3/13/2009

Rainha da dor



Há uma pequena mancha preta no sol hoje
É a mesma coisa antiga de ontem
Há um chapéu preto preso no topo de uma árvore alta
Há um mastro com uma bandeira e o vento não vai parar

Eu estive aqui antes
dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta da minha cabeça
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor

Há um fóssil que está preso na muralha de um alto penhasco
(É minha alma lá em cima)

Há um salmão morto congelado em uma cachoeira
(É minha alma lá em cima)

Há uma baleia azul encalhada pela maré baixa da primavera
(É minha alma lá em cima)

Há uma borboleta presa em uma teia de aranha

Eu estive aqui antes
dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta da minha cabeça
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor

Há um rei em um trono com seus olhos cheios de lágrimas
Há um homem cego procurando por uma sombra de dúvida
Há um homem rico dormindo em uma cama dourada
Há um esqueleto sufocado por uma casca de pão

Há uma raposa vermelha dilacerada pela matilha de um caçador
Há uma gaivota de asas pretas com as costas quebradas
Há uma pequena mancha preta no sol hoje
É a mesma coisa que ontem

Eu estive aqui antes dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta do meu cérebro
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor

Rainha da dor
Eu sempre serei a rainha da dor
Eu sempre serei a rainha da dor

3/09/2009

Sarahbesco Japonês



+para minha amiga Sarah, aniversariante hoje.


O galho mais torto
o rabisco mais fino
arabescos japoneses
compõem a imagem
do teu filme

troncos e areias
se misturam entre este corpo
que adorna e canta

tu vens salvando
os passos
dos que preferem rir
e seguir

enfeites, cores
flashes
pulseiras tintilam
no ar
quando abres a porta
da casa
e resolves o mundo

Entre teus pés
a fibra de uma madeira
que nunca esfarela

seguro tuas mãos
uma bailarina obscena
nos cerca em todos os girares

estendes os braços
te posicionas no palco

os teus olhos de coruja
recém nascida
e sábia

as palavras
e risadas
saem das calçadas
e dos postes

as folhas abrem caminho
as luzes procuram te presentear
com o horizonte

as ruas sorriem
esperando tua passagem

gelo no copo
água
as palmas se inquietam
e as cadeiras começam
a pular

entre o taco
e as coloridas bolas
és a que mais brilha
sem gol

dona das taças e das festas
de todos os afetos

a noite te chama
e o dia te sacode

para dançar



Blog de Sarah Ferreira

http://saritz5.blogspot.com

3/03/2009

Trêmulo no SESC Prainha!



"Poeta
trapo poeta trapo poeta trapo poeta frigideira e limpador..."

Eba!
Mais um dia para todos prestigiarem o espetáculo
"Trêmulo"
com direção de João de Barros.

Projeto Mulher em Foco

Dia 5 de Março (quinta-feira)
19 Horas
no SESC PRAINHA

Entrada Gratuita

Venha!Venha!

Não Funciona ou Funciona?



por Ryana Gabech

diretamente para o coletivo operante dos maloqueiristas dentro ou fora da cova.


Sete horas da manhã. Banana. Leite. Mamão, aveia. Fim do pão. Vitamina. Pia, água, liquidificador. Botão emperra: não funciona. Sem vitamina.

Poesia funciona? Ou poesia é uma mosca? Nau que vaguei em alto mar, na tempestuosa maré das letras cortantes. Poesia fere? Ou é um balão de ar? Você olha para o alto? Vê letras? Lá vai o balão-poema. Quem encheu?

Esses dias eu vim caminhando para a casa e a perna travou. Eu lembro que quando criança, eu adorava pular muro, galho de árvore, telha, altura. Não dava nada, a perna funcionava melhor. Inclusive tudo funcionava melhor. Até os joguinhos pisca-pisca do sonic, nintendo, essas coisas. A gente apertava uns botões grandes sabe... O dedo da minha criança afundava naqueles controles. Hoje não, meu nintendo virou um mp3, e por incrível que pareça, não funciona.É mais comum entre os ares da modernidade as coisas serem descartáveis. Quase nada mais funciona muito bem. Ou já funcionou? Eu lembro da historia de um amigo, que chegou em casa e viu seu irmão comendo um “ miojo com ki-suco” famosa engronha da modernidade. Depois de alguns momentos de contemplação um deles disse: “ olhe isso!!!O que eu estou comendo? Isto não é um macarrão! E isto: não é um suco!!” .

Bendito insight! Macarrão instantâneo é apenas uma massa de trigo frita e embalada para “reduzir o tempo de cozimento”,e o “ki-suco”...Arf!! Grande playground onde se escorrega em aromatizante. Engronha com título de alimento: não funciona.

Às vezes as coisas não funcionam por pequenos detalhes, às vezes pequenos demais. Como ir acampar do outro lado da margem, atravessar o rio, montar a barraca e esquecer justamente, ou melhor, drasticamente: a caixa de fósforo. Ou se atarefar tanto a ponto de esquecer o aniversário da avó de sessenta anos par a ir à uma reunião da bolsa de estudo da faculdade: no sábado.

Já quando a coisa não funciona porque é grande, é bem mais triste. Com por exemplo doar muitos hectares de terra tomada por reflorestamento de pinos para um índio mbya-guarani (juro que não funciona mesmo, e é bem próximo de todos nós, inclusive daqui).

Parar na fila do correio para colocar um Sedex. Desanimador por si só. Se não bastasse a fila, a pessoa que deseja colocar um sedex deve saber que a embalagem a ser preenchida NÃO é liberada enquanto se espera.Pois, segundo funcionários do Correios, se a pessoa vai embora e leva a embalagem, são eles “ quem tem de pagar”.

Não funciona mesmo. Ê Brasil! Ordem e Progresso."Pogrécio, pogrécio".

Quando a porta do armário não fecha, alguma coisa não funciona. Pode ser o puxador, o trinco, ou a dobradiça. Sempre que algo não funciona, é como se alguém apagasse a luz, ou como se acionasse em nós um fit-back. Passa um filme na cabeça. Tem que parar, respirar fundo. Refletir. Ou quebrar o armário. Parece que o que não funciona, sempre gera uma reação.

É como perder a última peça do quebra-cabeça com a imagem que a você ia colocar no quadro e dar para a namorada pôr na sala de estar, no centro da parede. Dá tanta raiva, que a vontade é fazer a namorada engolir as peças (embora ninguém se permita fazer isso de jeito nenhum). Ou você escolhe simplesmente encarar o fato. Começa a rir e chorar descontroladamente de um jeito bizarro, e decide fazer chuva de pecinhas da janela do seu ap. Tira foto. Faz trabalho contemporâneo.

O que não funciona, desenvolve-se ou desenvolve o espectador. Quantas vezes Ainstein chegou a maravilhosos experimentos? Quantas coisas tiveram que pifar ou acabarem em um desastre, para enfim funcionar? Funcional. Quando algo não funciona certamente nos modifica. E se funciona, a lâmpada acende.

A porcelana, maravilhosa descoberta do séc XVII, foi descoberta por um alquimista alemão que buscava a fórmula da pedra filosofal. A pedra não funcionou, a porcelana, sim.

Então diante de qualquer dinossauro épico que não funcione mais, devo parar?Agir?Ou contemplar?

Afinal sou eu quem não funciona? Ou a coisa em si?Vejamos o lixo. Olhe bem para o lixo: ele não funciona mais . Mas em outro contexto: funciona! Como diria uma amigo: “ lixo não! Matéria-prima de excelente qualidade”. Tudo se transforma. Ou deve se transformar? Então não há erro. Há experiência.

Na verdade o que não funciona é a matéria-prima do funcionar livremente.Então se a coisa era funcional e não funciona mais, ela é livre de sua pequena e limitada função. Ela é livre para funcionar diferente.

E você está livre para funcionar em outra woltagem? Abra a tomada e modifique os fios. Escolha outras entradas. Mude o seu corte de cabelo, mude primeiro. Tudo que funciona igual, não funciona mais em seu contexto. Gosta de samba?Vá há uma orquestra Sinfônica! Só vai ao teatro terça? Vá durante uma semana. Só tem amigos que parecem com você? Faça amizade com um vendedor de algodão-doce.Tome sorvete no inverno. Brigue com as pessoas que você nunca viu antes. Empurre. Puxe. Vire de ponta-cabeça. Mude o sentido. Só gosta de romance? Leia poesia.

2/27/2009

Muro-para Bárbara


"Em meio aos trigais ensolarados

Descobri um brilho estranho

Seus imensos olhos castanhos


Acordando"

Perséfone Hades (Bia Unruh)

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Muro


Um dia em que todas as placas

têm o seu nome

essa avenida com suas marcas
passagens para nossas risadas


Seus retratos no outdoor
seus dedos segurando um cigarro
no corredor

entre amarras
flores e palcos

seu cabelo
seu gesto

tudo aqui onde estou
é você


Sentada na quina do sonho

você pula o muro
e me dá as mãos
saímos por entre as plantações
de trigo e arroz

o sol nos abraça



no meu sonho

2/19/2009

Eu leio autores vivos!



Ultimamente ando muito atenta aos prefácios dos livros. Não aquelas críticas chatas que se limitam apenas a transcrever um trecho do poema e as reflexões para ele (ninguém merece), e sim a prefácios de pessoas que ficam (aparentemente) muito tempo pensando no que escrever para tal obra. A obra para mim, é uma coisa muito próxima do artista, até mesmo quando ela é oposta ao que o artista é, mas até os contrários são muito próximos,
então estamos todos em uma mesma panela fervente.

O primeiro livro que chegou em minhas mãos este mês foi o do querido amigo Berimba de Jesus, que lançou de maneira oficial com selo, etc, o terceiro livro tão esperado "Encarna"- São Paulo, Annablume,2008. Coleção Dix Editorial.

A beleza e simplicidade dos poemas de Berimba é um assunto quase encerrado e o "quase" permite à ele continuar escrevendo e andando por aí,
para nos encher os olhos com o seu sorriso poético.

O prefácio de "Encarna" foi escrito por Márcio André,
vou colar umas partes aqui, para saborear:

"Se pudéssemos seccionar e isolar tais vertentes, tendêcias e direcionamentos da literatura ou da arte de um modo geral, chegaríamos a apenas duas atitudes diante dela: aquela (grande maioria) que enxerga no ofício da escrita uma possibilidade de expressão ou afirmação dos valores de quem escreve, deixando entrever aí uma ferramenta ideológica e de consolidação institucional, e aquela onde a escrita é já a própria condição fundamental da vida, de tal forma que o escritor não a concebe possível fora de sua dimensão.Entretanto, é justamente na direção-isto é, aonde levam-que os caminhos se qualificam e o artista se define quanto ao seu papel social e ético.Está em jogo se a obra de arte será sujeita ao indivíduo ou se é o próprio indivíduo que se conformará em corresponder os apelos da própria arte."



"Então, se há neste livro um mérito-e há muitos-, certamente está na busca por um caminho onde a vida e a poesiasejam o mesmo- "vida maior"-, de tal forma que já não seria um autor a escrever o poema, mas o poema a escrevê-lo. A busca por essa correspondência fez Berimba- neste caso, o poeta- concretizar, através do auto-aperfeiçoamento e autocrítica, um terceiro livro maduro, a um só tempo cru e sensível, verdadeiro, direto e sem firulas, como deve ser o olho e a boca daquele que tem a poesia na veia e diariamente mata um leão com as mãos.
Num mundo e numa cidade onde a poesia pegou sólidos vícios de mão única, consolidando técnicas paradigmáticas de polarização e autocanonização, a mensagem subliminar ecoando ao fim deste livro talvez seja: vocês terão que engolir a minha poesia, esta que encarna em todas as coisas. E um livro onde a vida é risco, onde a poesia é risco.Uma poesia viva e da vida e fala por si só.


Agora, três poemas e o link para o blog do poeta:

"anseio
pelo tombamento

das flores de aço

e que de novo se mate

as flores por amor"


"chega a hora de pôr fogo
em tudo

falta você
vir comigo

e olhar nos meus.

disse não?
te ateio fogo também"



"abraço um peito cheio de nós

o amo.

normalmente restaria
um só
trocando confidências por estórias possíveis

no caso praguejo
sobre a falta
que me faz
o que não tenho.


tropeço mantendo

a suposição do futuro."



O livro conta com o projeto gráfico e lindos desenhos de linha de Marcus Binns.

www.berimbadejesus.blogspot.com

2/09/2009

Mariposa



"O meu casulo
avistou o teu
que estava vazio

Já és mariposa?
eis o projeto de meu corpo."

Enzo Potel


Borboleta

Grudada entre os vidros
uma borboleta
dança

sou essa menina sem asas
só cores jamais vistas

no fundo do arco-íris
um pote de formas e destinos
conto os dias
para partir

nunca vou derreter
sou bruta e leve
púrpura e flor

nasci dentro do vento
quando vôo

e quando minhas mãos
seguram as tuas

é purpurina
e primavera

2/04/2009

Poazia



Tragam-me o remédio para a poesia que ainda se escreve. Para as noites que ainda não são manhãs.Para as mãos que ainda teimam em matar, perfurar, extrair e enquadrar. Tragam-me logo o remédio para a modernidade, para o exagero dos fios e dos frios. A cápsula protetora para os ruídos. A janela que mostra o silêncio. As gaivotas ainda soltas no ar. As ruas sem petróleo. A água sem flúor. Tragam-me um remédio que me possibilite escrever, sobre o que não é mais, o mar. Um tranquilizante inspirador, para o que não existe e deveria existir. As flores que já morreram, as flores que não chegaram a nascer. Os abraços nunca dados. Os olhos que nunca se encontraram. Tragam-me um realçador de sabor para o desbotado das comidas e bebidas. E tragam-me também, sem esquecer, o amor em e-mails e mensagens eletrônicas. Tragam-me as palavras-chaves para a reconstituição da alma e da moral, do zelo e do contruir, do sólido e colorido bucolismo já remoto.Tragam-me uma vaca portátil para pastar na minha fazenda.

A desaparecida

Depois de cruzar vinte mares,matar nove onças e percorrer cem quilomentros à pé, com as roupas na mão, e o suor desvirado na pele, um homem a vê e pergunta:

-De onde vem tanta força?

-De uma dor.

Ela responde, e desaparece.

1/28/2009

ísis sem véu



Se me cerquei
foi porque não consegui dizer
tudo o que
a garganta engolia

o silêncio da cidade me alimenta
o silêncio da mata me chama

o silêncio da saudade
me corrói

o pouco me seduz

o pequeno me dá a mão

o véu que se rompe
é a minha casa

o silêncio das formigas
em trilho

é o meu desejo
para outra vida,

mais um pisão.

Os bichos peçonhentos
e os selvagens
moram no infinito
da minha alma

nenhum animal
me segue

Uma cabana de folhas secas
invisível aos olhos humanos,
uma lua nua

é o meu sonho.

Colagem


Cada dia que passa
mato uma parte de você

uma parte que foi minha
entre um cansar afogado
e um abraço

uma parte do seu braço-pedaço
fui inteira,
delizava entre seus poucos pêlos
e os poucos segundos que a minha boca
encontrou a sua

e embora tenha batido a porta
e não olhado para trás

seu peito me olha de frente
e me enfrenta com uma flecha
toda marcada com lembranças
pingos e gozos

ainda cruzamos o mesmo caminho
uma pontada urge
e embora você nao regue mais a planta

é uma trepadeira muda
ocupa a casa
respira você

essa faca me aponta

seco ou enterro?

matar você
é matar um pouco de mim
antes

A Educação- por Madame Zorayde




"A tão falada Educação deveria ser uma Santa. Com altar, devoção, oferenda e milagre. Uma mulher com óculos, livros e roupa de formatura.
Uma Santa têm muito mais irmãos para uma causa,
muito mais previlégio do que um ideal."

Em uma entrevista à Cultos e Magias. Set/07

Vapor



-Quantas pedras preenchem o seu travesseiro?

-Por que?

- No seu olho, uma miragem se evapora.

-É possível ver?

-Só quando você vira as costas.E volta.

1/26/2009

Nanquim


Esconda essas fotos
por favor

a primeira do álbum
e o escrito trêmulo
de nanquim

A mancha na blusa desbotada
é gim
e chocolate

Faz setenta e duas horas
alguém partiu
o pó saiu das prateleiras
e tomou as pálpebras

eu quis escorregar
nas bananas
dar adeus à mim

desleixo.

Entre as pegadas
perto da porta

uma mala
esquecida

e essa câmera
ligada

Maravilhoso- As pérolas do Terça Insana

A gente tenta apenas escrever poesia no blog. Mas ás vezes, os descansos e os risos entre os versos, usar e abusar da tecnologia, pode salvar um poema do afogamento, desta imensidão
de palavras.

Sheila-

O Baile

Parede gelada de vontades
desgostos
e vestidos rasgados

quem vai ao baile de despedida
da felicidade?

1/20/2009

Consolo para um barco


Eu sou a prova exata
de choros e melancolias
as dores mais cruéis
escondidas
no mais escuro dos sorrisos

É como se eu pudesse
vestir minha capa vermelha
e derramar todas as angúrias
sobre essa areia gelada
e fina

há de ficar aqui, esta saudade.

Desaparece o rosto
da falsa rainha
costurada da boca
até o joelho
no peito uma amargura
e um novelo.

Hoje, meus risos
são entoados
de descaso e perscussão
um espantalho assustado
com suas próprias mãos

É com a mesma certeza
dos contrários ventos
que emudeço a lembrança

faço voltas na maré
alongo o silêncio do barco

E você,
o mar
é um presente embrulhado de ausência
um sapo na minha garganta
arranca

você
o barco de pedra
afundando

e a minha capa vermelha

entre as ondas flutuando

sozinha

no mar

como?

12/23/2008

Último Andar



Alguém está descendo
a escada
na escuridão desta casa


no degrau:

roupas
rasgos
palavras
e pétalas de gerânio branco
Quem escondeu a sua voz
dentro deste travesseiro
do amanhã?


No nau que parte

diante de minha alta janela


vai esse pergaminho
com notas japonesas
desenhadas para o seu corpo


Eu só consigo ver você
de longe


Entre as submersas amarguras
essa mala
esta música
cantada apenas

dentro do mar
partido

12/18/2008

Samba (para Leandro Fortes)

Roda o passo
a flor
do terraço

da vista
visita de aperto
abraço

saudade

te jogas em ondas
fixa, almeja, anda,
faísca
dia-dia

é um medo chamado nostalgia
sai meio a tardinha
volta depois de três dias

um cactus
meu improviso
é a falta do nosso sorriso

o que pode ser de nós?

até um dia
do terraço da vizinha
vem e acena
nossa vida em fotos
cartazes de alegria

até um dia
perdão
o peito arde
mas eu preciso de razão

sinto saudade
do mil e novecentos
dos três e cinquênta
do porre

do passe
do xote

Rodo e passo
é a flor do perdão
no meu terraço

12/12/2008

O sol da linguagem: Hilda Hilst


Hilda Hilst: Nome escrito entre os montes de areia fina, nome de jangadas e canoas do futuro poético. Imagine daqui a dez, vinte anos (quando o mundo a descobrir mesmo), uma frase de Hilda em placas, barcos, jangadas:

"A vida é crua. Faminta como um bico de corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio,lágrima,olho-d’agua,bebida. A vida é líquida"

Fernando Karl a entrevistou , e essa passagem é linda, não tem como passar reto:

Fernando José KarlPara terminar, rápido e rasteiro – qual o mistério dos mistérios para você?
Hilda Hilst – Eu penso que seja a paixão, a nostalgia da paixão, que é terrível, mas que, por outro lado, faz você revivescer. Para mim, me apaixonar com pudor era uma coisa maravilhosa. Mas, até mesmo nas minhas fantasias eróticas – e eu estava sempre só quando as tinha – eu ansiava por uma imagem e, vocês sabem, ansiar imagens é infernal. Você não sabe qual imagem vai olhar sua decomposição na velhice.
Eu desejo que quem me olhe seja meu cúmplice, cúmplice de minha sina.



mais em: http://nautikkon.blogspot.com

12/11/2008

Restos de uma enchente

Os buracos abertos
os canos que não foram rebocados

os canos cortados
amputados

em uma parede
sem história


Que desta massa de contrução
nasça uma rosa

que nesta enchente turva
dance uma bailarina vermelha

que as frutas brotem

da terra podre

Mentirinha- para Bento Nascimento

Vê,

não foi tão difícil assim
se mostrar para o mundo

de mentira em mentira
a verdade veio ao rumo

de frente
com essa sua mania
de não responder com o peito

a palavra soou
uma relação cordeal
que dançava
no nariz do pinócchio

acreditamos
você e eu
que essa história
de deixar para depois

era uma mentira
disfarçada
de covardia

Álbum Vermelho



Os pensamentos voaram e chegaram até a sacada da casa.
Peguei um pensamento-pergunta: "onde estão seus cadernos de poesia?

Ficou ecoando no ar a interrogação.

A verdade é que o tempo foi passando e fui deixando o costume de ter um caderno só de poesia, como antes....Claro que os cadernos "'só de poesia" continham também foto-poemas, capas de filmes, imagens de revista, folhas de laranjeira, e pequenas mudas de jasmim, entre as páginas.

O fato é que com o espaço virtual,tudo virou uma só camada imersiva, que ainda, não possui cheiros nem raízes secas para povoar a página.

Como sou um bicho meio do passado, que queria ter vivido no tempo do rádio, resolvi lapidar meus cadernos de hoje, que parecem mais rasuras do que aquela forma bonita de se pensar poesia, no toque, na terra.

De uns três anos para cá, meus cadernos poéticos estão poluídos com lista de supermecado, contas para pagar, receitas médicas, dias que não posso esquecer, horas que tenho que cumprir, nomes de artistas, endereços de internet, cartazes removidos das paredes da universidade.
Ás vezes olho os grafismos feios no caderno que parecem mais arte rupestre em plenos tempos de evolução tecnológica.

Na correria do tempo, e na luta por mais tempo para criar e para menos racionalizar, muitos exercícios e inspirações da rua, do movimento, em que a caneta e o guardanapo são as única ferramentas, ficaram para trás, em meio às contradições da sociedade moderna: tempo é dinheiro, tempo não volta,
mas fique na fila do nosso Banco.

Na tentativa de lapidar as pérolas nascidas do lápis, do gesto e do papel, recuperei três cadernos do limbo, e farei um olhar "infravermelho"para coisas pré-nascidas e deixadas para trás.
Coisas vermelhas, com um álbum virtual do passado. Já que escrever à mão anda me cansando e esta hospedagem virou meu campo de vôo.

O futuro é feito de lembranças virtuais.

12/08/2008

Bilhete promessa



Meu amor. Acabei não resistindo a vontade de deixar esse bilhete. A geladeira é o primeiro lugar onde sua preciosa mão pousa pela manhã.
Ontem você escondeu as chaves de novo. Quase perco a hora do trabalho. Parece que faz pra implicar comigo.

Prometo procurar você novamente apenas quando estiver com o sorriso de ontem. E com a mesma maçã nos olhos. Prometo pegar na sua mão e não deixar você sentir medo. Vou te abraçar enquanto você dorme,e preparar o café.Quero perguntar com quantas pessoas você falou no dia, quem ajudou, brincou ou cruzou o seu caminho.
Quais foram as cenas entre as horas monótonas do serviço que mais desconcertaram seu programa . Prometo lhe dar flores, e preparar a máquina de lavar.
Estender os lençóis,dar comida para o gato e ligar quando estiver doente.
Prometo pisar de mansinho quando descer a escada para beber água,no amanhecer frio da sua sala sem tapetes.
Prometo preencher a casa de girassóis, e esperar você terminar de falar a frase inteira, o pensamento como um todo.
Sim, prestarei atenção quando você se emocionar para responder alguma pergunta de família.
Quero ver todos os seus álbus de infância.
Prometo suspirar ao ouvir a sua voz.

Mas meu bem, não me ligue pela madrugada
e nem me incomode, esperando devolta
as cores que pintei sua vida

Não chore quando eu for
e não me pergunte
se eu senti saudades

quando voltar

12/06/2008

Liana Keller

http://lianatrapo.blogspot.com/

12/05/2008

Espetáculo Trêmulo O Corpo Som do Poema








"O que sou está acima da linguagem,
mas como posso escrever sem mim?" Clarice Lispector

12/03/2008

Silas Simplesmente-porque o humor é o melhor remédio

Zeitgeist II

Quero uma
explosão
ser tomada por um acontecimento
uma queima
de arquivo falso

a interrupção de um assalto

a apatia das cadeiras
em ordem
as fileiras e os padrões
a frieza do sobreposto degrau
do mestre
me faz rir

é frieza e didática
a dialética

os seres desumanos querem
emoção
cobrança de notas
papéis quadriculados
por presenças
maquiadas
disfarçadas

quero a força intensa do quebrar
melhor

fazer parte de um lugar
onde as pessoas podem falar
foder
orar e pintar

sem terem de apontar o dedo
para o reflexo

quero essa criaça cor-de-rosa
correndo entre as pernas
de seus pais

e que ela possa conhecer
tudo verdadeiramente

que possa se estender
entre as águas da cachoeira
conhecer o mar
olhar a janela de sol
e poder escolher
se deve ficar ou cumprir
ganhar ou perder
ser frágil
quebradiça e sem vontade

ou

ser bruta
ferro derretido
canina

possuir
ou perder
não ser indicada

quero sair do muro
e não ser
revistada
estapeada, cuspida,
encaixotada em um padrão

quando não fiz isso à ninguém


Não mereço estar de frente
para esta esta tela

por trás dessas imagens
ameaçadoras
um revólver
vendido no mercado

quero explodir no acontecer
e não na mesmisce das
notícias vãs

quero poder saber
se quero
prevenir

ser o que não sei
se sou

pois estou andando

e apenas
quero continuar

11/19/2008

Zeitgeist


"Veremos
o quão é importante
trazer para a mente humana

a revolução radical

Essa crise
é uma crise de consciência

uma crise que não pode
mais
aceitar as velhas normas
as antigas tradições

E, considerando
o que o mundo é hoje,
com toda a miséria
conflito
brutalidade destrutiva
agressão

o homem ainda é o mesmo de antes.

Ainda é bruto
violento,
agressivo,
acumulador, competitivo

ele construiu
uma sociedade
baseada

nestes termos"

________________________


O que estamos tentando
com toda essa discussão retórica
é ver se não podemos fazer acontecer
uma radical transformação da mente

não aceitar
as coisas como elas são

entendê-las, mergulhar nelas,
examiná-las

use o seu coração, a sua mente
e tudo o que você tem para descobrir
um jeito diferente de viver

mas isso depende de você
e de mais ninguém

porque nisso,
não há professor,
nem aluno,
não há lider,
não há guru,
não há mestre,
não há salvador

você mesmo é o pofessor,
o aluno,
o mestre,
o guru,
o líder,

você é tudo
e...

entender
é transformar
o que há"


Krishnamurti

11/02/2008

Entre poesia

Poesia. Andar entre ilegíveis passagens do viver.Poças de palavras.Águas de escrita jorrando em todas as esquinas. Mesmo eu poeta, greve de palavra. Força de todas as atitudes.Poeta é um bicho esquisito, que de repente vira gente, nasce em barriga, de uma boceta borrada de sangue. Todo poeta bom pergunta muito. Bom não quer dizer que escreve bem, quer dizer que depende da palavra para ser, para virar. De modo que o poeta bom, é aquele que em cada palavra sua, há um pedaço da carne dele ali.É quase como sentir o cheiro do autor. Ás vezes esse perfume é indecifrável, mas ele é percebido. Ele existe. A palavra do bom poeta, sai dele a tal ponto de atingir o outro.E atingir o outro não quer dizer que ele vai achar lindo, maravilhosa a idéia.Ele pode rasgar o poema, ele pode xingar ou só dar um sorriso, pode dizer que não entendeu, questionar.Mas atingiu.Nem todos os poemas atingem, mas geralmente, os mais fortes, geram uma reação.
Só sou eu mesma quando escrevo, logo o mais verdadeiro de mim, a maior essência está ali, naquele embaralhado labiríntico de palavras . Há quem cria. E há quem contempla. Há quem se arrisca a ser poeta, mas poeta mesmo, não consegue viver sem poesia.As vezes as palavras me deixam no meio do caminho.As vezes elas me apontam um. As vezes as palavras me amarram na cadeira e não consigo sair até terminar.E com certeza, esse impulso que move e amaara, vem de uma sentido poético.Só a poesia amarra e liberta. A poesia é livre para fazer de nós o que quiser. Ela está aí. Só basta abrir a porta. Mas não é qualquer um quem pode sair por aí, pocurando as chaves da poesia em si e no outro. É um exercício de contemplar amanheceres, querer ver a sujeira e o apreço.Já ouviu muitos poemas de amor? Que bom, um entre cem poemas de amor são bons. Das obras dos melhores poetas, o que pulsa e vive, o cerne da obra,não fala de amor, fala da vida, da insatisfação, do querer outra realidade.
O tempo do romantismo já passou, e ninguém precisa morrer para escrever poesia. Mas a poesia não pode, nem deve ceder as academias, as grandes instituições. Os poetas, os trovadores, são espelhos do povo, da grande maioria. O livro pode não vender.Mas o disco vende. E o disco tem poesia. A música é poesia com e sem palavra. A poesia é a única nascente onde todas as artes podem se unir. Porque não tem normas. Não tem regras. Quer ser indiferente à realidade? Escreva uma ficção. Invente um personagem. Porque se na poesia você não puder ser o próprio personagem. Nem escreva o poema. Poema é verdadeiro quando é a gente. Quando parte da nossa mísera capacidade de ser alguém que tenta.Que tentar comunicar.Que tenta alguma coisa. Poesia vem da alma. nao tem fórmula, ph, medida, bússola, bula. Não tem. Ela de repente pega de supresa. E a paixão verdadeira é ela mesma. O sexo do poeta é com a poesia, antes de ser com alguém de carne e osso. De repente a poesia quanto a escreviam, enquanto davam á luz um livro, se desproviam de tudo. Bukowski, Mallarmé, Pound, Quintana, Drummond, Hilst, Gullar. Não escreveram poesia por prazer, ela os tirou um pouco da vida, e os colocou no mais profundo mar das sanções, das sinergias, do vazio, do medo. Nenhuma pessoa vive a poesia sem se transformar.

Porque poesia é difícil?Têm pouco público?

Porque quem a escreve tem de doar alguma coisa por ela.Tem que experimentar. Comer a barata?

Viver a barata.

Pensar sentir. Mudar.E quem lê, tem de assistir esse tratado entre o poeta e a poesia, quase sempre ele é conflituoso, verdadeiro e comovente. Ninguém fica ileso. E para viver poema tem de se ter a casca grossa. A gente sempre recusa o que não entende.Não gosta do que não entende. A poesia é tão profunda, que só quem resolveu largar a margem e nadar, pode sentí-la. Um dos primeiros poemas que mais amei ler, não entendi absolutamente nada do que o poeta falava entre as linhas de compostas por palavras e os intervalos entre os brancos dos versos.mas eu gostava.Demorou até alguém me explicar. Nem foi tão bom assim saber, a dúvida era mais interessante.
Poesia é atitude, é querer. É uma ferida com muita vontade de sarar. De modo que atrás de um grande poema, há um grande poeta, uma grande voz, e um eco vibrando para todos os lugares fora da página. Fora do áudio. Fora da imagem. A poesia é o barco do branco eterno que sempre espera o tingir de quem a escreve, e até a cor final de quem lê.É de frente, na frontalidade de uma escultura que se vive poesia, que se escreve poesia. É como andar entre as vidas de todas as coisas. É como estar entre as imagens do filme.
No vulgo espaço entre as vidas,as cenas, abraçando o acontecer,andando entre e sem quebrar os ovos.

10/30/2008

Making Off Trêmulo


O morto e o vivo




Inútil pedir
perdão
dizer
que o traz
no coração

O morto não ouve




Ferreira Gullar

10/20/2008

Presente



era uma janela cinza e branca
uma mão pousava em meu ombro
a luz entre a neblina e o fogo
nós bebíamos
na chícara do passado

que elixir possui
o líquido do passado?

Esta cidade em mim
se cobre de névoa
é branco branco branco
como o luto de um fantasma
sem música

Abre-se o lírio do frio

duas barras de metal
e o grito de uma criança sobrevivente

do meu naufrágio

quem salvará o barco?

Há uma mão em meu ventre
e o presente
dormindo e gemendo

no meu travesseiro
*foto-trabalho vermelho paixão
Karina Segantinni

10/18/2008

Charles Bukowski

Melancolia


a história da melancolia
inclui todos nós.
eu, eu escrevo em lençóis sujos
enquanto olho para paredes azuis
e nada.
eu já me acostumei tanto com a melancolia
que
eu a recebo como uma velha
amiga.
eu terei agora15 minutos de aflição
pela ruiva perdida,
eu digo aos deuses.
eu faço isso e me sinto bastante mal
bastante triste
então eu levanto
LIMPO
apesar de que nada
está resolvido.
isso é o que eu ganho por chutar
a religião na bunda.
eu deveria ter chutado a ruiva
na bunda
onde o cérebro e o pão e
a manteiga dela
estão...
mas, não, eu me senti triste
por tudo:
a ruiva perdida foi apenas outro
rompimento em uma vida
de perdas...
eu ouço a bateria no rádio agora
e sorrio.
há alguma coisa errada comigo
alem
da melancolia.

9/25/2008

Suspiro






Me perdi completamente


desde que nasci

você não está

vendo


mas há um saco de pão

me vedando


escrevo


pra poder me encontrar



dentro de você


(é minha última esperança)

9/06/2008

Hilda Hilst

Árias Pequenas. Para Bandolim

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.

Destino

a rua de mel
e sal

do nada

9/04/2008

No espelho o ar


No espelho dela: três mulheres. Uma de cinco anos. Conversava com Deus, esta. Ia dormir protegida por uma bolha transparente que a vigiava quando dormia. A menina de cinco anos se arrastava até a praia, fazia bolinhos de sol, e jogava os grãos de areia no mar, espalhando-os, feito porção de ondas. O tintilar dos grãos assentando no fundo do azul, a fazia feliz.

No espelho dela: três mulheres. Uma de 16 anos. Esta tinha medo cortar o cabelo, engordar e ficar esquecida por algum homem qualquer. Falava com os deuses, carregava amuletos, e descobriu em cima do telhado, a poesia de uma cidade. Esta era apegada ao suor e ao breu. Ficava oras olhando a janela. Não sabia a diferença entre um umbú e uma jabuticaba.

No espelho dela. três mulhes. Uma de vinte e poucos anos. Esta briga com Deus. E chora andando na rua. Nunca arrumou direito o cabelo. E não sabe se devia de fato, o ter. Esta procura um laço de mel. Queria muito, muito mesmo, poder colocar um saco de pão na cabeça. Sem causar alvoroço nenhum. Tem medo do anoitecer sozinha. Se embrulha no medo. E espera quieta tudo se desdobrar por si só. Não gosta de fazer força, e está um pouco cansada, demais. Demais.



No espelho dela. Qual deve ficar?Ou ir?

No espelho dela, muito mais mulheres, ou freiras, ou banais, ou negras, ou brancas, ou secas, ou robustas.

No espelho dela. Parece ser tarde demais.

No espelho dela. Além de todos os reflexos, a dura pena. Continuar. ar.ar.

Entrevista para o Jornal Zero UFSC Junho de 2008

http://blogdozero.files.wordpress.com/2008/07/junho_pg03.pdf

9/02/2008

O bicho de castigo





Deixa

eu

gargalhadas estão
contidas entre
meus ganidos
berros e contrários
meu vento
é um redemoinho

onde vão parar os anseios?

estou presa no canto da sala
presa por vozes direcionadas
setas apontando

a janela
e o mundo

mas eu não quero sair daqui.

Não toque
não aproxime
placa

se você pisar
inflamo.

Não é o momento
deixa

eu
o bicho descabelado
que invade as casas


neblina dos cabelos pisados

amarrotados

bicho de pai
e mãe
arrancados da memória

bicho que cheira arranha
eu
porco espinho de praia

mar calmo


na solidão
do ouriço

parece

um castigo

8/26/2008

Dentro da casa




Devo abrir a porta e te dar a mão


Dentro desse pote

uma noite

e as suas mãos de neblina

passeando em meu corpo


puxo a cordinha


ao pé dos sonhos


os cabelos negros na lua


recortam um desenho entre o ventre


umbigo



Será o seu reflexo


a nossa casa à noite


ou essa floresta


que quer me convidar?




Há um respiro

atrás da porta


dentes e uivos

desejo



posso abrir o pote



ou devo abrir os olhos



ou a tampa

dessa caixinha?


8/22/2008

Itajaí








Fui muito bem recebida no NEFA, onde apresentei minha performance e lancei "Trêmulo" (Ed.Papa Terra, 2008).Foi lindo tudo.As imagens falam melhor.Bjão em todos que me apoiaram sempre. Ah..E a Lucinéia--boneca gentilmente cedida pelo núcleo para a performance. Viva a poesia!!!
Obrigratra especial ao pessoal do NEFA. Ao Sebba. Ao Cristiano Moreira.Ao SESC...




O homem, o rio e parte.


Aquele homem apareceu grávido de oito noitadas mal-dormidas. Passou por mim e levou meus anéis de delírio. Eu ofereci cálices, sobremesas, e noites entre galáxias.Ele não quis.Preferiu me enganar, marvcar um encontro e partir.Partir.Alguém me partiu em 3. Você é parte dos cristais que guardo e que corto. Este homem guardava uma sacola de talismã. Mirei-o do umbigo pra cima. Convidei a passear dentro desse abismo.Ele não acreditou que o abismo são outros umbigos,umbigos exagerados, umbigos que inflamam. Eu inflamei e queimei. Muitas vezes subi na carroagem do homem. Ele sempre queria melancias para jogar as sementes no caminho. Não sei porque montei no sonho. Na verdade eu procurava uma outra parte.Parte. Eu já a conheci.É meu oposto, mastiga com calma.Tem a alma parada, mas não apática. A alma voa como elefantes e suas orelhas de asa.Eu voei muitas vezes com a parte. A parte fala, e parece música, há quem ria das gírias e da simplicidade. Eu não, preferia deixar ligado todo tempo aquele rádio de voz que ela sussura. A minha parte nunca toquei. Mas ela toca todas as melodias com suspiro, hálito e calma.Minha parte parece uma árvore abraçada por uma criança.Eu a amo. Mas eu esbarro.Ela esbarra. Dizem que não tem rumo, é como o rio que transbora.Pode parar, transbordar, ou seguir.Pode molhar terras, balbucios,relvas. Ou pode vazar.Eu tenho medo que ela escorra. Então eu encontro o umbigo. A garganta.Parte.Me deixa partida. E o homem me leva.Eu o levo também. Porque é o único que me quer.

8/05/2008

Poemando na Pracinha








"Poeta,




trapo




poeta




trapo




trapo poeta



poeta




frigideira e limpador



alguém quer

limpador?



alguém quer limpar

dor?



poeta trapo
trapo

trapo


tudo junto




pedaço de palavra




pedaço




pedaço trapo


todo mundo junto


todo mundo misturado


pedaço de palavra


pedaço


trapo trapo trapo"




Ryana Gabech
Fotos: Alessandra Teixeira






7/22/2008

Trêmulo-composições de Guinha Ramires


Mais um convite para a nova versão de minha Performance

Trêmulo

composições sonoras de Guinha Ramires



Dia 27/07/2008-DOMINGO às 18:00 hrs Na Pracinha da Lagoa da Conceição-

Ao Lado do Casarão Bento Silvério


Para quem se intereressar, estarei com meu novo livro à venda no local.



A performance em versos, ao som de meu corpo, se desdobra ao acontecimento.


Performance é acontecer- aqui e agora. Como diz Ricardo Aleixo

"já demorou, é pra já".


Poeta que veste roupa de trapo, leva uma frigideira, um limpador de assentos, sorrisos, e choros.


Poeta leva acordes de um músico, sopros de outro, água que escorre e pinga, pinga.

Poema faz barulho de goteira.

Poema vira acordeon e tango.

Palavra ao som e ao redor de tudo.

Vento e Marulho.

Acordes se transformam em coro, mais vozes.

Um som. Sons.Sons sorvidos, derramados, curtidos e cheios de emoção

Se não: pão

Poema ,poeta, e não-poeta se confundem à mesa com dia-a-dia.


Você não espera, de repente, chuta uma pedra:

sai um poeta, gritando, cantando ou sussurando poesia.




Performace-dá dúvida e incomodação.

Performance dá coceira.

Performance faz a gente tremer de alegria, tristeza, ou dor.


Performance arrepia.

Treme.




Trêmulo-minha performance já antiga, tomou nova roupagem.

Agora com composições sonoras de Guinha Ramires.


É apertar os cintos e viajar no som que a palavra cria, partitura que a voz escolhe e dança que o corpo move.



ESPERO VOCÊS!


7/18/2008

Antes

Eu vim abotoando a camisa
e rasgando todos os telefones
do passado

desfolhadas escolhas
rostos escritos com giz

você veio ao meu lado

abrindo os portões
lustrando as calçadas

e contando os kilômetros
entre os meus passos de adeus
e um beijo

e se eu quero partir
e colo os frangalhos desta história?

e se de
rente
eu quiser mesmo
ir?

por que você me dá a mão

e segura esse calor
como o solstício
mais esperado da estação ?

você prende meus pés

tapa minha boca

ajeita meu cabelo para uma foto

pego a mala


mas no primeiro passo

pedaço


fica comigo

ou com você?

6/20/2008

Fogo

Eu vim correndo
com o rosto
todo borrado
de nao

mas vim trazendo
uma sacola
com uma constelacao de
mascaras
pressupostos

mentiras contadas ao pe do ouvido

tudo para rir
com voce


ontem eu pisei em dezessete
pocas de lama

desarmei as roupas
brancas
e as brandas tambem

vestido vermelho
de demais amor

muito amor

nasceram crisantemos
negros
nesta minha carta

perdao as palavras

o escorregador
de lagrimas
esta embutido

prateleiras
e prateleiras

colecao de lixo
embaixo da cama


E voce vem com um fosforo

no meu peito
que era

cinza de ontem
e brasa
de hoje


queimo
queimo

queimo

6/03/2008

Desmanche


Rosto de madeira
quem está atás de ti?

uma caixa dourada
se abre

sapato de mel
pedrificado
grande perfume do passado

um passo antes
pequenas mãos
de criança
faziam um castelo
na areia

submersas
marinhas
um livro chamado
passado


as folhas chacoalham
chacoalham

rosto de madeira
e feltro

do passado

um desmanche
dentro de mim

rosto de madeira e couro
um dia
me vestiu inteira
de camurça e sêda
hoje
um frio
rosto de madeira e gás
agonia explosiva
conforta esta parede
de vidro
labareda de palavras
e cinzas
rosto de madeira e algodão
você no meu passado

tão berço

tão raio calor
tão meu

"Onde andará Fernando Karl?" texto de 2002-quando o poeta-nuvem evaporou-se.Mas dizem que...



" O pêssego é tão belo de se ver cheirar tocar e ler. Está tão cheio de sílabas afrodisíacas, mas seu caroço é tão apressado que cria raízes na própria fruta, de tanto desejo pela terra" Enzo Potel

Fernando Karl anda ausente como uma andorinha em tempos de frio. Noutrora esteve entre os pilares da Dide Brandão, e em sua imaginação instável como em dia de chuva, segurava um dos pilares com uma das mãos, e na outra, uma sombrinha fechada. Dançava e saltitava no ar. E cantarolava em preto, em branco. E como em dia de trovoada segurava os raios doidivanos, soltos e inconsistentes escritos como o raio: em susto, surto.

Talvez esteja resgatando o vão do " algo" que em candura (belo que deve ser) se dissolve na estrutura eufórica, melódica e lírica das palavras. Ou ainda atirando outras borrachas, mandando embora toda e qualquer correção para o embelezamento sem conexão entre os versos. Onde se busca a essência que, em maior número perde para o universo único de cada palavra. Na Galáxia de Karl cada palavra tem uma função de planeta, cometa, ou estrela. O poeta deve usar de preferência as palavras estrelas que como no céu, parecem cintilar paradas e desorganizadas. Elas como no poema, "são". Elas não querem dizer, não se bastam, não se conjugam, não se exprimem nem condensam e às vezes, nem se tocam.Talvez uma estrela nem conheça a outra.

Seja lá em que constelação Karl vive, ele traz a liberdade ao poeta, a valiosidade de suas letras, a dedicação total a uma casa que muitas vezes ele brilhantemente vive, talvez não no rabo do foguete, mas no comando de tal. A experiência que ele leva nessa jornada galaxial transmite o vento que balbucia o primeiro contato, o primeiro " ver" diferente.

Onde andará Fernando Karl? Em novos mares, num barco em que a poesia começa, se inicia, mas não pedrifica? O sopro Fernando Karl também deve estar com ele. No silvo libertino e gracioso da pequena praia de São Francisco do Sul ou melhor, na procura incessante dos belos nomes dados aos seres do mar, às conchas que cantam ao pé do ouvido. Sem qualquer ordem ou significado, em breve tudo virará poesia, para ele, que como o pêssego (palavra estrela), cria raízes dentro de si.
*Imagem de Joseph Beuys

5/08/2008

Ícaro e seus balões de cera


Só sou livre quando escrevo. É por não possuir aquilo que mais quero que o quero mais. Eu escrevo como quem chora uma canção entre voz e lágrima. E não gosto de explicar. Eu só deixo o acontecimento e as palavras me assaltarem, ou me confortarem. Defendo a água corrente de meus dedos porque nada pode me fazer parar de escrever. Eu escrevo enquanto inspiro. E quando expiro, as palavras já estão prontas pra germinar. Eu sou uma semente ambulante, procuro um pedaço de texto- terra, porque quero brotar logo e mais e mais.Eu gosto do caminho cheio de ruelas que o pensamento faz entre as palavras, permeando abismos e florestas de bromélias. Gosto de como a palavra vêm, muito mais do que como ela se encaixa no texto. Gosto da água que corre por todos os lados, muito mais do que a certeza de uma lagoa que nunca transborda. Eu gosto do natural.Escrevo com os sentidos mais efêmeros e imediatos, com a sensação, com o "estar". Quando vem o cheiro de noz da sua comida eu canto versos em silêncio. Sorrio por dentro e as palavras me alcançam. Eu coloco primeiro a pergunta no ar: "qual seria a palavra?" qual seria o som que traduz esse momento único na história"? Então, eu gosto de escorregar na certeza.Eu já sei o que quero dizer, mas quero me perder no que escrevo, para nunca perder a vontade de descobrir a essência de um poema. Porque é o mistério das palavras, e a dúvida de um desencaixe, de um "erro"da fórmula, que me seduz.O que é perferfeito e conciso não me faz pensar. Então eu vivo a realidade em busca de pão e café, para saber a resposta. Eu escrevo por que não sei, e quero entrar dentro do que não sei, e continuar errando a resposta, para saber o caminho que me fez chegar, e principalmente: "para não perder o prazer da busca". Dentro do que não sei, aparecem muitas imagens. Eu fecho os olhos e a paisagem vem. Eu escrevo porque gostaria de lembrar sempre a imagem que me habita quando fecho os olhos. Eu vejo muitas coisas, e queria ficar mais tempo olhando, olhando, olhando, respirando a paisagem. Então eu escrevo como quem guarda uma paisagem em uma caixinha de algodão.Então eu abro as palavras e me lembro do momento exato em que ela apareceu pra mim.Eu queria ficar mais tempo contemplando tudo o que crio. É como se o lugar da escrita estivesse coberto de sonhos e verdades que eu gostaria de vivenciar. Então dentro do poema, eu posso sentir tudo aquilo que quero e criei. Então posso ficar próxima ou distante de mim, através do poema. Enquanto ando em direçã ao ponto gostaria de estar catando conchas, descendo serras neblinadas, ou no alto de uma montanha dentro de um chalé de madeira e silêncio, rindo com alguém. Rindo de uma nuvem boba que faz gracinhas ao léu. Então a poesia me adorna, e eu posso estar e ser lá: a nuvem mais boba ém céu aberto. Posso passear entre o azul rarefeito. Se toda minha verdade sobra e se definha entre as ruelas obscuras do cotidiano, quero persegui-la, não a quero deixar morrer. E como estou presa a padrões e prejuízos, e como estou em uma fôrma de bolo, molde a todo tempo, respondendo a perguntas racionalmente, seguindo um futuro traçado pelo suor, sal e colheita tão densa e dura, persigo o que me podaram. E a mim podaram o natural, o erro. O que nasce a todo tempo e podo , podo, antes de vestir o terno.Quando escrevo grito!Quero gritar mais, quero me encontrar aonde não me deixaram abrir a porta. Quero exaurir a liberdade da minha essência.Gosto do fluxo, porque o que é natural não está pronto, e não tem medo de mostrar isso. No fluxo posso ver a verdade que oscila, vascila, devaneia, e tem medo da dúvida, como eu. Gosto da escrita que está perto de mim, e de mim não está perto a certeza, a razão e o "correto", o "ideal". Tenho na minha escrita um companheiro frágil ou forte, oscilante bicho homem. Mostra a ferida, o querer não aceito, o drama, o cruel. Não quero o ditado na escrita,nem um mestre, quero um companheiro que me convide a entrar e dividir tal quel ele é. Quero um espaço pra me encontrar dentro da escrita, sem ter vergonha, sem maiores redutos e clareiras da razão.Eu escrevo como quem enche quatro mil balões coloridos e voa seguro de que sairá ileso. Só pelo prazer de nunca ter feito, pelo prazer de ver a cidade por cima das águas.Preso pelo próprio ar. Escrevendo me liberto. Eu escrevo como ícaro com a liberdade sem medo de mostrar a faca.Mas não aponto. Eu escrevo como as asas e balões de ícaro, que derretem seduzidas pelo sol.