traçaria
sem culpa?
Eu não sou isto
eu sou aquilo que você acha
que não pode acreditar
que sou
e eu falei muitas vezes
e eu assinei muitas vezes
o contrato da verdade
quando errei
eu também confessei
e eu lá tenho culpa
que você tem medo
de eu
ser eu?
esta perna manchada
de sensualidade
Não sou essa mulher
que quer pegar
você
Não sou a mulher que quer
ser consumida
por ninguém
Eu não disse
que um dia seria
Não sou a bandida
que quer roubar
aquilo que veio com você
justamente com você
de outrém
Não sou essa mulher
de batom vermelho
e seios e nádegas
à mostra
não quero nada
que eu não queria com o meu corpo
Não quero que ninguém me queira
por nada
por me comprar
por me pagar
não sou essa mulher
não sei se sou mulher
não sei se escolhi
estar na vitrine
não quero ser
à mostra
não sou esta que coloca
o zíper na garganta
para alguém vir abrir
se eu quero
eu abro
não sou essa mulher
que quer mais
do que quer
eu apenas ponho os pontos nos " is"
é você
quem não leu direito
o meu último contexto
é você quem não entendeu nada
porque não quis entender
é você quem não viu
porque eu estava presente
e eu lá posso ser julgada
se eu escolhi bem aquele
caminho
que você jamais traçaria
sem culpa?
Eu não sou isto
eu sou aquilo que você acha
que não pode acreditar
que sou
e eu falei muitas vezes
e eu assinei muitas vezes
o contrato da verdade
quando errei
eu também confessei
e eu lá tenho culpa
que você tem medo
de eu
ser eu?
1/16/2007
Foice- por causa dos direitos de cada um
Por cima das nossas cabeças
Nuvens
A embreagem trancou
Tenho uma certeza
De fome
Menosprezada
Pelo serviço
Ceifam o trigo
E a nossa foice
Somos nós
No mesmo chão
Na mesma esquina
E você vem me apontar
A arma da discórdia
Vivemos no mesmo clarão
Sob o mesmo e inesperado
Sistema
Que nos ativa a briga
Balas de cego
Balas da sua boca
Balas para escurecer
E encobrir a visão
Estamos sob a mesma
Chapa quente
Dividindo
A mesma fome
e você ceifando
Minha única visão
De vento para o chumbo
E você ceifando
A minha única certeza
De me alimentar
Estamos sob o mesmo
Chão
Na mesma esquina da miséria
E você sempre julgando
A sua dor
Maior que a de todos
Você atira na polícia
E arregaça
Seu limite
Você entra na cadeia
De pulseira e correntes
De Paris
Você veste amostra grátis
Você tem uma casa
E eu não
Você pode comer
E eu não
Mas nós estamos sob
A mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora
Nós estamos
Sob a mesma pele
Nós estamos com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora
Então não ceife
A minha última chance
De eu me alimentar
Nós estamos sob o mesmo céu
Com a mesma dúvida
Sobre a tempestade
Então não mate esta última chance
De eu me alimentar
Nós estamos sob o mesmo céu
Você tem tudo (dor)
E eu nada
Você tem uma casa
E eu não,
Você pode comer
E eu não
Mas nós estamos
Sob a mesma pele
Com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora
Todos nós estamos ceifando
Não seja você a foice
Não faça da sua
Uma tragédia
Não force ninguém
Não seja você a foice
Porque nós estamos
Sob o mesmo clarão
Com a mesma vontade
De ver o sol
Não ceife a minha certeza
De ter fome
E poder me alimentar
Nuvens
A embreagem trancou
Tenho uma certeza
De fome
Menosprezada
Pelo serviço
Ceifam o trigo
E a nossa foice
Somos nós
No mesmo chão
Na mesma esquina
E você vem me apontar
A arma da discórdia
Vivemos no mesmo clarão
Sob o mesmo e inesperado
Sistema
Que nos ativa a briga
Balas de cego
Balas da sua boca
Balas para escurecer
E encobrir a visão
Estamos sob a mesma
Chapa quente
Dividindo
A mesma fome
e você ceifando
Minha única visão
De vento para o chumbo
E você ceifando
A minha única certeza
De me alimentar
Estamos sob o mesmo
Chão
Na mesma esquina da miséria
E você sempre julgando
A sua dor
Maior que a de todos
Você atira na polícia
E arregaça
Seu limite
Você entra na cadeia
De pulseira e correntes
De Paris
Você veste amostra grátis
Você tem uma casa
E eu não
Você pode comer
E eu não
Mas nós estamos sob
A mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora
Nós estamos
Sob a mesma pele
Nós estamos com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora
Então não ceife
A minha última chance
De eu me alimentar
Nós estamos sob o mesmo céu
Com a mesma dúvida
Sobre a tempestade
Então não mate esta última chance
De eu me alimentar
Nós estamos sob o mesmo céu
Você tem tudo (dor)
E eu nada
Você tem uma casa
E eu não,
Você pode comer
E eu não
Mas nós estamos
Sob a mesma pele
Com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora
Todos nós estamos ceifando
Não seja você a foice
Não faça da sua
Uma tragédia
Não force ninguém
Não seja você a foice
Porque nós estamos
Sob o mesmo clarão
Com a mesma vontade
De ver o sol
Não ceife a minha certeza
De ter fome
E poder me alimentar
11/08/2006
Cort e
O pedaço de pano amarrado na perna. Ela queria se livrar, abrir a tampa do vidro.Era preciso arrancar a raiz.Doía muito arrancar de uma vez, e doía muito arrancar aos poucos.O pedaço de pano.Cheio de cera de abelha.O pedaço esmagado pelo movimento.Queria arrebentar o laço. Queria adoecer a doença, matar aquela parte.Queria uma sombra ou uma arma. Um encosto ou uma solução aquosa.Queria molhar o pedaço de pano.Queria vedar a boca.Não responderia mais nada.Que observassem. Que observassem ela, seus gestos, sua língua, sua vesícula, seu estômago, sua febre. E que silenciassem apenas. Que silenciassem diante da sua gosma viva, da sua fraqueza, da sua desistência. Que perna amarrada perante todosfosse um testemunho. Que o decepar do membro fosse explícito. Era preciso soltar a fera que ardia o pano encerado.Que não perguntassem mais nada nada.Que a deixassem ser a lamúria, ser o breu do fim da noite, ser o bueiro, ser a lama.Que absolvessem, cruscificassem, aplaudissem ou a deixassem de vez. Que vissem nela aquele pedaço arrematado. O pedaço marcado por seus próprios dentes. Que pudessem enxergar, que ela não conseguia tirar aquela parte, que ela tentava enterrar o membro mas que ele lhe rogava a pele, puxava-lhe os cabelos, e se deitara com ela antes de se enozar em seu corpo.Que o pedaço de pano encerado amarrado na perna era uma crosta, um germe, uma fecundação, que ela não conseguia se livrar .Que o pedaço de pano na perna dolorida se alimentava de sua morte, de sua lágrima, de sua ritmia cardíaca. O pedaço de pano de aço havitava dentro dela, mais que a perna.O pedaço dela.A perna inteira ficou perna trapo.E era ela quem tinha amarrado e era ela quem ia ter que corta r.
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