
4/24/2009
4/22/2009
A lanterna do monge

quarto escuro
fresta de luz
no fim da janela
o eremita veste sua roupa
caminha solitariamente pelo sótão
muitos já se foram
e ele deixou muitos
para trás
o eremita encontra os pedaços
de seu corpo de ontem
as fotos dos que morreram
as linhas ainda jovens
de suas mãos
olha fixamente a escuridão
respira fundo
e chora
chora
até que as lágrimas
sorriem
e acenam
a serenidade
no semblante
caminha
com a cicatriz no peito
fervendo de saudades
4/14/2009
Para um amor escondido na casa

Eu te faço voltar
a tuas pegadas marcadas em um tapete
de crochê
nós dois moldando nossos corpos
argila vermelha
marcas de tinta
nas costas
o desenho imaturo dos seus olhos
eu escrevo na terra
as palavras que tua boca vai falar
tateio teu respiro
contenho teu gemido
eu tranço tecidos na noite
com o seu nome
pinto a bailarina pálida
que passeias de mãos dadas
com as minhas mãos
Eu sei todos os segredos
e as ameaças que te retém
Eu sempre te espero
como uma velha rendeira
de lábios molhados
e cama derramada de néctar
desta flor que povoa o jardim
seu nome preso entre os meus cabelos
esta torre entre nós
Há luzes nesta sala
sem o seu riso
É noite
e você se esconde
Há sussuros e cães
a uivar
Sou a mosca da sua sopa
puta de presépio
a ferroar
os seus sonhos
marasmo
cama
e memória
*foto: Estrela Polar
4/05/2009
A Águia do Norte
e esses lixos
gases e moedas
tintilando no carbono e no petróleo
um retrato empoeirado na estante
a água enchendo a casa
as paredes e janelas
chorando
uma saudade de um abraço
nunca concebido
no tempo corrido
segundos, vestidos vermelhos
escondidos em gavetas em decomposição
um ar
você vem rasgando todas cortinas
acendendo velas no meu sonho
são espelhos quebrados
pendurados na entrada da sua porta
barulhos no sótao
selvagens animas
de guarda
mas algumas danças entre as mãos
e os braços
o sinuoso gesto do quadril
um sorriso rio
A passagem se abre
qual olhar
eu poderia colher esta manhã?
é um labririnto de fogo
onde a águia
queimou uma asa
E neste sofá azul
esperou para ouvir histórias
e correr os dedos por
entre os meus cabelos
quero abraçar a sua parte
que mais me dói
voar
machucada
Lançamento+ Recital de poesia
Dia 8 de abril (quarta-feira) às 19:30 estarei lançando o Trêmulo nas livrarias Catarinense do Shopping Beiramar- Florianópolis
A noite contará com um recital de poemas conduzido por mim e pelo ator João de Barros
é gratuito!
Venha..Venha!!!
3/13/2009
*Uma madrugada incapaz de superar crises

"É como dez mil colheres
quando tudo o que você precisa é de uma faca
É encontrar o homem dos meus sonhos
E então conhecer sua linda esposa
E isso é irônico... você não acha?
Um pouco irônico demais... eu acho..."
Alanis Morissette in Ironic
E essa mania poética de ver as coisas
Saudades do que se quebrou
Alarmes para o pó
Convivências noturnas com fantasmas:
Billie, Cássia, Elis e Tom
Filhotes de gato
Estrelas gritando no vazio
Cigarras buscando comunicações de massa
Silêncio impregnado de dúvidas e insônia
Miado no tapete
Unhas roçando no sofá
Preocupações
Gavetas de papéis
Filas
Bancos
Outrora o meu povo era o dançar
E o cacau era minha cor
Barulhos da casa em decomposição
Relógio marcando a hora do levantar
E os pássaros cantando
Entre as buzinas dos carros
Veia sem dono
Carne misturada de cheiros
e gosto pelo verde amplo
levanto para o mundo
querendo o passado
colando as fotos e as folhas do futuro
da mulher atual
lisos cabelos
preocupada
exauta
e esquecida
de mim.
*Acima quadro de Karina Segantinni "Uma mulher incapaz de superar crises" acrílico sobre tela
Rainha da dor
Há uma pequena mancha preta no sol hoje
É a mesma coisa antiga de ontem
Há um chapéu preto preso no topo de uma árvore alta
Há um mastro com uma bandeira e o vento não vai parar
Eu estive aqui antes
dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta da minha cabeça
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor
Há um fóssil que está preso na muralha de um alto penhasco
(É minha alma lá em cima)
Há um salmão morto congelado em uma cachoeira
(É minha alma lá em cima)
Há uma baleia azul encalhada pela maré baixa da primavera
(É minha alma lá em cima)
Há uma borboleta presa em uma teia de aranha
Eu estive aqui antes
dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta da minha cabeça
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor
Há um rei em um trono com seus olhos cheios de lágrimas
Há um homem cego procurando por uma sombra de dúvida
Há um homem rico dormindo em uma cama dourada
Há um esqueleto sufocado por uma casca de pão
Há uma raposa vermelha dilacerada pela matilha de um caçador
Há uma gaivota de asas pretas com as costas quebradas
Há uma pequena mancha preta no sol hoje
É a mesma coisa que ontem
Eu estive aqui antes dentro da tempestade
Com o mundo girando círculos em volta do meu cérebro
Eu acho que estou sempre desejando que você dê fim a esse
reinado
Mas é o meu destino ser a rainha da dor
Rainha da dor
Eu sempre serei a rainha da dor
Eu sempre serei a rainha da dor
3/09/2009
Sarahbesco Japonês

+para minha amiga Sarah, aniversariante hoje.
O galho mais torto
o rabisco mais fino
arabescos japoneses
compõem a imagem
do teu filme
troncos e areias
se misturam entre este corpo
que adorna e canta
tu vens salvando
os passos
dos que preferem rir
e seguir
enfeites, cores
flashes
pulseiras tintilam
no ar
quando abres a porta
da casa
e resolves o mundo
Entre teus pés
a fibra de uma madeira
que nunca esfarela
seguro tuas mãos
uma bailarina obscena
nos cerca em todos os girares
estendes os braços
te posicionas no palco
os teus olhos de coruja
recém nascida
e sábia
as palavras
e risadas
saem das calçadas
e dos postes
as folhas abrem caminho
as luzes procuram te presentear
com o horizonte
as ruas sorriem
esperando tua passagem
gelo no copo
água
as palmas se inquietam
e as cadeiras começam
a pular
entre o taco
e as coloridas bolas
és a que mais brilha
sem gol
dona das taças e das festas
de todos os afetos
a noite te chama
e o dia te sacode
para dançar
http://saritz5.blogspot.com
3/03/2009
Trêmulo no SESC Prainha!
Não Funciona ou Funciona?
por Ryana Gabech
diretamente para o coletivo operante dos maloqueiristas dentro ou fora da cova.
Sete horas da manhã. Banana. Leite. Mamão, aveia. Fim do pão. Vitamina. Pia, água, liquidificador. Botão emperra: não funciona. Sem vitamina.
Poesia funciona? Ou poesia é uma mosca? Nau que vaguei em alto mar, na tempestuosa maré das letras cortantes. Poesia fere? Ou é um balão de ar? Você olha para o alto? Vê letras? Lá vai o balão-poema. Quem encheu?
Esses dias eu vim caminhando para a casa e a perna travou. Eu lembro que quando criança, eu adorava pular muro, galho de árvore, telha, altura. Não dava nada, a perna funcionava melhor. Inclusive tudo funcionava melhor. Até os joguinhos pisca-pisca do sonic, nintendo, essas coisas. A gente apertava uns botões grandes sabe... O dedo da minha criança afundava naqueles controles. Hoje não, meu nintendo virou um mp3, e por incrível que pareça, não funciona.É mais comum entre os ares da modernidade as coisas serem descartáveis. Quase nada mais funciona muito bem. Ou já funcionou? Eu lembro da historia de um amigo, que chegou em casa e viu seu irmão comendo um “ miojo com ki-suco” famosa engronha da modernidade. Depois de alguns momentos de contemplação um deles disse: “ olhe isso!!!O que eu estou comendo? Isto não é um macarrão! E isto: não é um suco!!” .
Bendito insight! Macarrão instantâneo é apenas uma massa de trigo frita e embalada para “reduzir o tempo de cozimento”,e o “ki-suco”...Arf!! Grande playground onde se escorrega em aromatizante. Engronha com título de alimento: não funciona.
Às vezes as coisas não funcionam por pequenos detalhes, às vezes pequenos demais. Como ir acampar do outro lado da margem, atravessar o rio, montar a barraca e esquecer justamente, ou melhor, drasticamente: a caixa de fósforo. Ou se atarefar tanto a ponto de esquecer o aniversário da avó de sessenta anos par a ir à uma reunião da bolsa de estudo da faculdade: no sábado.
Já quando a coisa não funciona porque é grande, é bem mais triste. Com por exemplo doar muitos hectares de terra tomada por reflorestamento de pinos para um índio mbya-guarani (juro que não funciona mesmo, e é bem próximo de todos nós, inclusive daqui).
Parar na fila do correio para colocar um Sedex. Desanimador por si só. Se não bastasse a fila, a pessoa que deseja colocar um sedex deve saber que a embalagem a ser preenchida NÃO é liberada enquanto se espera.Pois, segundo funcionários do Correios, se a pessoa vai embora e leva a embalagem, são eles “ quem tem de pagar”.
Não funciona mesmo. Ê Brasil! Ordem e Progresso."Pogrécio, pogrécio".
Quando a porta do armário não fecha, alguma coisa não funciona. Pode ser o puxador, o trinco, ou a dobradiça. Sempre que algo não funciona, é como se alguém apagasse a luz, ou como se acionasse em nós um fit-back. Passa um filme na cabeça. Tem que parar, respirar fundo. Refletir. Ou quebrar o armário. Parece que o que não funciona, sempre gera uma reação.
É como perder a última peça do quebra-cabeça com a imagem que a você ia colocar no quadro e dar para a namorada pôr na sala de estar, no centro da parede. Dá tanta raiva, que a vontade é fazer a namorada engolir as peças (embora ninguém se permita fazer isso de jeito nenhum). Ou você escolhe simplesmente encarar o fato. Começa a rir e chorar descontroladamente de um jeito bizarro, e decide fazer chuva de pecinhas da janela do seu ap. Tira foto. Faz trabalho contemporâneo.
O que não funciona, desenvolve-se ou desenvolve o espectador. Quantas vezes Ainstein chegou a maravilhosos experimentos? Quantas coisas tiveram que pifar ou acabarem em um desastre, para enfim funcionar? Funcional. Quando algo não funciona certamente nos modifica. E se funciona, a lâmpada acende.
A porcelana, maravilhosa descoberta do séc XVII, foi descoberta por um alquimista alemão que buscava a fórmula da pedra filosofal. A pedra não funcionou, a porcelana, sim.
Então diante de qualquer dinossauro épico que não funcione mais, devo parar?Agir?Ou contemplar?
Afinal sou eu quem não funciona? Ou a coisa em si?Vejamos o lixo. Olhe bem para o lixo: ele não funciona mais . Mas em outro contexto: funciona! Como diria uma amigo: “ lixo não! Matéria-prima de excelente qualidade”. Tudo se transforma. Ou deve se transformar? Então não há erro. Há experiência.
Na verdade o que não funciona é a matéria-prima do funcionar livremente.Então se a coisa era funcional e não funciona mais, ela é livre de sua pequena e limitada função. Ela é livre para funcionar diferente.
E você está livre para funcionar em outra woltagem? Abra a tomada e modifique os fios. Escolha outras entradas. Mude o seu corte de cabelo, mude primeiro. Tudo que funciona igual, não funciona mais em seu contexto. Gosta de samba?Vá há uma orquestra Sinfônica! Só vai ao teatro terça? Vá durante uma semana. Só tem amigos que parecem com você? Faça amizade com um vendedor de algodão-doce.Tome sorvete no inverno. Brigue com as pessoas que você nunca viu antes. Empurre. Puxe. Vire de ponta-cabeça. Mude o sentido. Só gosta de romance? Leia poesia.
2/27/2009
Muro-para Bárbara

Descobri um brilho estranho
Perséfone Hades (Bia Unruh)
____________________________________
Muro
Um dia em que todas as placas
têm o seu nome
essa avenida com suas marcas
passagens para nossas risadas
Seus retratos no outdoor
seus dedos segurando um cigarro
no corredor
entre amarras
flores e palcos
seu cabelo
seu gesto
tudo aqui onde estou
é você
Sentada na quina do sonho
você pula o muro
e me dá as mãos
saímos por entre as plantações
de trigo e arroz
o sol nos abraça
só
no meu sonho
2/19/2009
Eu leio autores vivos!

Ultimamente ando muito atenta aos prefácios dos livros. Não aquelas críticas chatas que se limitam apenas a transcrever um trecho do poema e as reflexões para ele (ninguém merece), e sim a prefácios de pessoas que ficam (aparentemente) muito tempo pensando no que escrever para tal obra. A obra para mim, é uma coisa muito próxima do artista, até mesmo quando ela é oposta ao que o artista é, mas até os contrários são muito próximos,
então estamos todos em uma mesma panela fervente.
O primeiro livro que chegou em minhas mãos este mês foi o do querido amigo Berimba de Jesus, que lançou de maneira oficial com selo, etc, o terceiro livro tão esperado "Encarna"- São Paulo, Annablume,2008. Coleção Dix Editorial.
A beleza e simplicidade dos poemas de Berimba é um assunto quase encerrado e o "quase" permite à ele continuar escrevendo e andando por aí,
para nos encher os olhos com o seu sorriso poético.
O prefácio de "Encarna" foi escrito por Márcio André,
vou colar umas partes aqui, para saborear:
"Se pudéssemos seccionar e isolar tais vertentes, tendêcias e direcionamentos da literatura ou da arte de um modo geral, chegaríamos a apenas duas atitudes diante dela: aquela (grande maioria) que enxerga no ofício da escrita uma possibilidade de expressão ou afirmação dos valores de quem escreve, deixando entrever aí uma ferramenta ideológica e de consolidação institucional, e aquela onde a escrita é já a própria condição fundamental da vida, de tal forma que o escritor não a concebe possível fora de sua dimensão.Entretanto, é justamente na direção-isto é, aonde levam-que os caminhos se qualificam e o artista se define quanto ao seu papel social e ético.Está em jogo se a obra de arte será sujeita ao indivíduo ou se é o próprio indivíduo que se conformará em corresponder os apelos da própria arte."
"Então, se há neste livro um mérito-e há muitos-, certamente está na busca por um caminho onde a vida e a poesiasejam o mesmo- "vida maior"-, de tal forma que já não seria um autor a escrever o poema, mas o poema a escrevê-lo. A busca por essa correspondência fez Berimba- neste caso, o poeta- concretizar, através do auto-aperfeiçoamento e autocrítica, um terceiro livro maduro, a um só tempo cru e sensível, verdadeiro, direto e sem firulas, como deve ser o olho e a boca daquele que tem a poesia na veia e diariamente mata um leão com as mãos.
Num mundo e numa cidade onde a poesia pegou sólidos vícios de mão única, consolidando técnicas paradigmáticas de polarização e autocanonização, a mensagem subliminar ecoando ao fim deste livro talvez seja: vocês terão que engolir a minha poesia, esta que encarna em todas as coisas. E um livro onde a vida é risco, onde a poesia é risco.Uma poesia viva e da vida e fala por si só.
Agora, três poemas e o link para o blog do poeta:
"anseio
pelo tombamento
das flores de aço
e que de novo se mate
as flores por amor"
"chega a hora de pôr fogo
em tudo
falta você
vir comigo
e olhar nos meus.
disse não?
te ateio fogo também"
"abraço um peito cheio de nós
o amo.
normalmente restaria
um só trocando confidências por estórias possíveis
no caso praguejo
sobre a falta que me faz
o que não tenho.
tropeço mantendo
a suposição do futuro."
O livro conta com o projeto gráfico e lindos desenhos de linha de Marcus Binns.
www.berimbadejesus.blogspot.com
2/09/2009
Mariposa

"O meu casulo
avistou o teu
que estava vazio
Já és mariposa?
eis o projeto de meu corpo."
Enzo Potel
Borboleta
Grudada entre os vidros
uma borboleta
dança
sou essa menina sem asas
só cores jamais vistas
no fundo do arco-íris
um pote de formas e destinos
conto os dias
para partir
nunca vou derreter
sou bruta e leve
púrpura e flor
nasci dentro do vento
quando vôo
e quando minhas mãos
seguram as tuas
é purpurina
e primavera
2/04/2009
Poazia

Tragam-me o remédio para a poesia que ainda se escreve. Para as noites que ainda não são manhãs.Para as mãos que ainda teimam em matar, perfurar, extrair e enquadrar. Tragam-me logo o remédio para a modernidade, para o exagero dos fios e dos frios. A cápsula protetora para os ruídos. A janela que mostra o silêncio. As gaivotas ainda soltas no ar. As ruas sem petróleo. A água sem flúor. Tragam-me um remédio que me possibilite escrever, sobre o que não é mais, o mar. Um tranquilizante inspirador, para o que não existe e deveria existir. As flores que já morreram, as flores que não chegaram a nascer. Os abraços nunca dados. Os olhos que nunca se encontraram. Tragam-me um realçador de sabor para o desbotado das comidas e bebidas. E tragam-me também, sem esquecer, o amor em e-mails e mensagens eletrônicas. Tragam-me as palavras-chaves para a reconstituição da alma e da moral, do zelo e do contruir, do sólido e colorido bucolismo já remoto.Tragam-me uma vaca portátil para pastar na minha fazenda.
A desaparecida
-De onde vem tanta força?
-De uma dor.
Ela responde, e desaparece.
1/28/2009
ísis sem véu

Se me cerquei
foi porque não consegui dizer
tudo o que
a garganta engolia
o silêncio da cidade me alimenta
o silêncio da mata me chama
o silêncio da saudade
me corrói
o pouco me seduz
o pequeno me dá a mão
o véu que se rompe
é a minha casa
o silêncio das formigas
em trilho
é o meu desejo
para outra vida,
mais um pisão.
Os bichos peçonhentos
e os selvagens
moram no infinito
da minha alma
nenhum animal
me segue
Uma cabana de folhas secas
invisível aos olhos humanos,
uma lua nua
é o meu sonho.
Colagem

Cada dia que passa
mato uma parte de você
uma parte que foi minha
entre um cansar afogado
e um abraço
uma parte do seu braço-pedaço
fui inteira,
delizava entre seus poucos pêlos
e os poucos segundos que a minha boca
encontrou a sua
e embora tenha batido a porta
e não olhado para trás
seu peito me olha de frente
e me enfrenta com uma flecha
toda marcada com lembranças
pingos e gozos
ainda cruzamos o mesmo caminho
uma pontada urge
e embora você nao regue mais a planta
é uma trepadeira muda
ocupa a casa
respira você
essa faca me aponta
seco ou enterro?
matar você
é matar um pouco de mim
antes
A Educação- por Madame Zorayde
Vapor
1/26/2009
Nanquim

Esconda essas fotos
por favor
a primeira do álbum
e o escrito trêmulo
de nanquim
A mancha na blusa desbotada
é gim
e chocolate
Faz setenta e duas horas
alguém partiu
o pó saiu das prateleiras
e tomou as pálpebras
eu quis escorregar
nas bananas
dar adeus à mim
desleixo.
Entre as pegadas
perto da porta
uma mala
esquecida
e essa câmera
ligada
Maravilhoso- As pérolas do Terça Insana
de palavras.
Sheila-
O Baile
desgostos
e vestidos rasgados
quem vai ao baile de despedida
da felicidade?
1/20/2009
Consolo para um barco
Eu sou a prova exata
de choros e melancolias
as dores mais cruéis
escondidas
no mais escuro dos sorrisos
É como se eu pudesse
vestir minha capa vermelha
e derramar todas as angúrias
sobre essa areia gelada
e fina
há de ficar aqui, esta saudade.
Desaparece o rosto
da falsa rainha
costurada da boca
até o joelho
no peito uma amargura
e um novelo.
Hoje, meus risos
são entoados
de descaso e perscussão
um espantalho assustado
com suas próprias mãos
É com a mesma certeza
dos contrários ventos
que emudeço a lembrança
faço voltas na maré
alongo o silêncio do barco
E você,
o mar
é um presente embrulhado de ausência
um sapo na minha garganta
arranca
você
o barco de pedra
afundando
e a minha capa vermelha
entre as ondas flutuando
sozinha
no mar
como?
12/23/2008
Último Andar

esta música
12/18/2008
Samba (para Leandro Fortes)
a flor
do terraço
da vista
visita de aperto
abraço
saudade
te jogas em ondas
fixa, almeja, anda,
faísca
dia-dia
é um medo chamado nostalgia
sai meio a tardinha
volta depois de três dias
um cactus
meu improviso
é a falta do nosso sorriso
o que pode ser de nós?
até um dia
do terraço da vizinha
vem e acena
nossa vida em fotos
cartazes de alegria
até um dia
perdão
o peito arde
mas eu preciso de razão
sinto saudade
do mil e novecentos
dos três e cinquênta
do porre
do passe
do xote
Rodo e passo
é a flor do perdão
no meu terraço
12/12/2008
O sol da linguagem: Hilda Hilst

Hilda Hilst: Nome escrito entre os montes de areia fina, nome de jangadas e canoas do futuro poético. Imagine daqui a dez, vinte anos (quando o mundo a descobrir mesmo), uma frase de Hilda em placas, barcos, jangadas:
"A vida é crua. Faminta como um bico de corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio,lágrima,olho-d’agua,bebida. A vida é líquida"
Fernando Karl a entrevistou , e essa passagem é linda, não tem como passar reto:
Fernando José Karl – Para terminar, rápido e rasteiro – qual o mistério dos mistérios para você?
Hilda Hilst – Eu penso que seja a paixão, a nostalgia da paixão, que é terrível, mas que, por outro lado, faz você revivescer. Para mim, me apaixonar com pudor era uma coisa maravilhosa. Mas, até mesmo nas minhas fantasias eróticas – e eu estava sempre só quando as tinha – eu ansiava por uma imagem e, vocês sabem, ansiar imagens é infernal. Você não sabe qual imagem vai olhar sua decomposição na velhice.
Eu desejo que quem me olhe seja meu cúmplice, cúmplice de minha sina.
mais em: http://nautikkon.blogspot.com
12/11/2008
Restos de uma enchente
os canos que não foram rebocados
os canos cortados
amputados
em uma parede
sem história
Que desta massa de contrução
nasça uma rosa
que nesta enchente turva
dance uma bailarina vermelha
que as frutas brotem
da terra podre
Mentirinha- para Bento Nascimento
não foi tão difícil assim
se mostrar para o mundo
de mentira em mentira
a verdade veio ao rumo
de frente
com essa sua mania
de não responder com o peito
a palavra soou
uma relação cordeal
que dançava
no nariz do pinócchio
acreditamos
você e eu
que essa história
de deixar para depois
era uma mentira
disfarçada
de covardia
Álbum Vermelho
Os pensamentos voaram e chegaram até a sacada da casa.
Peguei um pensamento-pergunta: "onde estão seus cadernos de poesia?
Ficou ecoando no ar a interrogação.
A verdade é que o tempo foi passando e fui deixando o costume de ter um caderno só de poesia, como antes....Claro que os cadernos "'só de poesia" continham também foto-poemas, capas de filmes, imagens de revista, folhas de laranjeira, e pequenas mudas de jasmim, entre as páginas.
O fato é que com o espaço virtual,tudo virou uma só camada imersiva, que ainda, não possui cheiros nem raízes secas para povoar a página.
Como sou um bicho meio do passado, que queria ter vivido no tempo do rádio, resolvi lapidar meus cadernos de hoje, que parecem mais rasuras do que aquela forma bonita de se pensar poesia, no toque, na terra.
De uns três anos para cá, meus cadernos poéticos estão poluídos com lista de supermecado, contas para pagar, receitas médicas, dias que não posso esquecer, horas que tenho que cumprir, nomes de artistas, endereços de internet, cartazes removidos das paredes da universidade.
Ás vezes olho os grafismos feios no caderno que parecem mais arte rupestre em plenos tempos de evolução tecnológica.
Na correria do tempo, e na luta por mais tempo para criar e para menos racionalizar, muitos exercícios e inspirações da rua, do movimento, em que a caneta e o guardanapo são as única ferramentas, ficaram para trás, em meio às contradições da sociedade moderna: tempo é dinheiro, tempo não volta,
mas fique na fila do nosso Banco.
Na tentativa de lapidar as pérolas nascidas do lápis, do gesto e do papel, recuperei três cadernos do limbo, e farei um olhar "infravermelho"para coisas pré-nascidas e deixadas para trás.
Coisas vermelhas, com um álbum virtual do passado. Já que escrever à mão anda me cansando e esta hospedagem virou meu campo de vôo.
O futuro é feito de lembranças virtuais.
12/08/2008
Bilhete promessa

Meu amor. Acabei não resistindo a vontade de deixar esse bilhete. A geladeira é o primeiro lugar onde sua preciosa mão pousa pela manhã.
Ontem você escondeu as chaves de novo. Quase perco a hora do trabalho. Parece que faz pra implicar comigo.
Prometo procurar você novamente apenas quando estiver com o sorriso de ontem. E com a mesma maçã nos olhos. Prometo pegar na sua mão e não deixar você sentir medo. Vou te abraçar enquanto você dorme,e preparar o café.Quero perguntar com quantas pessoas você falou no dia, quem ajudou, brincou ou cruzou o seu caminho.
Quais foram as cenas entre as horas monótonas do serviço que mais desconcertaram seu programa . Prometo lhe dar flores, e preparar a máquina de lavar.
Estender os lençóis,dar comida para o gato e ligar quando estiver doente.
Prometo pisar de mansinho quando descer a escada para beber água,no amanhecer frio da sua sala sem tapetes.
Prometo preencher a casa de girassóis, e esperar você terminar de falar a frase inteira, o pensamento como um todo.
Sim, prestarei atenção quando você se emocionar para responder alguma pergunta de família.
Quero ver todos os seus álbus de infância.
Prometo suspirar ao ouvir a sua voz.
Mas meu bem, não me ligue pela madrugada
e nem me incomode, esperando devolta
as cores que pintei sua vida
Não chore quando eu for
e não me pergunte
se eu senti saudades
quando voltar
12/06/2008
12/05/2008
12/03/2008
Zeitgeist II
explosão
ser tomada por um acontecimento
uma queima
de arquivo falso
a interrupção de um assalto
a apatia das cadeiras
em ordem
as fileiras e os padrões
a frieza do sobreposto degrau
do mestre
me faz rir
é frieza e didática
a dialética
os seres desumanos querem
emoção
cobrança de notas
papéis quadriculados
por presenças
maquiadas
disfarçadas
quero a força intensa do quebrar
melhor
fazer parte de um lugar
onde as pessoas podem falar
foder
orar e pintar
sem terem de apontar o dedo
para o reflexo
quero essa criaça cor-de-rosa
correndo entre as pernas
de seus pais
e que ela possa conhecer
tudo verdadeiramente
que possa se estender
entre as águas da cachoeira
conhecer o mar
olhar a janela de sol
e poder escolher
se deve ficar ou cumprir
ganhar ou perder
ser frágil
quebradiça e sem vontade
ou
ser bruta
ferro derretido
canina
possuir
ou perder
não ser indicada
quero sair do muro
e não ser
revistada
estapeada, cuspida,
encaixotada em um padrão
quando não fiz isso à ninguém
Não mereço estar de frente
para esta esta tela
por trás dessas imagens
ameaçadoras
um revólver
vendido no mercado
quero explodir no acontecer
e não na mesmisce das
notícias vãs
quero poder saber
se quero
prevenir
ser o que não sei
se sou
pois estou andando
e apenas
quero continuar
11/25/2008
11/19/2008
Zeitgeist

"Veremos
o quão é importante
trazer para a mente humana
a revolução radical
Essa crise
é uma crise de consciência
uma crise que não pode
mais
aceitar as velhas normas
as antigas tradições
E, considerando
o que o mundo é hoje,
com toda a miséria
conflito
brutalidade destrutiva
agressão
o homem ainda é o mesmo de antes.
Ainda é bruto
violento,
agressivo,
acumulador, competitivo
ele construiu
uma sociedade
baseada
nestes termos"
________________________
O que estamos tentando
com toda essa discussão retórica
é ver se não podemos fazer acontecer
uma radical transformação da mente
não aceitar
as coisas como elas são
entendê-las, mergulhar nelas,
examiná-las
use o seu coração, a sua mente
e tudo o que você tem para descobrir
um jeito diferente de viver
mas isso depende de você
e de mais ninguém
porque nisso,
não há professor,
nem aluno,
não há lider,
não há guru,
não há mestre,
não há salvador
você mesmo é o pofessor,
o aluno,
o mestre,
o guru,
o líder,
você é tudo
e...
entender
é transformar
o que há"
Krishnamurti
11/07/2008
11/02/2008
Entre poesia
Só sou eu mesma quando escrevo, logo o mais verdadeiro de mim, a maior essência está ali, naquele embaralhado labiríntico de palavras . Há quem cria. E há quem contempla. Há quem se arrisca a ser poeta, mas poeta mesmo, não consegue viver sem poesia.As vezes as palavras me deixam no meio do caminho.As vezes elas me apontam um. As vezes as palavras me amarram na cadeira e não consigo sair até terminar.E com certeza, esse impulso que move e amaara, vem de uma sentido poético.Só a poesia amarra e liberta. A poesia é livre para fazer de nós o que quiser. Ela está aí. Só basta abrir a porta. Mas não é qualquer um quem pode sair por aí, pocurando as chaves da poesia em si e no outro. É um exercício de contemplar amanheceres, querer ver a sujeira e o apreço.Já ouviu muitos poemas de amor? Que bom, um entre cem poemas de amor são bons. Das obras dos melhores poetas, o que pulsa e vive, o cerne da obra,não fala de amor, fala da vida, da insatisfação, do querer outra realidade.
O tempo do romantismo já passou, e ninguém precisa morrer para escrever poesia. Mas a poesia não pode, nem deve ceder as academias, as grandes instituições. Os poetas, os trovadores, são espelhos do povo, da grande maioria. O livro pode não vender.Mas o disco vende. E o disco tem poesia. A música é poesia com e sem palavra. A poesia é a única nascente onde todas as artes podem se unir. Porque não tem normas. Não tem regras. Quer ser indiferente à realidade? Escreva uma ficção. Invente um personagem. Porque se na poesia você não puder ser o próprio personagem. Nem escreva o poema. Poema é verdadeiro quando é a gente. Quando parte da nossa mísera capacidade de ser alguém que tenta.Que tentar comunicar.Que tenta alguma coisa. Poesia vem da alma. nao tem fórmula, ph, medida, bússola, bula. Não tem. Ela de repente pega de supresa. E a paixão verdadeira é ela mesma. O sexo do poeta é com a poesia, antes de ser com alguém de carne e osso. De repente a poesia quanto a escreviam, enquanto davam á luz um livro, se desproviam de tudo. Bukowski, Mallarmé, Pound, Quintana, Drummond, Hilst, Gullar. Não escreveram poesia por prazer, ela os tirou um pouco da vida, e os colocou no mais profundo mar das sanções, das sinergias, do vazio, do medo. Nenhuma pessoa vive a poesia sem se transformar.
Porque poesia é difícil?Têm pouco público?
Porque quem a escreve tem de doar alguma coisa por ela.Tem que experimentar. Comer a barata?
Viver a barata.
Pensar sentir. Mudar.E quem lê, tem de assistir esse tratado entre o poeta e a poesia, quase sempre ele é conflituoso, verdadeiro e comovente. Ninguém fica ileso. E para viver poema tem de se ter a casca grossa. A gente sempre recusa o que não entende.Não gosta do que não entende. A poesia é tão profunda, que só quem resolveu largar a margem e nadar, pode sentí-la. Um dos primeiros poemas que mais amei ler, não entendi absolutamente nada do que o poeta falava entre as linhas de compostas por palavras e os intervalos entre os brancos dos versos.mas eu gostava.Demorou até alguém me explicar. Nem foi tão bom assim saber, a dúvida era mais interessante.
Poesia é atitude, é querer. É uma ferida com muita vontade de sarar. De modo que atrás de um grande poema, há um grande poeta, uma grande voz, e um eco vibrando para todos os lugares fora da página. Fora do áudio. Fora da imagem. A poesia é o barco do branco eterno que sempre espera o tingir de quem a escreve, e até a cor final de quem lê.É de frente, na frontalidade de uma escultura que se vive poesia, que se escreve poesia. É como andar entre as vidas de todas as coisas. É como estar entre as imagens do filme.
No vulgo espaço entre as vidas,as cenas, abraçando o acontecer,andando entre e sem quebrar os ovos.
10/30/2008
10/20/2008
Presente
era uma janela cinza e branca
uma mão pousava em meu ombro
a luz entre a neblina e o fogo
nós bebíamos
na chícara do passado
que elixir possui
o líquido do passado?
Esta cidade em mim
se cobre de névoa
é branco branco branco
como o luto de um fantasma
sem música
Abre-se o lírio do frio
duas barras de metal
e o grito de uma criança sobrevivente
do meu naufrágio
quem salvará o barco?
Há uma mão em meu ventre
e o presente
dormindo e gemendo
no meu travesseiro
10/18/2008
Charles Bukowski
a história da melancolia
inclui todos nós.
eu, eu escrevo em lençóis sujos
enquanto olho para paredes azuis
e nada.
eu já me acostumei tanto com a melancolia
que
eu a recebo como uma velha
amiga.
eu terei agora15 minutos de aflição
pela ruiva perdida,
eu digo aos deuses.
eu faço isso e me sinto bastante mal
bastante triste
então eu levanto
LIMPO
apesar de que nada
está resolvido.
isso é o que eu ganho por chutar
a religião na bunda.
eu deveria ter chutado a ruiva
na bunda
onde o cérebro e o pão e
a manteiga dela
estão...
mas, não, eu me senti triste
por tudo:
a ruiva perdida foi apenas outro
rompimento em uma vida
de perdas...
eu ouço a bateria no rádio agora
e sorrio.
há alguma coisa errada comigo
alem
da melancolia.
9/25/2008
Suspiro
9/16/2008
9/06/2008
Hilda Hilst
Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.
9/04/2008
No espelho o ar
No espelho dela: três mulheres. Uma de 16 anos. Esta tinha medo cortar o cabelo, engordar e ficar esquecida por algum homem qualquer. Falava com os deuses, carregava amuletos, e descobriu em cima do telhado, a poesia de uma cidade. Esta era apegada ao suor e ao breu. Ficava oras olhando a janela. Não sabia a diferença entre um umbú e uma jabuticaba.
No espelho dela. três mulhes. Uma de vinte e poucos anos. Esta briga com Deus. E chora andando na rua. Nunca arrumou direito o cabelo. E não sabe se devia de fato, o ter. Esta procura um laço de mel. Queria muito, muito mesmo, poder colocar um saco de pão na cabeça. Sem causar alvoroço nenhum. Tem medo do anoitecer sozinha. Se embrulha no medo. E espera quieta tudo se desdobrar por si só. Não gosta de fazer força, e está um pouco cansada, demais. Demais.
No espelho dela. Qual deve ficar?Ou ir?
No espelho dela, muito mais mulheres, ou freiras, ou banais, ou negras, ou brancas, ou secas, ou robustas.
No espelho dela. Parece ser tarde demais.
No espelho dela. Além de todos os reflexos, a dura pena. Continuar. ar.ar.
9/02/2008
O bicho de castigo

eu
gargalhadas estão
contidas entre
meus ganidos
berros e contrários
meu vento
é um redemoinho
onde vão parar os anseios?
estou presa no canto da sala
presa por vozes direcionadas
setas apontando
a janela
e o mundo
mas eu não quero sair daqui.
Não toque
não aproxime
placa
se você pisar
inflamo.
Não é o momento
deixa
eu
o bicho descabelado
que invade as casas
neblina dos cabelos pisados
amarrotados
bicho de pai
e mãe
arrancados da memória
bicho que cheira arranha
eu
porco espinho de praia
mar calmo
na solidão
do ouriço
parece
um castigo
8/26/2008
Dentro da casa

8/22/2008
Itajaí
O homem, o rio e parte.

8/07/2008
8/05/2008
7/22/2008
Trêmulo-composições de Guinha Ramires

7/18/2008
Antes
e rasgando todos os telefones
do passado
desfolhadas escolhas
rostos escritos com giz
você veio ao meu lado
abrindo os portões
lustrando as calçadas
e contando os kilômetros
entre os meus passos de adeus
e um beijo
e se eu quero partir
e colo os frangalhos desta história?
e se de
rente
eu quiser mesmo
ir?
por que você me dá a mão
e segura esse calor
como o solstício
mais esperado da estação ?
você prende meus pés
tapa minha boca
ajeita meu cabelo para uma foto
pego a mala
mas no primeiro passo
pedaço
fica comigo
ou com você?















