acaba de pousar em meu ventre
um poema
está coçando
procuro o sol do dia
escondido atrás do branco
chuvoso
alguém disse que
o sol
deu as caras
a cortina continua morta
o chão cheio de pêlos
um vestígio assombra
o meu ovido
arrasta-se em granidos
forças opostas
o denso movimento
que acelera entre
nossos corpos
a sua flor salvou o meu quarto
da escuridão
a sua peça
as roupas que te escondem
me trancam
quero falar com
a sua pele
mas a porta é um colar de péroloas
anéis, furtos
preços, tábuas
barras de metal
para te ver
quero seu júblo uivando
meus seios
quero a dança monótona
dos seus dentes
ruidosos
peramulando as minhas noites
procuro
a sua sobra
pelas laterais de um suspiro
e na casa
a casa que habita
a rouquidão de uma ausência
a casa
cheia de guilhotinas
cheia de máquinas
rupturas
e o relógio do tempo
apavorando os cômodos
e o tremor das xícaras
e o fulgor
da campanhia que grita
sua parte em migalhas
juntando os pedaços
ao fundo
na procura pelo raio
se difunde
liquefeito como nossos encontros
em sono
um tom
8/30/2007
8/27/2007
A flor e a Náusea- Drummond

Preso à minha classe e a algumas roupas
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvoe dou a poucos uma esperança mínima.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvoe dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
porta do paraíso

tenho uma agonia alinhavada no peito que é ancestral. brinca de ser deus e o diabo.me apavora.quem me vê, desdenha?quero comprar mais que pão.o tamanho do seu olho, me amedronta. esse caminho trilhado, essa bomba vestida de presente. você nunca liga se é tarde demais. fica devanenando as ceitas, oferendas, e me afoita enquanto só penso em bem dormir. essa febre que toma as ruas vestidas de cinza.os trajes pendurados no varal de uma moça que foi abandonada pelo marido.esperas.a sesta de quem precisa curar a gripe e se levantar. off para a janela turbulenta. off para a lâmpada de mais de 100 w. off para a geladeira que impregna a casa de ausências.off para seu conceito abafando o meu etômago.off para suas palavras que são faróis vermelhos piscando a epiderme. tecendo meu arranhão. off para tudo que não for abraço.off para o frio, para um dia a menos de bons momentos.off para os nós, as esperas.espera.espera mais um pouco.
*imagem: J.Beuys
8/23/2007
Henriqueta e Drummond...

A correspondência do afeto de Henriqueta Lisboa e Carlos Drummond que chegou a mim através do Jornal Suplemento diretamente de BH- Minas Gerais copio aqui, para delícias entre os poucos e especias leitores deste Blog:
"O seu livro chegou nos primeiros dias de inverno.Eu estava com uma gripe miúda, mas implacável-que até hoje me persegue. Instalada na minha cadeira de balanço, fui lendo o que você enviou.Além do Devaneio, tive o conforto de conhecer, devagar e detidamente, o balanço de um grande coração. Como pode ele transmitir tranquilamente, para lá, para cá, ente o viver quotidiano e as coisas inefáveis?"
Carta de Henriqueta respondendo e agradecendo a Drummond o envio do livro Cadeira de Balanço.
Outros Trechos de cartas de Henriqueta
"Minha avó costumava acordar a netinha tocando-lhe o rosto com uma folha malva. Você agora me saúda-irmão-com a mesma delicadeza de antigamente."
" Depois de ler e reler Sentimento do Mundo, quero manifestar-lhe a impressão que me causou este livro estranhamente sofrido, intensamente realizado. Não conheço, na poeisa brasileira, livro mais grave do que esse;nem mais sóbrio na sua plenitude artística, nem mais triste, na sua substância anímica. Do absoluto real, e só dele, se alimenta a sua poesia: grave, pois, pela força do elemento humano. Sóbrio pela concentração dessa força nos limites de uma arte impressiva, talhada a golpes firmes e fundos. E triste pela obstinação que o leva a refletir unicamente o lado cruel da existência. Talvez se explique o sentido da sua poesia à evidência de um choque entre cultura e civilização, se é que à primeira se condicion o espírito e à segunda matéria. Como poeta da hora presente ("Mãos dadas"), você raliza, com a sua arte seca e breve, uma espécie de balança em que se equilibram, de um lado, as nostalgias secretas de um mundo apenas entrevisto e logo perdido (" Havia jardins, hava manhãs naquele tempo!") e, de outro, a irretorquível necesidade de viver a vida quotidana, a vida de hoje, com todos os seus apetrechos de emergência"
A última lâmpada

Meu amor. Eu estou me desfazendo. Mantenha-se longe e eu me desviarei no primeiro vento.Montanhas. Você calcou, subiu, desceu, fez o que quis. Não aceitei, mas no primeiro dedo me joguei. Você quer que eu beije seus pés?Você não quer saber nada?Meu amor, o dia está acabando mais uma vez. Mais um dia sem o seu respiro perto. Você já esteve aqui. É com a velocidade e a absurdidade de um sonho, que você me toma. E é tão distante do real e próximo do sonho, que eu simbolizo matematicamente e milimetricamente suas aspirações. Estarei próxima enquanto você dorme.Nada passou.Meu amor, sinto que um pouco de mim já se dilui na sua demora. Vou transborando entre os deus dedos como grãos frios e finos de areia, me esparramo, você pisa, pisa, pisa. Eu juro que plantei mais flores. Mas as suas raízes é que povoam as escadas da casa. É a décima vez que não sei se sigo a placa, ou afoito a sua presença colada entre os dedos do meu medo.A sina prorroga suas entrefaces, eu te assisto na tv. Você passa o brilho dessa estrela fantasmagórica em muitos quereres. Meu amor, a culpa é minha de te querer ainda? Meu amor, mais uma vez, a última luz da noite na mais dolorida janela da vizinhança é a minha. Suas fotos estão a prontidão. Seu elixir reside no meu suor, eu tenho certez. Quanto tempo já durou o seu orgasmo com outro álguém?Meu amor, a única lâmpada que iluminava a cama está se apagando eu estou com muito frio.
8/20/2007
"lista de coisas brancas*coisas que podem ser, que parecem, ou que eram brancas

arroz.açúcar.nuvem.sal.caderno novo.tontura.neve.pérola.céu nublado.sussurro.borracha de apagar.concha.minha geladeira.cabelo branco.vermes.pasta dental.eco.naftalina.dia de sol forte na praia.ovos.morte.tinta de parede.vômito.guarda-pó.cocaína.maionese.roupas de médico e dentista.larva de inseto.dados.pasta d’água.remela.papel.nervo.página.palmito.branco do olho.máscara para pó.quando se esquece de repente.mingau de aveia.dor de cabeça.melão aberto.tempo que não passa.papel toalha.dentro do pequi.sabão de côco.caneta quando falha.vôo.pedriscos de aquário.farinha de trigo.alho.dentro da barata.polpa de fruta-do-conde.franqueza.ossos.quase no fim de alguma coisa.metade da zebra.pelicano.glândula parótida.anseio.sofá.barba.arrepio.miolo de pão branco.sêmen.dentro da semente da fruta.esqueleto.rabo de macaco comodo.guardanapo.couve-flor.insônia.sulfato de bário.cimento branco.iceberg.dentro da maçã.falha.travesseiro.gaivota adulta.urso polar.máquina de lavar roupa.dentro da jabuticaba.magia branca.forno microondas.leveza.roupa delutador de sumo.marfim.entre a polpa da laranja e a casca.cabra-das-neves.flor da figueira-do-inferno.cegueira segundo Saramago.quando a unha cresce.papel higiênico.leite.neblina.dentro do travesseiro de penas.faixa de pedestres.saudade.instante antes do desmaio.saco de leite tipo a, b, c.ovos de siba.legenda de filme.shampoo.varinha de condão.plâncton.cano de esgoto.farinha de mandioca.pólo sul,mosquiteiro.nudez.copo de plástico descartável.interruptor de luz.glândula mamária.cursor.talo de couve-chinesa.desejo.lacre do vidro de requeijão.pólo norte.borboleta.bola de golfe.gás lacrimogêneo.elefante branco.buda.barriga de pingüim.chuvisco de tv fora do ar.flor de heléboro.creme para cabelo.atrás da foto.algodão.paz.secreção nasal.vestido de noiva.pele de quem não toma sol.fumaça de cigarro.sabonete.chocolate branco.ovo de piolho.creme de espinhas.flocos de arroz.talco.bolor de pão.iglu.caspa.flash.nabo.areia de praia.cheque em branco.dente de leite.prédios públicos.leite de magnésia.filhote de urubu.gaze.avião.flor de feijão.coruja-das-neves.dunas.substância gelatinosa de ovos de sublingual.deserto.cal.gato branco.pensar demais.protetor solar.espaço entre as linhas escritas.prato de porcelana.horizonte.requeijão.fantasma.gordura vegetal hidrogenada.lençol de hospital. Coelhos.salada de repolho cru.saponáceo.luz.nosso carro.estrelas.animais albinos.
*parte do trabalho de Raquel Stolf "Lista de Coisas Brancas"
feche os olhos
e me abrace
a cera endureceu
estou tonta
entre os pés
faíscas
entre as unhas
sobras de uma mulher
que escorreu pela cadeira
se remontou
e ao invés de brotar
é fel em terra
é fel que escorre
é fel de grito comprimido.
Viva
a planície de uma janela
limitada
uma reivenção
dos galhos aglutinados
de ruídos
eu estou pó hoje
assentei entre as mobílias
e estou seca
sem passagem para falar
farfalhar
feche os olhos
feche
quero ouvir você rir
estou
no seus olhos fechados
quando me abraço
e me abrace
a cera endureceu
estou tonta
entre os pés
faíscas
entre as unhas
sobras de uma mulher
que escorreu pela cadeira
se remontou
e ao invés de brotar
é fel em terra
é fel que escorre
é fel de grito comprimido.
Viva
a planície de uma janela
limitada
uma reivenção
dos galhos aglutinados
de ruídos
eu estou pó hoje
assentei entre as mobílias
e estou seca
sem passagem para falar
farfalhar
feche os olhos
feche
quero ouvir você rir
estou
no seus olhos fechados
quando me abraço
8/15/2007
Gullar...Gullar...ar..ar
PRIMEIROS ANOS
Para uma vida de merda nasci
em 1930
na rua dos prazeres
Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror
Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)
E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul
E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.
Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
(Buenos Aires, 1975)
Para uma vida de merda nasci
em 1930
na rua dos prazeres
Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror
Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)
E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul
E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.
Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
(Buenos Aires, 1975)
8/10/2007
*Um dia no escuro

“Meu amor, estou esperando por você. Quanto tempo dura
um dia no escuro?
Ou uma semana?A fogueira se apagou e eu estou com muito frio.
Deveria me arrastar até lá fora, mas haveria o Sol.
Estou desperdiçando a luz nas pinturas e escrevendo
isso.
Nós morremos. Nós. Morremos.
Morremos ricos de amores e tribos, sabores que
engolimos, corpos nos quais entramos e nadamos como
rios; medos que escondemos como nessa caverna triste.
Quero tudo isso marcado no meu corpo.
Nós somos os verdadeiros países,
não as fronteiras nos mapas, com nomes de homens poderosos.
Eu sei que você virá e me levará
para o palácio dos ventos. É tudo o que eu queria.
Andar nesse lugar com você. Com amigos.
Uma terra sem mapas.A lâmpada se apagou e estou escrevendo na escuridão."
*Carta-parte do roteiro do filme " O paciente Inglês"
Apareça*

Apareça.
Por favor, apareça.
Antes que as migalhas
desta aberração
que vejo no espelho
torne-se mais um esboço
do passado.
Antes que eu nasça
como um vendedor de caldo de cana,
um mestre argentino de tai chi chuan,
um policial, um papagaio,
uma cantora,
um indiano que rouba água.
Antes que o tempo
te traga de novo
sem o aviso de que teu toque
abre caminhos de dor e insapiência.
Surja
na simplicidade
de trinta minutos,
não daqui a três mil anos.
Traga as malas no carro
para ficar
para não me dar
perfume à perfídia
que é dizer
até a próxima
encarnação.
*Enzo Potel
8/07/2007
O quarto- César Félix- uma alegria por aqui!

O primeiro quarto estava sujo
o cobertor confundia-se a uma toalha
molhada de poesia e no espelho
a última declaração de amor
O segundo quarto não sabia as horas
de pedir desculpas
dizer adeus, amar
O terceiro quarto partiu
levou junto duas caixas de livros
uma caixa de brinquedos
e um saco de memórias
Tudo cabia numa carroceria
velha e empoeirada
o cobertor confundia-se a uma toalha
molhada de poesia e no espelho
a última declaração de amor
O segundo quarto não sabia as horas
de pedir desculpas
dizer adeus, amar
O terceiro quarto partiu
levou junto duas caixas de livros
uma caixa de brinquedos
e um saco de memórias
Tudo cabia numa carroceria
velha e empoeirada
bem ao lado...um retrovisor quebrado
para que não pudesse
olhar para trás
O quarto estava triste
os livros entreabertos
os bilhetes rasgados
o coração partido
e um ventilador ligado
para que não pudesse
juntar os pedaços
para que não pudesse
olhar para trás
O quarto estava triste
os livros entreabertos
os bilhetes rasgados
o coração partido
e um ventilador ligado
para que não pudesse
juntar os pedaços
8/04/2007
Documento de saída
“ Insisto na inútil resistência
De sentir seu perfume entre
Os jasmins de plástico, no vaso que enfeita a janela
Abandonada por mudanças
(...Só eu e todo os papéis do mundo sentimos sua falta)”
Mia Vieira
Vou escrever este documento, porque talvez um dia você possa passar os olhos por algo que tenha as minhas palavras implícitas, ou talvez alguém te conte uma história como essa.
Este é um documento de uma morte que brota na fresta de uma porta fechada. Você já ficou abismado, sem saber para onde ir, olhando para sempre a porta, que já esteve escancarada?Esperando a sua chegada? Embora eu pareça um totem de força e alumínio bruto meu íntimo é aquoso e cremoso, eu sou quase inteira pastosa a primeira palavra. Depois desta sua fuga ando debatendo por todas as paredes o por que de você ter aparecido. O por que de eu lembrar ainda com dor os seus traços já sem mim.
A sua fuga desata qualquer nó e qualquer laço. Embora as vezes eu também quisesse ser uma amarra sua, assim talvez você perderia mais tempo tentando me desatar e assim permaneceria mais preso aos meus apreços, mais atento a mim. Mas desde o início nós sempre voávamos como proposta ensolarada para os dois, seria injusto agora eu querer ser um barbante amarrotado para estar próxima de você.
Com o tempo e a esperança plantada no peito de quem você tem vontade, você sai com um cesto cheio. Quem tiver um belo sorriso leva do seu fruto. Você percebe, faz perguntas, e toma nota no seu questionário, qual foi a bela moça que ofereceu um abraço em troca de uma cesta vazia. Você é o rei de fazer mais feliz a qualquer mulher: segurança, taipa, veleiros, suspiros, vinhos, planos de viagem, jangada, paisagens e florestas.
E, no entanto, ao primeiro momento de tremor no barco, você não divide o medo não ata os braços, não se preocupa. E chegam de civilizações opostas, mais mulheres infundas que querem experimentar das suas cestas de oferecimento. Você sede a mais um contrato de prazer, e embora fale gostar de voar, você se diz preso a tudo outro, menos a mim.
Em meio aos maremotos amarelos, você expulsa as outras anciãs fica confuso e se tranca sozinho nas ruínas do que construiu. Novamente, não me dá a mão. Foge, foge como se não tivesse prometido passeios, como se não conhecesse mais o meu corpo, como se não tivesse falado as esperas, como se não tivesse dito epígrafe s de grandes amantes, como se nunca estivesse inteiro ali.Você não falou que estava. Mas o seu silêncio e o seu suspiro em mim me davam a certeza que sim. A sua fuga rompe todas as vertigens prazerosas que nós atingimos entre goles e línguas. Você fez brotar algo neste deserto árido e seco, uma terra que há muito não havia nada, mas você coroou jasmins em uma planície airada entre os meus seios. Conseguiu obter umidade e nutrir a pele.
A sua fuga é como a dor de um filho desaparecido.
Este documento é para que em qualquer lugar que esteja, antes de sair, nunca plante uma constelação nos olhos de quem ainda não conhece a luz
De sentir seu perfume entre
Os jasmins de plástico, no vaso que enfeita a janela
Abandonada por mudanças
(...Só eu e todo os papéis do mundo sentimos sua falta)”
Mia Vieira
Vou escrever este documento, porque talvez um dia você possa passar os olhos por algo que tenha as minhas palavras implícitas, ou talvez alguém te conte uma história como essa.
Este é um documento de uma morte que brota na fresta de uma porta fechada. Você já ficou abismado, sem saber para onde ir, olhando para sempre a porta, que já esteve escancarada?Esperando a sua chegada? Embora eu pareça um totem de força e alumínio bruto meu íntimo é aquoso e cremoso, eu sou quase inteira pastosa a primeira palavra. Depois desta sua fuga ando debatendo por todas as paredes o por que de você ter aparecido. O por que de eu lembrar ainda com dor os seus traços já sem mim.
A sua fuga desata qualquer nó e qualquer laço. Embora as vezes eu também quisesse ser uma amarra sua, assim talvez você perderia mais tempo tentando me desatar e assim permaneceria mais preso aos meus apreços, mais atento a mim. Mas desde o início nós sempre voávamos como proposta ensolarada para os dois, seria injusto agora eu querer ser um barbante amarrotado para estar próxima de você.
Com o tempo e a esperança plantada no peito de quem você tem vontade, você sai com um cesto cheio. Quem tiver um belo sorriso leva do seu fruto. Você percebe, faz perguntas, e toma nota no seu questionário, qual foi a bela moça que ofereceu um abraço em troca de uma cesta vazia. Você é o rei de fazer mais feliz a qualquer mulher: segurança, taipa, veleiros, suspiros, vinhos, planos de viagem, jangada, paisagens e florestas.
E, no entanto, ao primeiro momento de tremor no barco, você não divide o medo não ata os braços, não se preocupa. E chegam de civilizações opostas, mais mulheres infundas que querem experimentar das suas cestas de oferecimento. Você sede a mais um contrato de prazer, e embora fale gostar de voar, você se diz preso a tudo outro, menos a mim.
Em meio aos maremotos amarelos, você expulsa as outras anciãs fica confuso e se tranca sozinho nas ruínas do que construiu. Novamente, não me dá a mão. Foge, foge como se não tivesse prometido passeios, como se não conhecesse mais o meu corpo, como se não tivesse falado as esperas, como se não tivesse dito epígrafe s de grandes amantes, como se nunca estivesse inteiro ali.Você não falou que estava. Mas o seu silêncio e o seu suspiro em mim me davam a certeza que sim. A sua fuga rompe todas as vertigens prazerosas que nós atingimos entre goles e línguas. Você fez brotar algo neste deserto árido e seco, uma terra que há muito não havia nada, mas você coroou jasmins em uma planície airada entre os meus seios. Conseguiu obter umidade e nutrir a pele.
A sua fuga é como a dor de um filho desaparecido.
Este documento é para que em qualquer lugar que esteja, antes de sair, nunca plante uma constelação nos olhos de quem ainda não conhece a luz
8/02/2007
Caderno de Sonhos

Esses dias, aconteceu que eu achei um caderno de poesias que tínhamos quando ainda estava no Ensino Médio. Éramos um quarteto oficial movidos e apaixonados pela palavra poética..Um tanto precoces, eu diria, porque o material tem raiz forte, e eu tenho certeza que este caderno trasformou todos que a ele pertenceram e vice versa..Com a vontade de descobrirmos a poesia que nos habitava, mal sabíamos nós que estavamos em estado de graça acolhendo passagens belísssimas e tão verdadeiras experiencias puras das escolas poéticas que estávamos imersos. Em cima do telhado, escalando morros, rindo de bicicleta pelas cidades vizinhas.
Árcades, sonhadores, bucólicos, profundos, amigos , espelhos e tempo, que no reflexo ainda me leva a mágica aventura de sempre ter amado a palavra..
Salve a poesia, e a sensibilidade de seus meticulosos amantes do mistério que a envolve.
Sonho
(Rodrigo Azeredo)
Queria agora escorregar as encostas
[dos meus pensamentos
Desejaria comer aquelas framboesas rasteiras
Que só tem no décimo quinto sonho da
[noite passada
Queria também sentir o calor de Marte
Ao invés de cozinhar em sua superfície.
Quando estou sonhando posso viajar bastante
mas não sinto nada
não consigo
mesmo querendo
Meu espírito não tem tato
Não tem nada
E eu não posso sentir aquilo que mais
[queria
8/01/2007
Parati*

Era uma cidade insituável e de cores cambiantes aquela, o território que subvertia os sentidos: o dia projetava tons lilases e o prateado dos astros; a noite incendiava a ponte de amarelo solar, a irradiação de um fogo primitivo.
Era a cidade das estrelas próximas: esbarrariam nas torres altas - se estas lá existissem, se tivessem sido erguidas por um monarca excêntrico. Era a terra do vento espaçoso, do ar marítimo adocicado.
Atravessei a ponte e virei o rosto admirando o balé das sombras na calçada. Bamba, lancei meus cabelos como quem atira desajeitadamente uma rede ao mar, transformando meu corpo num manto embebido de letras, de prosa reverberante, da poesia declamada nas praças.
Sorri para uma câmera imaginária que captava de Júpiter, do mar ou da esquina mais próxima, a graça ligeira do meu corpo para eternizá-lo num quadro a ser desvendado pela arqueologia futura.
“Observem a aparente falta de peso dessa figura ancestral”, diriam os homens ulteriores, intrigados com a levitação dos corpos tomados de contentamento pleno.
E eu, no tempo pretérito mais-que-perfeito, airosa e desfragmentada em luz, escutava as perguntas de Davi num idioma incompreensível e alheio à mímica dos olhares perdidos.
“Está tudo bem? Quer ir a algum lugar?”, inquietava-se cuidadoso para, em seguida, dar-se conta de que outro lugar já não havia. Lá fincaríamos a estaca de madeira maciça, símbolo do fim da procura, sinal que legitima a posse da terra desde sempre destinada aos poetas, aos insensatos, aos de parte alguma.
Eu ria e ria. Ria de vinho e de pertencimento. Ria para Bel com sua blusa amarela a repetir a cor dourada da cidade-farol. Ria, enfeitiçada por seus brincos orbitais – duas mandalas feitas de rede de pescador –, embriagando-me de seu desprendimento cigano, de sua sábia alegria sofrida. Contemplava o deslizar de seu encanto para Lúcio, que o aceitava como quem recebe um presente delicado: abrindo os braços, girando o corpo, gargalhando do absurdo da vida, sem nunca comprometer o equilíbrio do chapéu havana, prestes a nos exibir um número de sapateado.
E uma vez mais Davi surpreendia meu olhar volante, meu rosto diluído nos acordes da canção inaudível, meu vulto impregnado do ar liquefeito dos canais. E então eu me condensava em torrente cálida, para lavar a alma e as calçadas, para infiltrar-me no vão das pedras e assim permanecer, eternamente sábia, definitivamente louca, a me alimentar das luzes transitórias, do vento temperado pelas algas e peixes.
*Carla Franco e o seu lindo sorriso.
Era a cidade das estrelas próximas: esbarrariam nas torres altas - se estas lá existissem, se tivessem sido erguidas por um monarca excêntrico. Era a terra do vento espaçoso, do ar marítimo adocicado.
Atravessei a ponte e virei o rosto admirando o balé das sombras na calçada. Bamba, lancei meus cabelos como quem atira desajeitadamente uma rede ao mar, transformando meu corpo num manto embebido de letras, de prosa reverberante, da poesia declamada nas praças.
Sorri para uma câmera imaginária que captava de Júpiter, do mar ou da esquina mais próxima, a graça ligeira do meu corpo para eternizá-lo num quadro a ser desvendado pela arqueologia futura.
“Observem a aparente falta de peso dessa figura ancestral”, diriam os homens ulteriores, intrigados com a levitação dos corpos tomados de contentamento pleno.
E eu, no tempo pretérito mais-que-perfeito, airosa e desfragmentada em luz, escutava as perguntas de Davi num idioma incompreensível e alheio à mímica dos olhares perdidos.
“Está tudo bem? Quer ir a algum lugar?”, inquietava-se cuidadoso para, em seguida, dar-se conta de que outro lugar já não havia. Lá fincaríamos a estaca de madeira maciça, símbolo do fim da procura, sinal que legitima a posse da terra desde sempre destinada aos poetas, aos insensatos, aos de parte alguma.
Eu ria e ria. Ria de vinho e de pertencimento. Ria para Bel com sua blusa amarela a repetir a cor dourada da cidade-farol. Ria, enfeitiçada por seus brincos orbitais – duas mandalas feitas de rede de pescador –, embriagando-me de seu desprendimento cigano, de sua sábia alegria sofrida. Contemplava o deslizar de seu encanto para Lúcio, que o aceitava como quem recebe um presente delicado: abrindo os braços, girando o corpo, gargalhando do absurdo da vida, sem nunca comprometer o equilíbrio do chapéu havana, prestes a nos exibir um número de sapateado.
E uma vez mais Davi surpreendia meu olhar volante, meu rosto diluído nos acordes da canção inaudível, meu vulto impregnado do ar liquefeito dos canais. E então eu me condensava em torrente cálida, para lavar a alma e as calçadas, para infiltrar-me no vão das pedras e assim permanecer, eternamente sábia, definitivamente louca, a me alimentar das luzes transitórias, do vento temperado pelas algas e peixes.
*Carla Franco e o seu lindo sorriso.
7/31/2007
A caixinha preta

Coloquei voce numa caixinha preta. Você fica pulando, querendo abrir a tampa.Eu tapo os olhos de quem quer ver a caixinha, mostro sua foto, estampada na tampa. Mas não abro, porque de repente você fica grande e toma o espaço do meu corpo. Pulsa inteiro. Tranco você.As vezes você dorme e tudo parece música em mim.Você vibra, mesmo quando dorme, mostra que está vivo. As vezes faz ganidos, e eu sei que você fica assim porque tem muitos quereres amputados.As vezes você sai e quer mudar de vida,tenta pular entre a boca do meu estômago e dançar no meio do peito, e o seu riso é tão solto e com tanta vontade do mundo, que eu tenho vontade de te tranferir para outro lugar. Mas a sua ternura escondida e o calor que faz a caixinha em mim, não me deixa alargar a base, você só pode sair quando eu deixo. Mas as vezes você grita e apronta uma peça, eu acabo dando corda na caixinha e você fica rodopiando livre. A sua liberdade me seduz.Fico feliz alguns dias quando você desliza até a garganta e se mostra vivo em mim. A minha fala tem o desenho da sua voz .As vezes você apaga a luz.Um comando aí de dentro que só você sabe.Eu aceito, também gosto do escuro, fico tentando te achar pelo cheiro.Abro a caixinha, e penso que você saiu para passear, mas você volta atado em um cavalo galopando com força, arrancando as fitas e abrindo a caixa,virando a placa, que sempre teve o seu nome escrito em um registro.
O homem que te contém

Ario as panelas. Removo toda a crosta de gordura. Lavo as mãos nessa pia fria, a água pedrifica gélida, me possui. Entre falas femininas o frio se evapora.O homem que te contém me ama. Mas entre suas angústias e medo, o homem que te contém guarda no íntimo dois travesseiros de penas e pregos, um com o seu nome gravado, outro com a imensidão do tempo que tomou uma forma de dor lembrada toda noite, uma herança de séculos que ninguém sabe direito de onde veio. De um não. De uma facada. Mas o homem que te contém nada me fala. É o silêncio completo de suas noções do mundo, de suas angústias e infirmezas que não me exposto,amedronta.Não quero ver suas andanças livres pelas matas, quero saber se você tem medo do escuro e se quando chora, tem vontade de dormir para sempre. Quero saber se como eu, você chega ao cume da montanha e tem vontade de desistir, só para ter outro objetivo a vista. Só para começar do zero.Só para estar indo atras de alguma coisa. Quero saber se você tem vontade de voltar a primeira vez, e se muitas vezes você queria se conformar com algo só para não ser vítima da ansiedade. Se você camaleoa por dentro, se você absorve o zune das crianças com fome que habitam a Angola.Se você escuta canções de ninar, e tem vontade de ver o mundo com o mesmo espanto que uma criança.O homem que te contém, queria voltar para tentar ser outro. O homem que te contém tem vergonha.O homem que te contém conta as suas peripáceas em sonho.O homem que te contém atravessa as janelas do mundo para me possuir.Me apalpa e me coroa fada de um jardim de tritezas que doram superadas a quatro mãos e quatro pés.O homem que te contém não é você. O homem. o homem me mostra espaços entre o céu.O homem que te contém me abraça.
7/24/2007
Extra!Extra...para a vida, notícia atual e curiosa
Entrar no portal Enzo
http://www.contodefacas.blogspot.com/
Mais uma vez sempre cintilando este artista. Com um pouco de vida e muito de peculiaridade e unicidade.Está tudo ali..a um passo de se ver...
http://www.contodefacas.blogspot.com/
Mais uma vez sempre cintilando este artista. Com um pouco de vida e muito de peculiaridade e unicidade.Está tudo ali..a um passo de se ver...
Extra!Extra!
Nesta QUINTA
dia 26/o7
na livraria alternativa Casa Aberta (rua lauro muller, nº83)em Itajaí,
a poetisa Ryana Gabech irá fazer sua performance poética "TRÊMULO: o corpo som do poema"para o encerramento da Oficina da Palavra Cidade-rio.
Contribuição de R$3,oosó pra quem tiver condições.rs..rs....
de brinde de surpresa e presente leva a performance poética de Enzo Potel
"O que nos aconteceu amanhã?"
quem tiver olhos de ver, sentirá.
dia 26/o7
na livraria alternativa Casa Aberta (rua lauro muller, nº83)em Itajaí,
a poetisa Ryana Gabech irá fazer sua performance poética "TRÊMULO: o corpo som do poema"para o encerramento da Oficina da Palavra Cidade-rio.
Contribuição de R$3,oosó pra quem tiver condições.rs..rs....
de brinde de surpresa e presente leva a performance poética de Enzo Potel
"O que nos aconteceu amanhã?"
quem tiver olhos de ver, sentirá.
7/23/2007
7/19/2007
Para a parede do seu quarto
E de repente
tudo a sua frente
vai sedimentando
em um enorme espaço negro
e o que se vê
são suas duas mãos
cheias de marcas
marcas de corpos
entre suor e sal
sementes que desejam brotar
duas lembranças
de suspiro e água
o círculo que movimenta
suas falanges e suas vitórias
o círculo que roda
o tempo
a água que invade
a lavagem dos seus sonhos
a paisagem que habita
entre os seus dedos
quando tocam no chão
perante o cais
perante o abismo
perante a camada de ozônio
o desejo de paz
entre suas duas mãos
o buraco negro
o reluzir
o reluzir
de uma estrela
que escolheu o seu íntimo
e as suas mãos
para habitar o mundo
tudo a sua frente
vai sedimentando
em um enorme espaço negro
e o que se vê
são suas duas mãos
cheias de marcas
marcas de corpos
entre suor e sal
sementes que desejam brotar
duas lembranças
de suspiro e água
o círculo que movimenta
suas falanges e suas vitórias
o círculo que roda
o tempo
a água que invade
a lavagem dos seus sonhos
a paisagem que habita
entre os seus dedos
quando tocam no chão
perante o cais
perante o abismo
perante a camada de ozônio
o desejo de paz
entre suas duas mãos
o buraco negro
o reluzir
o reluzir
de uma estrela
que escolheu o seu íntimo
e as suas mãos
para habitar o mundo
Paraty

Paraty
Um homem imita um gato
uma lesma piedosa
desenha o chão
fica presa nas pedras
janelas com horizontes
de mais janelas
canoas
igrejas e doces
esquinas
grandes aberturas para o ver
azul e amarelo
branco cinza
raspagens
buracos embelezados
e paredes mais firmes que o pilar
portas abertas
palavras manuscritas
que passeiam
silenciosas
entre os objetos
nomes já sabidos
registrados na primeira
e última passagem
balões multicoloridos
crianças
cachorros
trogloditas
umidade
risos soltura
leveza e tropeços
caminhos
uma poça deixada pela
maré
que subiu
duas poças
um espaço
e um banquinho
para sentar
e se deliciar
Um homem imita um gato
uma lesma piedosa
desenha o chão
fica presa nas pedras
janelas com horizontes
de mais janelas
canoas
igrejas e doces
esquinas
grandes aberturas para o ver
azul e amarelo
branco cinza
raspagens
buracos embelezados
e paredes mais firmes que o pilar
portas abertas
palavras manuscritas
que passeiam
silenciosas
entre os objetos
nomes já sabidos
registrados na primeira
e última passagem
balões multicoloridos
crianças
cachorros
trogloditas
umidade
risos soltura
leveza e tropeços
caminhos
uma poça deixada pela
maré
que subiu
duas poças
um espaço
e um banquinho
para sentar
e se deliciar
*foto eu entre as flores que encontrei em Paraty:Lays, Aninha, e a Deise Pacheco que fotografou!Bjos
Já passou
Já passou
e o hálito do seu arrependimento
atordoa
como um sangue de menstruação
velho e fétido
impregnado na calcinha sem troca
e o hálito do seu arrependimento
atordoa
como um sangue de menstruação
velho e fétido
impregnado na calcinha sem troca
Rói o rato
E os ratos da sua casa eram tão gordos que andavam rebolando devagar e sem pressa. Entre já os chumaços de pêlo branco, os vizinhos se perguntavam se era uma rata prenha, um rato velho ou uma raposa bem vivida.
7/07/2007
Seu nome escrito
na porta do quarto
pedras
pedras pedras
até chegar a sua casa
seu quarto
sua cama
sua marca
sem sua presença
barcos presos no cais
a sua alianca brilhante
presa ao dedo
com vontade de romper
na minha direção
seu afago
e o furor do seu corpo
que difuso
ao meu
após
me impediu
de sorrir
você está atadado
o quarto está vazio
mas está cheio de você
pelas paredes
e o seu ar vem assombrando
entre os estrados da cama
me atormentando
me atormentando
você está ancorado
mas não está seguro
você está aliado
mas não tem mais prazer
minha aliança é o barco
já pequeno na lonjura
desancorado
afundou
eu sou um barco
tufão
criei musgos de partidas
que nunca partiram em mim
criei uma crosta de proteção
que no iníco era uma segunda pele
fina e tênue
e levantei o rosto
fingindo ser de louça pálida
mas a a verdade é que seu barco no cais
arranhou as jangadas
e a paisagem livre
que eu dançava solta
você me puxou pro mar
e o verde se alastrou em vermelho
um vermelho que me cegou
me fez perder os passos
confundir os pés
não estou olhando para cima hoje
não, não vou ver lua
só vejo esta crosta
em brancos sujos
se derretendo
me deixando mais uma vez
nua e com frio
só vejo o cais
e o seu barco
preso na âncora
me corroendo de vontade
longe de mim
na porta do quarto
pedras
pedras pedras
até chegar a sua casa
seu quarto
sua cama
sua marca
sem sua presença
barcos presos no cais
a sua alianca brilhante
presa ao dedo
com vontade de romper
na minha direção
seu afago
e o furor do seu corpo
que difuso
ao meu
após
me impediu
de sorrir
você está atadado
o quarto está vazio
mas está cheio de você
pelas paredes
e o seu ar vem assombrando
entre os estrados da cama
me atormentando
me atormentando
você está ancorado
mas não está seguro
você está aliado
mas não tem mais prazer
minha aliança é o barco
já pequeno na lonjura
desancorado
afundou
eu sou um barco
tufão
criei musgos de partidas
que nunca partiram em mim
criei uma crosta de proteção
que no iníco era uma segunda pele
fina e tênue
e levantei o rosto
fingindo ser de louça pálida
mas a a verdade é que seu barco no cais
arranhou as jangadas
e a paisagem livre
que eu dançava solta
você me puxou pro mar
e o verde se alastrou em vermelho
um vermelho que me cegou
me fez perder os passos
confundir os pés
não estou olhando para cima hoje
não, não vou ver lua
só vejo esta crosta
em brancos sujos
se derretendo
me deixando mais uma vez
nua e com frio
só vejo o cais
e o seu barco
preso na âncora
me corroendo de vontade
longe de mim
6/29/2007
Trêmulo
Vozes que ocupam
Todo encanto
Que quer pairar
Vozes que seguem
Falando em silêncio
Ruídos
Ranços
Pratos
Acordos de discórdia
Tratos
Em tentativa vã
De permanecer
O tremor que aflige
No querer segurar
E no precisar soltar
A planície que grita
Uma mensagem
Ao léu
Duas heranças de choros
Inconsolados
Risos que nunca terão
O mesmo som
E a mesma doçura
A bravura que atordoa
O mundo
a pena
A pena do ser sobrevivo
O ruflar de suspiros
As gotas prometidas
E borradas em uma assinatura
Os júbilos
E os fracassos
A auto-amarração
O breque da despedida
As peças sem concerto
A ofegante chegada
gavetas e a prateleiras
Escondidas na memória da estante
As imagens e os batuques
Lanças que atravessaram
Em mim
Quantas vezes o choro
Me apalpou
Quantas mãos que trouxeram
Enigmas
Bússolas
trilhos
e entradas
Tremo para o maior
Tremo para o menor
O que me causa
O que me oscila
O que me arranha
E me suspende
Tremor
O que há pode detrás do ver
O trinco do vidro
Que nunca quebrou
A peça faltante
Tremo em faíscas
Tremo em incertezas
E em certezas
As vozes as vozes ocultas
Que o mundo deserdou
Estão contidas
Nas palavras exprimidas
Da minha mão
Entre uma folha
uns dedos
E a tinta
A tinta que borra meus ideais
Na venda
No morro
Um olho que me mancha
Com amor
E as mãos do senhor
Que conta os pães
As mãos que cometeram uma infâmia
A pedra
A pedra
Que preenche o caminho
Com marcas de sombras
Deixadas pelo sol
O andar ao cume
O descer a lama
O mundo me treme
O menino assustado
Do tráfico
Trêmulo
As vozes das coisas
Que estão ocultas
Ao primeiro toque
E que confessam a fusão
Trêmulo
O medo de querer alcançar
E as pernas bambas
Da chegada
Armas que se fundem
Brilhos que encantam
Para a morte
Balas de luz
Êxtase no escuro
Línguas
Desafios
Canos e granadas
O que você esconde
E o que você mostra
O que você finge
E o que você é
Uma palavra que ama
Uma raiva que perscruta
E atinge com fuzil
Um afago e um corte
Um tapa e um arranhão
Um olho sem vida
Trêmulo
Suas armadilhas
Suas emborcações
Sua justiça e sua injustiça
A partir de si
Vendas que vedam a voz
E a voz treme
Como um bater de palmas
Um aplauso
E um gargalho
Espaço vazio
Uma coleção de borboletas
Mortas
E uma luz que arregaça a janela
Em vibração
A voz corroída e cansada
Que espera no canto de todo
Íntimo
Um canto
canto
Trêmulo
Açúcar e fel
Na mesma receita
Todo encanto
Que quer pairar
Vozes que seguem
Falando em silêncio
Ruídos
Ranços
Pratos
Acordos de discórdia
Tratos
Em tentativa vã
De permanecer
O tremor que aflige
No querer segurar
E no precisar soltar
A planície que grita
Uma mensagem
Ao léu
Duas heranças de choros
Inconsolados
Risos que nunca terão
O mesmo som
E a mesma doçura
A bravura que atordoa
O mundo
a pena
A pena do ser sobrevivo
O ruflar de suspiros
As gotas prometidas
E borradas em uma assinatura
Os júbilos
E os fracassos
A auto-amarração
O breque da despedida
As peças sem concerto
A ofegante chegada
gavetas e a prateleiras
Escondidas na memória da estante
As imagens e os batuques
Lanças que atravessaram
Em mim
Quantas vezes o choro
Me apalpou
Quantas mãos que trouxeram
Enigmas
Bússolas
trilhos
e entradas
Tremo para o maior
Tremo para o menor
O que me causa
O que me oscila
O que me arranha
E me suspende
Tremor
O que há pode detrás do ver
O trinco do vidro
Que nunca quebrou
A peça faltante
Tremo em faíscas
Tremo em incertezas
E em certezas
As vozes as vozes ocultas
Que o mundo deserdou
Estão contidas
Nas palavras exprimidas
Da minha mão
Entre uma folha
uns dedos
E a tinta
A tinta que borra meus ideais
Na venda
No morro
Um olho que me mancha
Com amor
E as mãos do senhor
Que conta os pães
As mãos que cometeram uma infâmia
A pedra
A pedra
Que preenche o caminho
Com marcas de sombras
Deixadas pelo sol
O andar ao cume
O descer a lama
O mundo me treme
O menino assustado
Do tráfico
Trêmulo
As vozes das coisas
Que estão ocultas
Ao primeiro toque
E que confessam a fusão
Trêmulo
O medo de querer alcançar
E as pernas bambas
Da chegada
Armas que se fundem
Brilhos que encantam
Para a morte
Balas de luz
Êxtase no escuro
Línguas
Desafios
Canos e granadas
O que você esconde
E o que você mostra
O que você finge
E o que você é
Uma palavra que ama
Uma raiva que perscruta
E atinge com fuzil
Um afago e um corte
Um tapa e um arranhão
Um olho sem vida
Trêmulo
Suas armadilhas
Suas emborcações
Sua justiça e sua injustiça
A partir de si
Vendas que vedam a voz
E a voz treme
Como um bater de palmas
Um aplauso
E um gargalho
Espaço vazio
Uma coleção de borboletas
Mortas
E uma luz que arregaça a janela
Em vibração
A voz corroída e cansada
Que espera no canto de todo
Íntimo
Um canto
canto
Trêmulo
Açúcar e fel
Na mesma receita
6/27/2007
O vidro de choro verde
Essa chuva verde
teu travesseiro acaba de chorar
chora folhas
molha os tecidos
torce em pingos
verdes pingos
essa fragancia
que quebrou
junto à morte
de uma margarida
em vaso de plástico
uma margarida que
se dissipava no vento
e o frasco do seu choro
transbordou
dos olhos
todas as matas
que escorreram
o verde
que tomaram
a chuva
e alagaram
tingindo a mancha
de uma mata devastada
dentro de ti
foto: Fernando Angeoletto
6/19/2007
Travesseiro de estrela-*

calma estrela
que preenche o seu travesseiro
ao descansar você abandona
as manchas
da parede
procura buracos no teto
para conseguir
dizer
a
deus
nas suas manhãs
o alaranjado preenche
a varanda
e a lareira
o alaranjado iluminado e bruto
das manhãs
as madeiras cheirosas
que seguram a casa
me lembram
o abraço
o abraço entre seus pilares
suas intimidades
mais íngrimes
ficam fogem
das minhas mãos
e eu encosto entre o céu
e espero a estrela sair
do seu travesseiro
e estender no jardim
o sol
*Poema musicado por alegre corrêa
6/11/2007
Reconfissão

Posso ficar um pouco aqui para sempre?Aqui, grudada nesta cadeira com o estômago vazio?Você me perdoaria?Parece que estou presa na cadeira até terminar de pensar. Você me amaria mesmo eu sendo a ferida que mais te arde?Você me perdoaria se eu desse as costas enquanto você fala uma palavra em florescência?Você seria capaz de ver que apesar de te cortar, meu infinito por você é maior?Você aceitaria saber que o que tenho para você, é de rara beleza cristalina e que está atrás de colinas entre arbustos árvores e folhagens, e que eu me aventuro poucas vezes para não perder a essência do sagrado entre nós? Você deixaria eu ir embora sem sentir vontade de voltar?Você entenderia que vivo a transbordar pelos cantos e que explôdo inconsciente?Que não consigo segurar o murro, quando ele me brota?Você pode me aceitar em pedaços?Em sobras de mim?Em cascas de mim?Você me amaria mesmo assim?Você beijaria aquilo que mais renego me fazer parte?Você seguraria minhas duas mãos e tentaria achar e me salvar do precipício?Princípio. Você e seus dedos de faca.Você e essa nuvem regada de tempestade, o seu regador é contínuo, é forte, não cai. Você rega o ferrão. Você alvoroça a primeira carniça livre das amarras. Você prende os pássaros e ata com laços de fita de cetim lilás o bico do passarinho. Você fica olhando o sofrimento e se vangloriando de não ser você o recorte da morte. Você é cheio de escárnio no pensamento. Você brota mau cheiro e enterra a semente no barro seco de uma estrada sem passagem.Você trama, você grita, pede socorro, mas não consegue atender a mudança esmurrando incansavelmente sua porta de entrada. Você foge dos sorrisos mancos.Você não aceita meu sorriso escancarado porque ele é cariado e desinibido.Você quer ver onde estão minhas obturações?Você ainda consegue rir junto ao meu riso doente de expectativas? Eu queria ir sem a culpa de te despedaçar.
Posso também não ir embora. Vou voltar a te confessar isso. Você perdoaria meu silêncio?Você aceitaria minhas raivas espontâneas com o mundo, e minhas pequenas risadas sem limites de expressão?Você está vendo que no meu sorriso sobram cáries?Cáries de discórdia.Você afagaria meu rosto e me ofereceria o peito mesmo eu tendo quebrado seu plano mais promissor?Você me ofereceria um copo d'água e um abraço caloroso mesmo eu sendo condenado ä prisão perpétua?Por um crime hediondo?Eu queria ser clara e límpida como a água de um riacho que corre, corre, sem desespero ou revolta, sem alvoroço de chegada. Mas sou do lodo e do líquido, do delimite entre gasoso e líquido, sou porosa, penugenta e medrosa. Sou sem fim. Você aceitaria minha não certeza?Minha não absoluta certeza?Você aceitaria meu muro de areia movediça?Você ainda me amaria em sua cama, mesmo eu tendo explorado seu último e único centavo?Mesmo eu deixando as dívidas da minha família para você pagar?Você me amaria como no fim de nós dois?Você me perdoaria se eu revelasse que o meu desejo maior só se entrega a você quando estou com os braços presos e os olhos com dúvida?Você passaria os dedos entre minhas pernas mesmo que eu te desmoralizasse no seu bairro inteiro? E diante toda sua Cidade?Você possuiria ainda amor por mim?Você me desejaria se eu cuspisse em suas jóias, arrancasse suas vestimentas e fios de prata e despisse sua ironia a la uísque?Você aceitaria me penetrar olhando em meus olhos mesmo não me querendo para sempre?Você se despiria também de seus deveres e caçaria borboletas comigo, mesmo eu pondo o pé para você tropeçar?Eu matei uma esperança, você ainda me ama?
Você aceitaria que eu vim de um fracasso muito fundo?Daqueles em que se vive o brilho e a fenda.?Desses fracassos que ficam expostos a olho nu, sem remédio aparente. Desses fracassos que ficam esperando a cura. Eu ainda não sarei. Você amaria um enfermo de sentimento?Um enfermo de sentido? Você ainda tem raiva de um próprio passado?Alguém já te bateu em hematomas azulados por dentro? Alguém já te abalou e você ainda dança em cascas de banana o tempo todo? Você também tem um nó de lã gasta e fios embolados como eu? Você me perdoaria se soubesse que quando você me renegou eu te desejei a infelicidade suprema?Sim, eu desejei que você nunca mais fosse feliz. E que quando eu saí da sua vida tinha tanta certeza que não queria mais ver o seu olhar e nem a cor da sua pele, e que hoje eu daria o mundo para passar a mão no seu rosto, mesmo que você já estivesse com os olhos fechados. Eu ainda queria me ver marcada na suas costas. Você ainda me amaria? Você ainda sentiria o mesmo sentido de muitos anos atrás? Mesmo eu sendo este estorvo que ainda almeja o ontem?
Sabe, que muito tempo eu quis a frente, o depois, o futuro e daí eu não soube rir mais do que maldizer. Você me perdoa esse amor que roeu? Essa raiva em blocos que eu te jogava no ar, que eu te pesava as ventanias?Você também errou?Você ainda acha meu pior defeito apenas engraçado?Eu não encanto mais você?Você ainda encanta a mim.Você ainda quer me ver sorrir?Você deseja que eu seja realmente feliz?Você sorri como antes?Com a mesma doçura e pureza? Quem é você?
Posso também não ir embora. Vou voltar a te confessar isso. Você perdoaria meu silêncio?Você aceitaria minhas raivas espontâneas com o mundo, e minhas pequenas risadas sem limites de expressão?Você está vendo que no meu sorriso sobram cáries?Cáries de discórdia.Você afagaria meu rosto e me ofereceria o peito mesmo eu tendo quebrado seu plano mais promissor?Você me ofereceria um copo d'água e um abraço caloroso mesmo eu sendo condenado ä prisão perpétua?Por um crime hediondo?Eu queria ser clara e límpida como a água de um riacho que corre, corre, sem desespero ou revolta, sem alvoroço de chegada. Mas sou do lodo e do líquido, do delimite entre gasoso e líquido, sou porosa, penugenta e medrosa. Sou sem fim. Você aceitaria minha não certeza?Minha não absoluta certeza?Você aceitaria meu muro de areia movediça?Você ainda me amaria em sua cama, mesmo eu tendo explorado seu último e único centavo?Mesmo eu deixando as dívidas da minha família para você pagar?Você me amaria como no fim de nós dois?Você me perdoaria se eu revelasse que o meu desejo maior só se entrega a você quando estou com os braços presos e os olhos com dúvida?Você passaria os dedos entre minhas pernas mesmo que eu te desmoralizasse no seu bairro inteiro? E diante toda sua Cidade?Você possuiria ainda amor por mim?Você me desejaria se eu cuspisse em suas jóias, arrancasse suas vestimentas e fios de prata e despisse sua ironia a la uísque?Você aceitaria me penetrar olhando em meus olhos mesmo não me querendo para sempre?Você se despiria também de seus deveres e caçaria borboletas comigo, mesmo eu pondo o pé para você tropeçar?Eu matei uma esperança, você ainda me ama?
Você aceitaria que eu vim de um fracasso muito fundo?Daqueles em que se vive o brilho e a fenda.?Desses fracassos que ficam expostos a olho nu, sem remédio aparente. Desses fracassos que ficam esperando a cura. Eu ainda não sarei. Você amaria um enfermo de sentimento?Um enfermo de sentido? Você ainda tem raiva de um próprio passado?Alguém já te bateu em hematomas azulados por dentro? Alguém já te abalou e você ainda dança em cascas de banana o tempo todo? Você também tem um nó de lã gasta e fios embolados como eu? Você me perdoaria se soubesse que quando você me renegou eu te desejei a infelicidade suprema?Sim, eu desejei que você nunca mais fosse feliz. E que quando eu saí da sua vida tinha tanta certeza que não queria mais ver o seu olhar e nem a cor da sua pele, e que hoje eu daria o mundo para passar a mão no seu rosto, mesmo que você já estivesse com os olhos fechados. Eu ainda queria me ver marcada na suas costas. Você ainda me amaria? Você ainda sentiria o mesmo sentido de muitos anos atrás? Mesmo eu sendo este estorvo que ainda almeja o ontem?
Sabe, que muito tempo eu quis a frente, o depois, o futuro e daí eu não soube rir mais do que maldizer. Você me perdoa esse amor que roeu? Essa raiva em blocos que eu te jogava no ar, que eu te pesava as ventanias?Você também errou?Você ainda acha meu pior defeito apenas engraçado?Eu não encanto mais você?Você ainda encanta a mim.Você ainda quer me ver sorrir?Você deseja que eu seja realmente feliz?Você sorri como antes?Com a mesma doçura e pureza? Quem é você?
foto: mtfoliveira.blogspot.com
6/06/2007
Longa caminhada por um poema

quero um poema que junte
todos os meus caquinhos
que me desenhe
em pedaços
pedaços que se ausentaram
lascas irregulares
lascas arrancadas
de uma parede
abandonada
quero um poema
que arranhe o sentido
que permaneça
verde em dois
como os olhos mata
amanhecendo em sol
quero um poema que
tenha dentes para sorrir
e caninos para defender
sua esteira de palavras
quero um poema que escorra
nos cabelos
como um banho de lama
açaí e ardor
quero um poema
que fique entre dois corpos
uma só passagem
quero um poema que costure
uma ferida
um poema
que carregue todas as linhas
bordadas em roupas de passagem
roupas que abrigaram o íntimo
e o desconhecido
quero um poema que amacie
o sono
mas que
lembre em penas
a leveza de ainda
dedilhar versos
quero um poema que cante
uma chegada
que assombre a cama do quarto
com tremores vivos
de quem geme o prazer
quero um poema
que piche o horizonte
interno
um poema que grite
no outdoor da avenida principal
eu desejo um poema
que fale o poeta
falando o mundo
pela televisão
em vinhetas coloridas
e banais
quero um poema
em goles bebida barata
e quero um poema com
instruções de uso
para aqueles
que não tem dedos
sutis
para acolher
a poesia
quero um poema
sem dores nos braços
quero um poema com fartura
um poema que não fale
um problema,
mas que descanse os olhos
e a alma
de quem lê
um poema
que fale ao bueiro
e à Imperatriz
que diga a qualquer um
que exista e esteja vivo
vibrando
que fale como um ser vivo
que mostre o sapo morto
e que cheire o chorume das ruas
um poema que traga um suor
e um gozo
um transpiro
e um respiro
e um vôo livre
todos os meus caquinhos
que me desenhe
em pedaços
pedaços que se ausentaram
lascas irregulares
lascas arrancadas
de uma parede
abandonada
quero um poema
que arranhe o sentido
que permaneça
verde em dois
como os olhos mata
amanhecendo em sol
quero um poema que
tenha dentes para sorrir
e caninos para defender
sua esteira de palavras
quero um poema que escorra
nos cabelos
como um banho de lama
açaí e ardor
quero um poema
que fique entre dois corpos
uma só passagem
quero um poema que costure
uma ferida
um poema
que carregue todas as linhas
bordadas em roupas de passagem
roupas que abrigaram o íntimo
e o desconhecido
quero um poema que amacie
o sono
mas que
lembre em penas
a leveza de ainda
dedilhar versos
quero um poema que cante
uma chegada
que assombre a cama do quarto
com tremores vivos
de quem geme o prazer
quero um poema
que piche o horizonte
interno
um poema que grite
no outdoor da avenida principal
eu desejo um poema
que fale o poeta
falando o mundo
pela televisão
em vinhetas coloridas
e banais
quero um poema
em goles bebida barata
e quero um poema com
instruções de uso
para aqueles
que não tem dedos
sutis
para acolher
a poesia
quero um poema
sem dores nos braços
quero um poema com fartura
um poema que não fale
um problema,
mas que descanse os olhos
e a alma
de quem lê
um poema
que fale ao bueiro
e à Imperatriz
que diga a qualquer um
que exista e esteja vivo
vibrando
que fale como um ser vivo
que mostre o sapo morto
e que cheire o chorume das ruas
um poema que traga um suor
e um gozo
um transpiro
e um respiro
e um vôo livre
brinde
em um momento
de prisão
que não hesite em virar
em todas as esquinas
que sobreviva a calçada
e a dor do amor
um poema que ocupe
um lugar concreto
que ocupe uma cadeira
em algum lugar
do mundo
um poema com a certeza
de uma descoberta
e a leveza e liberdade
de um vapor cheiroso
um poema que descasque uma fruta
um poema que amarre as mãos
de quem não é feliz
um poema que faça ver um cego
um poema oração permanente
que não hesite em virar
em todas as esquinas
que sobreviva a calçada
e a dor do amor
um poema que ocupe
um lugar concreto
que ocupe uma cadeira
em algum lugar
do mundo
um poema com a certeza
de uma descoberta
e a leveza e liberdade
de um vapor cheiroso
um poema que descasque uma fruta
um poema que amarre as mãos
de quem não é feliz
um poema que faça ver um cego
um poema oração permanente
sussurada
a cada momento do dia
sem precisar
ajoelhar
um poema sem janelas
e com toda a paisagem
sem maneiras de dizer
e com toda a paisagem
sem maneiras de dizer
sem pudor
ou baton
um poema que corra ao meu
lado
que acompanhe a travessia
em silêncio
um poema sem vergonha
de vestir
e despir
um poema sem afirmação
um poema que conviva
no barulho da chaleira
que converse as águas que
escorrem da louça
um poema borrão do chão
um poema que assente como a poeira
no porta-retrato
com uma pulsão
sacudida
um poema com uma dúvida
que pertuba e desperta
imediatamente
que faça andar a quem está imerso
no parado
ou baton
um poema que corra ao meu
lado
que acompanhe a travessia
em silêncio
um poema sem vergonha
de vestir
e despir
um poema sem afirmação
um poema que conviva
no barulho da chaleira
que converse as águas que
escorrem da louça
um poema borrão do chão
um poema que assente como a poeira
no porta-retrato
com uma pulsão
sacudida
um poema com uma dúvida
que pertuba e desperta
imediatamente
que faça andar a quem está imerso
no parado
que faça rir
a quem quase está
que faça chorar
quem a muito tem amarrado uma vontade
uma confissão oculta
de jorrar todas as pedras
reunidas no meio do corpo
em líquido salgado
torrente que liberta
quero um poema
com uma camada de vento
e brisa
para respirar as ventanas
de quem precisa de mar
nos ouvidos
para aqueles que desejam
se encher
e se esvaziar
quero um poema que aja
como um grão de areia
grudado entre os dedos do pé
permanentes até a terceira saculejada
que coce
afete
trema
um poema chocalho
em notas sujas
e cheias
juntas
um poema-marca
que faça sentido a quem
mexeu
mobilizou
que faça chorar
quem a muito tem amarrado uma vontade
uma confissão oculta
de jorrar todas as pedras
reunidas no meio do corpo
em líquido salgado
torrente que liberta
quero um poema
com uma camada de vento
e brisa
para respirar as ventanas
de quem precisa de mar
nos ouvidos
para aqueles que desejam
se encher
e se esvaziar
quero um poema que aja
como um grão de areia
grudado entre os dedos do pé
permanentes até a terceira saculejada
que coce
afete
trema
um poema chocalho
em notas sujas
e cheias
juntas
um poema-marca
que faça sentido a quem
mexeu
mobilizou
ou cortou
algo em si
um poema que leia
o olhar vedado
de um sonho
que esperou muito
para acontecer
e ainda está
uma poesia que dissolva entre os membros
do corpo
uma poesia que tenha pernas
próprias
uma poesia que dissolva entre os membros
do corpo
uma poesia que tenha pernas
próprias
que ande sempre
que nasce
cresce
reproduz
e reproduz
sempre
que console um desespero
que molhe as retinas gastas
que refresque a pele
e acene com alegria
e asas
todas as
chagas
redemoinhos
e escancaros
presos na memória
presos na memória
um poema que cure
a falta
que aceite a morte
que ensine a vontade
que seduza o paladar
que acalme com duas mãos
quentes
uma grande dor
que traga um copo
de esperança
para quem precisa
permancer
que distribua senhas
infinitas
para os que pedem socorro
para viver
foto sobre o trabalho de Pina Bausch
Nos corredores do CEART, Canabarro me contou....

"A arte é uma puta velha
ela te explora
até o máximo
até seu último centavo
mas o prazer que ela
te traz
é tão intenso e tão bom
que você fica viciado nela
o resto da vida"
Afonso Benetti
Ps-Tive que parar e anotar até o nome da figura....rs..rs..Porque nem só de dores-palavras se faz um blog...Com riso, alegria e café.Finalmente alguém me respondeu o que eu mais queria saber sobre arte (no momento).
foto Marina Abramovic
em Balkan Erotic Epic
Muro- de Enzo Potel

Parede de pedra, alvenaria, adobe, taipa ou tijolos que serve para vedar ou proteger qualquer recinto, grande ou pequeno, povoado ou não povoado, a fim de não ser assaltado
ou devastado.
O muro de Luccano, Itália, foi construído para proteger vila de mesmo nome, situada no alto de uma colina íngreme. Ambos, vila e muro, foram destruídos por tremores de terra em 1694.
O muro do Diabo, paliçada construída na Alemanha pelos romanos, foi elevado e guarnecido de torres pelo imperador Probo. Alguns restos ainda subsistem para a alegria das crianças na região da Baviera.
O muro feitiço de Rothbar não impediu que o príncipe o pulasse e conhecesse sua amada em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A muralha de Sesóstris, no Egito Antigo, era frequentemente visitada por tempestades de areia, o que exigia manutenção especial. Em seus duzentos anos de vida foi mais atacada por vassouras do que por espadas inimigas.
Todo muro é uma mentira.
Todo muro é uma coleção de pedras no caminho, para propagar que houve aprendizado.
E teu olhar também era de muro. E quando abria a porta e me via, estava lá escrito:
“eu não preciso mais de você”.
E este muro frieza expelia ar glacial de palavras rasas, e sobrancelhas cobriam arrogância e rictus de escárnio. E eu parado, contemplando a inexata e última construção da paixão: esse estado de perda travestido de bom senso, em que um vingador de si mesmo tenta esconder com pedras
um jasmim.
ou devastado.
O muro de Luccano, Itália, foi construído para proteger vila de mesmo nome, situada no alto de uma colina íngreme. Ambos, vila e muro, foram destruídos por tremores de terra em 1694.
O muro do Diabo, paliçada construída na Alemanha pelos romanos, foi elevado e guarnecido de torres pelo imperador Probo. Alguns restos ainda subsistem para a alegria das crianças na região da Baviera.
O muro feitiço de Rothbar não impediu que o príncipe o pulasse e conhecesse sua amada em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A muralha de Sesóstris, no Egito Antigo, era frequentemente visitada por tempestades de areia, o que exigia manutenção especial. Em seus duzentos anos de vida foi mais atacada por vassouras do que por espadas inimigas.
Todo muro é uma mentira.
Todo muro é uma coleção de pedras no caminho, para propagar que houve aprendizado.
E teu olhar também era de muro. E quando abria a porta e me via, estava lá escrito:
“eu não preciso mais de você”.
E este muro frieza expelia ar glacial de palavras rasas, e sobrancelhas cobriam arrogância e rictus de escárnio. E eu parado, contemplando a inexata e última construção da paixão: esse estado de perda travestido de bom senso, em que um vingador de si mesmo tenta esconder com pedras
um jasmim.
foto:
Isadora Duncan e Pina Bausch
Se deixar tocar-Um texto sobre um sentido muito íntimo
Quando nasci Deus pegou uma linha e fez um laço, no meio do meu peito. Às vezes Ele aperta o nó.Às vezes Ele afrouxa minhas costas, enche o meu balão.Eu flutuo. Às vezes, e quase sempre, quando alguém puxa a linha, eu evaporo. Eu gosto do que eu sinto. Se eu te sinto bem, vou ser bem.Se eu te mal, meu espírito te expurga. Às vezes eu não gosto de ser assim, às vezes eu não tenho escolha. Por que isso, quem tem que responder é o criador e a criatura juntos, e não só um, ou só outro. É pela linha, pelo fio que já foi dito "nem um fio de cabelo cairá da tua cabeça, sem que Ele permita", então, ele tem um olhar sobre mim, e pode me ver no íntimo.Ele com visão integral, pode me afirmar. Os outros, podem só dizer. Então eu vou deixar Ele me mostrar. Se a minha linha arrebenta bem na sua vez, lá no meio de mim, algo reage.E eu não quero comprimir. Posso amenizar, mas não comrpimir. O que eu aprendi é ser. E conseguir isso é o cume da montanha.Eu já escolhi ser.Olhar o lodo, o denso e acariciar aquela parte. Aqui, diante desta terra eu posso sentir em meu coração alinhavado: apenas seja.Seja este fio que te amarra, que às vezes solta a ponta na escrita, solta a costura entre as tintas e as duas mãos.Quase sempre, venho pedindo à Ele que tire a linha. Por que as vezes a linha tem um peso, o peso de uma Cruz. Ora, eu não posso não sentir?Não posso desligar o sentido?Por que sentir dói?Às vezes, quando vem alguém com uma agulha e quer atar a linha, costurar, eu recuo. E ataco! Porque a agulha não foi feita para espetar, nem pra mexer na ferida. Quando ela vem, ela destina-se a costurar. Ou será que eu aprendi errado?Eu não espeto ninguém, se espeto, eu penso,"que Ele sempre esteja ao meu lado, para eu ser compreendida exatamente como sinto".Muitas vezes eu espeto, mas se eu sei o que houve, meu coração aperta, e eu tenho que ceder a linha.Se eu não sei, foi porque não consegui adivinhar, nem ler os sinais.Mas apenas "dos que sabem, o que sabem, vos será cobrado" Quase todo o meu sentido é " em nome Dê". Porque já disse das flores a mais bela: "fé, é fazer em nome Dê"Às vezes, Ele me dá o mérito de um sorriso avulso, pois eu peço muitos sorrisos.Eu peço também muita compreensão, porque com uma linha tão fina e estreita no meio do meu centro, não posso arriscar puxar o fio muito bruscamente, é delicado demais ter um coração alinhavado. E é preciso não alimentar redes.Quando tá muito apertado o sentido, a linha arranha, e eu peço muita força, porque as vezes parece que essa linha tão fina e estreita pode cortar a pele, aprofundar o corte. Daí eu suspiro, e ajoelho.Assim o nó dói menos.A linha que linha meu centro, é fragmento, é ruptura. A linha é bem fina e o meu centro às vezes não se deixa tocar.
5/17/2007

Confissão
Estou trancada. Não force a porta.Estou desfocada em um só foco. Eu só vejo um sorriso, mas não é o seu. Eu queria te gostar.O seu sorriso é lindo. Você fala bem, você encanta, mas eu estou trancada ainda.Você pode entender? Eu queria amar você, eu juro que eu queria.Você parece me amar tanto.Mas meu peito arrebenta em outra voz, outro rosto, outro hálito. Você seria capaz de entender que eu não posso escolher?Eu gosto ainda de um gosto passado.Um gosto gélido e parado atrás de uma camada de cera dura. Vê, meus cabelos ao vento a dança de tantas partes do meu corpo, escondem o meu cárcere por um sentido ainda. Fico sentindo, torcendo, orando justamente por um membro que me joga no chão, me faz asfalto, me corre uma rua, me arremessa brita, pedra, cimento, e me deixa à deriva sem resposta. É vergonhoso. Eu sei. Estou trancada, mas a festa é sua. É seu aniversário? Ou é bodas da sua mãe?Eu não sei. Há cálices de prata nas mesas, e muitas pessoas rindo. A toalha é de rendas.Há mulheres envoltas de pluma e em cima de agulhas. Há portas de vidro e gravatas.Ar condicionado. Jardim. Arbustos. Há fartura sobre as bocas e muita bebida em álcool. Desculpe, é sua festa mas antes entrar tive um lapso de memória que me arruinou. Antes de atravessar o salão e te dar “parabéns”, eu fiquei tonta por descobrir mais uma queda dos meus padrões. Mais um fracasso.Você me perdoaria se eu chorasse aqui mesmo? Você se importaria se eu fugisse sem querer voltar? Desculpe, hoje eu não consegui fazer você feliz.Eu vou ter que caçar o dono da minha dor.Minha dor. Quem é o culpado?Tenho que achar agora. Eu vou atrás, eu vou me render..Não! Eu vou!Eu vou...Eu vou. Eu vou..Eu vou!!!Eu...Eu...Vou pular a janela do banheiro, pode? Vou atrás de quem me trancou.Onde deixei a minha chave?Por quem me deixei trancar?Por que eu deixei a chave entrar? Por que ainda estou em um foco desfocado, indeciso e sem compasso?Por que estacionei meu sentido de querer maior aqui?Se já andei quilômetros, já visitei parentes, já percorri algumas ondas do mar, passei horas sem nada o que fazer, li auto-ajuda, plantei uma árvore e publiquei um livro.Falaram que ia passar. Disseram. Eu juro. “Isto não é nada, não significou nada, é nada.”Sim, o nada tomou uma forma cheia de si.Um nada cheio de muito. E isto latente e me trancando no mesmo lugar.Passe dor. Passe pela ainda sobreviva fresta da janela, apague-se.Onde foi parar a luz?Me Parecem quatro paredes. Um quadrado.Um muro alto ao meu redor. Quatro paredes pixadas com todos o seus detalhes de pele, seu acordar sonâmbulo. Com toda a lembrança viva dos seus olhos em riso. Com todo o roteiro da sua vida de cor, com todas as notas dos seus movimentos, com todo calor entre seus braços.Já faz tanto tempo. Mas em mim não faz. Por que?Eu ainda revivo em você?Por que o meu tempo interno e o tempo da lembrança não se alinha ao calendário?Eu. E esta entoação do seu nome.Eu. E você um mantra aqui. Eu. E essa imensa distância da incerteza do seu sentido. Eu.E esta dúvida corrente de ar que passa, e não me volta o ruído do seu respirar.Eu gosto dele.Do ruído seu. Eu e o martelo das cordas em ressonância da sua garganta. Eu. E o seu prazer em mim. Eu, entre luxuosas damas e medidas com uma saudade arranhada de você. Eu e estas pessoas falando e a vontade de saber você.Eu e esta festa que se abriu como uma fresta de luz, enquanto estava trancada no escuro. Eu e esta certeza de que você não é o dono da festa, nem convidado.Eu. e essa certeza.De que você não pode chegar. De que você não vai chegar. Eu e certeza de que você não vai trazer as chaves.
Estou trancada. Não force a porta.Estou desfocada em um só foco. Eu só vejo um sorriso, mas não é o seu. Eu queria te gostar.O seu sorriso é lindo. Você fala bem, você encanta, mas eu estou trancada ainda.Você pode entender? Eu queria amar você, eu juro que eu queria.Você parece me amar tanto.Mas meu peito arrebenta em outra voz, outro rosto, outro hálito. Você seria capaz de entender que eu não posso escolher?Eu gosto ainda de um gosto passado.Um gosto gélido e parado atrás de uma camada de cera dura. Vê, meus cabelos ao vento a dança de tantas partes do meu corpo, escondem o meu cárcere por um sentido ainda. Fico sentindo, torcendo, orando justamente por um membro que me joga no chão, me faz asfalto, me corre uma rua, me arremessa brita, pedra, cimento, e me deixa à deriva sem resposta. É vergonhoso. Eu sei. Estou trancada, mas a festa é sua. É seu aniversário? Ou é bodas da sua mãe?Eu não sei. Há cálices de prata nas mesas, e muitas pessoas rindo. A toalha é de rendas.Há mulheres envoltas de pluma e em cima de agulhas. Há portas de vidro e gravatas.Ar condicionado. Jardim. Arbustos. Há fartura sobre as bocas e muita bebida em álcool. Desculpe, é sua festa mas antes entrar tive um lapso de memória que me arruinou. Antes de atravessar o salão e te dar “parabéns”, eu fiquei tonta por descobrir mais uma queda dos meus padrões. Mais um fracasso.Você me perdoaria se eu chorasse aqui mesmo? Você se importaria se eu fugisse sem querer voltar? Desculpe, hoje eu não consegui fazer você feliz.Eu vou ter que caçar o dono da minha dor.Minha dor. Quem é o culpado?Tenho que achar agora. Eu vou atrás, eu vou me render..Não! Eu vou!Eu vou...Eu vou. Eu vou..Eu vou!!!Eu...Eu...Vou pular a janela do banheiro, pode? Vou atrás de quem me trancou.Onde deixei a minha chave?Por quem me deixei trancar?Por que eu deixei a chave entrar? Por que ainda estou em um foco desfocado, indeciso e sem compasso?Por que estacionei meu sentido de querer maior aqui?Se já andei quilômetros, já visitei parentes, já percorri algumas ondas do mar, passei horas sem nada o que fazer, li auto-ajuda, plantei uma árvore e publiquei um livro.Falaram que ia passar. Disseram. Eu juro. “Isto não é nada, não significou nada, é nada.”Sim, o nada tomou uma forma cheia de si.Um nada cheio de muito. E isto latente e me trancando no mesmo lugar.Passe dor. Passe pela ainda sobreviva fresta da janela, apague-se.Onde foi parar a luz?Me Parecem quatro paredes. Um quadrado.Um muro alto ao meu redor. Quatro paredes pixadas com todos o seus detalhes de pele, seu acordar sonâmbulo. Com toda a lembrança viva dos seus olhos em riso. Com todo o roteiro da sua vida de cor, com todas as notas dos seus movimentos, com todo calor entre seus braços.Já faz tanto tempo. Mas em mim não faz. Por que?Eu ainda revivo em você?Por que o meu tempo interno e o tempo da lembrança não se alinha ao calendário?Eu. E esta entoação do seu nome.Eu. E você um mantra aqui. Eu. E essa imensa distância da incerteza do seu sentido. Eu.E esta dúvida corrente de ar que passa, e não me volta o ruído do seu respirar.Eu gosto dele.Do ruído seu. Eu e o martelo das cordas em ressonância da sua garganta. Eu. E o seu prazer em mim. Eu, entre luxuosas damas e medidas com uma saudade arranhada de você. Eu e estas pessoas falando e a vontade de saber você.Eu e esta festa que se abriu como uma fresta de luz, enquanto estava trancada no escuro. Eu e esta certeza de que você não é o dono da festa, nem convidado.Eu. e essa certeza.De que você não pode chegar. De que você não vai chegar. Eu e certeza de que você não vai trazer as chaves.
Homenagem à palavra e os palavreiros especiais-Tatiana Cobbett
Palavreados
PalavradosEm palavreados...
Palavreira como só, Tatá ou Tatiana Cobbett* para os desconhecidos ainda, é uma brincalhona brilhante da palavra. Faz e refaz, intriga, reserva, deixa uma dúvida, provoca. Para todos que abrem os olhos para este blog, prestigiem, dancem e cantem à leveza das contruções desta bailarina com asas no corpo e nas palavras...Salve salve sol Tatá!
Linha que eu Passe
Olha meu amor
Quero cantar para você
esta canção que aprendi
faz poucos dias
Olha meu amor
empresta atenção
fala de nós
nosso senão
vem
retratado na harmonia
Longe de você
não dá, meu bem
posso esquecer
o seu olhar me iluminando
por inteiro
Perto
não convém
olha meu bem
ora paixão
ora desdém
Impasse
é fogo cruzado
___________________________
Altercação
Como assim?
Meu olhar enfrenta o seu
Você nega
sai de mim buscando outro
Chama
isso sim
de novo
Me esnoba
sobe
desce
minha escada corredor
Encurralados
Sei
redimindo seus anseios
fico eu
sempre a culpada
Um tudo e nada
Que quando
efetivamente
perdermos
é que
resolveremos
tal parada
____________________________________
Vicinal
Se soma
Par(e)ser
Diminui
Ah!
As diferenças
Com a poda
Já crescida
Raiz
Aguerrida
Suga as avessas
Seiva
Que é própria da vida
Poria fim
Nossa angústia
Fosse possível
Negar
Como se o antes não tivesse
Como se o agora se repete
Como se o nunca
Não houvesse
Poria sim
Nas alturas
E tudo
virá pelos veios
Veias vicinais
___________________________
*Bailarina, compositora e cantora. Formada pela Escola de Danças Classicas do Teatro Municipal do RJ, trabalhou 12 anos no Balé Stagium, cia paulista, percorrendo o Brasil, América Central e América Latina. Autora/Inteprete do Musical "Mulheres de Hollanda" com Direção de Naum Alves de Sousa. Direção e Concepção dos Espetáculos Alma Flamenca, Grito das Flores, Esta Terra Portugal, Festival Três Bandeiras, Partituras da Itália nas Vozes do Rio e dos Shows de Badi Assad, Carlinhos Antunes, Tutti Baê, Janet Machnaz, Joel Brito e Nara Lisboa, entre outros.Hoje desenvolve em parceria com o músico/cantor/compositor gaúcho - Marcoliva - um trabalho de composições próprias com o Cd Parceiros como primeiro testemunho desta jornada - e mais o livro Básica Composições - ambos podem ser encontrado na www2.livrariacuritiba.com.br - visitem nossa página - www.sonoraparceria.com.br
5/09/2007
Para um bebê chorão.Daqueles que ficam tocando a mesma nota infinitamente.
Você tiraria os dois tufinhos de algodão das orelhas, e me ouviria mais uma vez?Bebê, até os defeitos são cor-de-rosa. Os meus e os seus, não se engane.Você não pode ser tão diferente quanto se compara.Você sentaria num banco à deriva ao meu lado?Você seria capaz de ver meu algodão sujo, mesmo que eu me fingisse de borboleta?Ou você prefiriria a ilusão? Ninguém é de pedra bem, e também ninguém é feito só de nuvem branca. Nem você, viu?Você poderia se calar?Você poderia calar até seus pensamentos de cobra coral e se colocar ao meu lado para respirar o sentido? Minha dor são esses gravetos que você fica escolhendo para pisar. Eu também quebro, ou pensa que só porque você finge, eu também seria capaz?Aqui está o meus quebrados. Me dá um tempo de eu colar os cacos?A minha dor silenciada é a mais viva em mim. Embora você não queira ver. Embora eu arranque a venda, e você fica perscrutando os óculos pelos cantos. Você vê o que quer ver.Do que eu falo só bem entregue, sem essas analogias e filosofias, sem as algemas do medo e sem os cadeados ocultos ao homem racional, você pode saber. Eu quero ver você.Não suas linhas, nem sua forma bonita. Também não é porque eu gosto dos seus olhos, que eu não posso ver sua negritude. Mesmo em meio ao mormaço rubro, eu vou perder a chance de sorrir para o que de belo ainda tem em você?Me poupe.Faço isso o tempo todo com a vida, desde que eu conheci um pouco da essência das coisas.Me dá licença de eu escolher? Nada é tão mal. Até os dentes de uma onça, sem morder, apesar de terem mordido e até levado à morte, são belas presas.Bebê, você precisa viver comigo sem a bigorna. Eu dôo às vezes. Às vezes eu dou um tapa. Você está disposto a me ver?Eu tenho nódulos, furúnculos, perdas insuperáveis, lutos de todas as cores e crateras na pele. Você está disposto a pôr a mão?Não fique falando daí o que você não viveu por inteiro.Não tire conclusões. Por maior a sabedoria, sem a vivência, sem a entrega não vale de nada, nada. Do que adianta a mais aberta ferida escancarada aos seus olhos se você não pode ter compaixão?Se você não está disposto a se render?Que adiantaria essas palavras destravadas do mais lixo de mim, se você não pode apenas chorar comigo? Bebê, até a mesma palavra vivida e gozada, pode ser uma dor minha. Rir também é uma superação sabia?Um esforço de contra. No maior barulho também está impregnado o silêncio que quer plainar. Eu também busco um pouco do que não é meu, a diferença está que eu não luto contra, quase todas as coisas que são minhas, se não são, eu quero ser um pouco.Eu dou espaço. É bom ceder, bebê.Ser como um vento ou uma água que se molda ao recipiente atual.Eu queria muito o que você quis para mim. Mas eu não consegui.Dá licença de eu ser defeituosa por opção? Dá licença para eu ser suja como a graxa quando eu quiser?Eu nunca comprometi ninguém na minha lama, você só pisou o pé porque quis.Me dá licença de o meu amor ser bruto, cru e denso? Se eu não aprendi a voar, de onde é que você vem com essa de me colocar asas?Dá licença de eu ser um germe perto de você que é tão capitão?Dá licença de eu entrar sem limpar os pés?Bebê, eu não sei te fazer melhor, porque eu não sei nem me fazer melhor. Você pode me pedir algo que eu possua verdadeiramente?Você pode largar a idéia de querer ser sempre um modelo pra mim? Bebê, me desculpa se eu não sei. Se eu não consigo. Se parece que eu faço pra implicar. Me dá licença de passar sem ter que encarar as suas flechas? Bebê, eu não estou pra guerra. Estou pra ser. Me deixa ser? Pode ser em outro lugar?Me dá licença de uma vez?Felicidades, pra você, nhe nhe nhê.
5/08/2007
5/07/2007
Carta de despedida para um casal
É sol. E no meu rosto é uma tempestade.Vai com ela. Vai com ela. Aqui em mim, será o mesmo tempo sempre. Acaso um dia ela pode ter o meu cheiro ou o meu cabelo que se emaranha nos nossos corpos?Acaso será ela, dividirá a mesma dívida, a mesma dor?Ela acordaria para passar a mão no seu rosto quando você chora? Acaso agora ela poderia lutar pelo seu sonho, como um dia seu sonho era o meu sonho?
Vai com ela. Em mim há muitos nós, muitas tranças.Se um dia você ficasse saberia as alegrias e as tristezas, porque eu te dei um cristal, mas quebrei peças, rasguei concertos, sussurrei errado muitas notas da sua ópera.
Eu desviei seu caminho, te dei algumas rasteiras. Mas eu juro que tudo foram chagas plantadas na minha fala, na minha respiração. Enquanto você ia, eu te puxava. Enquanto você ficava, eu te amarrava. Parece que eu sou você. Parece que entre o meu querer e o meu querer te ter, o te ter me parecia mais seguro. Mas eu não te tenho mais.Você rasgou minha calcinha também. Mas eu te perdoei a ausência, perdoei tanto que queria voltar. Mas no seu olhar está a ida, com ela.Talvez pela sombra, ou pelo rouge, ela pareça mais qualquer coisa. E eu, depois do tempo gasto no calendário abatido, do tempo gasto cotidiano e tão mesmo em sentidos, ainda sou a mesma. Até porque foi eu quem mandou você ir. E quando se vai, a ida tem uma coisa com o vento. O vento nos sopra quando estamos indo sem a certeza de chegar a algum lugar. Porque a certeza é o destino que o medo tenta resgatar. Sem a certeza o medo se aflora e a dúvida que no início é aterrorizante vira um estado permanente do ser. E na dúvida, qualquer chão qualquer lugar, é um lugar com uma liberdade de descoberta que só a dúvida pode aventurar.
Agora depois de um tempo eu achei que você pudesse ficar. Porque ter você também é bom.
Mas no seu olhar, no seu olhar está a ida, com ela. E eu só posso dizer: " Boa viagem".
Vai com ela. Em mim há muitos nós, muitas tranças.Se um dia você ficasse saberia as alegrias e as tristezas, porque eu te dei um cristal, mas quebrei peças, rasguei concertos, sussurrei errado muitas notas da sua ópera.
Eu desviei seu caminho, te dei algumas rasteiras. Mas eu juro que tudo foram chagas plantadas na minha fala, na minha respiração. Enquanto você ia, eu te puxava. Enquanto você ficava, eu te amarrava. Parece que eu sou você. Parece que entre o meu querer e o meu querer te ter, o te ter me parecia mais seguro. Mas eu não te tenho mais.Você rasgou minha calcinha também. Mas eu te perdoei a ausência, perdoei tanto que queria voltar. Mas no seu olhar está a ida, com ela.Talvez pela sombra, ou pelo rouge, ela pareça mais qualquer coisa. E eu, depois do tempo gasto no calendário abatido, do tempo gasto cotidiano e tão mesmo em sentidos, ainda sou a mesma. Até porque foi eu quem mandou você ir. E quando se vai, a ida tem uma coisa com o vento. O vento nos sopra quando estamos indo sem a certeza de chegar a algum lugar. Porque a certeza é o destino que o medo tenta resgatar. Sem a certeza o medo se aflora e a dúvida que no início é aterrorizante vira um estado permanente do ser. E na dúvida, qualquer chão qualquer lugar, é um lugar com uma liberdade de descoberta que só a dúvida pode aventurar.
Agora depois de um tempo eu achei que você pudesse ficar. Porque ter você também é bom.
Mas no seu olhar, no seu olhar está a ida, com ela. E eu só posso dizer: " Boa viagem".
Assinar:
Postagens (Atom)























