6/06/2007

Longa caminhada por um poema



quero um poema que junte
todos os meus caquinhos
que me desenhe
em pedaços

pedaços que se ausentaram
lascas irregulares
lascas arrancadas
de uma parede
abandonada

quero um poema
que arranhe o sentido

que permaneça
verde em dois
como os olhos mata
amanhecendo em sol

quero um poema que
tenha dentes para sorrir
e caninos para defender
sua esteira de palavras

quero um poema que escorra
nos cabelos
como um banho de lama
açaí e ardor

quero um poema
que fique entre dois corpos
uma só passagem

quero um poema que costure
uma ferida

um poema
que carregue todas as linhas
bordadas em roupas de passagem
roupas que abrigaram o íntimo
e o desconhecido

quero um poema que amacie
o sono
mas que
lembre em penas
a leveza de ainda
dedilhar versos

quero um poema que cante
uma chegada
que assombre a cama do quarto
com tremores vivos
de quem geme o prazer

quero um poema
que piche o horizonte
interno

um poema que grite
no outdoor da avenida principal

eu desejo um poema
que fale o poeta
falando o mundo
pela televisão
em vinhetas coloridas
e banais

quero um poema
em goles bebida barata

e quero um poema com
instruções de uso
para aqueles
que não tem dedos
sutis
para acolher
a poesia


quero um poema
sem dores nos braços

quero um poema com fartura

um poema que não fale
um problema,
mas que descanse os olhos
e a alma
de quem lê

um poema
que fale ao bueiro
e à Imperatriz

que diga a qualquer um
que exista e esteja vivo
vibrando

que fale como um ser vivo
que mostre o sapo morto
e que cheire o chorume das ruas

um poema que traga um suor
e um gozo
um transpiro
e um respiro
e um vôo livre


brinde


em um momento


de prisão

que não hesite em virar
em todas as esquinas

que sobreviva a calçada
e a dor do amor
um poema que ocupe
um lugar concreto

que ocupe uma cadeira
em algum lugar
do mundo

um poema com a certeza
de uma descoberta
e a leveza e liberdade
de um vapor cheiroso

um poema que descasque uma fruta

um poema que amarre as mãos
de quem não é feliz

um poema que faça ver um cego

um poema oração permanente


sussurada


a cada momento do dia


sem precisar


ajoelhar


um poema sem janelas
e com toda a paisagem

sem maneiras de dizer


sem pudor
ou baton

um poema que corra ao meu
lado
que acompanhe a travessia
em silêncio

um poema sem vergonha
de vestir
e despir

um poema sem afirmação
um poema que conviva
no barulho da chaleira

que converse as águas que
escorrem da louça

um poema borrão do chão

um poema que assente como a poeira
no porta-retrato

com uma pulsão
sacudida

um poema com uma dúvida
que pertuba e desperta
imediatamente

que faça andar a quem está imerso
no parado


que faça rir


a quem quase está

que faça chorar
quem a muito tem amarrado uma vontade
uma confissão oculta
de jorrar todas as pedras
reunidas no meio do corpo
em líquido salgado
torrente que liberta

quero um poema
com uma camada de vento
e brisa
para respirar as ventanas
de quem precisa de mar
nos ouvidos

para aqueles que desejam
se encher
e se esvaziar

quero um poema que aja
como um grão de areia
grudado entre os dedos do pé

permanentes até a terceira saculejada

que coce
afete
trema

um poema chocalho
em notas sujas
e cheias
juntas


um poema-marca
que faça sentido a quem
mexeu
mobilizou


ou cortou


algo em si



um poema que leia


o olhar vedado


de um sonho


que esperou muito


para acontecer




e ainda está

uma poesia que dissolva entre os membros
do corpo

uma poesia que tenha pernas
próprias




que ande sempre


que nasce


cresce


reproduz




e reproduz


sempre




que console um desespero

que molhe as retinas gastas

que refresque a pele

e acene com alegria

e asas

todas as
chagas


redemoinhos


e escancaros
presos na memória




um poema que cure


a falta




que aceite a morte




que ensine a vontade




que seduza o paladar


que acalme com duas mãos


quentes


uma grande dor




que traga um copo


de esperança


para quem precisa


permancer




que distribua senhas


infinitas




para os que pedem socorro


para viver






foto sobre o trabalho de Pina Bausch

Nos corredores do CEART, Canabarro me contou....




"A arte é uma puta velha

ela te explora

até o máximo

até seu último centavo


mas o prazer que ela

te traz

é tão intenso e tão bom


que você fica viciado nela


o resto da vida"


Afonso Benetti


Ps-Tive que parar e anotar até o nome da figura....rs..rs..Porque nem só de dores-palavras se faz um blog...Com riso, alegria e café.Finalmente alguém me respondeu o que eu mais queria saber sobre arte (no momento).


foto Marina Abramovic
em Balkan Erotic Epic

Muro- de Enzo Potel


Parede de pedra, alvenaria, adobe, taipa ou tijolos que serve para vedar ou proteger qualquer recinto, grande ou pequeno, povoado ou não povoado, a fim de não ser assaltado

ou devastado.

O muro de Luccano, Itália, foi construído para proteger vila de mesmo nome, situada no alto de uma colina íngreme. Ambos, vila e muro, foram destruídos por tremores de terra em 1694.
O muro do Diabo, paliçada construída na Alemanha pelos romanos, foi elevado e guarnecido de torres pelo imperador Probo. Alguns restos ainda subsistem para a alegria das crianças na região da Baviera.
O muro feitiço de Rothbar não impediu que o príncipe o pulasse e conhecesse sua amada em O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.
A muralha de Sesóstris, no Egito Antigo, era frequentemente visitada por tempestades de areia, o que exigia manutenção especial. Em seus duzentos anos de vida foi mais atacada por vassouras do que por espadas inimigas.

Todo muro é uma mentira.
Todo muro é uma coleção de pedras no caminho, para propagar que houve aprendizado.
E teu olhar também era de muro. E quando abria a porta e me via, estava lá escrito:

“eu não preciso mais de você”.

E este muro frieza expelia ar glacial de palavras rasas, e sobrancelhas cobriam arrogância e rictus de escárnio. E eu parado, contemplando a inexata e última construção da paixão: esse estado de perda travestido de bom senso, em que um vingador de si mesmo tenta esconder com pedras

um jasmim.
foto:
Isadora Duncan e Pina Bausch

Se deixar tocar-Um texto sobre um sentido muito íntimo

Quando nasci Deus pegou uma linha e fez um laço, no meio do meu peito. Às vezes Ele aperta o nó.Às vezes Ele afrouxa minhas costas, enche o meu balão.Eu flutuo. Às vezes, e quase sempre, quando alguém puxa a linha, eu evaporo. Eu gosto do que eu sinto. Se eu te sinto bem, vou ser bem.Se eu te mal, meu espírito te expurga. Às vezes eu não gosto de ser assim, às vezes eu não tenho escolha. Por que isso, quem tem que responder é o criador e a criatura juntos, e não só um, ou só outro. É pela linha, pelo fio que já foi dito "nem um fio de cabelo cairá da tua cabeça, sem que Ele permita", então, ele tem um olhar sobre mim, e pode me ver no íntimo.Ele com visão integral, pode me afirmar. Os outros, podem só dizer. Então eu vou deixar Ele me mostrar. Se a minha linha arrebenta bem na sua vez, lá no meio de mim, algo reage.E eu não quero comprimir. Posso amenizar, mas não comrpimir. O que eu aprendi é ser. E conseguir isso é o cume da montanha.Eu já escolhi ser.Olhar o lodo, o denso e acariciar aquela parte. Aqui, diante desta terra eu posso sentir em meu coração alinhavado: apenas seja.Seja este fio que te amarra, que às vezes solta a ponta na escrita, solta a costura entre as tintas e as duas mãos.Quase sempre, venho pedindo à Ele que tire a linha. Por que as vezes a linha tem um peso, o peso de uma Cruz. Ora, eu não posso não sentir?Não posso desligar o sentido?Por que sentir dói?Às vezes, quando vem alguém com uma agulha e quer atar a linha, costurar, eu recuo. E ataco! Porque a agulha não foi feita para espetar, nem pra mexer na ferida. Quando ela vem, ela destina-se a costurar. Ou será que eu aprendi errado?Eu não espeto ninguém, se espeto, eu penso,"que Ele sempre esteja ao meu lado, para eu ser compreendida exatamente como sinto".Muitas vezes eu espeto, mas se eu sei o que houve, meu coração aperta, e eu tenho que ceder a linha.Se eu não sei, foi porque não consegui adivinhar, nem ler os sinais.Mas apenas "dos que sabem, o que sabem, vos será cobrado" Quase todo o meu sentido é " em nome Dê". Porque já disse das flores a mais bela: "fé, é fazer em nome Dê"Às vezes, Ele me dá o mérito de um sorriso avulso, pois eu peço muitos sorrisos.Eu peço também muita compreensão, porque com uma linha tão fina e estreita no meio do meu centro, não posso arriscar puxar o fio muito bruscamente, é delicado demais ter um coração alinhavado. E é preciso não alimentar redes.Quando tá muito apertado o sentido, a linha arranha, e eu peço muita força, porque as vezes parece que essa linha tão fina e estreita pode cortar a pele, aprofundar o corte. Daí eu suspiro, e ajoelho.Assim o nó dói menos.A linha que linha meu centro, é fragmento, é ruptura. A linha é bem fina e o meu centro às vezes não se deixa tocar.

5/17/2007


Confissão

Estou trancada. Não force a porta.Estou desfocada em um só foco. Eu só vejo um sorriso, mas não é o seu. Eu queria te gostar.O seu sorriso é lindo. Você fala bem, você encanta, mas eu estou trancada ainda.Você pode entender? Eu queria amar você, eu juro que eu queria.Você parece me amar tanto.Mas meu peito arrebenta em outra voz, outro rosto, outro hálito. Você seria capaz de entender que eu não posso escolher?Eu gosto ainda de um gosto passado.Um gosto gélido e parado atrás de uma camada de cera dura. Vê, meus cabelos ao vento a dança de tantas partes do meu corpo, escondem o meu cárcere por um sentido ainda. Fico sentindo, torcendo, orando justamente por um membro que me joga no chão, me faz asfalto, me corre uma rua, me arremessa brita, pedra, cimento, e me deixa à deriva sem resposta. É vergonhoso. Eu sei. Estou trancada, mas a festa é sua. É seu aniversário? Ou é bodas da sua mãe?Eu não sei. Há cálices de prata nas mesas, e muitas pessoas rindo. A toalha é de rendas.Há mulheres envoltas de pluma e em cima de agulhas. Há portas de vidro e gravatas.Ar condicionado. Jardim. Arbustos. Há fartura sobre as bocas e muita bebida em álcool. Desculpe, é sua festa mas antes entrar tive um lapso de memória que me arruinou. Antes de atravessar o salão e te dar “parabéns”, eu fiquei tonta por descobrir mais uma queda dos meus padrões. Mais um fracasso.Você me perdoaria se eu chorasse aqui mesmo? Você se importaria se eu fugisse sem querer voltar? Desculpe, hoje eu não consegui fazer você feliz.Eu vou ter que caçar o dono da minha dor.Minha dor. Quem é o culpado?Tenho que achar agora. Eu vou atrás, eu vou me render..Não! Eu vou!Eu vou...Eu vou. Eu vou..Eu vou!!!Eu...Eu...Vou pular a janela do banheiro, pode? Vou atrás de quem me trancou.Onde deixei a minha chave?Por quem me deixei trancar?Por que eu deixei a chave entrar? Por que ainda estou em um foco desfocado, indeciso e sem compasso?Por que estacionei meu sentido de querer maior aqui?Se já andei quilômetros, já visitei parentes, já percorri algumas ondas do mar, passei horas sem nada o que fazer, li auto-ajuda, plantei uma árvore e publiquei um livro.Falaram que ia passar. Disseram. Eu juro. “Isto não é nada, não significou nada, é nada.”Sim, o nada tomou uma forma cheia de si.Um nada cheio de muito. E isto latente e me trancando no mesmo lugar.Passe dor. Passe pela ainda sobreviva fresta da janela, apague-se.Onde foi parar a luz?Me Parecem quatro paredes. Um quadrado.Um muro alto ao meu redor. Quatro paredes pixadas com todos o seus detalhes de pele, seu acordar sonâmbulo. Com toda a lembrança viva dos seus olhos em riso. Com todo o roteiro da sua vida de cor, com todas as notas dos seus movimentos, com todo calor entre seus braços.Já faz tanto tempo. Mas em mim não faz. Por que?Eu ainda revivo em você?Por que o meu tempo interno e o tempo da lembrança não se alinha ao calendário?Eu. E esta entoação do seu nome.Eu. E você um mantra aqui. Eu. E essa imensa distância da incerteza do seu sentido. Eu.E esta dúvida corrente de ar que passa, e não me volta o ruído do seu respirar.Eu gosto dele.Do ruído seu. Eu e o martelo das cordas em ressonância da sua garganta. Eu. E o seu prazer em mim. Eu, entre luxuosas damas e medidas com uma saudade arranhada de você. Eu e estas pessoas falando e a vontade de saber você.Eu e esta festa que se abriu como uma fresta de luz, enquanto estava trancada no escuro. Eu e esta certeza de que você não é o dono da festa, nem convidado.Eu. e essa certeza.De que você não pode chegar. De que você não vai chegar. Eu e certeza de que você não vai trazer as chaves.

Homenagem à palavra e os palavreiros especiais-Tatiana Cobbett


Palavreados
Palavrados
Em palavreados...

Palavreira como só, Tatá ou Tatiana Cobbett* para os desconhecidos ainda, é uma brincalhona brilhante da palavra. Faz e refaz, intriga, reserva, deixa uma dúvida, provoca. Para todos que abrem os olhos para este blog, prestigiem, dancem e cantem à leveza das contruções desta bailarina com asas no corpo e nas palavras...Salve salve sol Tatá!



Linha que eu Passe


Olha meu amor


Quero cantar para você


esta canção que aprendi


faz poucos dias





Olha meu amor


empresta atenção


fala de nós


nosso senão


vem


retratado na harmonia





Longe de você


não dá, meu bem


posso esquecer


o seu olhar me iluminando


por inteiro





Perto


não convém


olha meu bem


ora paixão


ora desdém





Impasse


é fogo cruzado



___________________________





Altercação



Como assim?


Meu olhar enfrenta o seu


Você nega


sai de mim buscando outro


Chama


isso sim


de novo





Me esnoba


sobe


desce


minha escada corredor


Encurralados





Sei


redimindo seus anseios


fico eu


sempre a culpada



Um tudo e nada


Que quando


efetivamente


perdermos


é que


resolveremos


tal parada


____________________________________



Vicinal



Se soma


Par(e)ser


Diminui



Ah!

As diferenças



Com a poda


Já crescida


Raiz


Aguerrida


Suga as avessas


Seiva


Que é própria da vida





Poria fim


Nossa angústia


Fosse possível


Negar


Como se o antes não tivesse


Como se o agora se repete


Como se o nunca


Não houvesse





Poria sim


Nas alturas





E tudo


virá pelos veios





Veias vicinais



___________________________

*Bailarina, compositora e cantora. Formada pela Escola de Danças Classicas do Teatro Municipal do RJ, trabalhou 12 anos no Balé Stagium, cia paulista, percorrendo o Brasil, América Central e América Latina. Autora/Inteprete do Musical "Mulheres de Hollanda" com Direção de Naum Alves de Sousa. Direção e Concepção dos Espetáculos Alma Flamenca, Grito das Flores, Esta Terra Portugal, Festival Três Bandeiras, Partituras da Itália nas Vozes do Rio e dos Shows de Badi Assad, Carlinhos Antunes, Tutti Baê, Janet Machnaz, Joel Brito e Nara Lisboa, entre outros.Hoje desenvolve em parceria com o músico/cantor/compositor gaúcho - Marcoliva - um trabalho de composições próprias com o Cd Parceiros como primeiro testemunho desta jornada - e mais o livro Básica Composições - ambos podem ser encontrado na www2.livrariacuritiba.com.br - visitem nossa página - www.sonoraparceria.com.br

5/09/2007

Para um bebê chorão.Daqueles que ficam tocando a mesma nota infinitamente.

Você tiraria os dois tufinhos de algodão das orelhas, e me ouviria mais uma vez?Bebê, até os defeitos são cor-de-rosa. Os meus e os seus, não se engane.Você não pode ser tão diferente quanto se compara.Você sentaria num banco à deriva ao meu lado?Você seria capaz de ver meu algodão sujo, mesmo que eu me fingisse de borboleta?Ou você prefiriria a ilusão? Ninguém é de pedra bem, e também ninguém é feito só de nuvem branca. Nem você, viu?Você poderia se calar?Você poderia calar até seus pensamentos de cobra coral e se colocar ao meu lado para respirar o sentido? Minha dor são esses gravetos que você fica escolhendo para pisar. Eu também quebro, ou pensa que só porque você finge, eu também seria capaz?Aqui está o meus quebrados. Me dá um tempo de eu colar os cacos?A minha dor silenciada é a mais viva em mim. Embora você não queira ver. Embora eu arranque a venda, e você fica perscrutando os óculos pelos cantos. Você vê o que quer ver.Do que eu falo só bem entregue, sem essas analogias e filosofias, sem as algemas do medo e sem os cadeados ocultos ao homem racional, você pode saber. Eu quero ver você.Não suas linhas, nem sua forma bonita. Também não é porque eu gosto dos seus olhos, que eu não posso ver sua negritude. Mesmo em meio ao mormaço rubro, eu vou perder a chance de sorrir para o que de belo ainda tem em você?Me poupe.Faço isso o tempo todo com a vida, desde que eu conheci um pouco da essência das coisas.Me dá licença de eu escolher? Nada é tão mal. Até os dentes de uma onça, sem morder, apesar de terem mordido e até levado à morte, são belas presas.Bebê, você precisa viver comigo sem a bigorna. Eu dôo às vezes. Às vezes eu dou um tapa. Você está disposto a me ver?Eu tenho nódulos, furúnculos, perdas insuperáveis, lutos de todas as cores e crateras na pele. Você está disposto a pôr a mão?Não fique falando daí o que você não viveu por inteiro.Não tire conclusões. Por maior a sabedoria, sem a vivência, sem a entrega não vale de nada, nada. Do que adianta a mais aberta ferida escancarada aos seus olhos se você não pode ter compaixão?Se você não está disposto a se render?Que adiantaria essas palavras destravadas do mais lixo de mim, se você não pode apenas chorar comigo? Bebê, até a mesma palavra vivida e gozada, pode ser uma dor minha. Rir também é uma superação sabia?Um esforço de contra. No maior barulho também está impregnado o silêncio que quer plainar. Eu também busco um pouco do que não é meu, a diferença está que eu não luto contra, quase todas as coisas que são minhas, se não são, eu quero ser um pouco.Eu dou espaço. É bom ceder, bebê.Ser como um vento ou uma água que se molda ao recipiente atual.Eu queria muito o que você quis para mim. Mas eu não consegui.Dá licença de eu ser defeituosa por opção? Dá licença para eu ser suja como a graxa quando eu quiser?Eu nunca comprometi ninguém na minha lama, você só pisou o pé porque quis.Me dá licença de o meu amor ser bruto, cru e denso? Se eu não aprendi a voar, de onde é que você vem com essa de me colocar asas?Dá licença de eu ser um germe perto de você que é tão capitão?Dá licença de eu entrar sem limpar os pés?Bebê, eu não sei te fazer melhor, porque eu não sei nem me fazer melhor. Você pode me pedir algo que eu possua verdadeiramente?Você pode largar a idéia de querer ser sempre um modelo pra mim? Bebê, me desculpa se eu não sei. Se eu não consigo. Se parece que eu faço pra implicar. Me dá licença de passar sem ter que encarar as suas flechas? Bebê, eu não estou pra guerra. Estou pra ser. Me deixa ser? Pode ser em outro lugar?Me dá licença de uma vez?Felicidades, pra você, nhe nhe nhê.

5/07/2007

Carta de despedida para um casal

É sol. E no meu rosto é uma tempestade.Vai com ela. Vai com ela. Aqui em mim, será o mesmo tempo sempre. Acaso um dia ela pode ter o meu cheiro ou o meu cabelo que se emaranha nos nossos corpos?Acaso será ela, dividirá a mesma dívida, a mesma dor?Ela acordaria para passar a mão no seu rosto quando você chora? Acaso agora ela poderia lutar pelo seu sonho, como um dia seu sonho era o meu sonho?
Vai com ela. Em mim há muitos nós, muitas tranças.Se um dia você ficasse saberia as alegrias e as tristezas, porque eu te dei um cristal, mas quebrei peças, rasguei concertos, sussurrei errado muitas notas da sua ópera.
Eu desviei seu caminho, te dei algumas rasteiras. Mas eu juro que tudo foram chagas plantadas na minha fala, na minha respiração. Enquanto você ia, eu te puxava. Enquanto você ficava, eu te amarrava. Parece que eu sou você. Parece que entre o meu querer e o meu querer te ter, o te ter me parecia mais seguro. Mas eu não te tenho mais.Você rasgou minha calcinha também. Mas eu te perdoei a ausência, perdoei tanto que queria voltar. Mas no seu olhar está a ida, com ela.Talvez pela sombra, ou pelo rouge, ela pareça mais qualquer coisa. E eu, depois do tempo gasto no calendário abatido, do tempo gasto cotidiano e tão mesmo em sentidos, ainda sou a mesma. Até porque foi eu quem mandou você ir. E quando se vai, a ida tem uma coisa com o vento. O vento nos sopra quando estamos indo sem a certeza de chegar a algum lugar. Porque a certeza é o destino que o medo tenta resgatar. Sem a certeza o medo se aflora e a dúvida que no início é aterrorizante vira um estado permanente do ser. E na dúvida, qualquer chão qualquer lugar, é um lugar com uma liberdade de descoberta que só a dúvida pode aventurar.
Agora depois de um tempo eu achei que você pudesse ficar. Porque ter você também é bom.
Mas no seu olhar, no seu olhar está a ida, com ela. E eu só posso dizer: " Boa viagem".

4/25/2007

Prefácio para Trêmulo de Enzo Potel- Com o meu sorriso de um sim que permite...

Beleza não é algo relativo. Quem ama o feio, interessante lhe parece. Bonito, não. As rédeas da mente podem levar as raízes do gosto para lugares excêntricos, mas jamais alguém negará o espanto e encantamento de uma estrela-cadente fugindo no céu da madrugada, porque a substância básica da beleza é a raridade.
Portanto não me contenho em dizer que a poesia de Ryana é a beleza espelhada e cria em si o vôo dos pavões. Ryana é raridade abarcando grandezas delicadas, iras benevolentes em suas estrofes. Nem que um poema seu seja lido numa remota casa de pano da Mongólia, qualquer pessoa que abra mais do que os olhos pela manhã, entenderá o que sinto.
Portanto “Joio”, meu mais amado poema em “Trêmulo”, é a tradução do que é belo. Nunca alguém falou com tanta perfeição sobre o arrependimento, este cisne que já nasce em cativeiro: no seu deslizar sereno sob as águas, não se observa a convulsão desesperada das patas submersas.
Quando Ryana diz que está na “epístola dos nomes negros” por tantos trocadilhos, mostra os trapos do que outrora foi uma vestimenta, o tecido religioso daqueles que confundem humildade com masoquismo. Está agora com as pernas à mostra, mas não quer ser vitrine. E “Aviso” martela com genialidade todo esse estado de maturidade, em toda a sua extensão.
Aliás, os poemas de Ryana não têm medo de se prolongar. As árias de Mozart também eram longas, mas brilhantes. Ele sabia que cada clave tinha o seu Sol.
Ryana aceita o Sol mas também colhe com a geada, pois a idéia de uma safra maravilhosa nos faz tremer tanto quanto uma má. Nós trememos com a implosão de um prédio e no despertar de um suspiro na medula. Trememos de frio e trememos no gozo. Este livro abre-se justamente no momento do choque, para doar órgãos a sentimentos na sala de espera da comodidade. Sentimentos que preferem muitas vezes não ganhar palavras. Mas Ryana já cansou de aguardar alvoradas mais justas. Se é pra doer, que doe em nós dois, ao mesmo tempo.

Enzo Potel

4/03/2007

Do amor sempre fica um muito -para Drummond



De tudo
tudo mesmo
o que ficou foi o amor

das mandíbulas mordidas
dos sonhos cortados
da sonolência da razão

disso tudo
o que ficou ainda
foi o amor

da perda do tempo
de partir

do latejar incessante
da lembrança riso
das facas quebras
das promessas fracassos
dos sonhos redemoinhos
das tentativas vãs

disso tudo

o que ficou

foi amor


Da aliança trancada
do feitiço sem feiticeiro
do ganho perdido em querer
do banho só
da repetição dos dias

do humor engavetado
no mau humor do café
em xícara de dois
solidão

da perda de tempo
em partir
da parte que se parte
do todo que que se resumiu
em

par te

ida

sem volta


do realinhamento
dos botões

das almofadas
com começos de nome
do casal
impregnadas no encontro
dos gostos
que vem do cheiro


da última lâmpada acesa
do fio da faca
da gana de querer
amarrar
o santo

da cama vazia
divida ao meio

do grito contido
no travesseiro testemunho
da desilusão

da branca espera dos atrasos
dos sapos digeridos
dos sapatos perdidos
e achados
em quatro pés

da respiração ofegante

do rulminar
em fúria
de querer segurar

dos dois olhos
que esperavam
a volta na janela

do sol que se abriu

da nuvem que se apagou

da saia amassada
na rede em rendas
de balanço
paradas no gancho

de toda a certeza vivida
na varanda do verão

de todos os desenhos
rabiscados

todos os calos
todas as vistas
na torre
sólida
de dois íntimos grudados
paralelamente
em direção
além


ainda assim insoluvelmente
insalubremente

triste e parado

ficou

de janelas embaçadas
cacos colados
e uma trégua

só ficou
se revirando na cova

o amor

Orgulho*


Não há troca.

É uma exposição mútua

de tendas túmulos

presas

sal pérolas

sonhos secos

princípios.



Pronto.

Eu não te mudei.

Você não me mudou.

Negócio fechado.


*Enzo Potel do livro " Cura"

*Imagem Philip Taaffe

4/02/2007

Indiara Nicoletti Ramos- Assombrear


Assombrear

Ao caminhar na rua assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia meu pescoço e me protege do vento.
O cachecol aquece o coração assombreado pela hipótese do fruto do choque de temperaturas.Meu corpo quente, o vento gelado.
A lã que derrete a friagem e protege a carne do vento, impedindo que a testa se assombreie de muco e eu me tente a ficar na cama de manhã.
A coberta assombreia o corpo na cama e de sua sombra não quero me libertar.Assim como pássaro no ninho.
O batom sombreia de vermelho a fronha branca.Estava muito cansada para lavar o rosto.E afoita para saciar o desejo dos corpos que se assombreiam na noite. Iluminados pela luz das estrelas.
O brilho vem de dentro, pois se a estrela me ilumina eu assombreio teu caminho.
Assombreio teu rosto que me ilumina com o brilho das estrelas nos olhos.Seus olhos brilhantes feito duas estrelas penetram meu coração já apaziguado e me assombreio de desejos.
Olhos sombreados, pelo ato de assombrear a pálpebra bem de leve com dedos lânguidos mergulhados ao vinho.
Olhos que se sombrearam pelo instante de consciência, de lembrança dos corações que pulsam juntos e se despedem.
Olhos que sombreiam o caminho das estrelas...




É manhã, Os pássaros cantam, desperto antes do despertador.Me coloco diante da pia e assombreio o espelho com um sorriso irônico e debochado após enxugar o rosto com a toalha.
Rio de mim mesma, assombreada com o sonho de despertar com o canto dos pássaros que anunciam o nascer do dia.
Sendo que rotineiramente esses cantos assombreiam a hora em que me deito, exaurida e assombreada pela lua que é o sol de toda escrita.
Assombreio o desenho da boca com batom vermelho, os olhos assombreio com a luz do despertar que se reflete no espelho.
Sigo assombreando a nuca com o dedo embebido de perfume, hoje é almíscar.
Almíscar que assombreia o caminho da abelha e da borboleta, almíscar assombreada pelo vento que leva o evaporamento da essência assombreada pelos raios de sol.
O dia passa, dia cheio de luz e sol.Mas quantos sois são necessários para derreter o assombreamento que plantaste em meu ser?
Pergunto a mim mesma quando os olhos florescem no espelho, de novo o espelho.Aproveito para assombrear a boca, retoco os lábios vermelhos assombreados pela lembrança dos teus beijos.
Caminho de volta para casa, o sol já se despediu há horas e meus pensamentos assombreados de emoções navegam em direção à Lua.Assombreio a calçada com a sombra do corpo e da saia próximo ao poste.
Assombreada pela lembrança da luz dos teus olhos para diante a cantina.Atiro a ponta do cachecol para trás do ombro que assombreia o pescoço e me protege do vento.
Meu coração assombreado pela hipótese do muco assombrear a testa se aconchega e estabiliza.
Mas nem toda lã é suficiente para derreter o assombreamento de uma paixão.Te vejo,você me olha assombreado por tua namorada.
O brilho de estrelas dos olhos se encontram, assombreados pelo instante de consciência do que é. A consciência assombreada repentinamente pela lembrança do que foi.
Meu coração se assombreia mais ainda, me levando ao impulso natural de subir as escadas da cantina em direção ao seu encontro.
Vejo as estrelas dos seus olhos se dilatarem feito cratera no espaço.Sua mão assombreia a pele da namorada que me abre um luminoso sorriso.
O assombreamento do espaço de corrente de luz que habita o distanciamento dos nossos corpos me envolve de calor latente.
Escuto teu coração no meu pulso.Me aproximo e deliciosamente assombreio tua pele do rosto com meus lábios assombreados de vermelho.
Me deleito com a visão de boca vermelha que assombreia tua carne ao lado da namorada.Teus olhos de estrelas me olham e mergulham dentro de todas as paredes do meu ser.
Iluminando todos os assombros empoeirados que habitam meu ser nas últimas tardes.
Continuo te olhando, amor...Enquanto converso docemente para que não notem minhas assombrosas bochechas vermelhas.
Assombrosamente você puxa uma cadeira para que eu me sente ao teu lado.Eu êxito um pouco, mas acabo te cedendo mais alguns minutos de minha presença assombreada pela viva lembrança da união dos corpos.
Converso e assombreio a boca e o sangue com vinho cada vez que a sombra das luzes dos nossos olhos se amam no espaço.
Já não sei mais o que penso, já não sei mais o que sinto.Escrevo a sombra do pensamento, do teu pensamento que me assombreia enquanto me escuta neste momento.

3/28/2007

Loura madrugada - Luciana Chaves

Na loura madrugada
o prazer impregnado
no batuque

cachoeira sobre o corpo

Na madrugada sonhada
tudo se refaz
medo se desfaz
e permanece

Tua presença é luz
cintilando em minha pele flor

saltitando o meu pulsar
recriando meu tesão

Tua voz
harmonia perfeita
puxando meu samba
carnavaleando
meu prazer

Na loura madrugada
tua presença é luz
cintilando minha pele flor

Prazer impregnado
no batuque
saltitando o pulsar
recriando meu tesão

Na madrugada sonhada
cachoeira sobre o corpo
banha alma
o medo me desfaz
e o desejo me lateja

onde é que festeja
sem latejar
tua presença?

Na doce madrugada pagã
tua voz é perfeita harmonia
em excitante cadência
repuxando o samba em mim
em mim

carnavaleando o prazer

Revoa




Pra tudo
tem uma segunda chance

você me bateu
eu te arranhei

você rasgou
minha coleção
de folhas secas

você arrancou o único botão
da minha blusa

você me jogou no chão
e eu te bati

você puxou meu tapete
e eu puxei sei cabelo

você gritou comigo
e eu murmurei
com raiva

você me assustou
eu te denegri

você bebeu o meu veneno
e eu escondi o antídodo



Mas se
nos esbarramos
intimamente
no silêncio
de nossos sonhos

estivemos perto demais

se dói em mim
dói em você

porque pisamos
na alcova
um do outro

porque dividimos
a mesma asa da borboleta

porque fomos
juntos e unos
muito convictos
do não

porque apontamos
para o mesmo caminho

porque dividimos
o mesmo reflexo
no rosto parado das águas

porque de áspera e ânsia

a vida revoa

até uma folha

e foi tudo muito sentido

para não ser real
a vontade de voltar


vol
ta

nem que para uma segunda
vez

da primeira
*Lygia Pape

3/27/2007

*Ana Mendieta


Você pediu, com muita doçura que eu observasse o céu e olhasse o prazer das gaivotas sentindo o vento. Com seu sorriso você me pedia muita esperança. Mas ontem quase não levantei da cama, mas ontem eu quase fiquei no escuro sem acender a luz. Mas ontem, ontem me tirou o sol de hoje.Foi isso. E enquanto você pede e tem certeza da luz que entra pelas janelas, eu fecho a coritna e choro com medo de mais nuvens.

Dos olhos

Seus dois olhos diante de meus dois dor-olhos. No seu, havia duas lanternas verdes. No meu, dois últimos túmulos, duas margaridas murchas e uma nesga de fé. Que de encontro ao teu mar-olho ficou com vergonha e chorou.

O brilho da verdade*


Cura. Em alguns tons, ela se dissolve em leveza e asasde borboleta; em outros, vem da cachoeira daslágrimas, separações de corpos, sonetos rasgados,contratos assinados. Ela é a altura da queda. Esclarecida por serinteiramente, a cura é a verdade que brilha. Mesmo que ela traga em seu histórico confissões, dores,palavras-buraco, ausências e a foice. A cura é o corte. São aqueles dois braços olhados, percebidos de veia, força e verdade.Toda coisa verdadeira traz consigo um pouco de húmus,restos, sementes, túmulos, tempestades, alvoradas. A alvorada é como uma cura, um suspiro depois do cansaço.

A poesia de Enzo não finge um sorriso, não acena uma ida. Ela atravessa o interior da fruta e cospe ocaroço. Não é uma estrela brilhante por natureza, é uma estrela que percorreu todo o redemoinho da dor para chegar à luz.Quem nunca mostrou o corte da ferida, não pode descobrir o remédio. Quem não se rendeu à poesia de um velho pneu furado, não pode contemplar a via Láctea. Não pode porque a beleza é o que cintila e colore dentro da verdade. A poesia de Enzo é uma das mais belas reuniões de verdades. Não veste máscaras. Devolve ao cruel apontar de dedo social, o âmago da realidade que vivemos. E por que afinal estamos em meio a resíduos de nós, ao invés de todos estarmos embrenhados nas florestas da Cura?A verdade está na bolsa dos escafandristas; a verdadenão tem medo de cortar porque ela sabe que a faca apesar de cortar, pode acariciar a forma e desenhar embalos de mães.A verdade é tão dolorida que purifica, é cavada comtanta intimidade que purifica. Mesmo suja e cinza como o céu de Afeganistão, a verdade voa. Mesmo incrustada de sentimentos e vazios, mesmo oculta de medos e rasgos, a verdade voa. “Pois até os urubus são belos nos largos círculos dos dias sossegados”-CecíliaMeireles.

A poesia de Enzo remove a camada dos remotos adereçoshumanos. Revela, fere, aponta, mas também beija,acalma, entristece e dorme. É a vida do caos. Não entra de mansinho. Invade o quarto, afinca a terra,estia a bandeira, arranca a costura e deixa o trapo.Deixa a tempestade sem passar, deixa a tempestade e o barco dançarem.Como na obra de Turner, toda a sua aflição, todo o seu testemunho sobre fantasma, sobre nosso lado mais penugento. As palavras vivas de “Cura” não mimam, não cuidam, não adocicam. Apenas removem as amarras e couraças do mundo e revelam. Revelam aquilo que todos nós precisamos ao menos perceber, chegar perto e sentir. Mas isso não significa sentir prazer. A revelação de algo em nós é tão surpresa, que nos treme inteiros.


-Texto para o Prefácio do novo livro de Enzo Potel intitulado de "Cura"

3/07/2007

Rio do Choro


Chorei um choro leve

de quem carrega a vida

sem pressa


algo como um sonho

bobo de você


sonhei um choro

exausto

que sumia ao largo

da estrada


chorei teu choro ofegante

um tango


chorei um choro por ti

pra te matar no escasso

de um amor virado


Ao pé do redentor

minhas lágrimas

em véu


Chorei a pronúncia

de uma

grande lácrima

que muito arriada


vira um rio

sem foz

Imorais



O bicho do lobo homem

suicidou


No buraco que caíste

puxaste meu amigo


esse que pára

no ar


pára-paira


O doce do musgo carvalho

meu amigo é um beija-flor

existe pela própria

primitiva existência

cria


bate asas vezlozmente

mais que você

mulher-buraco


Ele

que enquanto o mundo grita

e a morte emudece

despe-se da rispidez


Ele

que com a bravura

da leveza

arranca a roupa

do luxo-consumo

e remove

a camisa do medo


Ela

que mostra

o cárcere

a fim de dar a flor do ânus

para o mundo


Ela

que

sorri

no seu

ânus

ônus


flor


Ela

que livre da morte

é somada a tentativa

de golpe

pela imoralidade

de outrém


(para o ele que é ela e vice versa)

Hilda Hilst



" A solidão tem cor, é roxo escuro e negro..é como se você fosse andando...uma vasta planície, vai andando vai andando, é tardezinha há até uma certa euforia, um vínculo entre você e aquela extensão...De início parece areira, brilha um pouco, vai anoitecendo..."
Imagem sobre o trabalho de Saveria Vicarini


Mariana S. da Silva

relato de uma inspiração ofegante

Soprou o vento

guardanapos sobre a mesa

rezei pra poder
pegar a festa

a seresta desta noite
xadrez
não reisisti
peguei um e saí


deixei-te a olhar

os guardanapos
no chão
o olho irmão vago
te atraiçoou a minha saída


um poema vale uma fuga

César Félix


Gaste o amor a mãos cheias


O amor é o único tesouro

que se multiplica por divisão

é o único dom que flumenta


Quanto mais você tira

quanto mais você gasta

mais se ganha


Doe-o, difunda-o,

espalhe-o aos quatro ventos

esvazie seus bolsos

sacuda o cesto

embarque o copo e


desande a amar...

Resposta espelhada


Quem é você

que me olha

assim de

modo tão inquisitor?


Que me perscruta o íntimo

quando na verdade

quer conhecer a si próprio?



Não pergunte para mim

as respostas

que estão dentro

de você



eu sou apenas

uma pálida imagem

refletida

daquilo que você

gostaria de ver




Eduardo Bermoso Neto (em uma mesa de bar à beira-mar)


Acima imagem de Letícia Cardoso-"gotas"

" A beleza é o brilho do que é verdadeiro"

Joseph Beuys

3/06/2007


Joseph Beuys

Cadeados

Te trago na palma da mão
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida

Me sobraram
alguns restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores internas

Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso quebrado
as lagrimas secas
e as penas de mandar embora
o pó dessa última história

Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe

Onde corro uma fenda
Na perna,
quase sempre
só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores

que a memória me cadeou

Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada

Há na garagem de mim
Caixas abertas
varais enozados
E perdas de tempo

Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços
a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto

Nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas

Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou

Cadeados

Te trago na palma da mão
Me sobraram dessas linhas todas
uma caixa de objetos
quase sem vida

Me sobraram alguns
restos-papelão
um gesto avulso
uma garganta inflamada
e estas dores
internas

Na caixa da minha garagem
têm um guarnapo
com uma promessa efêmera
a culpa de um fracasso
quebrado
as lagrimas secas
e as penas
de mandar embora
o pó dessa última história

Onde me crio
Onde a jaula do meu leão
Se rompe
Onde corro uma fenda

Na perna,
quase sempre só me restam
rostos-vapor
vozes-tumores
que a memória me cadeou

Há guardado no papeleão
Da minha garagem
Uma janela quebrada
Um cano furado
E uma lâmpada lascada

Há na garagem de mim
Caixas abertas varais enozados
E perdas de tempo

Há cavado na minha unha
As sujeiras e os apreços

Há a covardia impregnada
nas portas erradas
que eu insisti em escancarar
para ver a visita de perto

Há nos fundos desse porão cadeado
acasos risonhos desta incansável
vida de horas mortas

Que por mais dolorida a lembrança
cadeei e encadeei
e o tempo de vida
não me libertou

2/27/2007

Galpão das Artes

É preciso que a noite esfrie
para que o sol chegue

É preciso que a idade chegue
para que a pressa acabe

É preciso que a pressa acabe
para que as rugas marquem

É preciso que as rugas marquem
para que a sabedoria permaneça

É preciso que a sabedoria permaneça

as rugas marquem
a pressa acabe
e o sol chegue

para a graça ficar de vez

Penúltima

Quando a forma
da sua presença
se fez suspiro
e ausência


Quando notei
que te pedia
mais um minuto


Quando anoiteci
ao te esperar
com uma travessa
de gestos e formas

-especiarias

Quando querias
e eu não queria
aceitar mais
o nosso não

quando te aboli
do sistema sem nervo
e me atraquei
no esfumaçado
e desesperador
ar
da tua falta

Quando pediste
um dedo e eu
por proósito
e sem rumo

te dei todo o resto
do importuno
ao taciturno
leve e densa
calda de açúcar
vincada em mim

quando me prometi
ser a última vez
que puxavas
o meu vestido

E me " reprometi"
sempre que você fosse
embora

a última vez

2/21/2007

Beira- Para Gaston

foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca

Estou
à beira da caverna

pedras pedras

repito seus nomes
entre chumaços
de musgos

quero gritar você

quero gritar

cuspir

a sua última gota

vou entrar na caverna

vou deixar um pouco de mim
aqui fora

e pegar o resto
dos restos meus

que sobraram guardados

lá dentro

Por linhas tortas


Foto sobre o trabalho de Fernando Baena



Daí,

quando terminou
a construção da casa

veio a enchente

Poema para um diploma inútil

Tua vida conquistada
na estante
corroída pelo cupim


Tua sauna
troféus títulos currículos
e diplomas
enquadrados
no esquadro solitário
da sala abandonada

Tudo está no chão
no sfá e no degrau

toda a vida gloriosa
e estagnada no teu desleixo


Tu terias te escolhido ouro

se de fato
teu olho consciente
tivesse recebido e percebido

o mérito

A voz da porta-Para Luciana Chaves

Foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca


Você deixou aquela voz
trancada na porta

Não posso mais abrir

não posso mais sair

a minha garganta fincada
na tua tranca

não posso abrir a porta

você trancou a nossa sala
nossos objetos
delitos
e perdas
marcadas no meu olhar

não posso abrir a tranca

a nossa voz
tantas vezes uma
tantas vezes mais de duas

a nossa voz ficou no vão
de uma passagem

passou pra você também?

a nossa voz
ficou presa na saída

Atado foto sobre o trabalho de Eduardo Fonseca


Se você abre
os braços

e não aproxima
seu corpo
do meu

não posso acolher sua história

se você pisa um dedo
e logo salta com medo

não posso afagar sua alma

se você estrela
entre minhas entranhas
de noite e prazer
e se salva sem adeus
dos meus
membros-mar


não posso te mostrar minha
constelação

se você caça
e come

se você corre
e arranha

se você se esconde
tão próximo de mim

é porque você quer
me embaralhar

mas você só pode querer
pegar
este mesmo vagão

Se de outro lado
eu troco os bilhetes
escondo as tranças
caibo no chapéu

e a vida nunca erra você de frente

é confronto
é linha
é nó

E você encontra a agulha
mas não costura
a ferida

você deixa o cheiro
mas não acende a vela

você zopila
a medula com beijos
e não abotoa a camisa

é confronto

é linha

é atado
Foto sobre o trabalho de Maria Ivone dos Santos


---------

As mãos duas

agarram o poste

é a sua imagem
parada sobre a montanha

é a sua
resistência
aflita
de um vento chegado

a seta aponta
e caneta estourada

janela aberta
uma a uma

duas mãos inconcisas
seguram
o inseguro
Era um bolinho de açúcar em cima da pia. Gritava um líquido sua doçura. O açúcar queimando a doçura. O açúcar passado do ponto. A mesa pedia uma bebida doce. O açúcar montinho se afastava da jarra cheia. O açúcar montinho brilhava a espera esperançosa do líquido ideal.

Aguarde


Perto da roupa
que mofou

uma ausência

pronta para vestir
a incerteza

da sua volta




Foto sobre o trabalho de Laura Miranda

Contra olhos

estes óculos
infelizmente
não podem
me vedar do mundo

você pode fingir que eu
não passei por aqui?


essa mulher que remexe o lixo
cheia de rugas
mesmo que eu tape os olhos
pode ver a dor

pesando na linha
torta
da minha coluna

não posso gritar
não devo fugir
não posso arrancar a página


está tudo aqui

mesmo que queime
mesmo que junte e tente
fazer destes restos
um adubo

mesmo as mãos
que já não podem segurar
os dedos


as roupas mofaram
o sapato furou
o tempo parece
ter acabado

já arranquei os fios
já tapei a peneira
sem sol

entreguei a carapuça

e estou remexendo
o lixo

O avesso da ágata


" A mentira é dita com os olhos brilhantes de uma criança"-Enzo Potel

Aviso

Não sou
esta perna manchada
de sensualidade

Não sou essa mulher
que quer pegar
você

Não sou a mulher que quer
ser consumida
por ninguém

Eu não disse
que um dia seria

Não sou a bandida
que quer roubar
aquilo que veio com você

justamente com você

de outrém

Não sou essa mulher
de batom vermelho
e seios e nádegas
à mostra

não quero nada
que eu não queria com o meu corpo

Não quero que ninguém me queira
por nada
por me comprar
por me pagar

não sou essa mulher
não sei se sou mulher

não sei se escolhi
estar na vitrine

não quero ser
à mostra

não sou esta que coloca
o zíper na garganta
para alguém vir abrir

se eu quero
eu abro

não sou essa mulher
que quer mais
do que quer

eu apenas ponho os pontos nos " is"
é você
quem não leu direito
o meu último contexto

é você quem não entendeu nada
porque não quis entender

é você quem não viu
porque eu estava presente


e eu lá posso ser julgada
se eu escolhi bem aquele
caminho
que você jamais traçaria
sem culpa?

Eu não sou isto

eu sou aquilo que você acha
que não pode acreditar
que sou

e eu falei muitas vezes
e eu assinei muitas vezes
o contrato da verdade

quando errei
eu também confessei


e eu lá tenho culpa
que você tem medo
de eu

ser eu?

1/16/2007

Foice- por causa dos direitos de cada um

Por cima das nossas cabeças
Nuvens

A embreagem trancou

Tenho uma certeza
De fome
Menosprezada
Pelo serviço

Ceifam o trigo
E a nossa foice
Somos nós

No mesmo chão
Na mesma esquina
E você vem me apontar
A arma da discórdia

Vivemos no mesmo clarão
Sob o mesmo e inesperado
Sistema
Que nos ativa a briga

Balas de cego
Balas da sua boca
Balas para escurecer
E encobrir a visão

Estamos sob a mesma
Chapa quente
Dividindo
A mesma fome
e você ceifando
Minha única visão
De vento para o chumbo
E você ceifando

A minha única certeza
De me alimentar

Estamos sob o mesmo
Chão
Na mesma esquina da miséria
E você sempre julgando
A sua dor
Maior que a de todos

Você atira na polícia
E arregaça
Seu limite

Você entra na cadeia
De pulseira e correntes
De Paris

Você veste amostra grátis

Você tem uma casa
E eu não
Você pode comer
E eu não

Mas nós estamos sob
A mesma certeza
De que vamos morrer

Mas não agora

Nós estamos
Sob a mesma pele

Nós estamos com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora

Então não ceife
A minha última chance
De eu me alimentar

Nós estamos sob o mesmo céu
Com a mesma dúvida
Sobre a tempestade

Então não mate esta última chance
De eu me alimentar

Nós estamos sob o mesmo céu

Você tem tudo (dor)
E eu nada

Você tem uma casa
E eu não,
Você pode comer
E eu não

Mas nós estamos
Sob a mesma pele
Com a mesma certeza
De que vamos morrer
Mas não agora

Todos nós estamos ceifando
Não seja você a foice
Não faça da sua
Uma tragédia
Não force ninguém
Não seja você a foice

Porque nós estamos
Sob o mesmo clarão
Com a mesma vontade
De ver o sol

Não ceife a minha certeza
De ter fome
E poder me alimentar

11/08/2006

Cort e

O pedaço de pano amarrado na perna. Ela queria se livrar, abrir a tampa do vidro.Era preciso arrancar a raiz.Doía muito arrancar de uma vez, e doía muito arrancar aos poucos.O pedaço de pano.Cheio de cera de abelha.O pedaço esmagado pelo movimento.Queria arrebentar o laço. Queria adoecer a doença, matar aquela parte.Queria uma sombra ou uma arma. Um encosto ou uma solução aquosa.Queria molhar o pedaço de pano.Queria vedar a boca.Não responderia mais nada.Que observassem. Que observassem ela, seus gestos, sua língua, sua vesícula, seu estômago, sua febre. E que silenciassem apenas. Que silenciassem diante da sua gosma viva, da sua fraqueza, da sua desistência. Que perna amarrada perante todosfosse um testemunho. Que o decepar do membro fosse explícito. Era preciso soltar a fera que ardia o pano encerado.Que não perguntassem mais nada nada.Que a deixassem ser a lamúria, ser o breu do fim da noite, ser o bueiro, ser a lama.Que absolvessem, cruscificassem, aplaudissem ou a deixassem de vez. Que vissem nela aquele pedaço arrematado. O pedaço marcado por seus próprios dentes. Que pudessem enxergar, que ela não conseguia tirar aquela parte, que ela tentava enterrar o membro mas que ele lhe rogava a pele, puxava-lhe os cabelos, e se deitara com ela antes de se enozar em seu corpo.Que o pedaço de pano encerado amarrado na perna era uma crosta, um germe, uma fecundação, que ela não conseguia se livrar .Que o pedaço de pano na perna dolorida se alimentava de sua morte, de sua lágrima, de sua ritmia cardíaca. O pedaço de pano de aço havitava dentro dela, mais que a perna.O pedaço dela.A perna inteira ficou perna trapo.E era ela quem tinha amarrado e era ela quem ia ter que corta r.

10/31/2006

Para os orangotangos lés

Poste

Foi adiando que eu já
Pesquei
Que era sempre adiante
Que os seus olhos iam

Você sempre pareceu buscar
A pedra do fim do túnuel


Quando você passou
preso na correnteza
Eu tava grudada nos canos

e

há muitos
meus encanamentos
se esgotaram

Você sempre quis
bus car


parecia querer sempre
estar lá
bem alto
bem longe
bem
fo
ra

eu não passei
nem diante
das torneiras do teu castelo

Você se es qui vou
de mim

pulou todas as cercas
afoitou meu desconhecido

onde é que nós estávamos
com as nossas coisas
quando tudo isso
se armou
contra nós?


Na baixa de uma couraça
de palavras dirigida
à platéia

você que me esqueceu no palco
você nem abriu os braços

você me implantou a vontade
de ser um poste
antes mesmo de me chamar
de flor


eu queria era experimentar

ser o bruto, o altivo, o injusto, o delito

um

pos
t
e


pos
t
e

pos
t
e

na tentativa de dar a luz

sem me espalhar.

Ganhando dentes

A vida não é uma competição
Ninguém aqui é trave
Goleiro nem perna de artilheiro

A vida é uma fissura
É uma inovação
Não é tão pouco guerra
Porque quase ninguém toca fogo
De verdade
Por muito tempo
Muito tempo
Mas a vida é quente
fremita

É uma resistência
De variadas
É uma resistência

-Era preciso desistir
Haviam dito.

Mostrar os dentes
Dobrar as canelas
A vida é um empurrão

Pasmem

Não há de que se abrir a porta
A muralha é grande demais para nós
Adentro
À fora
Há avalanches desejo
E calmaria por de cima
Da angústia arrematada
Todo mundo se amarra

Por dentre millhares
De dedos
Buscando o enlace
a vida é uma dobra

que advém da esquina,
ao rosto quando toca
a brisa já
inesperada
da curva?

Corram

Há de se correr de nada
E de além de si
Correr é a bravura
Para quem precisa rasgar
Cair
Descer
Vomitar

Correr é o remédio
Porém não há do que se fugir
Além das próprias pernas

A memória
A causa
E a insistência
Não são motivos para correr

Correr é pulso
A cadencia do caminho
Herda o amarrado redemoinho da ronda
Rondar é a vitória
Mas não há de se competir

Há abismos na procura
Há desencadeadas forças para a curva

Não há coronel na escrita
Nem há de se conseguir medalhas, premios

Ao poeta cabe olhar o muro alto
Cabe olhar a paisagem entre os musgos dos tijolos

Cavalo dado se mostra o dente
Porém,
Rir é o melhor

Há de se mostrar os dentes,
No riso e na febre
Os dentes falam
Mais que a boca

10/11/2006

Pérolas

Nada está claro.
Ou estamos jogando pérolas ao porco
ou nós é quem
estamos no estrume
chiqueiro

ou no apoiamos
no papo do café
pontuando a política
e reverenciando
o caos

Ou nós é quem estamos bagunçados
ou o mundo é muito organizado

ou nós é quem relinchamos
ou os códigos e as armadilhas
nos escolheram

quem está clareando o que?
quem é o sujo?
quem é o limpo?


estamos atrás das
palavras cheias do mundo.

10/08/2006

Feliz Cidade

Por causa da dor, cortou o cabelo. Cavou o buraco, jogou as sementes. Não plantou. Caminhou serenamente por entre os mormaços do fim da noite.Disse " oi". Não disse obrigada. Esqueceu o riso. Gritou dentro de casa. Pediu mais uma chance. Implorou. Queria entender o limite. Onde acabava e começava tudo aquilo. Onde ia parar o latejar. Poderiam ver. Poderiam machucar mais a carne travada. Precisava de um motivo para encher o balão. Precisava de uma colher de prazer. Queria uma injeção contra o sentido. Podia ver viver e apropriar o jarro para o suco. Mas se inquietava com a incerteza sobre o certo e o errado. Serviria sonhar?Imaginar folhas, trens, passagens, encontros?Adiantaria sentir tudo aquilo só?Precisava respirar sem sentir, precisava ficar sistemática. Precisava de um cabresto para emoção. Sabia certamente que era impossível continuar sem limite. Sabia que se explodisse talvez ninguém entendesse porque tremia. Por que gritava. Queria ouvir os canarinhos para aliviar. Mas era quase impossível parar a sua busca. Essa sem limite de passagem e saída. Queria só ser feliz. Mas talvez, se não controlasse a amargura, seria difícil explicar seu ato. Mas era seu limite. Era limitada. Precisava se habitar para desbravar, será que seria mesmo aquela parada?Deveria mesmo fazer força para chegar àquele vagão?Estava deparada com a fronteira. Precisava chegar à Feliz Cidade.

10/04/2006

Rúbia

Ela carrega uma incerteza no olhar. Uma vontade insistida de não se sentir indignada, febril, prestes a...Como aquilo poderia lhe acontecer?Ela estava arrependida de se ser.Como ela poderia ter errado o comando? Qual controle tinha lhe fugido a autonomia?Ela preferia não ter que vê-lo. Ela preferia não ter precisar fingir. Ela precisava se esconder daquilo?Mas como?Se a vontade forte era de acabar com a existência d‘ele e daquela mísera dor que arranhava como um garfo em louça o seu meio do peito. Ela jurava nunca mais ter de passar por aquilo, nunca mais iria se permitir sorrir, beijar, e falar docemente. Se pudesse, ela arrebentava as flores e os motéis, as praças e os sorvetes de creme, e as maçãs do amor. Ela poderia fazer aquilo, mas não bastaria.Ainda precisava de um motivo para continuar. Não se permitia nem sequer uma segunda chance. Seria uma pedra, daqui por diante. Talvez respirar fundo e mudar o cabelo. Ela estava no fim do fim do fim do travesseiro. Não podia se absolver. Como poderia cair em tão fina e cautelosa armadilha? Foi o ponto fraco que a engasgou.Antes de sair, conheceu fielmente as penas amassadas na explosão batida do fofo e do soco. Ela nunca havia tomado um murro, em seu belo salto, não conhecera de perto a violência física. Mas conheceu a surra moral. Ela precisava, naquele momento não doer. Mesmo que tivesse se perdido, ela ainda era parte daquilo.E essa a pior parte.Como poderia não ser mais o lixo, se outrora cativou o bueiro e acariciou o esgoto? Como não seria mais a metade-suja se outrora era e sentia-se metade-mor, metade-privilégio?Mesmo a sujeira estando debaixo do tapete.Ela precisava ir. Ao encontro do muro do estouro e do furo.

Des percebida

Se a ausência alivia, será que posso utilizá-la de mim?Tentarei escrever sobre esse sentimento de querer passar pelo mundo sem ser percebida.Era preciso estar transparente. Não como a clara e tênue camada de transpiração, nem tão pouco como clarividência das águas. Os copos suam com o seu respiro. Era preciso me fazer fora de mim, para melhor ver. Era preciso me desamarrar do corpo, anular-se. As máscaras me substituíram, eu posso ser. Qualquer ser eu pretendo. Porém nada me aniquila a vontade de não me perceber, de me esbarrar sem me ver, de sumir-me sem me achar mal faltante. Era necessáro para aquele momento de suor, não pensar. Era necessário trans perceber, desapropriar a segurança. Desvendar o mistério da não existência viva.Era preciso, sim, era preciso, passar ausentemente, gargalhar ausentemente, era prefirível, era preciso.

9/26/2006

A sombra em ação

Desapercebida
se deparou
não era
não podia se espantar
com a própria imagem

é amarrada a vida
impossível descansar
há o que se fazer
o pó a se atirar
o buraco da parede
limpa
arruma
ajeita

quebra no espelho
assombrada
ela se derruba
seria ela o vulto?

confundiu a sombra
desamarcouo suicídio
era impossível
desistir

9/19/2006

Dúvida

Ela queria apenas colocar um pouco de felicidade espontânea no pote. Ela queria poder guardar um gozo, uma válvula de escape para o tédio. Ela queria apertar um botão melhor, mudar a cena, a toalha da mesa, o garfo mais curvo de força. Ela queria dar para alugém um pouco daquilo. Pensava em ir até o fim do arco-íris, mas ele se demorava a chegar. Um dia chegou a pensar que o pote era fictício. Mas antes teve a plena certeza de que a fórmula a esperava em algum plano. Resolveu gritar, para ouvir o eco da resposta. Caiu no buraco. Perdeu o pulso da procura. Sentou no chão.A vida só podia ser a dúvida.Como um lapso corroído ao ato de sentar-se, desistiu.Perguntou mais uma vez para o além, onde estava o achado.Voltou ao estado colapso. O peito doeu, correu para passar a fuga. Como ela sentia aquilo? Como ele poderia vir à sua imagem, como poderia sentir tocá-la se ele não materializava?Como ela podia sentir seu hálito, se ele estava por debaixo da aparência?Como assim?Como ela poderia desistir de alguma coisa que precisava saber?

8/29/2006

Imóvel -Para Clarice


Ficarei até distinguir-me. Ficarei no chão de riscos paralelos amadeirados. Ficarei até esmiuçar-me, até nodoa-me, clarear-me, dolorir-me. FIcarei, ficarei, ficarei. Aqui, plantada e pasmada a espera do que não pode acontecer. Ficarei invólucra, cáspita, atordoada, corroída. Ficarei aqui. Esperarei. O homem imóvel se removeu.Vou ficar até me esgotar. Vou ficar até me exaurir. Há três pétalas no chão, não posso consumi-las. Não posso invalidar o sentido de consumir. Não posso consumir o homem imóvel. Posso ver suas mãos, posso tê-las na impossibilidade de o vento as trazer só pra mim. Posso ver os anéis do homem, posso comer o ar, e imaginar os dentes de quem poderia me desejar. Não posso me mover, o homem imóvel pode me deixar sem palavras. Como sairei daqui?Para onde olharei após levantar,?Que posturas devem tingir ao homem pedra esfera, tão certo da minha incerteza?A incerteza é dura como a certeza?A incerteza pode ser de ferro e aço?Ou a certeza é o inexorável cheiro da esfinge?A certeza me assalta de não-certezas.O que eles querem me dizer?Não vou me deixar.Se não, como irei?Estou anônima. Manuscrita. Não me conformo. Parece que não me sou. Estou espalhada.Fora de mim.Ou sou eu?Ou estão em mim todos?Tantos?Ou me desapareço comigo?Tenho que ir agora. Mas não quero.Espalho-me.Estou anônima.O que há?Que se desfolha e clareia. Eu me desapareço.Me perco o controle.Estou sem termômetro. Não posso medir a incerteza, não posso medir a decisão. Ou deveria não ser mais?E o que vou ser se não querer?Finjo.Não posso deixar que identifiquem a minha dúvida.Não quero assumir uma resposta.Não vêem que acabo de me perder?E pareço ter encontrado. Mas estou imóvel, fora de mim. Como pegarei o achado?Como embalarei para dormir o novo?Como darei nascimento a isso se ainda não posso ver o filho?Como posso dar uma vida?Como posso estar certa de que vivo?Estou imóvel e incerta.E ficarei aqui.

8/16/2006

Ralo- das influências do RAP

É o ralo.

Quase ninguém se atreve
a pisar
mas se olhar bem no fundo
todo mundo é de lá

é o ralo

escondido subdouro absurdo
sujo submundo
mas é parte de você
e a maior de todos nós

se quiser dar uma olhada
abra a tampa do bueiro ou
espie a tv
ou se já é alienado
olhe dentro de você

é o ralo

6 milhões de bocas
sem comer
e eles querem reformar
o que?

São partes do mercado
e eles querem me comprar
são tiros
gritos pelo morro
eles pedem pra eu ficar

mas pergunta à assistente
se ela pode vir morar

não vai pagar
não vai pagar

o sorriso que eu plantei
a idéia que eu pensei

quer comprar?

mas não vai pagar.


aqui no ralo
não tem como esperar
o que é sólido
eles ainda dizem
desmachar no ar

Freud não me explica
e o que eu sei
é
do ralo
eu ralo
pra ter
e ainda tenho que comer
se ainda fosse só um produto
que eu precisasse pra viver

eles dão uma olhada
e já querem asfaltar
mas aqui no ralo
a gente quer a beira-mar


bonequinha salto agulha
desculpe eu te espantar
mas enquanto tu passeias
eu me vendo pra pagar

pagar e comprar
pagar e comprar


meu futuro iluminado
só pode ser

ralar pra ter
ter ter ter
ter o que?
se no ralo eu ainda pago pra viver?

8/11/2006

Exata

É uma certeza exata.

Nada pode acontecer hoje

mesmo que pareça


Mesmo que pintes o teu olho

da cor que pretendes ficar


Que te deixem as escolhas
escolher o que?

O caminho é natural.

na sobra desse dia
nada de novo pode acontecer

eu vejo!

Aguardo friamente
no banco gelado da praça

essa incerteza exata
de que o nada aconteceu.

Neblina

Sob mim o silêncio
o mudo caminho
de ir-se.

Me vou
arrancaram-me os motivos
para não ir
a partida é necessária.

Te deixo as bagagens
meu peito não suportaria
o peso de tantas malas.

Sob nós cobrirão os rostos
os nomes
seremos sempre estes,
estes que se amedrontam
ao dar o primeiro passo.

8/02/2006

Anti-Anêmonas

Inevitavelmente eu pergunto quem eles são. São proprietários de um corpo “tanque”, e talvez seja esse mesmo o seu principal objetivo. Não sabem perguntar. Aliás, perguntar o que?Se está tudo tão esteticamente pronto e entregue?
Talvez nunca tenham pensado em envelhecer, e que na velhice a manga fica murcha não dentro da gaveta, mas diante do reflexo. Eu me pergunto quem eles são por detrás das luzes e dragões que consomem pela pele e pela língua. Talvez eles, esnobes e covardes não experimentaram o vento, e também não viram que o ar pode dissipar as folhas de uma revoada de sentidos. O espaço, onde sentam e o que falam não importa.Só pode não importar! Porque em vez de transpirarem álcool dinheiro foto e marca, nitidamente não viram que o espaço é grande e que nós todos somos pequenos demais. Não, eu não comprei nenhum deles, eles se compram, se valorizam, apesar de não saberem responder onde fica o fígado e o que é a bílis. Do que eles gostam? É tão efêmero seu gosto e sua preferência que para saber, só ligando pelo menos vinte minutos o aparelho falante e iluminado com botões acionados de R$.
Eu me pergunto quem eles são. Homens de aparência merecida pela natureza. Eles puderam conhecer o mundo, traçar territórios, crescer e serem mais. E ficaram mais podres, mais arrogantes, mais sem caráter mais ascos mais sem cultura.Talvez nem saibam o que é cultura, mas estão criando a nossa. Nós pobres seres de letras e imagens que observam a vida e sua estranheza, a sociedade e sua complexidade.
Nunca pegaram na pá do lixo, nem para saber o seu peso. Talvez nunca tenham olhado de perto, sequer notaram que alguém a segurava como último consolo. Ou que sob o pó de suas istantes, talvez a empregada doméstica tivesse chorado a dificuldade de um dia sob a cômoda de algum de seus quartos.
Nunca contam vida. Mas somam rodas, latarias, piercings, bonés, e tribais e lisos cabelos de meninas-barbies .
Querem, querem, querem. Foram educados para nem pensarem se sim. Compram, e acham que tudo está a venda, até o sorriso e o grito. Eu me pergunto se um dia eles vão desejar o que não tenham visto. Se vão deixar de se apoiar em happy –hours músicas sem processo e futebol.Se vão ser mais que uma anêmona.
Eu me pergunto se eles são. Ofereço minhas letras e minha retina aglutinada de olhares de todos os lados captados. Espero qualquer manifestação: discutir brigar apaixonar. Eu espero uma reação qualquer, um movimento. Mas eles não são capazes.Talvez se eu estivesse com alguma parte da pele-proibida è deriva, eles me falariam.Mas até a anêmona me cederia o olhar, sem que eu precisasse mostrar a cor da minha erótica. E eu me pergunto até quando vou ter de vê-los e respira-los. Antes fossem mesmo apenas anêmonas.

7/17/2006

Trans um

Há na transparência
o refugo de um respiro agoniado
o vidro não podia me mostrar
eles não entenderiam
Que a vida só podia existir
Por detrás da mancha de gordura.

Da transparência

Há um caule morto
por detrás do vidro
a transparência da forma
me ramificou a melodia dos anos
as linhas entre os azuleijos do chão
me abraçam
meus olhos direcionam ao nau descanso
dissolve todos os cacos
cerra minha fronte
detrás do vidro
eu preferia não me adormecer
por detrás da transparência
eu preferia me mostrar
já ser morte.

7/11/2006

Meio alheio

Eu,
não tenho controle
do submeio
são coisas simples
uma janela quebrda
um botão de roupa
uma costura esfarelada
pelo ranço da minha pele
cansada de suar.

O tempo não me deixou
movo a força
movo a tensão
mas a força não me move
não me resplandece
não me sorri
a luz final do túnel

e vejo a força
taciturna do tempo
me perdendo
a morada do corpo
entre pilares cinzas
as ruas longas
da capital arredia
alheia ao silêncio
da minha muda camada
de paz

Antúrio dos Anjos anuviados

Mulher,
Quem te sossega esse coração?

Fizeste o berço
Ergueste os braços
Acolheste o desabrigado

Pagaste as contas
Adiantaste o almoço
Tomaste dois comprimidos

Quem te absolve deste estilhaçar
De teus cacos confusos
No chão?

Te esmagaram no piso
A mesma mão que te almofadou
Os pés
Em teus sapatos de cristal

A mesma mão te rondou
breve
que acariciou tua cabeça,
quebrou efêmero e calejado
tuas esperanças empilhadas na cabeceira
do sonho

Não dormiste a espera
Do teu abrigo
Passaste em claro
Unhas e borrões
Perdeste o jogo
Apostaste o pife

A mesma mão que te convidou à mesa
puxou a toalha
e te despedaçou
te deu com o baralho na testa
entortou teu garfo
esqueceu tua sobremesa

Mulher,
há em ti ou no outro
um coração
espreito demais
trancado demais

quem se atreveria
ao te ver tão espinhosa
tocar teu rosto?

Tua pele machucada pelo medo

às vezes pareces pedra
às vezes te redemoinha
às vezes imploras o buraco negro
te penteia
choras em público
te escorregas de dor
e escolhes o dedo apontado
como teu aliado.

Não te sobram quereres
emudeceste o teu íntimo
te faltam forcas para a voz
do novo
não te arriscas
tua outra mesma vida pequena

Mulher,
Tens medo de pular!

O mundo é mais contente que tu
O mundo te parece contente
Enquanto lamentas tua solidão

Queres gritar
Mas não podes,
Há crianças pequenas na vizinha
E a casa vazia pode assustar
Passa da hora em que gritar
É permitido.

A culpa do teu choro és tu


teu espelho do mundo
te enlouqueceu
deste a roupa
deste o alimento

e teu cão te mordeu

aprende mulher
que a vida de um
que de bandeja te fizeste
ao lado

a vida e outros
que de maçã em maçã
ficaste sem o circo
manca dentro

aprende a soltar teus balões
ferver teu café
e ser
teu ninho coberto

constrói teu teto
para que ainda possas
no relampeio
sorrir para as próximas
tempestades.

Antúrio negro dos Anjos

Antúrio negro dos anjos

Vê, ninguém assistiu
à formidável queda
da tua última esperança
afogada na esquina do teu cais

Ninguém está à tua deriva
diante da tua mesa e luz chorando contigo
esse sem descanso pranto

Pega,
toma os aplausos que te gorjearam
pega pluma te prometida
pega o rasgo do teu pranto morto
e enterrado por essa ilusão

Vê,ninguém te remendou
o castelo desabado
na estrada da tua derrota

Ninguém previu
teu suado rumo

Ninguém respirou
teu último poema
jogado as águas beiradas deste litoral

Nem a onda nem a bruma nem o vento

te consolaram o reboco desta ultima ruína

Pega a faca,
dilacera tuas vestes
já não te resta mais nada
deixa de queimar fotos
que as fotos não te causam repugnância
a repugnância inevitável de teres te sido
até o fim de tua verdade

pega a bíbliaega o livro
pega o banco
dessa ridícula esperade
que ainda se alimentava teu coração

Que também o coração homem
já te apontava o mesmo erro
o mesmo alvo

Pega a caneta
engole a tinta
a escrita da tua palavra cansada de vãos

Essas palavras que te falam
mas parecem não te ver
essa palavra que te sonda
te ronda
dizer
o grito
se embrulha no papel jornal
e desiste de ti
de uma vez por todas

Pega tua garganta
tranca teu rasgo
esse rasgo que te previu
a mesma boca macia
que enganou, que te cuspiu

Pega a linha
deixa limpa tua sina
dispensa tua pedra
tua caixa empregada
tua aflição corrosiva
tua primeira primavera

Vê,
ninguém viu descartado
teu único contrato de risos
ninguém segurou tua mão
ninguém te amarrou o cadarço da sandália surrada
teu espasmo
teu elo ao sentido
esparramado no papel

tua gota d’água de olhos lágrima
te afoitou vingadora
marcou a página
que a vida não te permitiu
pular.

6/30/2006

Bem não visto

Espera aí,
Bem-te-vi.

Não vai achando
que porque sou pequeno
colibri
você pode vir decepando
minha raiz.

Não é só porque somos
passarinhos
e nos fizemos quase
por iguais
que você pode
sair me espatifando
as folhas
da única quimera.

Olha lá Bem-te-vi
Eu bem vejo
a tua
face obscura
e bem te sinto
teu peso,
mesmo que por
detrás da tua façanha
de riso.

Bem-te-vi
presta atenção,
a vida não é um palco não
a vida não é besteira pra você
fingir pra mim.

Ou acha que eu eu nunca depenei?
Ou pensa que eu já arranquei
uma pétala sequer
do seu sucesso?

Ou acha que não posso ter
bons olhos para tuas
penas leves
só porque eu fundo
meu próprio cobalto
meu aço pelas espereitas
de me ser.

Bem
te
vi

Não vem com essa pose
de lá vem ouro
e ternura,
que eu sei no fundo
que a tua garganta
anda trancada
pelo tédio,
pelo medo de não arrebentar.

Ou acha
que só porque tenho duas feridas
aladas no meu rosto
eu não tenho olhos nem desternuras
suficientes para ver
teu asco embrenhado em dor?

Bem-te-viu
sou teu espelho.

Que vês além de mim pássaro
cansado de voar,
que não me olhas
suficientemente para ti
sentindo
que posso te dar a mão?

Que
bem não visto
posso ter para merecer
tal desfeito?

Bem-te-vi
mesmo que seja,
nada te daria
o direito
de me cortar

Bem-te-vi
não faz assim
que bem não vejo
tua sem cera verdade.

Faz não isso,
Bem-não-visto,
que fico no grito com você!

6/16/2006

Meta Rir

Meta rir
Era metade.

Era uma metade
ensandecida de se ser.

Era uma metade ludibriada
mágica
mas vã.

Parecia muitas metades
por vezes
parecia outro
outra
ás vezes era.

Era fúnebre.
Um pé no lodo.
Era cruel.
Mas era uma metade.

Tinha pudores falsos
amarrados num medo
atravancados na minha perna
eu,
que muitas vezes
fui a minha metade
medrosa.

Parecia morta
constante.

Eu nunca soube o botão da luz da metade.

Quando ela recuava e me acusava
e me fazia mesmo
mórbida
eu atirava
e obstruía
a minha parte inteira.

Às vezes parecia sorrir
às vezes parecia gemer
às vezes se costurava
e pendurava no meu ombro
o seu peso
a minha metade.

Era tomada da minha sede
e da minha necessidade
era sempre certa
mas era parada
e a voz que já era baixa
foi ficando muda de palavras
ficou apenas as rasuras
do rosto
um puxão
uma sombra
um desânimo
acompanhado
de um olhar penugento.

Reclamava agora
a metade.

Ficou febril
ficou turva
sem ouvido de riso.

Ficou desistida
ficou plasmática
branca
às vezes
me passava
despercebida.

E me parecia uma metade
tão manca de força,
que me surpreendi

quando a vi
rir feliz
rir com soltura ausente
com leveza
de um peso
que me deixou.

Rir rir e rir
radiantemente
e explicitamente.

Rir e rir
ela,
quando ainda ontem
havia chorado seu enterro.

6/06/2006

Adquira-me

Adquira-me em paredes
Em partes dissonantes
Todos os poemas.

Adquira-me em silabas
Letra a letra
Que passar rente a mesa
Das tuas palavras
Embaladas de noite e soltura.

Adquira essa minha inconstância ao andar
Esses acasos vivos em mim
Como um cão acariciado por um desconhecido
Permita-me um carinho alheio
Ao que ofereço no poema

Não quero te prender
Na linha estreita e apertada da forma
Não quero te ditar uma rima
Nem tão pouco que entendas a poesia
Como um sopro que desejas imensamente
Ou simplesmente
Perceber.
Não quero te encher dessas palavras
Repetidas.
Ao poeta não cabe a palavra
Cansada e óbvia
Ditada e redita a toda hora
Nessa confusão barata
Do mundo-boca.

Que queiras conhecer outra palavra alva
Outra palavra branca ou negra
Escondida nesse caderno espaçoso
Sem linhas de excesso
Limpo, liso e preciso.

Aquele verso volto e revolto
Consultado diariamente
Recitado pra si,
Aquela palavra inversa
Que te cerceia
E não sabes
Lembrar o nome.
Aquele sentimento poema
Que te engalfinhas para achar
O sentido

Mas só diz a palavra
Mas a palavra só diz
Mas só a palavra diz

Se eu permitir um espaço
Entre o livro e essa instancia em escrever
Se no visgo da minha passagem
Lado a lado
Vizinho a essa remessa de verso
Solveres
Saliva a saliva
Minúcia a minúcia
Gole a gole
A poesia distante que rápido me evapora
Adquira-me logo.

Há de passar em mim e perante a esses corpos
O poema-labirito
Que negado a adquirir-nos
Pode se enterrar
Em qualquer outra garganta seca .

E pode estar lá morto
Nosso viço-poema
Que quase nada quis
Dilacerado numa parte-página
Em branco.

6/01/2006

Pulso do não dizer

De grão em grão
echi-me de respostas
argumentos itnerários
de um não-dizer propriamente.

Meu querer são.

Meu não-querer próprio
e único.

Esses braços cansados
de sim
essa mandíbula trêmula
sem rodeios e cortes ao falar
essa interrupção
do meu dedo levantado

meu dedo não quer responder.


Necessária seria
a falha vingada
se não calada.

Esse ensaio embaralhado
colecionado e aglutinado
no minuto certo
de referir-me.

Não foi o engasgue
nem esses olhos travados
nem a ressonância
pulsada e atravancada
do medo.

Travada na minha garganta
não foi a emoção.

Foi talvez a casca ilusória,
o cansaço das travessas-petróleo,
as falas repugnantes do mundo-sertão.

E foi a primeira não-provisória
que me impediu de dar um peteleco
nesse fogo dolorido
que meu pensamento gritou.