11/04/2009

Poema sobre Muro

Fazia muito tempo que o Coletivo LAAVA (coletivo de artistas do qual participo ativamente desde jan/2009) combinava a plataforma de desejos do grupo. Minha vontade era de fazer um poema em um muro alto, grande, expansivo. Como a idéia da plataforma de desejos é um ajudar o outro a concretizar o seu sonho, muita gente me ajudou, filmou, rimos a toa, brigamos, discutimos, suamos, mas o resultado ficou ótimo.Como todo o sonho, nem sempre é viável fazer as coisas exatamente do jeito que a gente sonhou.Eu consegui escrever um poema em uma parede de quase 4 metros,mas o sonho era de escrever um em uma parede de 10 metros... Foi cansativo, foi exaustante, mas muito, muito gratificante.Muito obrigada em especial à Paula Maba, Vicente Corrêa, Rafael Palilo, Kássio e Francis.
Percebi lá no alto, pintando letrinha por letrinha, que a palavra desenhada ao ar livre e no alto de um muro, pode transformar quem escreve, por que escreve, da onde vem as letras??Da onde vem os sonhos??
O que escrever num muro?
Algo muito verdadeiro para você, eis o processo:














11/03/2009

Dai-me a Grande Mãe



Eu
aqui no berço da estrela
segurando o céu com os seios
alimentando de leite
a terra

caminho vagarosamente
pela superfície da mata
ressurjo da lama
me deparo com as rugas
que desenham o espelho
um sorriso cheio de sábias dobras
e amores
cruzando a madrugada
só a floresta
me salva

na corda fixa
do infinito
me deleito
curo as feridas
com areia
e água

pedras do riacho
quebrado

dentro de mim
anos
e anos passando

nas duas vidas de cristo
me entreguei
é seu meu barco
minha espada
e meu coração

toma para ti
dai-me a salvação
eu te amo e entrego
minha lua ao universo
belo
calo
só a floresta me salva

no silêncio espero
a vida abrir
outra porta

e que dizime da memória

a dor
da que se fechou

Terra



A terra é feminina
e por isso escorre
água de todos os cantos
por isso as flores

estão para os cabelos

e o mel jorra num vestido
de renda longo

por isso a maçã
é doce e vermelha

e as raposas se escondem
atrás do olhar

as aranhas tecem sutilmente
a teia da vida
e as senhoras costuram
os rasgos
na roda do destino

a terra mestrua
todos os dias

balança para se embalar

as águas
o gás
e os ventos

a terra gira
porque quer
dançar.

10/16/2009

Cadê os baixinhos?



...


O pior veneno: o desprezo. Um tapa sem volta. Um coração em frangalhos que nunca mais será o mesmo.A cachoeira transbordando, um abismo escuro e frio. Um copo de cólera quando a cerveja caos desce ao final pela garganta. Lábios seus no de outro alguém, um fogo rasante, certeiro. Uma dor que só pára vendo a dor de quem a causou.Uma doença. Um tapete amarrotado na porta da casa. Uma bola que estourou, um sangue transparente de um corte fundo. Um corte sem costura.Uma ferida aberta. Um caos e uma luzinha no fim do rasgo.A morte.

9/30/2009

A ponte- para Alegre Corrêa


O medo do primeiro passo
a passo

a ponta da ponte
você, no começo do corpo
um pedra
um estorvo

era tudo para ser
um buquê
árvores frutíferas
ametistas cintilanto
um céu azul profundo

gotas vermelhas
da vitória

olhos cinzas do passado
o acaso


a ponte se rompe
as flores se extraviam
no leito do rio rachado

debaixo d água
uma porta trancada

lava

leva

lavra

um lótus brota do lodo
arranco

entre as corredeiras
e os restos
madeiras


o gelo

e o leito

9/28/2009

entre as migalhas
do que está partido

cortando todas as veias
de dentro

dsenozando corais e ametistas
afiando facas e armas

protegida

sigo a caminhada gritando
porque a dor é grande

sigo a estrada cantando
porque preciso sobre
voar

falcão e coruja

olhos atendos
dentes afiados

e asas escuras e pesadas
na montanha

na janela um novo nó
na alma um corte a mais

o coração alinhavado

uma luzinha

cintilando no infinito

De bicho para bicho



9/16/2009

Trapézio



Vou na rua
carregando uma cesta
muitas mãos desatadas
abraços vazios
e sorrisos avulsos

o vento vem e arde
as feridas das palavras
que me deixaram

a rua é longa
uma rachadura
rompe as paredes
do meu castelo

Rapunzel queimou
as tranças

diante desta avenida:
o secar dos meus pés
a areia movediça da escolha
o borrão da água
sobre a tinta preta

as formigas desenham
um caminho novo

dentro do abismo
a luz
me acena

a corda é bamba
e solta

Cazuza



" Você me ama ao quadrado
Eu te amo ao cubo
Não posso te dar menos
do que você merece" Cazuza

8/31/2009

Afogamento no mar



A crosta da vida
rua a rua
vai criando a armadura
da minha pele

sal
suor
e terra

eis o íntimo do andarilho:
duas maçãs nas mãos
olhar cheio
de felpos
farpas

e uma luz tímida

cheia de camadas

que impulsiona

e afoga

8/21/2009

Miosótis


E diziam para ela:

-Venha aqui!

Estenda a esteira
no jardim
exponha as borboletas
no quintal

grite alto
e grite fundo!

Todos mereciam

ouvi-la
admirá-la

Mas ela era solitária
e silênciosa

nuvem delicada
que desenha o céu

um miosótis no canto
do quintal
pérola pequena
e cintilante

inesquecível
na timidez
miúda e doce

de sua voz.


*Para Graciela Kruscinski

8/18/2009

Carta para o Descaso



Rostos empalhados
na prateleira

coleção de lascas
em formol

peças e trapos
em conserva

Esta cerâmica
da sua pele
me arranhou

é pó o fim

apenas um sorriso
sobrevive
ao maremoto
do "não"

Um dia você sonhou
ao me ver
no espelho do seu olhar

braços de dragão
calor por todas as frestas
orifícios em vulcão no corpo

franjas de ondas
em frenesi
luzes na montanha

tudo se dissolveu?

A flor que você trazia
na mão
se dissipou
no vento da minha
chegada

e o silêncio
me corta
me cega
me dói

Um dia você voltou as pegadas
para me pegar no colo
desviar o seu caminho

caindo no meu


um dia você me quis pra sempre

e nunca mais



*Performance com lebre morta de Joseph Beuys

8/17/2009

8/11/2009

Vídeoperformce



O limite da borracha.O limite da água. Quem vence a imensa alegria entre nossos corpos?Quem vence o estouro de um copo com gim?vinho? Ventre. Peito Atravessando os tambores.Acordes tocando os pelos do corpo.O gozo.O vermelho derramado.

8/06/2009

Fim*


Nossa história:um entardecer lilás e vermelho.Salvo as tempestades, tudo começa com paisagem.No fim, sujos do lodo de um pântano, choro como se a flor morresse e no jardim de maio uma máquina gritasse desfacelando toda grama, todo grão. Pondo fim as matas fulgorosas da memória. Um imenso deserto nos separa.Serrote, barbante e pedras empilhadas na porta. O preço de um sentimento, o peso de um perder.Roupas amarrotadas no gancho da rede. Terra espalhada pela sala de estar.Vasos quebrados.Amarração.
Entre duas rodas um sonho é sempre um sol.
Abre as janelas para esta dor passar.Passar você.Suas pequenas mãos sujas de graxa me oferecendo um lírio amarelo.Seu olhar curumim.Seu corpo proibido pelos sentidos, corrompido pela moral de uma raposa.Nós dois:um amor e um nó.Uma faca.Muito cega para cortar, muito pontuda para não matar.No fundo do buraco: a vida. E a tortura obscura do fim.
E tudo isso
escrito no espelho, com batom.


*Dedico este texto ao meu amado amigo Enzo.

8/05/2009

Lilás




Na água me enterro
e descorro

serei nova ou velha
a índia escondida
na cortina lilás

do breu

o espelho em pedaço
porta-retrato
quebrado

feridas na pele
agulha e cicatriz

no espelho
só água

e pedra.



Foto: Fernando Angeoletto

7/28/2009

De Zininho para Tom



Na minha casa
os muros se abrem
para dar lugar
as cores


as lagoas e os mares
abraçam todos que chegarem


abre a porta
para o vento
sem tempo passar

as flores povoam
os portões
e
os encontros
se atam no arco-íris
dos amigos


a Ilha sempre me chama

e no meu barco
sem cais
sempre cabe mais um verso

mas é incompleto
sem você

os pássaros de tom
se unem
cantam
graças vivas
alegrias

minha morada é a Ilha

onde os caminhos se abrem
e o mar dos meus olhos
contigo

é mais brilhoso

e feliz

7/24/2009

Sareuá



-retire o cobertor da minha alma

a voz
essa alquimia
lisa e escorregadia
essa boca me canta

É uma pedra velada
está no íntimo
de todas as criaturas

risco o mar
com uma pérola

neste desenho a mancha
é uma luz
que invade os rabiscos
entre as folhagens

o sol
sempre me abraça


na alquimia da tua voz
toda a natureza

me beija

7/14/2009

Não, eu não lamento nada




Composição: Michel Vaucaire/Charles Dumont

Não! Nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal - isso tudo me é igual!

Não, nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Está pago, varrido, esquecido
Não me importa o passado!

Com minhas lembranças
Acendi o fogo
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles!

Varridos os amores
E todos os seus temores
Varridos para sempre
Recomeço do zero.

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...!
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, isso tudo me é bem igual!

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...
Pois, minha vida, pois, minhas alegrias
Hoje, começam com você!
Começa com você

7/09/2009

Apresentação na Escola Autonomia





Foi muito gratificante participar da Feira Literária da Escola Autonomia. Entre muitos pequenos espetáculos que aconteciam simultaneamente por toda a escola, eu e Vicente Heusi Corrêa, botamos pra quebrar, na sonorização de poemas meus e de outros novos e velhos autores brasileiros.
Entre o público estavam pais, professores e alunos, e quem quisesse chegar.
Obrigada sempre.
Fotos Fernando Angeoletto.

7/02/2009

Geleira



As flores
iam ganhando
um lugar no seu semblante

o chapéu verde
compõe a sua beleza:
folhas e desenhos de raíz
horizontes entre os galhos

no caldeirão:
erva-doce, canela e gengibre

as tardes
sempre foram cheirosas
ao seu lado

toda cor
todo o breu

ontem os farelos
se espalharam
no lençol

a marca deste crime
é o arrepender-se
amargamente

manchas da minha dor
tomaram o seu olhar

sobraram palavras apagadas
luzes vencidas

e essa geleira
desmoronando
no espelho

6/26/2009

HaiKais para Orixás e Voduns

Estou produzido peças de cerâmica inspiradas nos orixás e voduns. As crenças, lendas e a amizade cada vez mais estreita entre eu e o mestre Canabarro (CEART-UDESC) me fizeram procurar saber como eu via e sentia os orixás. Para a mesma disciplina de cerâmica produzi como trabalho escrito pequenos Haikais para cada orixá ou vodum que eu pesquisei. Divirtam-se. Quem conhece as lendas, vai saber.
Lá vai axé!

Rirro! Euá!

-Oxumarê

Chocalho canta cores

Os horizontes

São todos meus


-Oxum

Mãe do mel

Flor no corpo

escorre sensual



-Nanã

Lama linha

neste rosto

chove anil



-Xangô

Abre as brasas

do peito

chama sobre pedra


-Yemanjá

Cestos de peixes

Perfumes das ondas

Rainha do sal



-Ossâin

O mistério

Do cálice verde

Me encantou



-Iansã

Lanças sobram

No vento vermelho

Carapuça me proteje


-Irôko

Sob tuas raízes e sombras

Descanso o mundo

Teu tronco me abraça


-Exú I

Mesmo a rua trancada

É sempre sim

Sua gargalhada


-Exú II

Para o charuto

A fumaça dança

Alegremente



-Yewa

A estrela cintila

Sobre o espelho

Das águas

Balões

Este semestre estive diretamente trabalhando em vídeo-performance.Esse é o 1o de quatro vídeos que serão postados aqui. O que falar da imagem e da sensação? Não sei, tive que justificar academicamente, mas aqui, neste meu tapete de criações, a criação fala por si. Ps-Não, não foi inspirado no "padre baloon" heheheh.

6/13/2009

A sombra da montanha





Entre as folhas brancas e lisas
o guardanapo limpo
desenho das unhas
e das mãos
percorrendo o liso dos lençóis

quem foi que abriu a porta pra você
entrar?

cheio de expectativas
cheio de verdes
cheio de um amor
que eu não possuo

mas você me detém

amasso meu peito
ameaço

é um alarme
uma aberração
do amanhã

Que é essa nuvem que vem
me chover inteira?

Será o pássaro da morte
ou da mudança?

No alto da montanha
sobrevôo toda dor

estarei só?

de mãos dadas
com a sombra?

minha
sobra.

6/01/2009

Sobre Ryana Gabech*


Mar de poemas
essa sereia escreve
sabe no íntimo da luz
o brilho do outro
e também o lado opaco

como é fluida sua ambiência marítima,
também ela pode
ser tarjada de cigana
por possuir dons, e ser amiga
de gnomos e salamandras.

Uma vez, escreveu tanta palavra,
Tanta palavra
que teve de criar um rio,
só para abrigá-las.

É tão curiosa sua figura!

E para tanto não poderia deixar,
como digna das sereias,
de ser bela e encantar povos,
com seus talentos todos
nos reinos abissais.


*poema de Sarah Ferreira para mim, no meu aniversário...

5/22/2009

Via Crucis

Entre seus dedos delicados
minha pele proibida
no vestido

um feixe de luz
rompe as retinas
nos caminha inteiros
entrelaça nossos corpos
rebrilho
rebrilho

as duas estradas lácteas
curvam no amanhecer

o avô sol nos batizou

quem proibiu o encontro
entre a maçã
e eva?

as cadeias materiais
e os quadrados brancos
nos separam

mas o suor do meu corpo
quer encontrar
o teu

o suor do meu corpo
desenha os azulejos

passa por debaixo da porta
encontra tua floresta

a cortina de palhas
se abre

o teu rosto
encontra meu leite
rebrilho
rebrilho

do possível
ao impossível
a via
é o teu corpo

5/20/2009

Itajazz


O sonho era o banco de trás de um carro potente e popular.Uma carona no fim da noite de jazz.Artistas falavam e falavam,regados de uva e grãos líquidos de cevada. Os navios do porto desenhavam calmamente as águas azul-petróleo que balançavam no cais. Você me abraçou. Me beijou. Eu vestia um cabelo postiço, liso, e uma faixa branca segurava os fios para que não trapalhassem meus olhos, loucos para mirarem o seu. Depois disso, o vento de Navegantes arrastava suas tristezas. Romeu também não pôde amar Julieta. Depois disso a balsa nos separou para sempre. O seu violão dança nas esquinas da madrugada, marulho. Seu violão canta a paisagem: uma saudade. Abri os olhos e nos vi abraçados ao som do sax e de caronas alegres em madrugadas frias. Os menores e mais aconhegantes lugares moram maciamente na minha alma. Acordei e ouvi sua voz cantanto em uma janela na luz da cidade parada, você ontem: pra sempre.

5/11/2009

Para em um muro ser lido

Venha
o novo é agora
se há o novo
é o homem que chega
com seu jarro d´água
e
liberta os peixes do aquário

a imensidão da água cria novas ilhas
aos que precisam da terra
ver o mundo de mais longe
daqui de dentro de mim

a liberdade é voar
sem asas

Venha,
coloque os dois pés na jaca
banhe-se de argila e cor
vire a camisa
junte-se a essa constelação de talentos
pulsantes

as expressões de todos os rostos
pedem paz
nossos relógios estão parados
para a razão

os cintos
os manicômios
as prisões
e as notas de rodapé

tudo foi enterrado, quitado, pago
por uma nação
de flores e animais selvagens
construções

Venha,
tudo foi posto abaixo
os caminhos estão abertos

você pode falar e ouvir
ter tempo para observar
e agir

agora todos caminhamos de mãos dadas
com o diferente
e o extinto

a emoção é a lei de todo sonhador

você pode me chamar de imerso
subversivo e alienado

mas as maiores conquistas
vieram de grandes sonhos

e os grande sonhos venceram
sendo aparentemente impossíveis
a olho nú

remova suas vendas
e embarque

a arte
é sem passagem de volta

5/08/2009

Hoje!




Poetas e poema em uma noite no Café Matisse.

Sons.Silêncio.Poesia

4/22/2009

A lanterna do monge




quarto escuro
fresta de luz
no fim da janela

o eremita veste sua roupa
caminha solitariamente pelo sótão

muitos já se foram
e ele deixou muitos
para trás


o eremita encontra os pedaços
de seu corpo de ontem
as fotos dos que morreram
as linhas ainda jovens
de suas mãos

olha fixamente a escuridão
respira fundo
e chora

chora

até que as lágrimas
sorriem
e acenam
a serenidade
no semblante

caminha
com a cicatriz no peito

fervendo de saudades

4/14/2009

Para um amor escondido na casa



Eu te faço voltar
a tuas pegadas marcadas em um tapete
de crochê

nós dois moldando nossos corpos
argila vermelha
marcas de tinta
nas costas

o desenho imaturo dos seus olhos

eu escrevo na terra
as palavras que tua boca vai falar
tateio teu respiro
contenho teu gemido

eu tranço tecidos na noite
com o seu nome

pinto a bailarina pálida
que passeias de mãos dadas
com as minhas mãos


Eu sei todos os segredos
e as ameaças que te retém

Eu sempre te espero
como uma velha rendeira
de lábios molhados
e cama derramada de néctar
desta flor que povoa o jardim


seu nome preso entre os meus cabelos
esta torre entre nós

Há luzes nesta sala
sem o seu riso

É noite
e você se esconde

Há sussuros e cães
a uivar

Sou a mosca da sua sopa
puta de presépio
a ferroar
os seus sonhos


marasmo
cama

e memória




*foto: Estrela Polar

4/05/2009

A Águia do Norte

o relógio vai deitando no tempo
e esses lixos
gases e moedas
tintilando no carbono e no petróleo

um retrato empoeirado na estante
a água enchendo a casa
as paredes e janelas
chorando
uma saudade de um abraço
nunca concebido

no tempo corrido
segundos, vestidos vermelhos
escondidos em gavetas em decomposição

um ar
você vem rasgando todas cortinas
acendendo velas no meu sonho

são espelhos quebrados
pendurados na entrada da sua porta

barulhos no sótao
selvagens animas
de guarda

mas algumas danças entre as mãos
e os braços
o sinuoso gesto do quadril
um sorriso rio


A passagem se abre
qual olhar
eu poderia colher esta manhã?

é um labririnto de fogo
onde a águia
queimou uma asa

E neste sofá azul
esperou para ouvir histórias
e correr os dedos por
entre os meus cabelos

quero abraçar a sua parte
que mais me dói

voar
machucada

Lançamento+ Recital de poesia

Dia 8 de abril (quarta-feira) às 19:30 estarei lançando o Trêmulo nas livrarias Catarinense do Shopping Beiramar- Florianópolis

A noite contará com um recital de poemas conduzido por mim e pelo ator João de Barros

é gratuito!


Venha..Venha!!!

3/13/2009

*Uma madrugada incapaz de superar crises



"É como dez mil colheres
quando tudo o que você precisa é de uma faca
É encontrar o homem dos meus sonhos
E então conhecer sua linda esposa
E isso é irônico... você não acha?
Um pouco irônico demais... eu acho..."

Alanis Morissette in Ironic





E essa mania poética de ver as coisas
Saudades do que se quebrou
Alarmes para o pó

Convivências noturnas com fantasmas:
Billie, Cássia, Elis e Tom

Filhotes de gato
Estrelas gritando no vazio
Cigarras buscando comunicações de massa

Silêncio impregnado de dúvidas e insônia
Miado no tapete
Unhas roçando no sofá
Preocupações
Gavetas de papéis
Filas
Bancos

Outrora o meu povo era o dançar
E o cacau era minha cor

Barulhos da casa em decomposição
Relógio marcando a hora do levantar
E os pássaros cantando
Entre as buzinas dos carros

Veia sem dono
Carne misturada de cheiros
e gosto pelo verde amplo

levanto para o mundo
querendo o passado
colando as fotos e as folhas do futuro
da mulher atual

lisos cabelos
preocupada
exauta

e esquecida
de mim.


*Acima quadro de Karina Segantinni "Uma mulher incapaz de superar crises" acrílico sobre tela

Rainha da dor



Há uma pequena mancha preta no sol hoje
É a mesma coisa antiga de ontem
Há um chapéu preto preso no topo de uma árvore alta
Há um mastro com uma bandeira e o vento não vai parar

Eu estive aqui antes
dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta da minha cabeça
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor

Há um fóssil que está preso na muralha de um alto penhasco
(É minha alma lá em cima)

Há um salmão morto congelado em uma cachoeira
(É minha alma lá em cima)

Há uma baleia azul encalhada pela maré baixa da primavera
(É minha alma lá em cima)

Há uma borboleta presa em uma teia de aranha

Eu estive aqui antes
dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta da minha cabeça
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor

Há um rei em um trono com seus olhos cheios de lágrimas
Há um homem cego procurando por uma sombra de dúvida
Há um homem rico dormindo em uma cama dourada
Há um esqueleto sufocado por uma casca de pão

Há uma raposa vermelha dilacerada pela matilha de um caçador
Há uma gaivota de asas pretas com as costas quebradas
Há uma pequena mancha preta no sol hoje
É a mesma coisa que ontem

Eu estive aqui antes dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta do meu cérebro
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor

Rainha da dor
Eu sempre serei a rainha da dor
Eu sempre serei a rainha da dor

3/09/2009

Sarahbesco Japonês



+para minha amiga Sarah, aniversariante hoje.


O galho mais torto
o rabisco mais fino
arabescos japoneses
compõem a imagem
do teu filme

troncos e areias
se misturam entre este corpo
que adorna e canta

tu vens salvando
os passos
dos que preferem rir
e seguir

enfeites, cores
flashes
pulseiras tintilam
no ar
quando abres a porta
da casa
e resolves o mundo

Entre teus pés
a fibra de uma madeira
que nunca esfarela

seguro tuas mãos
uma bailarina obscena
nos cerca em todos os girares

estendes os braços
te posicionas no palco

os teus olhos de coruja
recém nascida
e sábia

as palavras
e risadas
saem das calçadas
e dos postes

as folhas abrem caminho
as luzes procuram te presentear
com o horizonte

as ruas sorriem
esperando tua passagem

gelo no copo
água
as palmas se inquietam
e as cadeiras começam
a pular

entre o taco
e as coloridas bolas
és a que mais brilha
sem gol

dona das taças e das festas
de todos os afetos

a noite te chama
e o dia te sacode

para dançar



Blog de Sarah Ferreira

http://saritz5.blogspot.com

3/03/2009

Trêmulo no SESC Prainha!



"Poeta
trapo poeta trapo poeta trapo poeta frigideira e limpador..."

Eba!
Mais um dia para todos prestigiarem o espetáculo
"Trêmulo"
com direção de João de Barros.

Projeto Mulher em Foco

Dia 5 de Março (quinta-feira)
19 Horas
no SESC PRAINHA

Entrada Gratuita

Venha!Venha!

Não Funciona ou Funciona?



por Ryana Gabech

diretamente para o coletivo operante dos maloqueiristas dentro ou fora da cova.


Sete horas da manhã. Banana. Leite. Mamão, aveia. Fim do pão. Vitamina. Pia, água, liquidificador. Botão emperra: não funciona. Sem vitamina.

Poesia funciona? Ou poesia é uma mosca? Nau que vaguei em alto mar, na tempestuosa maré das letras cortantes. Poesia fere? Ou é um balão de ar? Você olha para o alto? Vê letras? Lá vai o balão-poema. Quem encheu?

Esses dias eu vim caminhando para a casa e a perna travou. Eu lembro que quando criança, eu adorava pular muro, galho de árvore, telha, altura. Não dava nada, a perna funcionava melhor. Inclusive tudo funcionava melhor. Até os joguinhos pisca-pisca do sonic, nintendo, essas coisas. A gente apertava uns botões grandes sabe... O dedo da minha criança afundava naqueles controles. Hoje não, meu nintendo virou um mp3, e por incrível que pareça, não funciona.É mais comum entre os ares da modernidade as coisas serem descartáveis. Quase nada mais funciona muito bem. Ou já funcionou? Eu lembro da historia de um amigo, que chegou em casa e viu seu irmão comendo um “ miojo com ki-suco” famosa engronha da modernidade. Depois de alguns momentos de contemplação um deles disse: “ olhe isso!!!O que eu estou comendo? Isto não é um macarrão! E isto: não é um suco!!” .

Bendito insight! Macarrão instantâneo é apenas uma massa de trigo frita e embalada para “reduzir o tempo de cozimento”,e o “ki-suco”...Arf!! Grande playground onde se escorrega em aromatizante. Engronha com título de alimento: não funciona.

Às vezes as coisas não funcionam por pequenos detalhes, às vezes pequenos demais. Como ir acampar do outro lado da margem, atravessar o rio, montar a barraca e esquecer justamente, ou melhor, drasticamente: a caixa de fósforo. Ou se atarefar tanto a ponto de esquecer o aniversário da avó de sessenta anos par a ir à uma reunião da bolsa de estudo da faculdade: no sábado.

Já quando a coisa não funciona porque é grande, é bem mais triste. Com por exemplo doar muitos hectares de terra tomada por reflorestamento de pinos para um índio mbya-guarani (juro que não funciona mesmo, e é bem próximo de todos nós, inclusive daqui).

Parar na fila do correio para colocar um Sedex. Desanimador por si só. Se não bastasse a fila, a pessoa que deseja colocar um sedex deve saber que a embalagem a ser preenchida NÃO é liberada enquanto se espera.Pois, segundo funcionários do Correios, se a pessoa vai embora e leva a embalagem, são eles “ quem tem de pagar”.

Não funciona mesmo. Ê Brasil! Ordem e Progresso."Pogrécio, pogrécio".

Quando a porta do armário não fecha, alguma coisa não funciona. Pode ser o puxador, o trinco, ou a dobradiça. Sempre que algo não funciona, é como se alguém apagasse a luz, ou como se acionasse em nós um fit-back. Passa um filme na cabeça. Tem que parar, respirar fundo. Refletir. Ou quebrar o armário. Parece que o que não funciona, sempre gera uma reação.

É como perder a última peça do quebra-cabeça com a imagem que a você ia colocar no quadro e dar para a namorada pôr na sala de estar, no centro da parede. Dá tanta raiva, que a vontade é fazer a namorada engolir as peças (embora ninguém se permita fazer isso de jeito nenhum). Ou você escolhe simplesmente encarar o fato. Começa a rir e chorar descontroladamente de um jeito bizarro, e decide fazer chuva de pecinhas da janela do seu ap. Tira foto. Faz trabalho contemporâneo.

O que não funciona, desenvolve-se ou desenvolve o espectador. Quantas vezes Ainstein chegou a maravilhosos experimentos? Quantas coisas tiveram que pifar ou acabarem em um desastre, para enfim funcionar? Funcional. Quando algo não funciona certamente nos modifica. E se funciona, a lâmpada acende.

A porcelana, maravilhosa descoberta do séc XVII, foi descoberta por um alquimista alemão que buscava a fórmula da pedra filosofal. A pedra não funcionou, a porcelana, sim.

Então diante de qualquer dinossauro épico que não funcione mais, devo parar?Agir?Ou contemplar?

Afinal sou eu quem não funciona? Ou a coisa em si?Vejamos o lixo. Olhe bem para o lixo: ele não funciona mais . Mas em outro contexto: funciona! Como diria uma amigo: “ lixo não! Matéria-prima de excelente qualidade”. Tudo se transforma. Ou deve se transformar? Então não há erro. Há experiência.

Na verdade o que não funciona é a matéria-prima do funcionar livremente.Então se a coisa era funcional e não funciona mais, ela é livre de sua pequena e limitada função. Ela é livre para funcionar diferente.

E você está livre para funcionar em outra woltagem? Abra a tomada e modifique os fios. Escolha outras entradas. Mude o seu corte de cabelo, mude primeiro. Tudo que funciona igual, não funciona mais em seu contexto. Gosta de samba?Vá há uma orquestra Sinfônica! Só vai ao teatro terça? Vá durante uma semana. Só tem amigos que parecem com você? Faça amizade com um vendedor de algodão-doce.Tome sorvete no inverno. Brigue com as pessoas que você nunca viu antes. Empurre. Puxe. Vire de ponta-cabeça. Mude o sentido. Só gosta de romance? Leia poesia.

2/27/2009

Muro-para Bárbara


"Em meio aos trigais ensolarados

Descobri um brilho estranho

Seus imensos olhos castanhos


Acordando"

Perséfone Hades (Bia Unruh)

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Muro


Um dia em que todas as placas

têm o seu nome

essa avenida com suas marcas
passagens para nossas risadas


Seus retratos no outdoor
seus dedos segurando um cigarro
no corredor

entre amarras
flores e palcos

seu cabelo
seu gesto

tudo aqui onde estou
é você


Sentada na quina do sonho

você pula o muro
e me dá as mãos
saímos por entre as plantações
de trigo e arroz

o sol nos abraça



no meu sonho

2/19/2009

Eu leio autores vivos!



Ultimamente ando muito atenta aos prefácios dos livros. Não aquelas críticas chatas que se limitam apenas a transcrever um trecho do poema e as reflexões para ele (ninguém merece), e sim a prefácios de pessoas que ficam (aparentemente) muito tempo pensando no que escrever para tal obra. A obra para mim, é uma coisa muito próxima do artista, até mesmo quando ela é oposta ao que o artista é, mas até os contrários são muito próximos,
então estamos todos em uma mesma panela fervente.

O primeiro livro que chegou em minhas mãos este mês foi o do querido amigo Berimba de Jesus, que lançou de maneira oficial com selo, etc, o terceiro livro tão esperado "Encarna"- São Paulo, Annablume,2008. Coleção Dix Editorial.

A beleza e simplicidade dos poemas de Berimba é um assunto quase encerrado e o "quase" permite à ele continuar escrevendo e andando por aí,
para nos encher os olhos com o seu sorriso poético.

O prefácio de "Encarna" foi escrito por Márcio André,
vou colar umas partes aqui, para saborear:

"Se pudéssemos seccionar e isolar tais vertentes, tendêcias e direcionamentos da literatura ou da arte de um modo geral, chegaríamos a apenas duas atitudes diante dela: aquela (grande maioria) que enxerga no ofício da escrita uma possibilidade de expressão ou afirmação dos valores de quem escreve, deixando entrever aí uma ferramenta ideológica e de consolidação institucional, e aquela onde a escrita é já a própria condição fundamental da vida, de tal forma que o escritor não a concebe possível fora de sua dimensão.Entretanto, é justamente na direção-isto é, aonde levam-que os caminhos se qualificam e o artista se define quanto ao seu papel social e ético.Está em jogo se a obra de arte será sujeita ao indivíduo ou se é o próprio indivíduo que se conformará em corresponder os apelos da própria arte."



"Então, se há neste livro um mérito-e há muitos-, certamente está na busca por um caminho onde a vida e a poesiasejam o mesmo- "vida maior"-, de tal forma que já não seria um autor a escrever o poema, mas o poema a escrevê-lo. A busca por essa correspondência fez Berimba- neste caso, o poeta- concretizar, através do auto-aperfeiçoamento e autocrítica, um terceiro livro maduro, a um só tempo cru e sensível, verdadeiro, direto e sem firulas, como deve ser o olho e a boca daquele que tem a poesia na veia e diariamente mata um leão com as mãos.
Num mundo e numa cidade onde a poesia pegou sólidos vícios de mão única, consolidando técnicas paradigmáticas de polarização e autocanonização, a mensagem subliminar ecoando ao fim deste livro talvez seja: vocês terão que engolir a minha poesia, esta que encarna em todas as coisas. E um livro onde a vida é risco, onde a poesia é risco.Uma poesia viva e da vida e fala por si só.


Agora, três poemas e o link para o blog do poeta:

"anseio
pelo tombamento

das flores de aço

e que de novo se mate

as flores por amor"


"chega a hora de pôr fogo
em tudo

falta você
vir comigo

e olhar nos meus.

disse não?
te ateio fogo também"



"abraço um peito cheio de nós

o amo.

normalmente restaria
um só
trocando confidências por estórias possíveis

no caso praguejo
sobre a falta
que me faz
o que não tenho.


tropeço mantendo

a suposição do futuro."



O livro conta com o projeto gráfico e lindos desenhos de linha de Marcus Binns.

www.berimbadejesus.blogspot.com

2/09/2009

Mariposa



"O meu casulo
avistou o teu
que estava vazio

Já és mariposa?
eis o projeto de meu corpo."

Enzo Potel


Borboleta

Grudada entre os vidros
uma borboleta
dança

sou essa menina sem asas
só cores jamais vistas

no fundo do arco-íris
um pote de formas e destinos
conto os dias
para partir

nunca vou derreter
sou bruta e leve
púrpura e flor

nasci dentro do vento
quando vôo

e quando minhas mãos
seguram as tuas

é purpurina
e primavera

2/04/2009

Poazia



Tragam-me o remédio para a poesia que ainda se escreve. Para as noites que ainda não são manhãs.Para as mãos que ainda teimam em matar, perfurar, extrair e enquadrar. Tragam-me logo o remédio para a modernidade, para o exagero dos fios e dos frios. A cápsula protetora para os ruídos. A janela que mostra o silêncio. As gaivotas ainda soltas no ar. As ruas sem petróleo. A água sem flúor. Tragam-me um remédio que me possibilite escrever, sobre o que não é mais, o mar. Um tranquilizante inspirador, para o que não existe e deveria existir. As flores que já morreram, as flores que não chegaram a nascer. Os abraços nunca dados. Os olhos que nunca se encontraram. Tragam-me um realçador de sabor para o desbotado das comidas e bebidas. E tragam-me também, sem esquecer, o amor em e-mails e mensagens eletrônicas. Tragam-me as palavras-chaves para a reconstituição da alma e da moral, do zelo e do contruir, do sólido e colorido bucolismo já remoto.Tragam-me uma vaca portátil para pastar na minha fazenda.

A desaparecida

Depois de cruzar vinte mares,matar nove onças e percorrer cem quilomentros à pé, com as roupas na mão, e o suor desvirado na pele, um homem a vê e pergunta:

-De onde vem tanta força?

-De uma dor.

Ela responde, e desaparece.